Chapter Text
— Melequento, você é tãããão incrível! — Disse a loira com uma voz arrastada, enquanto passava a mão pelo peitoral do mais baixo.
— Ah claro, claro. Eu sei que sou. — O de cabelos castanhos falava enquanto tencionava os músculos do braço, um sorriso grande em seus lábios, os pés pressionando a cabeça do Pesadelo Monstruoso, já abatido no chão.
— Melequento, eu, Stoico O Imenso, estou impressionado com suas altas habilidades de caça aos dragões. — O líder chegou, seus passos firmes batendo no chão enquanto se aproximava do Melequento. — Você, Melequento, deveria ser o líder dos caçadores de Berk! Não… Melhor, o futuro chefe de Berk inteira!
— Eu aceito sua oferta para eu está no comando, Stoico. — Cruzou os braços, seu pé pressionando com mais força a cabeça do dragão no chão, este último que soltou um som baixo de irritação, praticamente inatingível. — Eu serei o melhor chefe da tribo, e o melhor caçador de dragões, que o Arquipélago do Bárbaro já viu. — Novamente, tencionou os músculos, fazendo uma pose frontal de bíceps duplo. — Melequento! Melequento! Yo yo yo!
O viking que tinha seu pé ainda em cima da cabeça do Pesadelo Monstruoso, sentiu uma mão em seu ombro, ao virar seu rosto para o lado, viu seu pai ali. Um sorriso de mostrar os dentes em seus lábios.
— Você, meu filho, trouxe orgulho para a família Jorgenson! E para mim, tenho orgulho de ser seu pai. — Falava enquanto apertava seu ombro com firmeza.
— Eu sei que tem pai, eu sei!
— Melequento! — Astrid falou, com a voz melosa. Puxando gritos chamando pelo nome de Melequento — Melequento! Melequento! Melequento!
Várias vozes começaram a chamar pelo nome de Melequento, o sorriso em seus lábios aumentou, acompanhado por resmungo com falas de falsa modéstia
Os gritos clamando o nome do “maior caçador de todos” ficavam cada vez mais altos.
Era bom finalmente ser reconhecido, ter seu talento valorizado por-
— MELEQUENTO!
O grito mais alto, fez Melequento abrir os olhos abruptamente, seu corpo caindo para trás, suas mãos indo para os lados, se agarrando a borda do navio.
Olhando para os lados na maior confusão, o vento gelado da noite atingiu seu rosto. Seus olhos vagaram pelo local que estava, tentando identificar.
Avistou o céu azul escuro acima da sua cabeça, o guarda-corpo ao seu lado, o mastro de vigia, o convés do navio.
Ah, o navio, claro que era o navio.
Não notando, ou talvez, não se importando com a confusão do viking, a voz que o acordou do sonho continuou falando.
— É sério mesmo?! Você está dormindo no seu torno?! — Melequento virou o rosto, encontrando o rosto que com ele gritava, os cabelos loiros trançados caídos sobre seus ombros.
Um dedo da mulher a sua frente foi até o peito dele, cutucando-o com força e raiva.
— Você tem noção do quanto isso é negligente com seu trabalho? O quanto é uma verdadeira falta de responsabilidade?!
Melequento resmungou, baixo, sua mente agora voltando para o momento presente.
— Eu sei, eu sei, Astrid… Mas sabe, eu não sou uma máquina não! — Reclamou o de cabelos castanhos enquanto a mão dele continuava segurando o guarda-corpo do navio. — Eu tô acordado aqui a HORAS vigiando o NADA!
— Bem, o “nada” pode destruir esse navio inteiro, e fazer a gente perder a nossa mercadoria! — Cruzou os braços, seus olhos se revirando e a boca abrindo para soltar um suspiro áspero e demorado. — Você sabe muito bem quem usa essas brechas, mesmo que minúsculas, para estragar todo o nosso trabalho!
— Eu sei! Mas eu dormi por só o quê? 5 minutos? — Levantou os ombros, um sorriso sem graça ali em seu lábios.
— Cinco minutos já é o bastante para tudo dar errado! Não lembra da última vez? — Sem esperar uma resposta, a mão que antes estava em seu peito foi para o próprio rosto, esfregando o nariz para se acalmar. — Olha, quer saber? Vai para o porão vigiar os dragões nas jaulas, eu fico aqui cuidando do convés!
O Melequento acenou com a cabeça em silêncio, se levantou da cadeira que estava, e quando pegou distância o suficiente, começou a resmungar, mas ainda sim andando até a escada que levava para o porão do navio.
— Loira exibida… Se acha só porque é líder dos caçadores de Berk, e porque é a preferida do Stoico… — Foi descendo lentamente as escadas, sua voz não deixando de reclamar por um único segundo. — “Mi mi mi… Você tem que ter responsabilidade, Melequento”... “Mi mi mi… Você vai estragar a missão toda, Melequento…”
Enquanto resmungava seus olhos vagavam pelas jaulas ali, um gronckle, dois pesadelos monstruosos, um morte murmurante, e uma velha cadeira que o esperava ao lado da jaula de um nadder mortal.
— Ela é tão… Tão… Ahhh! — Soltou um grito ao mesmo tempo que se jogava para trás na cadeira, seus braços cruzando e suas sobrancelhas franzidas. Ouviu rosnado baixo vindo do nadder que estava dentro da cela. — Cala a boca, réptil inútil! — Bateu com um punho fechado em uma das grades.
Alguns segundos depois, ouviu um som alto de alguma coisa caindo, fazendo sua sobrancelha se levantar, seu pescoço se estendendo para o corredor.
— Ué? O que foi isso? — o viking perguntou para si mesmo, seus olhos indo até a porta que tinha ali perto, onde ficavam os quartos da tripulação. — Deve… Ter sido apenas o vento. — Se permitiu afundar novamente na cadeira, mas o barulho ecoando pela segunda vez o fez levantar a sobrancelha. — Okay… Não acho que tenha sido o vento.
Levantou da cadeira, e pegou a tocha que estava ali na parede ao lado dele.
— Eu vou ver o que é, mas se forem os gêmeos fingindo ser fantasmas mais uma vez, eu vou dar piti! — Falou para si mesmo, seus passos indo em direção ao quarto.
Já na frente da porta, com a mão livre se estendendo para a maçaneta, abriu a porta lentamente. E logo em seguida fechou quando já tinha entrado no quarto.
Seus olhos começaram a vagar pelo local, as beliches, o baú com algumas roupas.
Tudo estava normal. Ainda sim, Melequento achou melhor verificar.
— Certo… Vamos dar uma olhada.
Começou a circular as camas, olhando bem superficialmente em cima delas. Até chegou a se abaixar para ver se tinha caído debaixo da cama.
— Huh, nada… — Resmungou, se apoiando em seus braços para levar do chão. — Claro, tinha que ser nada. Me deitei no chão só para não achar nada. — Ao se levantar, sua mão até a sua blusa, limpando-a rapidamente. — Deve ter sido um rato idiota.
Falou enquanto levantava as mãos para o alto, passando pela porta do quarto que já estava aberta, sem se preocupar em fechá-la dessa vez…
Enquanto se aproximava da cadeira ao lado da jaula do nadder, notou que, onde deveria estar o nadder, não tinha mais um. Só uma jaula vazia, que tinha uma porta aberta.
Essa visão o fez paralisar, o rosto rapidamente ficando pálido, branco igual farinha, e seus olhos quase saltando para fora de órbita.
— Não, não, não… — Começou baixinho, mas então, quando mais sentia o pânico subindo, a voz subia junto. — NÃO, NÃO, NÃO! A Astrid vai acabar comigo!
Correu até a porta da cela, procurando sinais de arrombamento, como aquele dragão poderia ter fugido, será que por algum milagre, conseguiu quebrar a fechadura, que supostamente, deveria ser à prova de dragão??
Mas não encontrou nenhum sinal de arrombamento, na real, parecia ter sido aberta com uma chave.
— Isso é ruim, muito ruim! — Entrou na jaula, olhando de um lado para o outro em completo desespero, como se por olhar ali dentro bem na jaula, o nadder fosse aparecer magicamente. — Eu tô ferrado, eu tô FERRADO! Eu vou ser mort…
CLANK
O som do metal se batendo, acompanhado som chave girando, e trancando a jaula atrás de Melequento, o fez pular olhando para a origem do som.
Seus olhos caíram na figura que ele menos queria ver.
— Ah não, ele de novo não!... — Melequento resmungou enquanto seus olhos vagavam a figura que ele, muito infelizmente, conhecia bem.
O Cavaleiro de Dragões.
O maior terror — uma verdadeira praga — de todos os caçadores desse arquipélago.
O Cavaleiro ostentava uma armadura negra com diversos detalhes azuis, era coberto das botas até o capacete. A estrutura era, em certas partes, áspera e grossa em pontos como o peitoral e canelas. E em outros se tornava notável mais lisa, fina e flexível, áreas essas como nas dobras dos joelhos, cotovelos e outras junções, obviamente com a função de facilitar o movimento.
Os pontos onde era possível ver o azul-acinzentado escuro, eram nessas partes mais finas. Porém também sendo encontradas nas ombreiras e manoplas, juntamente com alguns detalhes do seu capacete, essa mudança de cor criava um contraste elegante com o preto opaco do restante da armadura, e ao mesmo tempo, não dificultava — talvez até facilita-se — a camuflagem no céu escuro da noite.
Os caçadores sabem disso como ninguém.
Então, os olhos de Melequento então foram para o animal, que estava ao lado da figura ali, o dragão negro que quando voava no céu da noite, ficava praticamente invisível. Sempre acompanhado pelo Cavaleiro.
O Fúria da noite.
Os olhos verdes do dragão, ao contrário do parceiro dele, eram bem visíveis, as pupilas finas encaram o que Melequento podia jurar ser a alma dele. Ele também tinha seus dentes visivelmente afiados, assustadoramente afiados. Atrás dele, a sua cauda batia no chão e balançava de uma lado para o outro.
Quando os olhos de Melequento voltaram para a figura humana, o dedo indicador do de preto foi até a altura onde deveria estar a boca dele, fazendo o sinal universal de “Silêncio”, e então, a voz abafada pela máscara saiu:
— Nem pense em gritar por ajuda, ou o dragão atira. — Melequento pulou para trás quando o dragão rosnou para ele, soltando um grito assustado que subiu uns oitavos, nada que os que estivessem lá fora poderia ouvir. — E sabe… — O braço coberto pela armadura negra se apoiou na grades. — Fúrias da noite são conhecidas por nunca errarem.
O tom de voz dele era sério, os músculos de Melequento ficavam tensos ouvindo a voz dele.
Por um segundo, Melequento considerou, pensou em gritar por ajuda, avisar os outros caçadores, mas as ameaças do outro vieram à sua mente.
Ele não iria realmente mandar aquele dragão atirar nele, não? Era um blefe, sim, um blefe! Se ele gritasse, o máximo que iria acontecer, seria o Cavaleiro subir em cima do seu dragão, e ir embora correndo, não?!
O som do dragão na frente dele rosnando novamente o fez pensar que ele preferia NÃO descobrir se era blefe ou não.
— Claro! Hahahaha! — Riu baixo, com nervosismo enquanto levantava as mãos para o alto. — Silêncio! Total, não terá um piu vindo de mim!
O Cavaleiro ignorou o Melequento falando, e apenas foi para a jaula ao lado, uma que supostamente era para estar vazia.
Mas então, ao abrir a jaula, saiu o maldito nadder motal que Melequento achou que tinha sumido.
Então, um click veio na mente do viking.
O barulho no outro cômodo foi uma distração, para Melequento sair dali, enquanto ele estava investigando o som no outro quarto, ele moveu o nadder para outra jaula, para quando o Melequento chegasse, ele ficasse em desespero, e entrasse na jaula para procurar o nadder, ele pudesse trancar Melequento lá dentro…
Era o plano mais óbvio de todos, e ainda sim, o Melequento caiu feito patinho… Nossa.
Enquanto Melequento se questionava como caiu naquele truque, o Cavaleiro parou na frente de uma jaula, onde se encontrava um Pesadelo Monstruoso, de escamas verdes. Fisicamente não aparentava estar ferido, porém ao Cavaleiro se aproximar, os olhos do dragão se estreitaram, e suas as pupilas foram ficavam mais finas, a respiração ofegante, e então, a cereja do bolo, seus corpo começando a pegar fogo enquanto tentava se afastar o máximo possível das grades da jaula.
O dragão estava em puro pânico.
Lentamente, a mão do cavaleiro se estendeu até a espada que ficava na cintura de sua armadura, puxando lentamente. O dragão, ao ver a arma, rosnou alto, enquanto seu corpo parecia se incendiar com mais intensidade. Se a jaula não fosse feita de ferro reforçado contra dragões, o navio definitivamente estaria pegando fogo.
O Cavaleiro colocou a espada praticamente frente ao rosto do Pesadelo, só sendo separados pela grades da jaula, o Pesadelo pareceu chega no limite, o gás verde começando a sair da sua boca, ele estava praticamente pronto para lançar fogo no Cavaleiro, mas então-
Então, com um simples clique… A lâmina se incendiou, substituindo estresse do Pesadelo, para um olhar curioso imediatamente, automaticamente fazendo ele parar de pegar fogo, e desistir de jogar a bola de fogo.
O Cavaleiro, sabendo o que estava fazendo, começou a balançar a espada suavemente de um lado para o outro, movimentos lentos, porém firmes. Os olhos do Pesadelo seguiam a chama constante, se aproximando aos poucos.
Quando estava perto o suficiente, o de armadura preto lentamente abaixou a espada flamejante, substituindo onde estava a arma para deixar a sua mão ali, a palma dela aberta, bem em frente ao Pesadelo monstruoso, sua cabeça se abaixou, os olhos agora no chão.
O dragão pareceu hesitar um segundo, antes de se inclinar para frente, seu focinho encostando na mão aberta do Cavaleiro.
Ele levantou a cabeça enquanto um cantarolar calmo saía de sua boca, ainda abafado, por conta da máscara. Sua mão livre vai até a fechadura, abrindo a jaula.
E assim foi sendo, até que todos os dragões estivessem com suas jaulas abertas. Quando terminou, voltou até o fúria da noite, que ainda rosnava e encarava o caçador de dragões preso na jaula.
— Sabe, Melequento. — O Cavaleiro começou, seu pé esquerdo se apoiando no pedal da sela do fúria da noite, pegando em impulso para subir em cima dele. — Agradeço muito sua colaboração, sério. — Sua mão foi até o peito esquerdo, o tom de sua voz transbordando sarcasmo. — Se você não tivesse distraído a Astrid, fazendo ela brigar com você, teria complicado muito mais meu trabalho.
Antes de receber uma resposta do Melequento, o Cavaleiro levantou levemente o capacete só o suficiente para conseguir colocar o indicador e o polegar na boca e então, com soltou um assobio alto.
Com esse assobio, o fúria da noite deu um breve rugido, antes de dar um tiro de plasma na saída, explodindo a porta, e começou a voar para a saída com a força total de sempre. A cabeça do Cavaleiro se virou para trás, olhando por cima do ombro para os dragões, verificando se eles estavam atrás dele, e estavam.
O olhando novamente para frente, o dragão fez uma curva para cima, seu pé acompanhando o movimento. Em seguida, fez uma curva para a esquerda.
Seus olhos caíram novamente sobre o convés principal, os olhos vagando ali bem rapidamente.
— Lembra, amigão. Vamos circular o navio, para garantir que todos os dragões vão sair. — Sua mão foi até o pescoço do dragão, esfregando ali. O dragão respondeu com um pequeno barulho, antes de inclinar seu corpo para esquerda novamente.
O olhar dele começou a passar pelo arredor, viu o morte murmurante partindo rumo ao norte, o nadder seguindo ele.
Olhou novamente para o convés, procurando alguém ali que pudesse atrapalhar.
E rapidamente, encontrou alguém, seus olhos logo caíram sobre a loira, que descia do convés da popa para o principal. Era difícil ver a expressão dela de longe, conseguiu apenas assistir a cabeça dela se levantar em direção aos dragões voando.
Então, ela correu para o outro lado do navio, desviando dos pesadelos monstruosos que tinham acabado de sair do porão, sem perder o ritmo, pegou uma catapulta com uma rede na ponta, e já começou a mirar-lá para um lado específico.
O olhar do Cavaleiro foi para o mesmo lugar onde o olhar da loira estava. E logo entendeu para quem ela estava mirando, um gronckle que voa mais devagar para longe, ela com certeza iria o acerta.
— Ah não, não comigo aqui… — Resmungou para si mesmo. — Ali, amigão. — O Cavaleiro deu um tapinha na lateral do réptil, para chamar a sua atenção, e então apontou para a catapulta. — Explosão de plasma!
O dragão no mesmo momento se virou para a direita, fazendo uma curva para baixo, então-
BOOM
O som da explosão ecoou antes que eles estivessem muito próximos, mas logo em seguida, passou pelo mesmo local em que tinha sido explodido, os olhos do cavaleiro se voltaram para a loira, que caiu para trás com a explosão.
— Mira nos mais fracos é covardia, viu, líder?! — Gritou para ela enquanto se afastava, a voz saiu abafada por conta do capacete, mas tinha certeza que ela teria ouvido.
Seu olhos foram para o gronckle, que agora, já estava a distância o suficiente. Deu um suspiro calmo, todos salvos.
— Pronto, amigão, podemos ir. — Inclinou-se sobre o dragão, sua mão esquerda esfregando o pescoço, foi respondido com um grunhido, enquanto começava a voar para longe do navio.
Mas enquanto se afastava ouviu o grito irritado de uma voz feminina ao fundo:
— O COVARDE É VOCÊ, SEU FILHO DE TROLL! EU AINDA TE PEGOU, DESGR…
A voz ficava cada vez mais distante com base ganhavam distância, porém ele tinha certeza de que ela continuava gritando, mesmo que ele não ouvisse mais. Esse pensamento o fez rir.
— Certo, e terminamos por hoje! — O dragão pousou no chão, e logo em seguida o Cavaleiro desceu de cima dele com um pulo, Seus pés deslizando por um segundo na areia, antes de se firmarem. — Foi só um navio, mas ainda bastante produtivo, não concorda, Banguela?
O réptil fez uma barulho, em seguida sua pata esquerda indo até a boca, começando a lamber-la.
— Que bom que concorda. — Suas mãos foram até o capacete, o tirando, respirando fundo enquanto fazia. — Ah, que bom tirar essa armadura! — As mãos dele foram até os cabelos, os dedos se entrelaçando em seus cabelos, lentamente descendo do couro cabeludo até as pontas, que batiam suavemente nos ombros. — Para uma coisa à prova de fogo, isso é muito calorento!
Deu um suspiro, sua cabeça se virando para o Banguela, que apenas tinha sua pata traseira coçando a orelha, enquanto sua língua se pendurava para trás. Apenas soltou uma risada calma, balançando a cabeça.
— É, tipo isso. — Soltava uma risada baixa, sua mãos indo retirando as manoplas, e então as ombreiras. — Pronto… Tirei a parte mais fácil, agora só falta… — Os olhos dele foram até todas as tiras, travas, fivelas. — Todo o resto… — Jogou a cabeça para trás, enquanto bufava. — Certo, vai demorar um pouco.
Suas mãos trabalhavam lentamente em cada fivela, trava, ou qualquer coisa, tudo isso enquanto continuava conversando com fúria da noite, que respondia com um bufo, um balançar de cabeça, grunhidos.
Após tirar tudo que podia prender a armadura em seu corpo, o som da junção dos joelhos, caindo no chão.
— Ah, graças aos deuses! — Suspirou de alívio, suas mãos na cintura, enquanto jogava sua cabeça para trás. — Foram só quarenta minutos, coisa pouca. — Disse enquanto abaixava para pegar as partes da armadura. — Vem, amigão.
Banguela, que estava deitado até então, levantou sua cabeça na direção do amigo, logo em seguida, levantou do chão, andando animadamente até ele, sua língua pendurada para fora em sua boca sem dentes. Parando ao lado dele, a bolsa de sua cela na frente do de cabelos castanhos, que começou a aguardar as coisas da armadura.
— Certo… Eu vou lá, tenho que comprar… — Sua mão foi até o outro bolso da sela, mexendo ali, os dedos vagavam ali, sentindo as textura, até que sentiu eles roçarem em alguma coisa de couro que ele conhecia bem, agarrando, puxou para fora, seu caderno de esboços. Os dedos começaram a passar as páginas, até chegarem na que tinha escrito todos os suplementos. — Ervas medicinais, bandagens, carne vermelha, couro, metal, lã… Tô esquecendo alguma coisa? — Olhou para o Banguela, que apenas grunhiu. — Ah, verdade, tinta de povo, quase que eu me esqueço. — Agora fechou o caderno, colocou nos bolsos da roupa.
Era uma coisa definitivamente mais simples, uma túnica azul petróleo, as mangas dela batiam suavemente nos pulsos, ela batia um pouco acima dos joelhos, o cinto era justo na cintura.
— Okay, eu já vou indo. — Sua canhota foi até o focinho do fúria da noite, que se inclinou em direção a mão dele, os olhos fechados. — Vai para o mato, e não sai de lá até eu assobiar, okay?
O dragão fez outro som, um grunhindo, enquanto seu corpo se virava e ia até o mato que o amigo tinha falado para ele.
Enquanto isso, o de cabelos castanhos se virou, começando a se afastar dali.
Logo, o fundo vazio da praia se desfazia, enquanto ele adentrava a vegetação da floresta — se é que poderia ser chamado assim — demorou alguns minutos até finalmente ver a luz mais adiante, que viam de velas e tochas.
Um sorriso surgiu em seu rosto quando chegou: um monte de barracas de comerciantes, todos dizendo coisas, cada um tentando superar a voz do outro.
Às vezes um chamava a atenção do de cabelos castanhos, oferecendo alguma coisa: “Meu jovem! Aceita essas iguarias dos mares do sul?”, e era recebido com um simples “Não hoje” e sem mais chances continuar falando, pois o outro já tinha ido embora.
Os olhos dele vagavam pelas diversas barracas com comerciantes, até que seus olhos pousaram em uma específica, fazendo o canto esquerdo de seu lábio subir minimamente. Seus passos foram até a barraca.
Ela era relativamente grande, uns quatro metros de largura e dois de altura, tinha diversas coisas espalhadas lá dentro, alguns sacos jogados para cá, outros pra lá, uma estante cheia de itens.
E dentro dela, um homem estava de costas para a entrada, mexendo em uma estante ali. Sem consciência de que o mais jovem estava ali.
A canhota foi até a boca, se fechando em um punho na frente dela enquanto ele limpava a garganta antes de começar a falar.
— Senhor Sholto?
O homem então se virou, seus olhos verdes pousando no que o chamara, no momento que o viu, soltou um sorriso, e entrou até ele.
— Olha, se não é o meu cliente mais antigo!
— Olha, se não é o meu comerciante favorito!
— Você diz isso só para ganhar desconto, rapaz! — Soltou uma risada calma, o peito movendo para cima e para baixo, sua mão batendo no ombro do outro. — Então, meu jovem, o que vai ser para você hoje?
— Isso daqui, senhor Sholto. — As mãos dele foram até o bolso da calça, retirando o caderno rapidamente e abrindo na página que tinha a lista.
O comerciante pegou o caderno com sua mão direita, lendo os itens ali, enquanto sua mão esquerda ia até a sua barba negra, passando a mão nela lentamente.
— Certo… — Murmurou para si mesmo, os olhos ainda concretados nos nomes escritos na lista. Até que um sorriso cruzou seus lábios, os olhos saindo do caderno, e mão colocando ele novamente na bancada. — Tenho exatamente o que você precisa, meu rapaz!
Se virou novamente, andando até alguns baús que tinham ali, e começando a mexer neles, abrindo um ali, um aqui. Enquanto isso, o de cabelos castanhos continuava apenas observando do lado de fora da cabana, seus dedos tamborilando na bancada.
— Então, como anda sua mãe? Ela já se recuperou daquela tosse dela?
— Infelizmente ainda não. — Deu uma risada calma — Continua tossindo como sempre, já tentei falar para ela vê isso com alguém, mas ela não escuta!
— Ha! Sempre que você me fala um pouco da sua mãe, vejo de quem você puxou. — Antes que tivesse uma resposta, colocou tudo que estava na lista em cima da mesa. — E pronto, tudo que você quer aqui.
— Certo. — As mãos dele foram até seu bolso novamente, dessa vez, tirando um saquinho azul cheio, e colocando na bancada ali. — Isso paga?
O comerciante pegou o saquinho, puxando a corda que o fechava, e virando ele em cima de sua palma mão lentamente, então, algumas escamas, garras, e até dentes de dragões caíssem em sua palma aberta. O comerciante apenas sorriu.
— Claro que paga, e eu ainda me pergunto como consegue tantas escamas de dragões. — Disse enquanto guardava novamente as garras e dentes no saquinho. A resposta que obteve foi apenas o outro dando de ombros, um sorriso pintado em seus lábios.
— Eu dou meu jeito. — Começou a pegar as bolsas com as coisas que pediu.
— Precisa de ajuda para levar isso até o seu barco?
— Não, eu me viro. — Falou com um sorriso, já se virando para ir embora, só parando quando o ouviu o comerciante dizendo:
— É sempre ótimo fazer negócios com você, Enginn.
— Digo o mesmo, senhor Sholto. — Falou com um sorriso calmo, antes de começar a andar para a praia novamente.
