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Categories:
Fandom:
Relationships:
Characters:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Series:
Part 2 of A Volta dos Mortos
Stats:
Published:
2023-02-12
Updated:
2025-04-27
Words:
96,054
Chapters:
24/44
Kudos:
12
Bookmarks:
3
Hits:
1,481

E se os Potter voltassem à vida? [2]

Summary:

O impensável aconteceu. Voldemort finalmente teve uma vitória. O Mundo Bruxo não sabe como agir, caindo em caos sem fim.

Harry Potter não sabe o que fazer. Não sabe como escapar dessa situação, sem ninguém para ajudá-lo e apoiá-lo, ele está sozinho, ferido e com dor, e não tem nenhuma esperança.

Mas James e Lily Potter não vão desistir. Eles voltaram à vida, sabem que o impossível pode acontecer, eles são a prova disso, e eles vão fazer de tudo para que Voldemort não tenha outra vitória, para que o impossível aconteça novamente e Harry Potter retorne ao lugar onde pertence: com eles.

Mas nada é fácil e eles esquecem que mesmo que vençam essa batalha, a cura leva ainda mais tempo. Eles podem realmente realizar o que ninguém acha possível, outra vez? Ou Voldemort terá outra vitória?

 

Segundo livro de uma trilogia! Leia o anterior para entender.

Notes:

Oi, amores! Estou de volta com a continuação da fanfic exatamente do ponto onde parou. Terá várias mudanças de pov, passando por Harry, Lily, James, Mione e etc ao longo dessa fic, mas a principal é os Potter.

Como podem deduzir, a fic pode conter muitos gatilhos. Vou tentar avisar no início de cada capítulo, mas, se sentir-se desconfortável, fique à vontade para pular as cenas e me pedir um resumo nos comentários.

Dito isso, muitos capítulos terão angústia pesada, assim como limitações de movimento (amarras), e este contém tortura e descrições de muita dor.

(See the end of the work for more notes.)

Chapter 1: Isso não pode ser real.

Chapter Text

 

 

❛❛Nunca é tarde demais para ser o que poderia ter sido.❜❜

[❛❛ISSO NÃO PODE SER REAL.❜❜]


 

 

 

 

— HARRY! — Lily gritou novamente, correndo desesperadamente para seu filho, empurrando as pessoas no seu caminho sem nenhum remorso. — NÃO!

Mas já era tarde.

Seu filho fechou os olhos e ficou mole no aperto da mulher, que segurou-o firme e sorriu para Lily, desaparecendo diante de seus olhos com Harry desacordado em seus braços. Lily parou e colocou as mãos na cabeça, apertando seu cabelo.

— NÃO! — James gritou ao seu lado, derrapando ao parar quando os dois sumiram.

Um estalo foi ouvido e depois outro, com as pessoas gritando ao redor. Lily olhou em volta desesperada e viu que os comensais estavam aparatando, provavelmente para o lugar onde o mestre deles estaria… consequentemente onde Harry seria levado. Sua visão se tornou borrada com o pensamento, mas não deixou nenhuma lágrima cair, ao invés disso, começou a correr em direção à um comensal.

Os olhos do homem, por trás da máscara, se arregalaram quando a viu correndo para ele. Lily esticou o braço para o comensal, correndo o máximo que podia, mas o homem desaparatou assim que ela o alcançou, fazendo-a tropeçar, e só não caiu porque James segurou-a pela cintura.

— Me solte! — Lily disse quando ouviu mais estalos de comensais aparatando. Ela ainda podia alcançar um!

— Não! Está louca? Quer ser desmembrada nessa aparatação forçada? Ou então morta quando chegar lá no meio de um bando de comensais? — James colocou as mãos nos ombros da esposa. — Harry precisa de você viva!

Lily parou de tentar correr e olhou para o marido, olhou nos olhos dele. Uma coisa que ela sempre gostou nele foi que conseguia lê-lo sem reservas, porque para ela, ele era um livro aberto. E quando Lily olhou para James, viu todo o desespero dele, viu toda a tristeza, o ódio e a desesperança. Ela viu, ela sabia, que ele queria rasgar todos os comensais para encontrar Harry, mas estava se segurando por ela. Ele estava sendo forte por ela.

Então Lily desabou. Ela não precisava ser forte naquele momento. Lily passou os braços pela cintura de James e enterrou a cabeça no peito dele, finalmente deixando as lágrimas saírem, chorando toda a sua tristeza ali, porque alcançou-a a questão que Harry podia estar morto agora, ou então sendo torturado, e ela não podia fazer nada para impedir. Ela não poderia impedir o sofrimento do seu filho.

— Tudo bem, pode chorar, lírio — James sussurrou, colocando uma mão nos cabelos dela.

Ele olhou em volta, vendo as pessoas em choque pelo ataque inesperado, procurando conhecidos que foram longe na luta, chorando por alguém atingido… James fechou os olhos e apertou-os com força, deixando duas lágrimas vazarem e caírem pela sua bochecha até o cabelo de Lily. Ele não podia acreditar que seu pequeno maroto, o bebê que ele segurou nos braços, agora podia estar sofrendo no covil de Voldemort. James aumentou o aperto em Lily e cerrou os dentes com raiva, jurando que devolveria todo o sofrimento que Harry passasse para o maldito Lord das Trevas.

— Eu vou resgatá-lo, lírio, eu prometo pela minha vida — James jurou, soltando-a para olhá-la nos olhos.

Olhos esses que brilharam de esperança e determinação.

— Será que ele está com a pulseira? Ou então com o espelho? Se sim, talvez ele possa conseguir acessá-los — Lily perguntou, secando as lágrimas com a mão.

— Lírio... eu quero acreditar nisso, mas… As chances de Lucius Malfoy e Bellatrix deixarem Harry com algo são pequenas — James respondeu, mordendo o lábio. — Isso se ele não tiver quebrado na luta ou tirado antes.

— Mas que droga! Por que isso tem que acontecer com a gente, Jay? Por que com o nosso menino? — Lily parecia querer bater em algo, puxando uma mecha do cabelo com raiva.

James engoliu em seco, mas puxou a mão da esposa do cabelo dela e segurou-a com a própria mão.

— Coisas ruins acontecem com pessoas boas — disse ele, vendo pelo canto do olho as pessoas os reconhecendo. — Isso é para testar o quão bem aguentamos e o quão boas pessoas somos.

— Isso não é um teste, é a vida real! Se Harry morrer, qual foi o propósito de termos voltado à vida? — Lily quase gritou.

— Harry não vai morrer — James disse fortemente. — Eu não vou deixar, assim como você também não deixou.

— Eu sei que você não vai deixar — Lily falou, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas. — Por isso eu tenho medo de perder Harry e você.

James suspirou e deu um pequeno beijo na testa dela. Ele não podia prometer que não iria morrer, por que se tivesse que fazer isso para Harry sobreviver, ele faria. E ambos sabiam disso.

— James! Lily! — veio uma voz do lado e na mesma hora os dois levantaram a varinha e apontaram para a pessoa que chamou.

Era Sirius correndo com Remus e Amélia, os três com pequenos cortes nos braços e torso, nada grave, mas aparentavam cansaço e medo.

— Sirius — Lily suspirou, guardando a varinha. James também abaixou a dele, encarando as pessoas que olhavam descaradamente a cena.

— Onde está o Harry? Já achamos todos, mas ninguém sabe onde o Harry está — Sirius falou, gesticulando com a mão apressado.

— Eu ouvi comensais falando que encontraram o Harry, não é o que estou pensando, não é? — Remus perguntou, olhando-os firme. — Me fala que não é!

— Remus… — James murmurou, colocando um braço na cintura de Lily, encontrando sua visão embaçada e, dessa vez, não era o óculos sujo.

— O que você está pensando, Remus? Onde está o Harry? — Sirius questionou de novo, passando uma mão no longo cabelo.

— Ele está pensando… ele está pensando que os comensais levaram o Harry — Amélia respondeu, observando o casal com o olhar triste.

— O que? Isso não é possível. Harry é o melhor em duelo. Onde ele está? Onde está o meu afilhado? — Sirius repetiu, tirando a mão do cabelo para gesticular com ela.

— Sirius… — Lily murmurou, secando uma lágrima que caiu.

— Não! Onde está o Harry?

— Sirius — Remus chamou com tristeza, mas não conseguiu falar.

— Ele foi sequestrado, Pads. Harry foi sequestrado — James finalmente disse, respirando fundo.

— Não! Não é possível! — o Black gritou.

— Sirius, não torne isso mais difícil — Amélia disse, suspirando. — Nós vamos conseguir trazê-lo de volta. Vou ir para o Ministério e avisar… Avisar que Harry Potter foi capturado.

— Não fale isso! — Sirius grunhiu, chutando o chão com raiva e apertando o cabelo na raiz.

— Pads… — Remus sussurrou, passando uma mão no rosto com cansaço.

James apertou a cintura de Lily e passou outro braço em volta dela, efetivamente puxando-a para si. Ela encostou a cabeça no peito dele e deu um suspiro que era meio soluço.

Passos apressados vieram atrás de Sirius, Remus e Amélia e os três se afastaram para ver a comoção. Um grupo de jovens parou quando os viu, seus olhos se arregalando. Todos pareciam cansados e assustados, mas prontos para qualquer coisa. James piscou o olho e reconheceu os dois ruivos que tinha: eram obviamente Weasley's, mais precisamente Rony e Gina. A garota de cabelos volumosos só podia ser a Hermione. O gordinho, meio tímido, poderia ser…

— O que aconteceu? Cadê o Harry? — Rony perguntou, passando uma mão no cabelo.

Hermione permaneceu onde estava, respirando fundo e olhando de James para Lily. A garota loira, entretanto, balançou a cabeça.

— Sr. Potter, Sra. Potter, aquilo que vocês mais desejam vão retornar para vocês, às vezes não dá maneira que gostariam — ela disse, com uma voz triste e sonhadora ao mesmo tempo.

— O que você quis dizer, Luna? — Remus perguntou, respirando fundo.

— Eu não me lembro — Luna, aparentemente, disse.

— Você acabou de falar, como não se lembra? — Sirius questionou, apertando novamente o cabelo.

— Não me lembrando.

— Espera, o que está acontecendo? — um menino de postura ativa e moreno perguntou.

— O quê está acontecendo — Amélia começou quando ninguém disse nada —, é que Harry foi levado. Harry Potter foi sequestrado.

— Não! Impossível!

— Isso não é verdade…

— Como? Não, não...

— Não...

James abaixou a cabeça e acenou um sim, confirmando. Hermione cambaleou para trás e colocou as mãos na boca quando soltou um grito estrangulado. Rony arregalou os olhos e chutou o chão, gritando palavrões. Gina colocou as mãos no rosto e se curvou para esconder o rosto. Luna abaixou a cabeça e assentiu, ficando em silêncio. O menino gordinho que James conhecia de algum lugar começou a respirar rápido e a balançar a cabeça. Um moreno meio desleixado arregalou os olhos junto de um loiro. O mesmo moreno de postura ativa ficou com o rosto em choque e não mostrou outra reação, quase igual a outro garoto loiro do lado dele.

— Harry Potter foi levado?

— Foi o que eu ouvi?

— Harry Potter? Existe outro?

— Harry? Não, é impossível!

As pessoas à volta começaram a falar e James conseguiu ouvir cada fala. Ele não podia acreditar que eles falariam daquilo bem na frente dele e de Lily, mas sabia como era o círculo de fofoca; ela corria solta mesmo na frente das "vítimas".

— Amor — Lily murmurou. — Vamos sair daqui. Não posso ficar aqui. Vamos levar as crianças e seus responsáveis também. Eles não podem ficar aqui também, ninguém pode. A plataforma 9¾ foi corrompida, a dos trouxas talvez tenha sido também.

— Está certa, vamos achar os responsáveis por eles e levá-los à casa dos Black. Lá nós falamos com a Ordem — James concordou.

Eles assentiram um pro outro com olhares e se aproximaram lentamente dos outros, contando o plano. Quando saíram à procura dos responsáveis dos adolescentes, foi com o coração pesado e a tristeza literalmente no ar.

A única certeza que eles tinham é que fariam de tudo para conseguir Harry de volta e eles nem ao menos sabiam se ele ainda estava vivo.

 


 

Harry Potter abriu os olhos. Isso foi surpreendentemente fácil, mas quando tentou se mexer, descobriu que tudo doía e seus movimentos eram limitados. Onde ele estava? Não era sua cama no dormitório… Harry piscou os olhos, tentando focar sua visão, mas estava sem seus óculos. Será que ele estava na sua casa e não se lembrava de pegar o trem?

O trem…

Harry engasgou, sentindo seu coração bater rápido, e de repente se lembrou de tudo. Ele havia sido sequestrado por uma Comensal da Morte na Plataforma 9¾.

Se lembrar isso foi como um estopim: sua visão finalmente focou e ele conseguiu ver algo mais que um borrão. Harry estava sentado em uma cadeira aparentemente de madeira, com cordas firmes e doloridas amarradas nos pulsos, tornozelos, barriga e pescoço. O lugar onde ele estava era escuro, sem nenhuma iluminação possível, mas se apertasse os olhos, conseguiria ver um raio de luz perto do chão, e mais em cima uma maçaneta, então ele presumiu estar de frente para uma porta. Havia duas cadeiras mais confortáveis à direita e uma caixa à esquerda, sem nenhum objeto por perto e nenhuma alma viva.

Harry suspirou e tentou virar a cabeça para ver por cima do ombro, mas assim que tentasse a corda raspava no seu pescoço. Ele inspirou e soltou o ar, tentando se acalmar. O corte que havia feito do seu cotovelo até o pulso no seu braço parecia estar aberto ainda, por que uma dor aguda vinha dali e outra da suas costas, que ele se lembrava de receber um corte também. Sua cabeça inteira doía e uma dor mais fraca parecia estar vindo de sua perna, mas ele não se lembrava de receber algum feitiço ali.

Harry apertou os lábios e os molhou, deixando a cabeça ir um pouco para trás. Tudo bem, você consegue pensar em algo, ele pensou, tentando se concentrar em como sair dali e não na dor que sentia. O que minha mãe faria?, se perguntou, estreitando os olhos.

— Minha mãe! — ele exclamou e sua garganta doeu imediatamente depois.

Parecia que tudo que havia dentro da sua garganta estava raspando, tornando sua fala dolorida. Ele suspirou e adicionou mais um ferimento à sua lista mental. Mas… sua mãe, seu pai, Sirius, Remus… seus amigos… Harry se perguntou se eles estavam bem, se estavam vivos. Por favor, que eles estejam, pensou. Eu não posso viver sem eles. Será que eles conseguiriam achá-lo? Será que eles tinham esperança que ele ainda estava vivo? Merlin, ele nem sabia quanto tempo estava desacordado!

Harry sentiu um desejo de passar uma mão no cabelo e mexeu sua mão, mas ela estava tão firmemente presa que não fez nenhum efeito. Uma lâmpada acendeu na cabeça de Harry. Ele pigarreou.

— Aguamenti — sussurrou, engolindo em seco contra a dor. Ele mexeu minuciosamente a mão junto do feitiço, mas nada aconteceu.

— Aguamenti — disse de novo, mexendo a mão, mas nada aconteceu.

Ele jogou a cabeça para trás e grunhiu, sentindo-se fraco, derrotado e infeliz. Quando tudo estava se encaixando, tudo estava ficando bom, foi jogado um balde de água fria na sua cabeça. Era como se o universo conspirasse contra ele e risse de toda sua felicidade e planos feitos.

Harry olhou novamente a sala onde estava, estreitando os olhos para conseguir ver as lacunas entre as telhas do cômodo. Ele nunca desejou tanto o seu óculos como naquele momento para conseguir enxergar algo útil no meio de tanta escuridão. Suas costas doíam no encosto da cadeira e sua bunda parecia estar dormente, isso sem contar a dor dos seus ferimentos. Harry se perguntou se houve algum ferido no ataque ou algum morto, mas honestamente esperava que não. Ele também torcia para que ninguém da sua família tenha se ferido gravemente, não sabia o que faria se alguém estivesse ferido ou morto.

Entretanto, eu não acho que vou conseguir sair daqui tão cedo para saber, Harry pensou amargamente.

Ele fechou os olhos e desejou com toda a sua força que tivesse chegado reforço para ajudar quando ele foi sequestrado... Harry franziu a testa e fechou sua mão em punho segurando um pedaço da corda, respirando mais devagar e leve.

Crack!

O barulho de algo caindo foi ouvido por Harry, que se assustou com o som, e ele teria pulado se desse para fazer algum mínimo movimento na cadeira. Harry olhou para a fraca luz vindo de fora e apurou os ouvidos, atento à qualquer outro som, ainda respirando lentamente.

— Killan! O que você ainda está fazendo aí? Ajude-a! — uma voz veio irritada do lado de fora, aparentando estar irritada.

— E você não vai me ajudar, Lucius? — veio outra voz, maliciosa e provocante.

Um calafrio passou pela espinha de Harry e todos os pêlos do seu corpo se arrepiaram. Ele conhecia perfeitamente a segunda voz. Era a da mulher que o sequestrou. Era a voz de Bellatrix Lestrange.

Harry arregalou os olhos e tentou puxar o seu braço, tentando forçar a corda a arrebentar ou sabe-se lá o que, ele apenas queria sair dali, precisava sair dali naquele instante.

— Não, Bella. Killan, abra a porta — a primeira voz disse.

Dessa vez, Harry reconheceu-a bem; era a de Lucius Malfoy. O coração de Harry começou a bater mais forte e ele apertou a corda que estava presa à palma da sua mão.

— O Lord disse para não abrir, Malfoy — uma terceira voz falou, rouca e baixa, vindo diretamente da frente da porta.

Harry respirou fundo e expirou, se forçando a acalmar, ele não iria dar gosto à Malfoy e Lestrange de o ver assustado e em um ataque de pânico. Não, se ele fosse morrer, ele iria morrer de cabeça erguida.

— E nós temos permissão para entrar — Malfoy disse arrogantemente, um tom que podia ser facilmente identificável pelo Potter.

— O Lord não está aqui para te dar permissão — Killan, possivelmente, respondeu.

Voldemort não está aqui?, Harry pensou, mordendo o lábio. Qual era o jogo dele?

— Ele também não está aqui para ver isso… Crucio! — Bellatrix gritou, sua voz saindo animada na última parte.

Um grito alto e horrível atravessou a parede e o som de algo caindo no chão soou. Harry se contorceu na cadeira e fixou seus olhos na luz debaixo da porta, vendo uma sombra de algo perto, mas não identificável. Ele engoliu em seco e desejou poder tampar os ouvidos, mas não podia, então o grito do homem entrou no seu cérebro e Harry achava que nunca mais saíria, de tão alto e terrível que foi.

— Acha que agora pode nos deixar entrar, querido Killan? — Bellatrix perguntou e Harry teve a horrível impressão de que ela estava sorrindo.

— Po-posso — uma voz baixa soou, quase não saindo.

Harry engoliu em seco novamente e reforçou seus escudos mentais pensando na sua família viva e bem, respirando uniformemente. Tudo o que ele queria era vomitar com o som daqueles gritos, mas ele se controlou e respirou fundo.

Passos leves e barulhos soaram e Harry levantou seus olhos para a maçaneta, que girou lentamente para a esquerda. A porta então foi se abrindo devagar e ele cerrou os dentes. A primeira coisa que ele viu quando a porta se abriu completamente foi uma luz forte invadindo o local e iluminando todo o seu rosto, fazendo-o fechar os olhos contra a iluminação.

Mais passos soaram enquanto Harry apertava os olhos e de repente a luz sumiu, fazendo pontos pretos aparecerem na sua visão. Todo a sala ficou em silêncio e Harry jurava que podia ouvir seu coração batendo forte contra seu peito.

Até que a sala saiu do silêncio.

— Ora, bebê Potter, enfim acordou? — A voz sarcástica de Bellatrix penetrou seus ouvidos.

Harry se forçou a erguer a cabeça e abrir os olhos. Mesmo na — novamente — escuridão, ele conseguia distinguir bem as duas pessoas na sua frente. Lucius Malfoy estava vestido de preto e tinha a varinha saindo do bolso do roupão, seu rosto em uma máscara sem emoção. Bellatrix sorria de forma maníaca e seus olhos brilhavam loucamente na escuridão, se destacando por causa disso. Ela girava a varinha em uma mão e tinha a outra mão na cintura, como seria uma mãe dando bronca, mas apenas se desconsiderasse todo o resto da mulher.

— Estávamos pensando que não acordaria nunca — Bellatrix continuou.

Harry limpou a garganta e inclinou a cabeça um pouco para trás.

— E eu estava pensando que os anfitriões nunca iriam ver se eu estava confortável… Que, se quiserem saber, eu não estou. — Cada palavra doeu para falar, mas Harry não se arrependeu de nenhuma delas.

— Veja, Lucius! — Bellatrix disse, apontando animada para o Potter. — O bebê sabe sarcasmo!

— Eu te disse que ele era espertinho — Malfoy respondeu, olhando duro para a cunhada.

— Que bom que você sabe, Malfoy — Harry interrompeu. Ele já estava ficando ansioso para saber o que ele queriam. — Cadê o mestre de vocês? Voldemort não vai se dar o trabalho de receber o convidado?

— Não fale o nome dele! — Bellatrix sibilou e mesmo Malfoy estremeceu com o nome.

Harry se remexeu na cadeira, percebendo que ele não apenas estava em desvantagem, como também estava desarmado. Ele não podia se proteger se um deles quisesse o enfeitiçar. Ele estava vulnerável e isso era horrível.

— Tenha mais respeito, Potter. Mas vou lhe dar a alegria da resposta. O Lord das Trevas saiu e fui o designado para cuidar do local e de você — Malfoy sorriu friamente.

Por que Voldemort teria saído? Ele iria querer me matar assim que me tivesse, algo está errado, Harry pensou, franzindo a testa.

— É uma falta de respeito do seu querido mestre em não ver seu hóspede, sabe? — Harry respondeu rápido.

— Falta de respeito é você querer falar mal dele! — Bellatrix falou, depois apontou o dedo para o cunhado. — E eu fui designada para cuidar daqui também, se não se esqueceu.

— Devo ter esquecido no meio de tantas palavras que o Lord falou — Malfoy disse secamente.

— Então, já que vocês são os anfitriões, não vão me apresentar o local onde estou? — Harry perguntou, mexendo ligeiramente o pulso, tentando encontrar um lugar onde a corda era mais solta.

— Ooooh, o bebê Potter está atrevido! — Bellatrix bateu palmas, sorrindo. — O que mais o bebê Potter sabe fazer?

— Eu sei lançar bons feitiços, se me soltar e me dar minha varinha eu posso lhe mostrar — Harry respondeu, mordendo o interior da bochecha.

— Boa tentativa, Potter — Malfoy disse, dando um sorriso de lado. — Mas ninguém lhe contou, não é?

— Eu não conversei com ninguém enquanto estava aqui, não é?

— Sua varinha — Malfoy continuou como se Harry não tivesse falado — foi quebrada. O Lord das Trevas quebrou assim que Bellatrix entregou ela.

O cérebro de Harry parou. Seus olhos se arregalaram e seu queixo caiu de modo besta, olhando sem acreditaram para os dois comensais, que tinham sorrisos maliciosos no rosto.

— Gato comeu sua língua, Potter? — Bellatrix provocou, girando sua própria varinha na mão.

— Eu não acredito em você! Voldemort não teria feito isso! — Harry gritou, mesmo sentindo sua garganta explodir.

Ele não acreditava em nada que eles dissessem, Voldemort poderia apenas ter mantido a varinha com ele ou nem ao menos chegou a pegar ela, poderia ter caído na Plataforma 9¾!

— Não fale o nome dele!

— Então me conte a verdade! Você não é a mais fiel de Voldemort? Deve saber tudo o que ele faz! Ah, espere, você nem ao menos sabe onde ele está agora!

— Você não tem permissão para falar dele ASSIM! — Bellatrix gritou, apontando a varinha para Harry em fúria.

— Bellatrix — Malfoy chamou, frio e relutante do canto.

— O que é, Lucius? Vai deixar o Potter falar mal do Lord na nossa cara? Ele merece uma lição! — ela disparou para o cunhado, olhando furiosamente para o moreno.

Harry encarava-a de volta e apertava com força a corda na sua mão.

— Ou você é infiel ao Lord e deixará esse garoto falar mal do Lord? — Bellatrix perguntou cruelmente. — Vamos, Lucius, me deixe dar uma lição nele!

Os olhos de Malfoy se escureceram e se moveram para a porta e depois para Harry.

— Faça, então. Mas eu estou no comando, o Lord me deixou esse posto.

— Sabemos, querido Lucius, que é apenas por que não tinha mais ninguém — ela respondeu, mexendo o cabelo embaraçado.

— Ande logo com isso, não tenho o dia todo — Malfoy disse, se afastando.

Harry desviou os olhos da Lestrange para ele e não conseguiu decifrar seu olhar, então voltou a encarar Bellatrix, que ele conseguiu enxergar o brilho de loucura e satisfação em seus olhos. O coração de Harry se apertou e mesmo ele sabendo o que iria vir, não queria se conformar que iria realmente acontecer.

— Então, isso é a resposta para minha opinião de que Voldemort não confia em você? — Harry falou sem pensar.

O rosto de Bellatrix ficou vermelho e suas sobrancelhas pareciam ter se tornado uma só quando ela franziu-as.

— CRUCIO!

Mesmo não sendo a primeira vez, tudo o que Harry podia entender e pensar era na dor. Mil facas pareciam estar entrando e saindo do seu corpo sem parar, fazendo tudo que já estava dolorido apenas arder mais e agora todas as partes do seu corpo doíam como nunca antes. A cabeça de Harry foi inclinada para trás o máximo que deu e ele fincou suas unhas na palma da mão.

Um grito alto e terrível foi ouvido por Harry e demorou dois segundos para perceber que o grito vinha dele mesmo e não de outra vítima. Ele nem conseguia distinguir a dor da garganta com a dor fantasma das facas, era como se não fosse ele gritando.

— Bella…

— … Aprendeu, Potter?

As mil facas entrando e saindo do seu corpo cessou, nenhuma dor nova, mas seu corpo pedia por um descanso. Harry começou a respirar ofegante e sua garganta parecia estar pegando fogo. Sua cabeça doía tanto que era difícil se concentrar em algo.

— Você entendeu, Potter?!

Bellatrix gritou e enterrou as mãos no cabelo de Harry, puxando sua cabeça para cima, para que ele olhasse-a.

— Ouviu o que eu disse? Você escuta o que eu falo!

— Desculpe — Harry ofegou, tossindo, falando no automático —, mas eu não entendo vacas, só cobras.

— Seu filho da put… CRUCIO!

As facas voltaram a entrar no seu corpo, a dor se multiplicando cada vez mais. Outro grito alto e longo saiu da garganta de Harry, um que parecia vibrar as paredes. Ele tentou morder o lábio para não gritar, mais o grito continuou saindo e ele não tinha forças para detê-lo.

— Agora você vai me ouvir? — Bellatrix perguntou ferozmente.

Harry ficou calado, respirando fundo para recuperar o fôlego. Malfoy ainda estava no canto, sem mostrar reação e parecendo estar entediado. A Lestrange sacudia os cachos bagunçados e tinha um brilho de prazer e fúria ao mesmo tempo. Harry assentiu para ela.

— Muito bem, bebê Potter! Eu não quero você falando o nome do Lord das Trevas ou falando mal dele, você já viu as consequências... — ela sorriu. — E me respeitará, entendido?

— Parece — Harry parou para tossir — que é as regras desse lindo hotel. Vou segui-las com prazer.

— Você é espertinho, quero ver se vai continuar assim quando meu mestre chegar — Bellatrix disse sem reservas.

— Eu só vou estar mais quando o seu querido Voldymorty chegar — Harry respondeu rapidamente.

— Eu acabei de lhe dizer…! — Bellatrix pegou a varinha e apontou para o moreno.

Mas Malfoy colocou a mão no braço da cunhada.

— Está bom por hoje — disse ele. — Amanhã você se diverte mais. O Potter fica sem comida e vai aprender o lugar dele, que é não falar mal do Lord.

— Você devia me deixar só mandar mais um crucio... — ela pediu, abaixando a varinha.

— Não. Vamos.

Bellatrix olhou-o e se aproximou de Harry, sussurrando:

— Pense em fugir ou tentar algo, que sua querida família morre.

Ela sorriu largamente e começou a pular enquanto se afastava, embora Harry tenha olhando em pânico para a comensal.

— Eu capturei Harry Potter! Eu capturei Harry Potter! — Bellatrix começou a gritar.

— Não tente nada, Potter — Malfoy disse, olhando por cima do ombro com superioridade.

Bellatrix abriu a porta ainda pulando loucamente e saiu. Malfoy foi em seguida com a postura reta e tensa. Quando Harry tentou esticar o pescoço para enxergar algo além da luz brilhante, tudo que conseguiu foi uma parede de pedra e depois a porta de madeira se fechando, fechando a sua única luz e saída. A voz da Bellatrix ainda dava para escutar enquanto ela se afastava para longe de Harry.

Harry abaixou a cabeça e fechou os olhos, respirando fundo. Seu corpo inteiro doía e seus machucados abertos antes estavam ardendo mais. Tudo o que Harry queria era estar na sua própria cama no seu próprio quarto, na casa dos seu pais, com seus pais conversando no quarto ao lado. Tudo o que Harry queria era a paz e o conforto que sua família — inclusive amigos — traziam quando estavam juntos...

Parecia que, pela primeira vez, Voldemort ganhara. Harry sabia que as chances de conseguir sair dali, ou ser resgatado, eram mínimas: Voldemort podia ser louco, mas era cauteloso. Ele não deixaria ninguém entrar sem antes autorizar. E agora Harry sabia como era a sensação de ser derrotado. De ser vencido, humilhado. Harry sabia que o Lord só o mataria depois de o fazer sofrer por todo o tempo que passou como um mero fantasma.

Embora o Potter temesse pela sua vida, o que mais o preocupava era como ficaria o resto do mundo se morresse. Sem ele, ninguém poderia matar Voldemort, ele seria imparável e mortal, ele dominaria o Mundo Mágico. O Lord mataria sua família quando anunciasse sua morte e Harry não poderia fazer nada.

Harry respirou fundo e abriu os olhos, se concentrando na luz debaixo da porta, na sua única saída. Ele não deixaria sua família sofrer nenhuma consequência do que ele poderia dizer sem pensar, mas ele não abaixaria a cabeça para Bellatrix. Ele não daria o prazer de vê-lo sofrer e os obedecer.

Harry estava totalmente sem esperança de conseguir sair dali, mas isso não queria dizer que ele não esperava conseguir fugir ou ser resgatado. Qualquer oportunidade ele tentaria fugir. Não seria fácil, mas Harry sabia que sua família não desistiria dele, e ele não desistiria de reencontrá-los.