Chapter Text
14h09, Metrô. Japão
A vida de Takemichi foi longa e emocionante. Seus dias eram previsíveis, quase entediantes. Acordar tarde, pegar o metrô espremido, e encarar mais um bico qualquer que mal pague o suficiente para sobreviver. Dessa vez, o serviço era simples: cuidar de duas crianças por algumas horas. Nada novo. Nada perigoso.
Uma ação estranha começou a se forma, as pessoas corriam em direção à plataforma ainda vazia, empurrando, gritando, esbarrando umas nas outras. O metrô ainda não havia chegado, e não havia nenhuma explicação aparente para o desespero arrependido. Takemichi não ajudou a ser arrastado pela multidão, mas era impossível. Cada passo que dava era interrompido por alguém que se esbarrava em seu ombro, ou que quase o derrubava. Foi então que viu no chão uma mancha vermelha escura que se espalhava pelos seus pés. Uma camada espessa cobria a sola de seus sapatos.
Era sangue.
Muito sangue. Seu peito aberto. Um arrepio percorre sua espinha. O medo começou a tomar forma antes mesmo que ele pudesse entender o que estava acontecendo. Um lampejo de lucidez cortou o pânico: o banheiro.
O metrô ainda não havia chegado, e fugir pela entrada era impossível - era de lá que o caos vinha. Takemichi foi solicitado a se mover, mas foi como empurrado uma estátua contra a correnteza. Esbarrava a cada passo, tropeçava, tentava seguir mesmo assim. Forçou as pernas a obedecerem, a saírem do epicentro do caos. Conseguiu escapar para o corredor lateral, estava apertado, mas talvez ainda estivesse livre. Forçando as pernas a obedecerem, ele se moveu com dificuldade em meio à confusão. Cada passo era um esforço para não cair.
Finalmente, vi a porta azul e entrei sem hesitar. O chão do banheiro estava limpo. Silencioso. Mas suas pernas não aguentaram a tensão. Cedeu, sentando-se no chão frio, tentando controlar a respiração.
Era impossível. Os gritos lá fora ainda ecoavam em sua cabeça como um pesadelo real. Gritos de socorro, choros, pedidos por misericórdia... tudo misturado como uma ópera de horrores. Batidas surdas, gemidos, e um som repetitivo - como dentes batendo uns contra os outros - se somavam à sinfonia cruel que seus ouvidos captavam. Os ouvidos captavam filmes que seus olhos não viam. Seu corpo tremia. O medo de tomar conta.
Seria uma chacina? Um ataque? Mas quantas pessoas poderiam pedir para causar uma camada tão absurda de sangue? O que estava acontecendo? As mãos tremiam tanto que era difícil até manter os braços no lugar. Os soluços eram abafados por sua própria mão, tentando não emitir filhos. As lágrimas grossas escorriam sem que ele percebesse. Sentia-se desconectado do próprio corpo. Suas pernas parecem mortas. Ele não sabia se era uma crise de ansiedade ou de pânico - talvez ambas. Sentia-se completamente vulnerável.
Cinco minutos se passaram.
Os gritos cessaram, e o silêncio se tornou ainda mais perturbador. Restaram apenas murmúrios. Filhos distantes, desconexos. Talvez sua mente estivesse pregando peças. Talvez não.Um cheiro pútrido invadiu o ambiente.
Quando sinto algo molhar sua calça, Algo quente, viscoso. Olhou para baixo e seu coração quase parou: uma poça de sangue se espalhava lentamente pelo chão, vinda por baixo da porta. Aquilo quase o fez vomitar. Tentou se levantar, mas as pernas falharam. Sentou-se na tampa do vaso, tentando se recompor.
-O que era aquilo...? - murmurou, horrorizado. - Merda... Preciso sair daqui... - sussurrava para si mesmo.
A ideia de que o causador daquilo tudo ainda pudesse estar por perto o paralisava. Mas ficar ali também não era opção.
- Se controle, Takemichi... Primeiro:respira. Devagar... - falava pra si mesmo, tentando manter a sanidade.
Inspirava com força, prendia por quatro segundos, soltava devagar. Repetição. Seu corpo ainda tremia, mas o pânico começou a ceder. As lágrimas continuavam caindo, mas agora havia... foco. Um pouco.
- Ok... com calma... - Forçou-se a respirar com calma.
Inspirava profundamente, prendia o ar por alguns segundos, depois expirava devagar. Sabia que era a única forma de recuperar algum controle. Ainda tremia. UM
suas lágrimas teimavam em cair, mas seu corpo começava a responder.
- Ok... com calma... – murmurou. Olhou ao redor, tentando distrair a mente da poça escura.
Precisava sair dali. Mesmo trêmulo, apoiado na pia, os joelhos ainda falharam, mas ele se manteve em pé. Caminhou até a porta com passos lentos e silenciosos.. Mas estava determinado. Passos lentos, silenciosos. Suas mãos tremiam, uma delas alcança o tranca.
- Vamos, Takemichi... deixa de ser covarde... abre essa merda de porta... - sussurrava, tentando se convencer. Uma maçaneta girou.
A porta se abriu com um rangido suave. O sangue no chão ainda estava lá, denso, escorrendo. Ele desviou o olhar. Não poderia se dar ao luxo de perder o controle de novo. O corredor estava fechado, com apenas uma saída: a mesma por onde tinha entrado. Avançou, colando o corpo à parede, movendo-se com cuidado. Sentia os corações do coração no pescoço, nas mãos, nos ouvidos.
Até que... parou.
Ali, diante dele, corpos caídos. Uns tremiam, outros estavam imóveis. Uns sangravam até formar poças, outros já não tinham nem sangue, apenas feridas abertas - ossos à mostra, veias expostas. Um deles ainda fazia barulhos - como se mastigasse o ar.
Sua mente implorava para não olhar, mas era tarde. O pânico voltou como uma avalanche. As mãos cobriram a boca para evitar o grito. O corpo inteiro tremia. Um calafrio percorreu sua espinha e suas pernas ameaçaram ceder de novo. A única coisa que a mantinha em pé era o medo. Um medo real. Profundo. Instintivo.
Takemichi não estava no meio de um pesadelo.
E o pior ainda estava por vir.
