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Duas semanas antes do Tour de France, 2023
Jonas
Se pedissem à toda a equipe da Jumbo-Visma escolher uma única palavra que poderia ser atrelada ao Richard — nosso chefe —, apostava dinheiro para caralho que, no topo, estaria supersticioso.
No ano passado, ele escolhera um hotel cinco estrelas para a reunião onde a pauta giraria em torno do Tour de France. Depois de muito empenho, finalmente terminamos as três semanas em primeiro lugar na classificação geral.
Como batemos uma meta que era desejada havia muito tempo, Richard decidiu que teríamos as próximas reuniões estratégicas no mesmo local. Todas as vezes que alguém sugeria mudar para um lugar mais perto do nosso centro de treinamento, Richard olhava a pessoa como se pelo menos três gerações da sua família tivesse sido ofendida.
Foi assim que nos encontrávamos em um hotel na Dinamarca, no final de junho.
Isso meio que me lembrava da época da escola. Sabe quando você reencontrava os seus amigos depois das férias de verão? Era o mesmo sentimento.
Às vezes, eu tinha o prazer de pedalar junto a algum outro atleta da equipe em outras competições que não fosse o Tour de France. Em alguns anos, infelizmente, a única oportunidade de participar de uma disputa envolvendo algum atleta conhecido seria somente na TDF.
Antes da reunião começar, tiramos alguns minutos preciosos para colocar a conversa em dia com os trabalhadores. Minha bateria social decidiu descarregar depois de duas horas de interação. Peguei um copo de café e apoiei as minhas costas na parede mais próxima, observando as outras pessoas.
— Ei — Woult me comprimentou casualmente, e sua postura refletiu a minha, parando ao meu lado.
Meu corpo inteiro respondeu a sua voz grossa com pelos arrepiados, bochechas coradas e uma sensação gostosa de frio na barriga.
Sua beleza nunca me passou despercebida. Sempre que eu me encontrava com tédio, começava um jogo estúpido no qual tentava ao máximo catalogar todos os centímetros de seu rosto.
Existia uma teoria em que o sentimento de amor aumentava a sua percepção de beleza em alguém. Devia ser por essa causa que achava os ciclistas no auge de suas belezas quando estavam montados em uma bicicleta; talvez fosse porque eu amava o esporte.
Com Wout, apreciei o quão bonito ele era desde o momento em que o conheci. Possivelmente meu cérebro se apaixonou antes mesmo do meu coração.
Depois que compartilhamos o nosso primeiro beijo, meses atrás, parecia que o belga brilhava intensamente para mim. Gostaria de ser cegado eternamente pela beleza que me tirava o fôlego.
Minha pele coçou com o desejo de sentir o seu calor. Não pensei muito antes de deslizar os meus dedos para se interligar aos seus, e Wout rapidamente distanciou-se do toque.
Foi como se um balde cheio de água e gelo me encharcasse. Nunca senti tanto frio em minha vida.
— Não foi minha intenção. É só que… — Wout rapidamente se desculpou e sua cabeça se inclinou disfarçadamente para as pessoas à nossa volta.
Nossa história de amor não seguiu os passos normais. Wout bateu à porta de minha casa meses depois de se divorciar, declarando-se a mim com muita paixão. Não esperava nada daquilo. Eu fiquei o observando sem conseguir colocar em palavras o quanto estava preparado para esse relacionamento.
Depois de um beijo cheio de dentes e línguas, nós viramos namorados.
Obviamente sentamos para chegar a um consenso sobre ir a público ou não. Para mim, o afeto que sentia pelo belga era tão gigante que necessitava ser dividido com inúmeras pessoas. Por outro lado, Van Aert explicou cuidadosamente que passou muito tempo casado e que, agora, teria que aprender a me amar do jeito correto.
Como um atleta, a paciência seria uma virtude semeada desde o início. Você provavelmente não ganharia em seu primeiro ano como profissional. Andaria de mão dadas com a paciência por saber que em algum momento teria uma medalha em seu pescoço.
Se Wout implorasse para eu esperá-lo enquanto lidava com as suas merdas, faria isso como um leal cachorro aguardando ansiosamente seu dono voltar para casa.
— Está tudo bem — tranquilizei-o, porque podia sentir seu desespero ao escolher as palavras erradas.
O belga timidamente se movimentou um pouco à direita. Nossos ombros se tocavam entre o terno de alta qualidade. Não era a explosão de calor que eu esperava, mas, vindo de Wout, esse pequeno passo significava a possibilidade de, quem sabe um dia, demonstrar para o mundo nossa relação.
[........]
Na prática, as reuniões sobre qualquer competição eram extremamente chatas. Todo ano seguiam os mesmos passos.
Um discurso de cinco minutos sobre a equipe não ser nada sem os trabalhadores dando suor e lágrimas para conseguir atingir os objetivos.
O PowerPoint então entraria em cena. Dez sólidos minutos apresentando os nossos patrocinadores da temporada. O nome e função dos trabalhadores escalados para esse Tour de France; mais inúmeros minutos sobre todas as etapas e finalmente acabaríamos, duas horas depois, com uma página dedicada inteiramente aos ciclistas.
— Ano passado, conseguimos o primeiro lugar com o Vingegaard sendo o líder. Os patrocinadores acreditam que não devemos mudar a equipe que está ganhando. Jonas, por favor, escolha o seu domestique principal — Richard pediu no final da sua apresentação.
A atenção recaiu inteiramente em mim. Senti como se a luz quente de um holofote estivesse apontada para o meu corpo. Suor começou a escorrer desde a minha testa até as minhas costas.
Todos os ajudantes seriam altamente importantes para me levar até a vitória. No entanto, ser escolhido a dedo pelo líder era uma das melhores conquistas que um domestique poderia ter em sua carreira.
Na hierarquia do ciclismo, o líder estaria no topo e, se você fosse o ajudante principal, asseguraria o segundo lugar. Sem contar que suas funções abrangiam muito mais do que somente levar água e comida. Você poderia mostrar todo o seu talento dando passada quando haveria necessidade, começar um breakaway e etc.
Se o líder terminasse entre os três primeiros, o ajudante seria banhado de elogios, tanto da mídia como dos chefes. Sem contar que a probabilidade de conseguir ser o líder em outra etapa aumentaria drasticamente. Todos os domestiques treinavam incansadamente por essa oportunidade. Poderia comparar a um campo de batalha com sangue caindo no chão igual a um rio.
— Van Aert. — Seu nome deslizou da minha língua com uma facilidade impressionante.
Esperava um pouco mais de barulhos de descontamento dos outros seis ciclistas. Mas, no final do dia, Wout deixou a sua marca bem impressa no mundo do esporte. Seria idiotice escolher alguém além dele para ter um papel de suma importância para conquistar a medalha de ouro.
[.......]
— Podemos conversar? — Os dedos de Wout seguraram meu pulso para eu não ir diretamente ao meu quarto depois do término da reunião.
— Claro. E aí, o que aconteceu? — Diminui o meu tom de voz, já que algumas pessoas ainda passavam por nós no corredor.
— Hum… Você não me dominou como o seu domestique principal só porque somos algo, certo? — o mais velho disse extremamente baixo. Seus olhos passaram por todo o corredor para se assegurar que ninguém ouviria a conversa.
Uma das (muitas) características que eu mais invejava nele era a sua confiança inabalável. Tudo poderia estar caindo aos pedaços e ele continuaria com a sua autoestima intocável. Repetidamente, quando a equipe apresentava uma etapa muito ruim e todos estávamos em uma poça de insegurança, Wout assumia o papel de levantar o nosso ânimo.
A incerteza dos seus pensamentos sobre a sua pergunta gritavam silenciosamente para serem escutados.
— Me senti um pouco ofendido porque você pensou que eu colocaria os meus sentimentos acima do ciclismo. Eu não tomei essa decisão baseada em nosso namoro e sim, pelo seu talento. Wout, acho que se qualquer ciclista pudesse te escolher, faria isso num piscar de olhos. Achei magnífico o jeito que as suas bochechas ficaram coradas com o elogio. — Lembra o que te disse quando te conheci? — perguntei suavemente.
— Como poderia? Você fez um discurso muito apaixonado. Não vou negar, você soube acariciar muito bem o meu ego expondo que eu era o melhor ciclista do mundo. — Seus olhos brilharam com o carinho daquela memória.
— O pensamento vai continuar eternamente. Eu tenho a sorte grande de te chamar de companheiro de equipe, amigo e, por acaso, namorado. Antes de te respeitar como meu cônjuge, te respeito como ciclista. — Rezei para Wout acreditar em cada palavra proferida, porque eu nunca mentiria sobre a minha admiração envolvendo o ciclismo.
— Jonas, poderia voltar aqui por cinco minutos? Um dos nossos investidores gostaria de te conhecer. — A voz imponente do nosso chefe viajou através do grande corredor.
Fiz um gesto de arma com os meus dedos e coloquei do lado da minha cabeça.
O belga deu uma risada nasal, despedindo-se de mim.
Semana 1
Nas minhas primeiras corridas profissionais, o suco do meu estômago se encontrava no chão mais vezes do que eu gostaria. A ansiedade sempre estava no seu pico mais forte, junto com as inúmeras dúvidas que não me deixavam dormir apropriadamente.
Aprendi do jeito mais brutal a amar o ciclismo com a mesma intensidade que o odiava.
Atualmente, parado na primeira fila, observando os números amarelos diminuírem a cada segundo para dar início às três semanas de inferno, meu estômago embrulhado significava entusiasmo.
Virei minha cabeça e me deparei com Wout ao meu lado. Como seu namorado, era óbvio que me sentia atraído por ele. No entanto, penso que agora foi o auge daquele sentimento. Seus olhos gritavam para todos sua vontade imensa de destroçar seus inimigos até não sobrar nenhum pingo de carne em seus ossos.
Comecei a pensar em minha avó para as veias do meu pênis não dobrarem do tamanho. Não gostaria de estampar uma foto em um jornal qualquer com uma ereção, muito obrigado.
Toda vez que um ciclista era contratado por uma equipe profissional, era de suma importância trabalhar no relacionamento com seus companheiros. Hoje, eu podia colher os frutos disso.
Com nosso elo, não havia necessidade de abrir o rádio da equipe para discutir estratégias. Bastava um olhar para compreendermos os próximos passos. Como nossa atenção não seria cortada pelas conversas no ouvido, podíamos focar cem por cento na corrida.
Lá pelo meio da corrida, meu ombro começou a doer pela tensão que meu corpo carregava. A primeira etapa era montanhosa, então o breakaway aconteceria em uma ladeira para cansar os ciclistas e fazê-los ficar atrás do pelotão.
Eu sempre estava em alerta máximo para quando, menos esperasse, algum ciclista começasse um breakaway. Meu trabalho, assim como o de Wout e de outros ciclistas bons nessa situação, consistia em acompanhar esse pelotão e não ficar para trás.
Quem não acompanhava o ritmo estabelecido, morreria. Você terminava a sua corrida antes mesmo da linha de chegada.
Obviamente, eu poderia chegar entre os dez primeiros se estivesse sozinho no breakaway. No entanto, minha vida seria muito mais fácil se van Aert estivesse colado a mim para me ajudar. Como meu Domestique principal, era imprescindível que ele me acompanhasse.
Um dos ciclistas da UAE iniciou o breakaway. Com uma passada explosiva, consegui me juntar ao pelotão da frente depois de cinco minutos de muita luta.
“Porra, porra, porra! Wout ficou para trás! Sepp, você fica com o Jonas!” Nossos chefes gritaram no rádio.
Sepp entrou na minha frente para diminuir o vento que vinha diretamente em meu corpo. Eu gastaria menos energia e poderia utilizá-la para dar um gás no final.
Por mais egoísta que parecesse, você se concentrava tanto em sua corrida que a preocupação com seus companheiros virava fumaça. Sepp foi um ajudante perfeito, definindo o ritmo certo para que eu cumprisse meu papel como líder. Comemorei o primeiro lugar abraçando fortemente Sepp, agradecendo sua assistência. Richard e nosso gerente esportivo gritaram eufóricos, me parabenizando.
Depois de algumas entrevistas, tanto eu quanto meu companheiro de equipe fomos para a bicicleta ergométrica ao lado do nosso ônibus para começar o cooldown. Todos os outros cinco ciclistas se juntaram a nós depois que terminaram a etapa.
Franzi a sobrancelha ao pensar em Wout. Geralmente, ele seria um monstro em qualquer etapa que envolvesse montanhas. Era muito incomum o fato de ele ser o ciclista com o maior tempo em nossa equipe. Como poderia ser ultrapassado por atletas que têm as montanhas como ponto fraco?
A raiva do belga irradiava em suas feições fechadas e seus passos firmes indo ao nosso encontro. Ele rapidamente cumprimentou todos da equipe e subiu na bicicleta ao meu lado.
— Parabéns pela boa corrida. — Apoiei três dedos em seu ombro, que logo se tornaram extremamente tensos.
Seu desempenho não chegou nem perto do que esperávamos. Wout finalizou a corrida na posição cinquenta entre cento e setenta ciclistas. No entanto, poderia ser bem pior. Às vezes, precisamos ver a situação com um olhar positivo.
— Só você, Richard e os outros caras acham isso. Essa corrida foi uma merda completa. — Wout me olhou com uma expressão puramente azeda.
— Tudo bem, essa etapa não foi como todos nós gostaríamos para você. Mas amanhã é outro dia e teremos outra oportunidade de…
— Primeiro, poderia tirar a sua mão do meu ombro? Segundo, eu não estou com um pingo de vontade de conversar. — O belga me interrompeu rude, com uma expressão fechada.
Meus dedos imploravam para continuar tocando Wout. Sussurrei palavras doces enquanto me afastava da pessoa que eu amava. Meu coração se partiu um pouco mais pela rejeição dupla, tanto como colega de equipe quanto como namorado.
— Ok, eu vou ficar em silêncio. — A dor se fez presente quando um nó se formou na minha garganta.
Fisicamente, van Aert estava a centímetros de mim. Emocionalmente, a quilômetros. Por mais que eu queimasse os meus pensamentos para encontrar uma solução de como me aproximar, nada parecia ser bom o suficiente. Mesmo que eu corresse, pedalasse, ou me rastejasse, seu corpo continuaria a milhas de distância.
O sabor da vitória rapidamente se amargou com a dor latejante do meu coração.
[...]
— O meu quarto tem uma cama de casal. Quem diria que existem tamanhas vantagens em ser o líder? Se quiser compartilhá-la, sabe qual é o número do meu quarto. — Deslizei o meu dedo para mandar o áudio para Wout.
Rastejei para a cama depois de uma ótima sessão de fisioterapia. Configurei meu despertador para às oito da manhã, pois nossa equipe levava o sono muito a sério.
Depois de cinco minutos agonizantes no escuro, esperando pelo barulho da minha porta sendo aberta, decidi verificar se meu namorado tinha visualizado minha mensagem. Com um suspiro triste, observei os dois pontinhos indicando que ele tinha visto a mensagem.
A cama permaneceu gelada como o meu coração naquela noite.
[...]
— Bom dia. Encomenda especial para Jonas Vingegaard. — Wout colocou sua mão fechada na minha frente, falando baixo para não atrapalhar as outras pessoas da equipe que estavam tomando café da manhã; van Aert puxou sua cadeira, que produziu o mínimo de barulho ao ser arrastada no chão. O belga deu um sorriso de desculpa para os outros membros da equipe.
Wout abriu os dedos. Na palma de sua mão, eu pude ver uma barra de chocolate 90% cacau que eu simplesmente adorava. Me apaixonei um pouco mais pelo meu namorado. Ele trouxe uma barra de uma marca bem específica, provavelmente precisou comprá-la pela internet ou sair do hotel para encontrá-la.
— Como? — Perguntei, extremamente curioso. Olhei para os lados para verificar se alguém tinha me visto deslizando a comida para o bolso da minha calça.
Nosso plano alimentar era extremamente restrito. Se algum nutricionista nos visse comendo algo fora da nossa dieta, certamente receberíamos uma palestra super longa.
— Uber Eats é uma coisa, sabe? — O ciclista zombou de mim carinhosamente. — A loja não vendia só uma unidade. Se quiser, tenho uma caixa cheia de chocolates no meu quarto. — Wout se aproximou do meu ouvido como se compartilhasse um segredo.
— Achei muito atencioso da sua parte. Não precisava se esforçar tanto por causa de um chocolate. — No momento em que dei a primeira mordida, soltei um gemido nada discreto.
— Claro que precisava. Esse é o meu modo de pedir desculpas por ontem. Fui muito babaca com você depois da corrida. Estava nos meus planos compartilhar o quarto, mas não estava no meu melhor humor. Desculpa por não ter dado uma explicação ou respondido sua mensagem. — van Aert se desculpou sinceramente por suas ações.
Ele me lembrou um cachorro que, ao fazer algo errado, se arrasta arrependido para seu dono. A palma de sua mão em contato com minhas costas trouxe o calor reconfortante que eu tanto desejava da sua presença.
— Desculpas aceitas. Quer um pedaço? — Inclinei a barra de chocolate.
— Não, pode ficar, eu sei o quanto você gosta. — O belga me olhou com tanto carinho que meu peito quase transbordou de amor. — Jonas, você já sentiu que não era você mesmo? Que tudo está fora do lugar? — disse o ciclista, todo sério.
— Talvez quando comecei no ciclismo profissional. Por quê? — Para ser sincero, não esperava uma conversa tão filosófica às sete da manhã de um sábado.
— Não sei muito bem como explicar. — Wout deu de ombros, roubando um pedaço do meu chocolate.
— Está tudo bem. Quando souber, estarei aqui. — O tranquilizei, colocando a minha mão em cima da sua.
— Cinco minutos para a reunião começar! — Richard gritou antes de desaparecer.
[...]
Parado para começar a etapa, minhas coxas já imploravam por misericórdia, pois seria um banho de dor nas próximas horas. Na marca de 170 quilômetros percorridos, todos os ciclistas da Visma estavam em fila, um atrás do outro, formando um trem para me dar suporte.
Em um segundo, Wout era o último na fila; no próximo, um atleta se inclinou um pouco para a esquerda, fazendo com que as duas rodas se chocassem e ambos caíram no asfalto duro.
“Wout, você está bem?” Richard perguntou preocupado pelo rápido da equipe.
“Sim, eu preciso de uma bicicleta. Vocês poderiam trazer o carro médico para cá? Minha coxa está sangrando muito, mas eu consigo continuar a corrida.”
Soltei um suspiro que nem sabia que estava segurando nesses pequenos segundos de pura tensão. Nesse momento, me dei conta que não saberia classificar qual era a linha tênue entre me preocupar com Wout como colega de equipe ou namorado.
Logicamente, a queda dele não deveria me impactar tanto. Merdas aconteciam em competições. Por mais brutal que parecesse, eu infelizmente deveria focar exclusivamente na minha meta de chegar em primeiro, com Wout ao meu lado ou não.
Emocionalmente, eu gostaria de parar de pedalar, ir ao seu lado e perguntar se estava bem. Esperaria ele subir na bicicleta e cruzar a tão desejada linha de chegada com Wout ao meu lado. Não me importaria com a classificação geral, apenas em fazer companhia para meu namorado em um momento ruim.
Meu coração e cérebro se digladiavam com tanta força que o barulho das suas espadas estava prestes a tirar toda a minha concentração.
O meu coração fora proclamado vitorioso, cravou a sua lança no meio do meu cérebro. O metal saiu cheio de sangue. As minhas pernas começaram a diminuir o ritmo.
“Jonas, não diminua o ritmo. Você é um monstro. Sepp vai te ajudar a continuar com a camisa amarela. Vamos, vamos, vamos”, Richard energicamente me incentivou pelo rádio.
O cérebro se levantou, afundou a lança em uma artéria do meu coração. Com um grito de dor, dedos bateram urgentemente na areia reconhecendo a sua derrota. Era o fim da luta.
Voltei a pedalar com um único pensamento em minha cabeça: ganhar. Nada bloquearia o meu plano, nem van Aert.
[...]
— Sinto muito pelo seu acidente. Você estava tendo uma etapa muito boa. — Levantei meu punho para o comprimentar o belga depois que terminou a corrida. — Está doendo? — Apontei para sua coxa com um curativo pintado de vermelho.
— Tenho certeza de que meu orgulho está doendo mais que minha pele. Foi um erro de principiante. — Meu colega deu uma risadinha de vergonha. — Parabéns por continuar com a camisa amarela. — Wout se inclinou para me dar um breve abraço.
Ele continuou andando ao lado de seu preparador físico. Wout desapareceu ao entrar no ônibus, provavelmente para tratar de seu machucado. Deixei os pensamentos tomarem forma ao continuar as pedaladas.
O seu comportamento estava beirando a algo bem incomum. Primeiramente, esperava que Wout se fechasse completamente depois de uma etapa mais desastrosa, contudo, ele foi um adulto maduro e não descontou suas frustrações em mim.
Para muitos, um abraço poderia ser considerado algo comum; para mim, sabendo que o belga não era favorável ao afeto físico, me surpreendi com sua ação.
No topo das coisas que deixavam Wout desconfortável, cito qualquer interação envolvendo possíveis mínimas gotas de suor. E o cara simplesmente me abraçou depois de uma corrida de cinco horas? Claro que minha cabeça quase explodiu.
Se o mais velho jogasse migalhas de afeto, eu seria como uma galinha, beliscando com satisfação.
[...]
Demorei longos segundos para perceber que a porta do meu quarto estava se abrindo. O sono deixou um enorme rastro em meus sentidos.
— Desculpa te acordar. A oferta para dividir a cama ainda está de pé? — Meu namorado murmurou, empenhando-se ao máximo para ficar o mais quieto possível.
— Hm. Sempre. — Não tive certeza se grunhi ou se palavras foram realmente proferidas.
Ouvi o mais velho retirar os tênis antes de subir na minha cama. O edredom foi puxado para seu corpo se colar ao meu. Seus dedos passaram ternamente pela minha pele — por baixo do meu pijama — para me manter aquecido.
— Boa noite, Jonas. — A sua boca encontrou meus lábios tão brevemente que pareceu um toque fantasma.
A cama continuou aquecida como o meu coração naquela noite.
[...]
Tanto eu quanto a equipe poderíamos dizer que a primeira semana do Tour teve mais pontos altos do que baixos. Faltava apenas um dia para completar os sete dias, e achava improvável acontecer algo tão ruim que mudasse nossa visão. Infelizmente, van Aert não compartilhava do mesmo sentimento. Perguntei-me em alguns momentos se alguém fez um boneco de vudu, por toda a má sorte que o homem carregou nesses últimos dias.
Todos os dias ele ainda sorria depois de chegar ao final da corrida. Era óbvio que estava se empenhando para ser o mais respeitoso comigo, tanto como atleta quanto como meu companheiro. Ele ainda dormia comigo para obter pelo menos oito horas de sono religiosamente. Era claro que suas emoções estavam bem embaixo da pele. Seria questão de tempo para sua frustração explodir como uma dinamite e limpar tudo ao seu redor.
Em geral, as etapas de sprint eram bem chatas. Os ajudantes deveriam começar a colocar seus sprinters em uma boa posição só no final da corrida. Isso resultaria no pelotão junto durante cinco horas de corrida. Eu carinhosamente chamava esses dias de “colocar a fofoca em dia”. Seria o momento ideal para conversar com os ciclistas de outras equipes.
— Wout, e aí? Faz tempo que eu não te vejo. — Jasper levantou o seu punho para comprimentar van Aert.
— Só não tivemos sorte de correr juntos. Como foi a sua temporada?
— Poderia ser melhor, poderia ser pior. — Jasper deu de ombros. — Vi que você foi obrigado a sair do Giro da Itália por um acidente, o que aconteceu? — Seus olhos gritavam a vontade de saber todos os mínimos detalhes.
— Lugar errado na hora errada, sabe como é. Uma clavícula quebrada e algumas costelas para fazer companhia. — Wout fechou os seus olhos, como se reviver a memória fosse infernal.
— Oi, Jonas. Desculpa não conversar com você antes, não te vi. — O ciclista me cumprimentou balançando a cabeça, e fiz o mesmo. — Espera um pouco. Jonas, você não quebrou sua clavícula e costelas esse ano? Foi combinado? Para vocês ficarem com cicatrizes iguais? Como dois namorados? — O ciclista começou a rir sozinho de sua própria piada.
Nunca ouvi uma risada tão desconfortável na vida igual a que Wout soltou.
— Infelizmente, preciso ajudar os meus companheiros. Foi bom falar com vocês. — Jasper se desculpou, saindo do nosso lado.
Um momento de silêncio constrangedor recaiu em nós.
Não pensamos muito sobre como seria a logística de avançar tão rapidamente de colegas de equipe para namorados. Um amava o outro, isso não era o suficiente? Pelo jeito, não. Eu sabia mais do que ninguém que, no momento em que o escolhesse como namorado, nossa relação mudaria. Não poderíamos reparar os danos e voltar ao que éramos.
Sentia uma falta do caralho da nossa amizade. As noites gastas com uma xícara de chá ou café, dependendo da estação, conversando horas a fio sobre nossos maiores sonhos, medos e o que esperávamos do futuro.
Meu coração e cérebro o marcaram como um local seguro. Minhas emoções estavam em todos os lugares possíveis depois da nossa relação mudar. Todos os casais já tiveram um momento que o relacionamento foi colocado à prova, e, infelizmente, vivíamos o nosso.
Uma das causas da Tour de France ser categorizada como a competição mais importante do ano era porque ela destruía os nossos corpos e mentes. Ao término dos vinte e três dias, havia muita dúvida se conseguiríamos voltar a nossa saúde completa. Por mais que você se dedicasse cem por cento em seu treino, jamais seria o suficiente. Em algumas etapas, bastava olhar o ângulo das montanhas para o seu cérebro implorar para desistir.
Porque continuar sofrendo? Seria muito mais benéfico desistir.
No entanto, a chave do sucesso para os atletas não seria o treino, muito menos o seu talento, e, sim, o quanto você se sacrificaria para deixar a dor te consumir.
E, no momento, acreditava que o meu relacionamento com Wout poderia ser comparado ao TDF. Depois das dúvida cruel que comia seu cérebro sobre se você seria forte o suficiente para chegar até o fim, o sentimento de calmaria e agradecimento inundava o seu ser no momento em que acabava as etapas e se dava conta que os prós sempre seriam maior que os contras.
Voltando a Tour não metafórica, van Aert conversou com inúmeros ciclistas, não comigo.
Wout estava muito bem posicionado para o sprint; no entanto, nos últimos segundos, um ciclista que ninguém estava de olho fez um breakaway e ganhou a etapa. O belga jogou sua garrafinha no chão, deixando transparecer o sentimento de pura raiva ao ver a confirmação do segundo lugar.
Não tive coragem para falar com ele, muito menos com os outros ciclistas ou trabalhadores da Visma. Era claro como cristal o quanto o Wout estava puto. Se ele precisava de espaço para lidar com o que foi a gota d'água de sua semana mais que ruim, assim seja.
[...]
Wout dormir comigo naquela noite, com toda certeza do mundo, não estava em meus planos. Mas deixe-me dizer que foi um eufemismo a palavra "dormir". A cada segundo escutava seu corpo remexendo na cama. Pode me chamar de chato ou algo parecido, mas eu levava meu sono muito a sério.
— Querido, eu realmente quero dormir. — Reclamei com meu namorado quando ele decidiu mexer no celular. A luz vinda do seu iPhone complicou, e muito, meu processo para dormir.
— Me desculpa. Minha cabeça está a mil por hora. Quer que eu saia? — Wout perguntou, desligando a tela do seu telefone.
Por mais que preferisse fazer qualquer coisa do que conversar sobre as suas emoções, jurei para mim mesmo que trabalharia em nosso relacionamento, tanto como colegas de trabalho como namorados.
Hoje foi a primeira vez que o belga deu a entender que gostaria de falar sobre as suas lutas externas e internas. Se ele se esforçou para ser comunicativo, o mínimo era seguir os seus passos, mesmo que ele escolhesse um horário de merda.
— Não precisa. Gostaria de falar sobre isso?
Senti seus dedos fazendo uma pequena pressão em cima dos meus.
— Tudo parece completamente errado. Pode ser egoísta, mas, porra, eu estou acostumado a ganhar, ou chegar entre os três primeiros. Nunca tive um Tour de France tão ruim assim. Essa semana, eu comecei a duvidar do meu talento como nunca antes.
Para mim, chegava a ser engraçado que um dos melhores atletas do nosso esporte duvidasse de suas habilidades. Era uma pena observar o quão duro Wout poderia ser consigo mesmo.
— Wout, você faz parte dos três melhores ciclistas do Tour de France desde 2022. Tenho certeza que todos, inclusive eu, morreríamos para ter dez por cento do seu talento. Quando você está pedalando com cinquenta por cento da sua capacidade, tenha certeza que é o equivalente a todo o desempenho dos outros.
— Jonas, pelo amor de Deus! Eu estou na sua cama depois de todas as obrigações de ser um ciclista. Gostaria de ser confortado como seu namorado, e não como seu colega de trabalho. — O belga deixou a sua decepção bem clara.
Por mais cruel que fosse, senti um alívio ao perceber que o belga lutava tanto quanto eu para identificar a linha tênue entre trabalho e romance. O medo se apossou do meu corpo ao ver van Aert saindo da cama e calçando seus chinelos. Não sabia se ele voltaria a ser aquele homem que ergueu todas as suas barreiras no início desta competição.
— O plano não era falar sobre isso? Para onde você está indo? — Rolei o meu corpo para o final do colchão. Wout me encarou por meros segundos ao sentir meus dedos se fecharem em seu pulso.
— Vou para a academia. Porra, eu realmente preciso queimar essa energia nervosa. Daqui a uma hora, se você ainda quiser, pode me encontrar lá. Já adiamos essa conversa por muito tempo. — Wout prometeu, dando um beijo na minha bochecha.
No quarto silencioso, enfiei meu rosto no travesseiro e soltei um grito preso no fundo da minha alma. Liguei o despertador para garantir pelo menos uma soneca.
A última coisa com que me preocupei foi a escolha das roupas para sair do quarto. Vesti uma camisa surrada da Visma, chinelos e um short que mostrava mais pele do que deveria. Só por via das dúvidas, enrolei um edredom nas costas.
Os músculos de suas costas se flexionavam tão lindamente enquanto ele fazia flexões. Não vou mentir, eu poderia passar horas observando suas veias saltadas e, por mais estranho que pareça, gostaria de sentir o sal na minha língua de cada pequena gota de suor que dançava em seu corpo.
Limpei a minha garganta para anunciar a minha presença. Wout levantou do chão e apontou para onde uns tatames colocados no chão.
— Por favor, coloque uma camisa, você está me distraindo. — Peguei a peça de roupa e joguei-a em seu tórax muito bem definido.
O mais velho deu um sorriso sacana e começou a flexionar seus bíceps.
— Eu te odeio. — Resmunguei antes de me sentar. Segundos depois, e trajado com camisa, Wout me acompanhou.
— Sempre consegui manter um equilíbrio entre meu trabalho e minha vida pessoal. Quando eu ainda era casado, deixava as preocupações sobre minhas competições do lado de fora. Com a Sarah, eu me via mais como um ser humano do que como um ciclista. Jonas, por mais que eu tente, não consigo fazer o mesmo com você. — Suas palavras honestas perfuraram meu coração, deixando uma dor profunda e sangrando internamente.
Como era aquela famosa frase? Precisava doer para melhorar.
Eu tinha plena consciência de que ainda estava na fase de descobrir todas as nuances do nosso relacionamento. Dediquei muita energia e tempo para mostrar a Wout que ele poderia se sentir seguro comigo, mas, pelo visto, não adiantou de nada.
Eu odiava fracassar, tanto na vida quanto no esporte, e van Aert deixou isso bem claro.
— Ei, ei, ei, você pensa muito alto. Por mais clichê que seja, o problema sou eu, e não você. — O mais velho inclinou minha cabeça para dar um beijo na minha testa.
— Sei. — Não me senti muito seguro com a sua afirmação.
— Estou falando sério. Ainda não sei como desligar o meu cérebro para ser somente seu parceiro. Sempre que te vejo, só penso que estou fazendo um trabalho de merda como seu ajudante. Como você consegue apagar todos os meus erros no ciclismo e me beijar como se eu fosse digno o suficiente? — Suas palavras se quebraram na última parte.
Meu coração chorou pela sua dúvida sobre o quanto eu o amava como pessoa e não como ciclista.
— Posso te contar um segredo? Na calada da noite, penso em desistir do ciclismo só para ter a oportunidade de passar vinte quatro horas te beijando. — Meu coração se curou um pouco ouvindo sua pequena risada.
— Esse relacionamento é totalmente novo para mim, preciso aprender a te amar novamente como meu cônjuge e não como colega de equipe. E no momento, não sei como fazer isso de um jeito saudável. Então sim, é uma situação interna minha. — Meu namorado finalizou seus pensamentos.
— Por incrível que pareça, eu também faço parte dessa relação. Preciso me ajustar nesse caos tanto quanto você. Vamos dar pequenos passos, ok? Eu não vou a lugar nenhum. — O tranquilizei ao dar um pequeno beijo em seus lábios.
Seus lábios perseguiram os meus com uma euforia de outro mundo.
Vendo nossos corpos colados pelo espelho da academia, não poderia dizer o que o futuro nos reservava, mas, independentemente de tudo, ficaríamos bem.
Semana 2
Eu respeitava muito os trabalhadores da Visma. Isso, porém, não era suficiente para me fazer prestar atenção nas inúmeras reuniões sobre o Tour. Seria apenas copiar e colar dos anos anteriores.
— Vamos para a próxima pauta da reunião: van Aert como ajudante principal de Vingegaard. — Desliguei a tela do meu celular e levantei rapidamente a cabeça.
Senti-me novamente como um aluno. Lembra quando seu professor perguntava algo e você não tinha ideia de como responder, porque estava mais focado em qualquer outra coisa do que na explicação à sua frente?
O primeiro slide do PowerPoint mostrava a diferença de tempo entre Wout, eu e o resto da equipe. Ele ficou em último em todas as etapas. Se já estava ruim no começo da apresentação, depois foi só ladeira abaixo.
A equipe dissecou cada pequeno objetivo que ele não atingiu enquanto era meu Domestique durante uns quarenta minutos. O desconforto de Wout era tão evidente que até eu, que não tinha nada a ver com a história, queria sair daquela sala para ter a oportunidade de respirar.
Um dos slides expunha, sem pudor algum, o salário de Wout nessa temporada, dando a entender que, no momento, ele ganhava mais do que merecia.
Quase chorei pela humilhação que van Aert sofreu perante todos os membros.
No final, houve um discurso muito firme envolvendo os nossos patrocinadores. Eles nos pagavam exclusivamente para obtermos resultados. Qualquer coisa abaixo de uma vitória em etapas ou um bronze na classificação geral seria inadmissível.
Por mais cruel que fosse, qualquer atleta profissional poderia ser descartado com uma facilidade incrível. Você só era valorizado no momento em que marcava pontos ou seu nome se destacava entre tantos outros; se não atingisse esse patamar em algum ano, seria substituído por outra pessoa.
Sua vida inteira se resumiria à sua última competição. Não importava se desde o começo da carreira tivesse massacrado os outros competidores sem piedade.
Não consigo começar a explicar o quão problemática essa linha de pensamento é. Inúmeras variáveis estão atreladas à sua performance. Talvez seja o tempo, a sorte, alguém que caiu na sua frente, entre outros fatores. O esporte em si não depende apenas do seu talento.
No mundo dos atletas profissionais, não há compaixão. Um argumento disso é a quantidade de remédios tarja preta que os profissionais compram anualmente.
— Vingegaard, a equipe acha mais seguro mudar seu ajudante principal. De van Aert para Kuss. O que acha? — A pergunta me pareceu tão absurda que meu cérebro demorou alguns segundos para compreender.
Por que eles acharam uma boa ideia rebaixar um dos, senão o melhor ciclista desta geração? A Visma deveria dar graças a Deus por ter a oportunidade de trabalhar com o talento extraordinário de Wout.
— Com todo respeito a quem tomou essa decisão, mas ela é completamente idiota. — Ouvi um silêncio de total choque. Era esperado, afinal, quem teria coragem de confrontar o seu chefe, ainda mais em público?
Ao meu lado, vi as mãos de Wout se movimentarem para tocar minha perna, mas logo ele desistiu. Ele soltou um suspiro aliviado. Talvez estivesse pensando que eu o jogaria debaixo do ônibus como fizeram nossos chefes.
— Quero lembrá-los que ao longo do ano passado, van Aert foi fundamental em inúmeras etapas. Claro que sou muito grato aos outros membros da equipe, mas todos sabem que ele salvou minha classificação geral mais vezes do que gostaríamos. Wout foi crucial para nossa primeira vitória. — Algumas pessoas balançaram a cabeça concordando com minhas palavras.
O belga tremia tanto que me preocupei que ele começasse a chorar.
— Richard, você não me deu o poder de escolha sobre este assunto? Eu sempre vou escolher o Wout. Ele é um dos melhores ciclistas da atualidade. Uma semana ruim não muda isso. — Apontei minha visão respeitosamente.
— A diretoria é totalmente contra manter van Aert em sua posição atual. Espero que você tenha feito a escolha certa, porque senão, ouvirá bastante dos nossos patrocinadores. Isso pode afetar muito nossa reputação. — Richard me lançou um olhar tão gélido que arrepiou todos os pelos.
[...]
Andava de um lado para outro no meu quarto de hotel, agarrando meu celular como se fosse questão de vida ou morte, esperando uma mensagem de Wout. Depois da reunião desastrosa, ele pediu — visivelmente abatido — se poderia passar em meu quarto depois de tomar banho.
Depois de dez minutos bem agonizantes, ele me informou que chegaria nos próximos cinco minutos.
Ok, pensei, agora era hora de suprimir e guardar todos os sentimentos negativos em caixas, focando exclusivamente em meu namorado.
Mesmo que eu estivesse me despedaçando, minha missão hoje seria juntar todos os pedaços do belga. Se necessário, renunciaria às minhas próprias partes.
Wout sacrificou-se por mim continuamente. Seria educado retribuir o gesto durante uma noite.
— Boa noite. — Dei um beijo casto em seus lábios ao fechar a porta do meu quarto.
— Noite. — Ele respondeu arrastado, como se falar essa única palavra gastasse demasiada energia.
Deitamos na posição favorita na cama: meus dedos apertando sua cintura até as marcas aparecerem. Sua cabeça se apoiou em meu peito para me ouvir. Aplaudi sua força emocional. Contei até setenta antes de suas lágrimas caírem livremente sobre minha pele. Como um bom namorado, não disse uma única palavra. O quarto se encheu com seus soluços, lamentações e olhos vermelhos.
— Me desculpa. Geralmente sou mais emocionalmente equilibrado que isso. — Meu namorado pediu desculpas timidamente após terminar sua sessão de choro.
— Wout, eu ficaria realmente preocupado com sua saúde mental se você não chorasse depois do show de merda que aconteceu hoje. — Ele deixou escapar um pequeno som de descontentamento.
Parei brevemente de acariciar seus cabelos para beijar a sua testa. Ele cantarolou com satisfação.
— Eu estou cansado para caralho. Psicologicamente, emocionalmente e fisicamente.
— Você sabe que não precisa continuar com isso, certo? Desista se for muito.
— Tá brincando? A Visma acha que vou quebrar sob pressão. Nem fodendo vou dar essa satisfação! A partir de amanhã, vou me transformar no melhor Domestique que essa equipe já viu. Quero que engulam as palavras. — Eu conseguia vislumbrar uma pequena fagulha de determinação dançando em suas pupilas.
Me lembrava dos segundos antes de começar uma competição. Ele se transformaria em um monstro completo, caçando suas presas uma por uma.
Para mim, era como matar dois coelhos numa cajadada só. Wout afirmaria mais uma vez que merece estar nesse time, e eu, por fim, mostraria que tomei a decisão certa ao deixá-lo como meu ajudante principal.
[...]
Quando nos conhecemos, Wout me chamou de minúsculo. Claro, não com o intuito de me ofender.
Primeiro de tudo, van Aert possuía um metro e noventa centímetros, enquanto eu tinha apenas um metro e setenta e cinco. Ou ele abria as pernas para que eu conseguisse beijá-lo confortavelmente, ou eu me contentava em pisar em seus tênis. Isso dependia muito do nosso humor.
Comparando os nossos corpos, me sentia como uma galinha desnutrida. Sério, chegava a ser ridículo o fato que suas coxas e bíceps eram o dobro dos meus.
Na primeira vez que Wout me deu permissão para friccionar o meu pênis naquelas coxas bonitas para caralho, descobrimos simultaneamente a minha tara envolvendo diferença de tamanho. Nunca gozei tão forte em toda a minha vida.
Adorava tomar meu tempo catalogando cada centímetro do corpo do meu namorado. Para mim, ele era meu Deus particular. Eu não mediria esforços para deixar isso bem claro por meio de toques, principalmente naqueles músculos mais salientes.
Um dia, depois de uma sessão intensa — e extremamente satisfatória — de sexo, meu namorado se perdeu em sua própria psique. Ele sempre tomou o máximo de cuidado para não jogar todo o seu peso em cima do meu corpo, porém, naquele dia, eu fui praticamente esmagado.
E que sensação boa da porra. Foi como se minha alma fosse totalmente limpa. Nunca comentamos o fato que gozei intocável somente com aquela situação.
Eu me sentia extremamente seguro ao lado dele, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Quando Wout se posicionava na minha frente durante uma corrida para me proteger, ele se dedicava cem por cento a isso. Seus ombros eram minha muralha pessoal.
Nessa segunda semana, van Aert levou muito a sério sua missão de me proteger. Senti-me como um castelo, e ele era a única barreira entre mim e a conquista de nossos inimigos.
A cada etapa, ele matava a sangue frio todos que procurassem chegar a mim. Honestamente, não sei de onde ele tirou tanta energia para ser o único a me proteger, mas nunca vacilou.
No final daquela semana, os corpos abatidos de nossos inimigos formavam uma enorme pilha. Por mais bizarro que parecesse, achei extremamente sexy ele banhado de vermelho da cabeça aos pés.
Ele não pensaria duas vezes antes de retirar corações com as próprias mãos se isso significasse que ninguém me tocaria.
Sete etapas, sete primeiros lugares.
Depois de receber inúmeros elogios pela semana perfeita que a equipe teve, não vou negar, nos próximos dois dias de pausa da Tour, eu e Wout não saímos do quarto.
Semana 3
— Esta etapa consiste em sprint. Por favor, não vamos nos desgastar antes do necessário. Nossa prioridade continua sendo a classificação... — Olhei confuso para meu chefe. Noventa e nove por cento das vezes, almejamos o primeiro lugar com van Aert.
— Desculpe, Richard. Por que os planos mudaram de repente? No começo da Tour, combinamos que em todas as etapas de sprint eu iria para a vitória. — Wout levantou a mão ao interromper a palestra.
— Estamos atrás da camisa amarela. No momento, você é mais valioso como Domestique do que ganhando sozinho. — A sua explicação foi vagarosa, como se Wout não tivesse capacidade suficiente de entender o básico.
— Ajudá-lo com o que exatamente? — o belga cruzou os braços. — Há uma diferença de um minuto entre nossa equipe e a UAE. O Tadej não é um sprinter, ele nem vai chegar em primeiro lugar. — van Aert fez o possível para manter a voz em um tom respeitoso.
— Os patrocinadores estão atrás de uma medalha de ouro nos sprints e nada menos. Duvidamos que, no momento, você poderá realizar esse feito. Agora, vamos para outro tópico mais importante. — O nosso diretor não deu nenhum espaço para Wout continuar a conversa.
Como qualquer atleta profissional, Wout se orgulhava imensamente de sua carreira. Se qualquer pessoa falasse mal do nosso talento, nos transformaríamos em verdadeiros demônios.
— Desculpe a interrupção. Em que você baseou esse pensamento? Vamos voltar à semana passada? Todos os outros membros da equipe participaram do pelotão. Eu fui o único que acompanhou o Jonas até a linha de chegada. Vocês estão subestimando minha habilidade, e isso me desagrada.
Naquele ponto, todos os trabalhadores estavam entretidos com a discussão, inclusive eu.
— van Aert, quero relembrar que o seu contrato é para Domestique, e não para líder. Você tinha plena consciência que, se fosse necessário, sacrificaria a sua vitória solo para dar um suporte ao Jonas. Não adianta reclamar quando assinou um acordo. Se está insatisfeito com a situação, há muitas outras equipes no mercado.
Wout sacou que era a hora exata de calar a boca para não ser demitido.
[...]
Na maioria das vezes, meu namorado aproveitava cada segundo pedalando. Hoje, infelizmente, não posso dizer o mesmo.
— Eu acho que você vai me odiar nas próximas horas. Espero que me perdoe. — O belga apareceu ao meu lado, resultando em um pequeno susto.
Ele escolheu passar a etapa inteira perto de outros competidores e não com os seus companheiros da Visma. Não tive tempo suficiente para processar as suas palavras. O maluco simplesmente começou um breakaway sozinho, faltando, pelo menos, cem quilômetros para a linha de chegada. Sendo o líder, minha obrigação consistia em acompanhá-lo.
A nossa diferença para o pelotão chegou a marca de trinta segundos.
Nas próximas três horas e meia, xinguei van Aert em todas as línguas que eu dominava. Meus pulmões queimavam tanto, mas tanto, que a morte parecia mais agradável. Eu não estava exagerando de forma alguma.
As dores nas minhas coxas não poderiam ser curadas com nenhuma quantidade de gelo.
Acredito fielmente que os meus neurônios não estavam funcionando direito no momento em que decidi virar a porra de um atleta profissional. Pelo amor de Deus, quem em sã consciência escolheria sentir dor quando houvesse a escolha de não?
Por mais tóxico que fosse, nos acostumamos a sofrer. Como era mesmo aquela frase clichê? Sem dor, sem ganhos.
A cada pedalada, rezava intensamente para esse momento de tragédia acabar. Deus teve pena do seu filho, vulgo eu, porque avistei a linha de chegada.
Wout abriu os seus braços como um pássaro ao ganhar o primeiro lugar. Honestamente, eu me encontrava tão acabado que nem comemorarei.
A primeira coisa que fiz ao chegar perto do ônibus da Visma foi apoiar minha bicicleta em qualquer lugar e jogar uma garrafinha de água em todo o meu corpo. Eu pretendia diminuir a minha temperatura, que aparentava estar uns quarenta graus acima do recomendado.
Wout abriu um sorriso debochado ao passar perto do carro de assistência dos nossos chefes. Ele acabara de fazer uma declaração, alta para caralho; van Aert, ao mesmo tempo que concluiu com maestria o seu trabalho como o meu ajudante principal, ganhou uma etapa sozinho sem qualquer auxílio da equipe. Foi como gritar: “Vocês acham que eu não tenho habilidade suficiente para terminar em primeiro? Pois bem, toma aqui a vitória”.
Eu simplesmente amava Wout vingativo. Faltando uma etapa para terminar a Tour de France, meu primeiro lugar na classificação geral já estava assegurado com dois minutos de vantagem sobre Tadej. Como se não fosse bom o suficiente, Wout acumulou mais seis vitórias solo.
No momento em que você se torna um ciclista profissional, seu respeito por Wout van Aert aumenta drasticamente, independentemente de conhecê-lo pessoalmente ou não.
Em nosso esporte, existiam normalmente três categorias diferentes: plana, onde havia margem para um sprint; montanha; e contra-relógio. Normalmente, um ciclista era muito bom em uma das etapas e penava nas outras. Se o destino ou Deus — dependendo do que você acreditasse — gostasse de você, poderia se destacar em dois percursos diferentes.
Éramos meros mortais comparados a Wout van Aert. O homem era bom para caralho em todas as três etapas. Ele mostrou sua superioridade ao ganhar inúmeras vezes em estágios diferentes.
Na última corrida da Tour, com Tajed fora do breakaway, esperava do fundo do coração que Wout não utilizasse a raiva pela Visma como combustível. Bem, não era essa a sua ideia.
Fielmente a todas as outras etapas, o homem deu tudo de si, mas, no final do dia, ainda éramos seres humanos e quebrávamos. Lá pelos últimos quinze quilômetros, van Aert perdia seu ritmo rapidamente.
Não foi difícil tomar essa decisão. Wout se mostrou o meu ajudante principal durante duas semanas. Ele claramente precisava de uma mão amiga por um dia. O cansaço que eu teria hoje, jamais igualaria o dele.
— Não pense em nada, só me acompanhe, está bem? — Aumentei as minhas pedaladas para entrar na frente de Wout.
Como o vento batia completamente em mim, ele estaria obrigado a diminuir o esforço em pelo menos cinquenta por cento.
— Que porra está fazendo? A Visma vai te matar. Você como meu Domestique? — Meu namorado brigou comigo ao aparecer ao meu lado.
A hierarquia em todas as equipes sempre será extremamente desenhada. Todos ajudavam o líder, ponto. Jamais o contrário. Contudo, no momento em que eu desafiasse a pirâmide, entraria para a história. Poderia até começar a imaginar inúmeras manchetes escandalosas de jornais; as relações públicas da nossa equipe teriam um dia no inferno.
— Para de drama, Wout, eu já garanti o primeiro lugar. — Revirei os olhos. — Você me ajudou inúmeras vezes, deixa eu retribuir o favor. — Supliquei.
Nós ficamos calados, somente pedalando. Talvez ele estivesse pensando nos prós e contras da minha oferta.
— Não se preocupe comigo. O que a Visma vai fazer? Me demitir? — Brinquei com as minhas próprias palavras, simplesmente pela impossibilidade desse fato acontecer.
A equipe foi montada comigo no centro. A Visma jamais descartaria todo tempo e dinheiro que investiram em mim somente porque fui rebelde no final da Tour de France.
— Wout, só confie em mim. Deixe-me te proteger. Relaxe e aproveite a vista. — Suavemente rocei meus dedos em suas costas.
O mais velho me observou com tanto amor e carinho que, se fosse um personagem de desenho animado, corações estariam pulando de seus olhos. Senti que cada pequena coisa que aconteceu em minha vida, os altos e baixos, me conduziu a esse exato momento.
Me dei tapinhas nas costas, parabenizando-me por nunca desistir. Afinal de contas, nunca teria a oportunidade de compartilhar esse dia tão bonito com Wout.
Lentamente, sua bicicleta se alinhou atrás da minha.
Precisei piscar várias vezes para não deixar grossas lágrimas caírem sobre minha camisa amarela.
Desde o início do nosso relacionamento, Wout sempre foi teimoso sobre seu papel. Assim como no ciclismo, ele acreditava que não havia espaço para vulnerabilidade. Mas então, toda a merda da Visma aconteceu, e ele não sabia mais onde pisar sem se machucar.
Meu namorado finalmente entendeu que podia ser um ser humano, e não um Deus, comigo. Sem expectativas, sem cobranças. Ao aceitar minha ajuda, ele se libertou de todas as correntes do que deveria ser, tanto como ciclista quanto como parceiro.
E isso foi bonito pra caralho. Gostaria que essa memória ficasse gravada no meu cérebro para sempre.
As lágrimas começaram a cair sem pudor ao ver meu namorado comemorando com sua camisa verde no fim da corrida. As emoções estavam como um tornado dentro de mim. O tempo passou em câmera lenta, e honestamente, eu não saberia dizer o que estava acontecendo à minha volta.
— Obrigado por acreditar mais em mim do que a Visma ou qualquer outra pessoa. — van Aert se ajoelhou diante de mim, beijando os meus sapatos.
Como ele poderia pensar, nem que fosse por um segundo, que eu era digno de seus lábios sussurrando meu nome como uma prece? Para não machucar meu joelho, ajoelhei-me cuidadosamente à sua frente, espelhando seu gesto.
— Sempre. Sempre. Sempre. — Repeti essas palavras em inglês, dinamarquês e belga, respectivamente.
Passamos incontáveis minutos naquela posição. Narizes entupidos, o som do choro sem qualquer timidez, e, o mais importante de tudo, nossos corpos e almas finalmente se amando sem qualquer dificuldade.
— Jonas, posso te beijar? — Meu namorado perguntou com tanta delicadeza que não consegui evitar começar a chorar novamente.
— Tem certeza? — Questionei, temendo que ele pudesse, por alguma razão, se arrepender de tornar nosso relacionamento público. Depois disso, não haveria volta.
— Para caralho. — Suas mãos calejadas pousaram delicadamente em minhas bochechas.
— Não passará um dia em que eu negaria um beijo seu. Se isso acontecer algum dia, provavelmente fui substituído pelo meu irmão gêmeo maligno. — Sorri satisfeito ao ouvir a risada escandalosa de Wout.
Fisicamente, nosso beijo não teve nada de diferente, mas emocionalmente, foi como ir ao paraíso e ouvir anjos cantando.
[...]
— Ei, Jonas, eu estou pensando em me demitir. — Wout sussurrou acanhado, quebrando o silêncio do quarto.
Para ser sincero, meu cérebro depois de três rodadas perfeitas de sexo, não funcionava a pleno vapor.
— Olha, eu sei que isso vai afetar a sua carreira, mas quero ser a melhor versão de mim, como ciclista e, especialmente, como namorado. — Wout estendeu os seus braços e continuou olhando para o teto.
Proferi um som do fundo da minha garganta para demonstrar que estava prestando atenção.
— Antes de me aposentar, pretendo ganhar o Tour de France. Só posso realizar esse sonho como líder, e nunca vou desempenhar esse papel na Visma. Além disso, nesta temporada, o alto escalão foi uma merda comigo. Recuso-me a ajudar se não me respeitarem. — Sua voz saiu com um leve tom de raiva.
Rolei o meu corpo para colar meu peito no dele. Wout começou a mexer em meu cabelo.
— Bem, por mais que eu tente, não sei separar a carreira da vida pessoal. Você merece um relacionamento perfeito. Eu vou ser digno de você se correr em outra equipe.
Lutei bravamente para continuar acordado, mas seus dedos massageavam meu couro cabeludo.
— Sua felicidade sempre será minha prioridade. Vou ficar ao seu lado, independente da sua escolha. Para sua infelicidade, você está preso a mim. — Dei um pequeno beijo em seu pescoço. Seu corpo tremeu em um arrepio.
— Então é isso? — O belga perguntou, perplexo ao perceber que o assunto foi encerrado daquela forma.
— Wout, o que você esperava? Que eu implore para continuar em um lugar tóxico para você? Uma discussão? Se sim, pode tirar o cavalinho da chuva. Na verdade, espero que não demore muito para se demitir, quero muito fazer sexo comemorativo. — Apoiei minhas coxas em seu quadril. Seus dedos rapidamente afundaram em minha pele.
— Hm, eu acho que não precisamos usar isso como desculpa. Quer dizer, você acabou de ganhar a porra da Tour da France, e eu, a camisa verde. Para mim, são motivos mais que plausíveis para te foder até estourar seus miolos. — Ele me olhou como um caçador extremamente feliz por encurralar sua presa.
[...]
Dia 1 - Tour de France 2024
— Ei, garotão. Você fica bonito para caralho de vermelho. — Cumprimentei meu namorado, que parou ao meu lado antes da primeira etapa começar.
Wout recebeu inúmeras propostas de equipes diferentes depois de sair da Visma. Esse ano, ele finalmente correria como líder.
— Se você me acha bonito agora, imagina de amarelo quando eu te derrotar na classificação geral. — Wout riu. Era como se o sol estivesse em seu peito.
Por motivos desconhecidos, senti no fundo do meu coração que essa Tour entraria facilmente no primeiro lugar dentre todas que eu participei, independente do resultado. Eu era a pessoa mais abençoada do mundo por finalmente ver todos os pedaços colados do quebra-cabeça chamado Wout van Aert.
Não via a hora de fazer um quadro, para pendurá-lo na parede branca da minha casa.
