Chapter Text
Felizmente, Nina estava dormindo. O casaco de Erik a mantinha aquecida, ao mesmo tempo que seu calor corporal mantinha as costas do homem aquecidas. Apesar disso, as mãos de Erik estavam congelando, assim como a ponta do seu nariz e seus dedos dentro do sapato surrado. Ele olhou para os pés de Nina, balançando para os lados enquanto dormia; Erik se perguntou se os pés de sua filha também estavam gelados. Ela estava usando sapatos, suas meias e as de Erik também, numa tentativa de afastar o frio de seus pés. Por sorte, eles estavam bem agasalhados.
Erik sentiu sua garganta fechar-se novamente, seu peito doía e seu estômago também por conta da fome, e suas pernas latejavam enquanto caminhava. Aproveitou a oportunidade que a chuva havia misericordiosamente parado por algumas horas e foi em busca de um abrigo para ele e sua garotinha. Entretanto, a dor emocional parecia ser a mais agonizante de todas: saber que Nina estava provavelmente esfomeada e congelando, apesar dos seus melhores esforços. Ele tentou não pensar no que aconteceria com a vinda do inverno — ficaram desabrigados durante o verão —, porém, o inverno estava chegando de qualquer forma com Erik pensando ou não sobre ele; agora, desejava que tivesse refletido sobre isso antes e encontrado uma forma de sobreviver, bem como, manter Nina com ele.
Sentia falta de Magda agora e a dor de tê-la perdido a quase um ano parecia nova, como se tivesse acabado de acontecer. Magda era quem trabalhava — uma enfermeira, orgulhosa do sua ocupação e boa com todos os pacientes do hospital em que trabalhava. Erik não podia, dado que ninguém queria trabalhar com um mutante como ele, muito menos um com um passado criminoso como o de Erik. Ninguém queria ouvir o porquê de Erik ter um histórico criminal para começo de conversa; não sabiam sobre o homem que matou seus pais e, após isso, havia sequestrado ele. O fato que Erik também não era um cidadão legalizado não ajudava. Em vista disso, Erik não trabalhava e o dinheiro vinha de Magda; foi o suficiente para eles viverem.
No entanto, Magda ficou doente, falecendo logo depois e sua morte pegou Erik de surpresa. Logo não se tinha mais um fluxo de dinheiro, todavia, Magda havia economizado um pouco antes de deixá-los, portanto, não foi tão ruim no começo, economicamente falando. Erik procurou por um emprego, implorou por um, mas, não teve sorte, apenas conseguindo alguns picos aqui e ali. Nada estável e nada que pagasse bem de verdade.
Não foi o suficiente para pagar o aluguel, pois, Erik priorizou alimentação e as necessidades de Nina — ela almoçava na escola, então pelo menos ela tinha comida enquanto estava lá e isso ajudou. Porém, o proprietário olhou bem para o rosto de Nina e anunciou que Erik teria que partir em três dias, isso foi dois meses após a morte de Magda. Nina teve que deixar de ir à escolha logo depois, consequentemente, não havia mais lanches. O dinheiro foi o suficiente para pagar alguns dias em hotéis sujos e um pouco de comida, isso até que os hotéis viraram uma ostentação e Erik ainda não tinha um emprego. Ele vendeu algumas das suas roupas, algumas da Nina, alguns pertences de Magda — apesar de pesá-lo realizar tal coisa —, mas nunca era o suficiente.
Até mesmo atualmente, Erik apenas tinha dinheiro o suficiente para comprar comida para Nina porque ela era a sua prioridade. Porém, calor… Calor era um problema, o qual não sabia como resolver. A vontade de chorar é grande, mas inútil. Ele não poderia se dar o luxo de chorar agora, ainda precisava encontrar um abrigo primeiro. Comida também, se possível.
Posto isso, continuou em frente e ignorou o jeito como seus braços doíam de tanto carregar Nina. Ela estava mais leve agora, ele notou, e seus olhos ardiam novamente, entretanto, ele não chorou. Não havia chorado por mais de uma hora após a morte de Magda, não deixaria isso acontecer agora, ainda não. Ele tinha coisas para fazer antes.
A rua era deserta e Erik pensou por um segundo que talvez havia feito uma má escolha considerando o caminho cheio de árvores a sua volta e se questionando se realmente existia casas por aqui; até pressentir uma parede adiante, o metal do portão chegando ao alcance dos poderes de Erik. Ele não gostava de invadir propriedades privadas, era perigoso demais, porém, essa era a sua única chance — a única chance de Nina —, portanto, caminhou um pouco mais rápido, flutuou acima da parede e adentrou a propriedade com a respiração pesada. Estava com frio e com o estômago vazio, fraco demais para usar sua mutação por muito tempo; havia notado isso antes, de fato desde do falecimento de Magda. Era estranho — não estava fora do seu controle, mas quase.
Ele ajeitou Nina em suas costas, tentando ao máximo não acordar a menina. Ela não dormia bem há dias, pois estava com frio demais para dormir e, era melhor que ela dormisse um pouco e recuperasse suas forças agora, caso precisasse. No horizonte, quando olhou para trás, podia ver a silhueta de uma grande casa ao longe e, aparentemente, com todas as luzes desligadas. Se Erik tiver sorte, estará vazia e ele poderá entrar para aquecer-se com Nina lá por uma ou duas noites antes de partirem para outro lugar.
Com essa esperança em mente, Erik reuniu o último de suas forças e percorreu o longo caminho até a casa.
Estava gélido lá dentro quando chegaram, mas, parecia vazia. Os quartos dos funcionários estavam desocupados e os cômodos do andar de cima com as camas elegantes e móveis caros, estavam tão vazios quanto os anteriores; a cozinha, em contrapartida, estava cheia. Havia carnes e vegetais, diversos lanches ao redor da grande cozinha, bem como, uma quantidade inacreditável de álcool. Talvez os donos da residência saíram de férias e foram para outra casa enorme; ele não tinha força para sentir-se amargurado com a reflexão.
Erik encontrou uma sala de estar durante sua sondagem do lugar, avistando uma lareira nela. Havia lenha na lareira, aparentemente nova, logo, não foi difícil acendê-la até o fogo queimar com resplandecência e calorosamente. Nina estava já acordada a este ponto e seus olhos pareciam observar tudo ao seu redor com um pouco de desconfiança, como se estivesse se perguntando o que era esse lugar e o porquê de estarem ali.
“Onde estamos, papai?” indagou Nina, sua voz ainda um pouco exausta.
“Em um lugar seguro,” foi a sua resposta, logo após deixá-la ao lado da lareira para pegar um pouco da comida da cozinha.
Parecia quase bom demais para ser verdade quando se sentou ao lado do fogo quente com comida em suas mãos e com Nina aquecida e alimentada; melhor ainda quando roubou alguns dos lençóis dos quartos vazios e os trouxe de volta para a sala de estar, os quais mantiveram os dois aquecidos. Nina adormeceu novamente e parecia confortável.
Não demorou muito para Erik fazer o mesmo, sentindo o cansaço finalmente alcançá-lo.
* * *
Erik deveria saber que não era tão sortudo e que o universo gostava de zombar dele — mesmo assim, ele permitiu-se ter esperança quando acordou naquela casa grande, a lareira apagada após queimar toda a lenha completamente durante a noite. Havia caminhado em direção à cozinha para pegar algo para ele e Nina como café da manhã. Ele deveria estar atento, concentrado em seus sentidos, em vez de se distraído com o conforto que estava experimentando agora.
Ele não sentiu o relógio no pulso do homem, nem o som de passos conforme o tal aproximava-se da cozinha, sua presença foi somente reparada por Erik quando ele se virou e o enxergou ali parado na porta da cozinha encarando Erik com choque evidente em seus olhos.
O homem se moveu rapidamente, pegando uma faca próxima de si e a apontando. Erik a removeu com um estalar de dedos, sua mente agora ficando preocupada e agitada — seus pensamentos eram que ele não podia deixar esse cara encontrar a Nina.
O sujeito encarou a faca, vendo-a cravada na parede com a força de seu poder até o momento que seus olhos focam em Erik novamente.
“Quem diabos é você? O que você está fazendo na minha casa?”
Erik observou o homem mais uma vez, notando o seu estado deplorável: ele parecia mais como um morador de rua do que o próprio Erik, mas, podia avistar o relógio em seu pulso — parecia ser caro. Seu sotaque era elegante, embora sua voz soasse arrastada; não demorou muito para Erik acreditar que realmente essa casa era do homem, mesmo que não tivesse visto ninguém em nenhum dos quartos na noite anterior.
“Eu não quero problemas,” Erik disse rouco, erguendo ambas as mãos em um gesto de rendição. Parte dele sabia que poderia matar este homem, acabar com seus problemas e ficar com a casa o quanto quisesse, contudo, a voz de sua mãe e a de Magda pareciam protestar, dizendo-lhe que existiam outras maneiras. Ele prosseguiu, “Pensei que a casa estava vazia.”
“Ah, sim, porque isso lhe dá o direito de invadir,” o homem zombou. Os lábios de Erik pressionaram-se em uma linha reta antes de abri-los novamente.
“Eu só precisava de um lugar para passar a noite e eu— eu estava com fome.” Ele hesitou, reparando que os olhos do homem endureceram sob ele. Eu poderia matar esse homem se algo de ruim acontecesse, Erik pensou consigo mesmo antes de dizer: “Eu tenho uma criança, ela está com fome e com frio. Eu não teria feito isso se não precisasse.”
O semblante do sujeito se aplaca um pouco e a surpresa retorna com a menção de Nina. Felizmente, o homem não se moveu, somente suspirou exaurido e pressionou a ponte nasal de seu nariz.
“Vocês dois são mutantes? Sabe que existem centros de ajuda em Nova York, certo?”
“A última vez que ouvi falar deles, mutantes estavam sendo selecionados com objetivo de serem experimentados e mortos.”
“Isso acontecia quando eram administradas pelas Indústrias Trask,” o homem murmurou mirando ao redor da cozinha como se estivesse procurando por algo. “Eles estão fora da cena.”
“Prefiro não correr esse risco ou deixar minha filha passar por isso,” Erik explicou rapidamente, analisando cautelosamente o estranho conforme o mesmo caminhava pela cozinha em direção da geladeira, pegando um bote e uma garrafa de vinho dela; Erik olhou para o relógio de parede, reparando ser sete da manhã. “Irei embora logo, eu não vou—”
“Não se preocupe com isso,” Charles balança a garrafa no ar no que parece ser um gesto de indiferença. “Essa casa velha é grande, você e sua menina podem ficar desde que não me incomodem ou tentem beber meu álcool.”
“Não… Não acredito que isso será um problema.”
“Então sinta-se em casa e nunca vá até o bunker.”
Erik o observou com os olhos arregalados enquanto o homem desapareceu tão rápido quanto apareceu, como se a presença de Erik não fosse mais um problema. Após alguns segundos, o medo de Erik falou mais alto e ele corre até a sala de estar onde Nina está dormindo profundamente; ao encontrá-la sozinha, deixa seus poderes se estenderem para achar o relógio do estranho. Ele parecia estar no subsolo, cercado por uma espessa camada de metal — provavelmente o bunker que mencionou — e nem um pouco perto de Nina ou Erik.
Antes que pudesse pensar demais sobre, Erik correu até a cozinha novamente para pegar o café da manhã; não conseguindo acreditar na legitimidade da oferta daquele homem.
* * *
O estranho estava sendo sincero quando disse que Erik e Nina poderiam ficar, apesar de levar três dias para Erik realmente acreditar nisso. Erik o via nas manhãs enquanto preparava o café da manhã para ele e Nina com a comida do sujeito e às vezes a noite, quando era hora do jantar. Em ambos os momentos, o estranho pegaria comida e uma nova garrafa de álcool, somente dando uma rápida olhada n direção de Erik e, em seguida, o ignorando completamente para ir se isolar no bunker da casa.
A primeira vez que eles realmente interagiram, depois daquela manhã na cozinha, foi no terceiro dia, em que Nina insistiu em ajudar Erik com o jantar. O estranho adentrou a cozinha, pronto para pegar algo para comer e beber, quando parou em seu percurso. Seus olhos pousaram sob Nina, enquanto a garota o encarava.
“Olá,” disse Nina, como a garota educada que Magda a ensinou a ser.
“Oi,” o homem respondeu um pouco hesitante, ao mesmo tempo que esboçou um sorriso desajeitado a Nina. “Eu vou, ahm—”
“Qual o seu nome? O meu é Nina.”
O estranho piscou, Erik assistia à interação dos dois com desconfiança, enquanto a comida fervia na frigideira. Duvidava que o estranho tentasse algo, mas toda cautela do mundo não era suficiente.
“Eu— É um prazer conhecê-la, Nina,” o homem proferiu, coçando a nuca. “O meu nome é Charles.”
“Você veio morar nessa casa como nós, Charles?” a menina perguntou, o homem — Charles — olhou na direção de Erik antes de voltar o seu foco a garotinha.
“Sim, de certa forma,” ele deu de ombros. “Essa é a casa dos meus pais. Eu morava aqui, quando era criança.”
“Ah,” Nina piscou, provavelmente percebendo que a casa pertencia a Charles no final das contas. “Você irá jantar conosco?”
Os olhos de Charles encontraram os de Erik novamente, embora Erik não conseguisse entender a sentimento por trás deles. No final, Charles meramente sorriu para Nina — foi menos desajeitado dessa vez.
“Não, querida. Mas obrigado pelo convite.”
Charles apanhou um pouco de comida, uma garrafa de uísque e desapareceu novamente. Nina o seguiu com os olhos.
“Ele parece legal,” disse Nina, virando-se para ver Erik, suas pernas balançando para frente e para trás, enquanto ele se sentava à mesa.
“Se você acha, schatz,” ele disse sem pensar muito, seus olhos finalmente voltando para a frigideira.
* * *
Erik estava na frente da porta que dava no bunker, as escadas logo atrás dele estavam mal iluminadas, quase nenhuma luz atingindo o metal escuro da porta. Ele se perguntou se deveria bater ou não, se deveria incomodar Charles quando um de seus pedidos foi que não o incomodassem, o outro que não fossem até o bunker.
Ele recordou de como a cozinha estava lentamente se esvaziando, junto com a comida se acabando. Charles não se importaria em ser lembrado sobre isso, certo? Ele precisava comer também afinal, assim como Erik e Nina. Cerra seus punhos — e se Charles pensasse nisso como Erik tentando ser imponente? Como uma forma de Erik dizer alimente eu e minha filha?
Erik deu um passo para trás, pronto para virar e ir embora. Suspirou profundamente e bateu na porta do bunker antes que pudesse pensar melhor. Se ele usou seu poder para fazer o barulho do metal soar mais alto, era apenas para ter certeza que Charles ouviria as batidas.
A porta pesada abriu-se, os olhos de Charles estavam desfocados enquanto encarava Erik, álcool manchando o azul deles. Ele já estava bêbado no início da tarde.
“O que é?” O homem interroga, sua voz um murmúrio.
“Eu só estava—” Erik pausa, tentando decidir como expressar-se. As sobrancelhas do sujeito se levantaram, contudo, ele espera. Atrás dele, bem adiante dentro do bunker, havia um brilho de objetos que Erik não conseguia identificar por conta da luz fraca, através da pequena abertura da porta. “Estava me perguntando como você faz as suas compras. Se você— Se você quiser que eu as faça…”
Charles parecia confuso por um segundo, após a realização o atingir. Erik apenas aguardou sua resposta.
“Certo, a casa está alimentado três agora,” proclamou mais para si do que para o outro. Erik não pôde deixar de cerrar os punhos novamente em um gesto de nervosismo. “Alguém geralmente vem com as compras, mas ela só compra o suficiente para mim. Cristo, eu vou ter que sair de casa—”
“Eu poderia fazer as compras para você,” Erik ofereceu com rapidez, os olhos de Charles focam nele de novo. “É o mínimo que eu poderia fazer. Você poderia me dar uma lista do que você quer e eu faria as compras. E, ahm… O—O dinheiro.”
Charles parecia considerar por um momento, então, em um tom quieto. “É, pode ser. Eu lhe darei uma lista e o dinheiro.”
* * *
… ovos, molho de tomate, cebola.
OBS.: eu lhe dei mais dinheiro do que o necessário. Compre o que quiser para você e sua garotinha. Não se preocupe com o troco.
Erik fitou a lista de compras de novo, enquanto controlava o carrinho de compras com seu poder para certificar-se que Nina não atingisse ninguém com ele conforme andavam pelo supermercado pegando os itens da lista. Charles lhe deu dinheiro demais para o que precisavam comprar e, ainda assim, Erik se preocupava em usá-lo, até mesmo com a mensagem explícita de Charles no final. Deve haver um limite para a hospitalidade desse homem…
Nina parecia feliz enquanto caminhava por aí, agarrando as coisas que Erik pedia para pegar e as colocando no carrinho com toda a alegria de uma criança. Seu corpo estava protegido por um casaco grosso que era só um pouco grande demais para ela, escondia suas mãos quando as botava para baixo, mas pelo menos ela estava aquecida.
“Levará sua filha com você?” Charles questionou antes de saírem, entregando a lista. “Eu poderia ficar com ela, se quiser.”
Erik o considerou de cima a baixo por um momento, observando como os círculos embaixo de seus olhos estavam escuros e fundos, como balançava um pouco para os lados e como seus olhos ainda estavam embaçados por conta do álcool que ele, sem dúvida, havia consumido.
“Levarei ela comigo,” Erik disse e Charles bufa uma risada com um pequeno sorriso em seus lábios — ele provavelmente viu o julgamento no olhar de Erik, no entanto, não parecia preocupado em reclamar sobre.
Quando ele e Nina iam sair, Charles apareceu novamente, desta vez com dois casacos em seus braços enquanto fitava Erik com as sobrancelhas erguidas.
“Estes estão limpos. E são quentes.” Charles murmurou, ajoelhando-se com um grunhido para ficar ao nível de Nina e lhe oferece o casaco menor. “Pode ficar um pouco grande demais em você, mas vai te aquecer.”
Nina pegou o casaco com os olhos cheios de curiosidade, suas mãos tateando o tecido macio. Parecia surrado, mas não em mau estado.
“Você tem filhos?” perguntou Nina, os olhos de Charles se arregalaram, logo após ele riu e sacudiu a cabeça para os lados.
“Deus me livre, não,” ele riu, “Isso era meu. Acredito que eu era um pouco mais velho que você quando ganhei ele, por isso é grande.”
“Ah,” Nina disse, abraçando o casaco contra o peito e sorrindo para Charles. “Cuidarei bem dele! Obrigada!”
Os olhos de Charles suavizam ao pousar sobre a garota por um momento e, hesitantemente, põe uma mão sobre sua cabeça para bagunçar seu cabelo levemente. Quando ele se levanta e mira Erik novamente, parecendo mais sério, oferece a Erik o outro casaco. Erik o pega sem trocar uma palavra, somente movimentando sua cabeça para assentir em gesto de agradecimento silencioso para o outro homem e Charles corresponde de volta.
Agora, Nina parece tomar cuidado para não prender o casaco em lugar nenhum, segurando o tecido perto do peito de vez em quando. Era macio e a garota provavelmente estava gostando da sensação. Fazia tempo que ela tinha ganhado roupas novas.
“Vamos comemorar Chanucá esse ano, papai ?” Nina indagou enquanto pegava os ovos, Erik notou os olhos dela brilhando quando olhou para baixo. “Já que estamos— estamos na casa do Charles. Talvez pudéssemos comemorar.”
Erik esteve preparado para dizer não desde o dia que se despediram de seu lar, sabendo que não seria capaz de manter as tradições que seguiu desde criança e Magda também desde que o conheceu. Nina perdeu a oportunidade naquele ano. Porém, eles não estavam mais desabrigados e Chanucá estava próximo — na próxima semana, se recordava a data corretamente.
Ele encarou a nota de Charles no final da lista de compras novamente, lembrando de uma loja kosher que viu pelo caminho; se ele pudesse colocar as mãos em algum metal também…
“Acho que vamos, bubbeleh [pequenina],” disse Erik, avistando os olhos de Nina brilharem de alegria com a notícia. “Vamos ver, está bem?”
* * *
Havia castiçais velhos feitos de metal pela casa, os quais Erik passou a notar após chegar da loja e, depois de uma questionamento rápido com Charles para saber se poderia usá-los para uma coisa, Erik tinha todas as peças que precisava para elaborar uma menorá improvisada. Outro questionamento e Erik obteve permissão de Charles para situar a menorá perto de uma das janelas direcionadas a rua que Erik havia tomado para chegar à mansão.
Quando Chanucá chegou, Erik sentiu que poderia chorar enquanto ajudava Nina a acender a primeira vela com o shammash e fazer suas orações.
Era o primeiro Chanucá deles sem Magda e, um dos muitos sem sua mãe, contudo, o fato de poder comemorar já era o suficiente. Ele nunca havia se importado realmente com isso antes, exceto quando era criança, as moedas de chocolate e os presentes eram apenas seus. Todavia, ter um teto em cima de sua cabeça e os bolinhos de batata e cebola recém-feitos pareciam algo para se celebrar. Ele nunca foi tão crente quanto a sua mãe, nunca teve tanta fé quanto Magda, mas naquele ano, as orações e a gratidão pelas bênçãos que recebeu eram genuínas.
Enquanto estava colocando comida em um prato para Nina comer e checando em seu bolso o presente que daria a ela — um pequeno coelho de metal que havia criado enquanto ela dormia — ele não pôde deixar de sorrir.
“Ah, Charles!” Nina exclamou e os olhos de Erik rapidamente foram em direção da porta da cozinha, a qual o homem havia adentrado. Ele parecia surpreso por um momento e, em seguida, tímido. “Você vai jantar conosco? Papai fez latkes!”
“Eu odiaria atrapalhar…”
“É a sua casa,” Erik disse, vendo os olhos de Charles irem até ele. Parecia pasmo novamente. “Há o suficiente para nós três.”
Charles parecia não ter certeza, contemplando Erik e Nina algumas vezes antes de olhar para trás como se estivesse considerando voltar para o bunker o mais rápido possível. Erik não teria o convidado para comemorar Chanucá com eles, se não fosse pelo fato de Charles ser a razão pela qual eles pudessem celebrar para começo de conversa, mas mesmo assim, ele refletiu se não havia assustado Charles sem querer. Ele não parecia uma pessoa que gostava de pessoas, não com o tempo que passava isolado e bebendo; isso fez Erik questionar se ele não tinha deixado Charles desconfortável por acidente.
Após alguns segundos de conflito evidente, Charles pigarreou, passando a mão pelo cabelo e parecendo um pouco deslocado do momento de repente.
“Vocês se importariam se eu tomasse um banho primeiro? Não gostaria de estar aqui com cheiro de ál— como— você sabe…”
Charles não parecia bêbado, no entanto, Erik estava acostumado o suficiente com o homem neste momento para saber que ele provavelmente já havia começado seus esforços para deixar de beber, por algum motivo. De qualquer forma, Erik acenou com a cabeça para ele, vendo Charles acenar de volta, um: “Eu já volto, então” baixinho, escapando de seus lábios antes que fosse embora.
“Ele parece solitário, papai…”
Erik olhou para sua filha, vendo uma expressão triste em seus olhos.
“Faremos companhia a ele esta noite,” Erik a assegurou, vendo-a assentir. Ele só esperava não estar errado em oferecer companhia a Charles em primeiro lugar.
“Você acha que ele gostaria de jogar dreidel com a gente? Eu vou deixar ele ganhar algumas moedinhas se ele jogar. Talvez isso faça ele feliz.”
“Isso é muito legal da sua parte, Nina.”
Erik bagunçou o cabelo dela por um momento, observando-a rir e empurrar o prato cheio para longe. Ao erguer suas sobrancelhas, ela explica rapidamente: “Vou esperar por ele, assim podemos comer juntos.”
Charles retornou antes que os bolinhos esfriassem, pelo menos. Seu cabelo ainda estava molhado e pingando em sua camisa limpa, provavelmente por ter tomado o banho com pressa. Ele parecia menos como uma pessoa bêbada sem-teto vestido assim: uma calça jeans e uma camisa azul clara abotoada, porém, ele ainda parecia deslocado quando se sentou ao lado de Nina a pedido da garota, os olhos olhando mais para a mesa do que para qualquer outra pessoa dali.
Do outro lado da mesa, Erik colocou um prato de comida na frente dele, os olhos de Charles subindo para olhá-lo. Sua mandíbula estava tensionada.
“Melhor que as sobras que você continua comendo,” apontou Erik, baixinho.
Ele experimentou uma delas uns dias atrás por curiosidade; havia visto Charles cozinhando uma comida estranha e guardando em vários recipientes de plástico para comer mais tarde. Seu rosto se contraiu imediatamente com o gosto e, de repente, fez sentido a razão por Charles estava tão bêbado o tempo todo: só uma pessoa bêbada comeria aquilo e gostaria.
“São boas o suficiente,” Charles resmungou e Erik pôde ver a mentira por trás de suas palavras. Talvez o próprio Charles não gostasse da sua comida
Eles comeram em um agradável silêncio, Erik vigiando a expressão no rosto de Charles quando ele deu a primeira mordida em sua comida com algum entretenimento antes de se concentrar em sua própria refeição. Antes que Charles pudesse terminar sua comida, no entanto, Nina quebrou o silêncio.
“Charles, você já comeu gelt [moedinhas de chocolate]?”
“Receio que não sei o que é isso…”
Nina franziu o cenho, como se o desconhecimento de Charles sobre o que era gelt fosse algo confuso. Charles, em contrapartida, apenas sorriu para ela. Era estranho ver como o comportamento de Charles se abrandava quando tratava-se de Nina em um bom sentido.
“Você poderia explicar para mim?”
“Ah, elas são moedinhas de chocolate. Nós temos elas durante o Chanucá.”
“Hm, faz sentido. Eu nunca comemorei o Chanucá.”
“Por que não?”
Charles deu de ombros, “Porque eu não sou judeu.”
“Ah, entendi,” assentiu Nina, sua resposta direta fez Erik sorrir para si mesmo, enquanto terminava seus bolinhos de batata e cebola. “Posso compartilhar alguns dos meus com você, aí podemos jogar o dreidel juntos.”
“Não precisa, eu não gostaria de tomar as suas, ahm…”
“Gelt,” Erik ajudou.
“Suas gelt,” assentiu Charles.
“Mas como você vai apostar se você não tem nenhuma?”
Charles parecia perdido por um momento, encarando Nina enquanto ela fazia o mesmo. Ele não parecia querer fugir mais, contudo, ainda parecia não estar completamente confortável ao redor de Erik e Nina, como se estivesse testando o clima entre eles. Se existia alguém capaz de deixá-lo confortável, seria Nina — ela tinha o charme de Magda, com toda certeza.
“Está bem,” Charles concordou com a cabeça. “Deixarei você me ensinar, então.”
Nina esboçou um sorriso enorme e Erik enquanto observava, sorriu também quase que inconscientemente.
* * *
“Obrigado.”
Charles virou-se ao ouvir o som da voz de Erik, seus olhos arregalados enquanto se afastava da geladeira para vê-lo. Curiosamente, Charles já teria tido uma garrafa e uma de suas horríveis sobras em mãos para levar de volta ao bunker em dias normais pelo que Erik havia notado do tempo que passou na casa, todavia, desta vez estava de mãos vazias.
“Pelo quê?”
“Por brincar com a Nina e ser gentil com ela,” Erik deu de ombros.
Havia ficado com medo no início quando Nina começou a falar sobre si mesma e sobre sua mutação. Charles não reagiu aos poderes de Erik e não parecia se importar com o fato de Erik ser um mutante ou não, no entanto, uma mudança de ideia não era inédita nos humanos. Felizmente, enquanto Nina explicava como sua mutação funcionava — ou pelo menos tentava explicar o que ela sabia sobre ela — Charles parecia interessado e teve a gentileza de dizer que ela tinha um poder maravilhoso, o que deixou Nina feliz.
“Receio que ela irá perguntar para você continuar conosco pelos outros sete dias restantes de Chanucá”, ele continuou.
“Não posso prometer que estarei aqui todas as noites, mas… eu não me importaria em jogar com ela novamente. E a comida estava boa, então obrigado por isso.”
Erik assentiu, vendo Charles retribuir o gesto. O silêncio tomou conta por alguns segundos antes de Erik falar novamente.
“Bom, é… Obrigado por nos deixar ficar aqui, e pela comida.”
“Sem problemas,” Charles acenou com a mão, envergonhado. “Esta casa velha é grande e desocupada. Fico feliz que esteja beneficiando alguém.”
Erik assentiu novamente, sem saber o que falar conforme o silêncio desconfortável voltou. Seus olhos caíram sob o dreidel em cima da mesa e, antes que pudesse parar si mesmo, murmurou, “Gostaria de jogar?”
Charles somente piscou por um instante, olhando para Erik e depois o dreidel uma vez antes de abrir e fechar a boca várias vezes, como se não pudesse escolher as palavras certas. Seja pelo desconforto ou pelo olhar de Erik, o qual pedia que aceitasse a oferta de jogar para que ele não parecesse um idiota, Charles acabou concordando, murmurando confuso um: “Sim, claro— Sim, sim.”
Não havia mais moedas de chocolate, principalmente porque Erik salvou um pouco para os outros dias, então apostaram os bolinhos restantes até que esses também acabaram. Eles jogaram algumas rodadas apostando o chocolate quente que Erik fez, até que esse também acabou e, nessa hora, Charles teve uma ideia.
“Vamos apostar histórias,” ele disse, erguendo o rosto para olhar Erik diretamente.
As regras foram estabelecidas entre eles rapidamente: suas apostas seriam histórias de suas vidas, boas, ruins e neutras. Dependendo do símbolo em que caísse, eles ofereceriam uma história como aposta. Contariam metade da história, contariam a história inteira ou fariam nada se tivessem a sorte de a outra pessoa acertar o símbolo Nun. Erik não gostava muito de contar sobre si, especialmente para um homem que conheceu há menos de um mês, contudo, estava curioso — ele sabia que Charles estava na mesma situação. Retraído, entretanto, curioso.
Eles começaram devagar: Erik contou a história sobre a vez em que Nina fez amizade com um gambá local em sua antiga casa, Charles contou a história sobre seu primeiro cachorro. Pequenas histórias que ofereciam pequenos detalhes sobre seus passados. Erik sabia por algumas de suas histórias que Charles tinha crescido com dinheiro, mas sua mãe não parecia ser a mais calorosa das mães e Erik só podia adivinhar o que Charles pensava sobre ele agora.
Depois disso, as apostas foram aumentando lentamente, mais detalhes, coisas mais pessoais sendo trazidas à tona, até que Erik percebeu a forma como as mãos de Charles tremiam sobre a mesa, seus olhos se esquivando como se ele quisesse correr de novo e se arrependesse de ter dado essa ideia. Mesmo assim, ele não recuou e Erik soube sobre a morte do pai de Charles, como ele havia se suicidado dentro daquela casa quando Charles era apenas uma criança, bem como, os problemas com bebida de sua mãe e o fato de que Charles morava na Inglaterra por anos e foi professor em Oxford antes de voltar para Nova York.
Em troca, Charles agora sabia que Erik não conseguia um emprego por ser um mutante e também por ser um imigrante ilegal com antecedentes criminais. Ele sabia sobre a morte dos pais de Erik e sobre Sebastian Shaw. Sobre Magda e sobre coisas que Magda jamais soube. Dois livros abertos exibidos na frente um do outro.
O dreidel caiu no símbolo Shin quando Charles rodou, seus lábios pressionando um contra o outro por um momento antes de dizer, em um tom baixo: “A história do porquê eu voltar para Nova York e ter ficado.”
As palavras pareciam machucá-lo e Erik encarou o homem a sua frente por um tempo antes jogar a sua vez. Erik fitou o pião com intensidade, silenciosamente torcendo que caísse em Gimel ou, pelo menos, em Hay.
O dreidel caiu sobre a mesa, mostrando o símbolo Nun e Charles parecia quase com um balão se esvaziando; seu corpo relaxando imediatamente.
“Acredito que chega por hoje,” disse Charles, já se levantando da mesa antes que Erik pudesse proclamar qualquer coisa. “Obrigada pela janta, a comida estava maravilhosa e o chocolate quente também. Tenha uma boa noite.”
“Você também. Tenha uma boa noite.”
Erik observou o homem ir embora, seus movimentos eram tensos como se estivesse fugindo de algo. Erik olhou o dreidel novamente antes de pegar o brinquedo e ir para o quarto em que decidiu usar para si.
