Chapter Text
— Deuteronômio 18:9-13:"Quando entrarem na terra que o Senhor, o seu Deus, dá a vocês, não procurem imitar as coisas repugnantes que as nações de lá praticam. Não permitam que se ache alguém no meio de vocês que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha; que pratique adivinhação, ou se dedique à magia, ou faça presságios, ou pratique feitiçaria ou faça encantamentos; que seja médium, consulte os espíritos ou consulte os mortos. O Senhor tem repugnância por quem pratica essas coisas, e é por causa dessas abominações que o Senhor, o seu Deus, vai expulsar aquelas nações da presença de vocês. Permaneçam inculpáveis perante o Senhor, o seu Deus.” — Uma voz suave ecoava pela igreja, recitando o versículo do dia, que preparava os fiéis para mais uma caça à bruxa.
A garota mantinha uma boa dicção e uma voz firme, em alto e bom tom para que sua voz preenchesse toda aquela igreja, que possuía paredes de cor clara, um bege quase branco. Nas paredes laterais da igreja que formavam o longo salão cheio de bancos de madeira, haviam vitrais que retratavam a crucificação de Jesus Cristo, estes que refletiam a luz do Sol de fora para dentro da igreja, trazendo uma tonalidade colorida, em tons azuis, amarelos e vermelhos.
O dia estava perto de anoitecer, e uma última reza em conjunto fora feita, enquanto o padre e duas freiras distribuíam a hóstia da Eucarístia.
— O corpo de Cristo. — O padre dizia com a voz um pouco mais rouca e grossa, entretanto ainda firme em sua frase.
— Amém. — Sua filha respondeu. Fora a última a receber a hóstia. A última abençoada e protegida pela reza e pelo corpo de Cristo.
A garota foi sentar-se após receber a hóstia, enquanto seu pai prosseguia com seu discurso:
— Filhos do Senhor, hoje, após termos recebido a proteção do Altíssimo, iremos caçar a bruxa que assombra e ameaça a nossa cidade Staten Landt. Iremos atrás da inominável, e hoje teremos êxito em mandar o Anticristo de volta para o inferno! — O padre quase que gritava em um discurso encorajador aos fiéis, que gritaram ao final de sua frase em conjunto, quase como um grito de guerra. — Vão para suas casas, peguem suas armas e acendam suas tochas, depois reúnam-se na floresta após ao anoitecer. Em nome do Pai… — O homem levava sua mão até sua testa, e prosseguia fazendo o sinal da cruz. — …do Filho e do Espírito Santo, amém.
Todos os crentes presentes na igreja fizeram o sinal de cruz enquanto citavam a santíssima trindade em conjunto com o padre. Após isso, todos partiram em direção às suas casas para se prepararem para caçar a bruxa.
O padre e sua filha ficaram a sós no salão da igreja, arrumando e guardando a Bíblia, as taças de vinho e entre outros itens sagrados que haviam utilizado na missa.
A filha do padre estava guardando a Bíblia em seu devido lugar, quando sentiu uma mão pesar em seu ombro, chamando-lhe a atenção. De prontidão, virou-se e viu seu pai.
— Lalisa, é a sua primeira caça à bruxa. Não fique longe de mim, ouviu? Esta criatura é perigosa. — As palavras foram proferidas com firmeza, enquanto o semblante de seu pai ganhava uma expressão mais séria, com os cenhos franzidos e olhos que fitavam até a alma da garota. Ela sabia que estava recebendo uma ordem.
— Eu compreendo, pai. Não ficarei longe do senhor em hipótese alguma. — A garota o respondeu na altura, com firmeza em sua voz assim como na de seu pai, sem hesitar. Sabia que precisava ficar perto de seu pai, sabia que a bruxa era perigosa, e uma mistura de animação e medo consumiam seu corpo por inteiro.
Era como se uma angústia subisse por sua espinha dorsal inteira, passeasse por seus ombros e depositasse aquele peso nela. Mas a animação fazia seu coração acelerar e seu cérebro desejar que o anoitecer chegasse o quanto antes.
A sensação era nova para a garota, que sempre fora tão calma. Mas parecia uma sensação boa, apesar do medo de encontrar a bruxa ser maior do que a satisfação de encontrá-la e capturá-la. Afinal, o que ela poderia fazer? Lalisa temia isso e este era um dos pensamentos que estava atormentando a garota durante aquele dia inteiro.
19:07
— Certo, estão todos prontos? — A resposta da multidão para a pergunta do padre fora um grito em sintonia: “SIM!”. — Então me sigam todos! E não vão para muito longe. Acendam suas tochas e segurem firmemente suas armas! — O homem ordenava, enquanto prosseguia para dentro da floresta, onde diziam que a bruxa morava.
Os fiéis seguiram logo atrás do padre, com suas tochas acesas e suas armas em mãos. Alguns haviam se armado com lanças, outros com garfos agrícolas, alguns trouxeram enxadas, outros trouxeram facões, e por aí vai.
Lalisa foi atrás da multidão inteira, para guiar os fiéis que estavam mais para trás. Não que soubesse totalmente o caminho que seu pai costumava fazer durante as caças, mas acreditava que estava tudo bem e que ninguém se perderia.
Continuaram caminhando por longos minutos, enquanto os fiéis se juntavam para gritar em uníssono: “BRUXA MALDITA, APAREÇA!”.
A multidão continuava gritando, até Lalisa ouvir um som de galho quebrando. Virou-se assustada para trás e viu uma figura atrás de uma árvore. Por um momento estranhou e se perguntou se era um dos fiéis, mas que estava tímido demais para participar da gritaria e comoção.
— Com licença, você está perdida? — Lalisa aproximou-se com cuidado, mas a garota escondeu-se atrás do tronco da árvore.
Lisa aproximou-se em passos mais longos até chegar na árvore onde a garota estava, e olhou atrás do tronco. Mas ela não estava ali.
Confusa, olhou para os lados, mas como não viu a garota, pensou consigo mesma que talvez estivesse alucinando por conta do medo. Virou-se para poder continuar com a multidão, mas tomou um susto com a figura da menina parada ali, em sua frente.
— AH…! — Lalisa estava preparada para gritar com o susto, mas a menina colocou a mão em sua boca, abafando totalmente sua voz e impedindo Lisa de gritar.
A morena colocou seu dedo indicador em seus lábios e fez um baixo som de “shh”, pedindo para que a freira ficasse quieta.
— Acalme-se, bela moça. Está muito assustada. — A morena comentou, com um sorriso de lado, enquanto retirava sua mão da boca de Lalisa.
Seus cabelos eram lisos e escuros como a noite, olhos misteriosos e uma cara jovem e suave. Entretanto, Lalisa que havia se acalmado, entrou em desespero quando notou o pentagrama tatuado na pele da garota, em seu pescoço desnudo graças ao cabelo da morena que estava amarrado em um coque frouxo.
— Não é possível. — Lisa falou baixo para si mesma, mas a bruxa estava perto o suficiente dela para ouvir sua voz trêmula. — Não, não. Afaste-se de mim, Anticristo! — A freira sacou uma pequena faca que havia trazido consigo escondida de seu pai. Mesmo que houvessem pessoas armadas, ela estava insegura demais para ir sem proteção pessoal alguma. E sentiu-se mais segura ao perceber que estava certa ao pegar a faca para levar consigo. — Afaste-se ou eu te mato agora mesmo, demônio.
— Nossa! Que medo! — A bruxa levantou suas mãos enquanto imitava uma expressão de susto, e era claro que estava debochando de toda a situação. Não era a primeira (e provavelmente nem a última) vez que havia sido ameaçada desta forma, e aquilo não colocava medo algum na mulher. — Primeiramente, senhorita, eu tenho nome. Eu sou Jennie, Jennie Kim.
— Não me interessa o seu nome, maldita! Você é uma ameaça, você é um demônio! — Enquanto Lalisa proferia as palavras e apontava a faca para a bruxa, seu corpo inteiro tremia e sua respiração começava a falhar, estava totalmente em pânico.
A freira havia ouvido tantas histórias de seu pai sobre aquela bruxa, sobre como ela era perigosa, sobre a marca da besta que ela possuía em seu pescoço, sobre as mortes que ela causou, sobre o caos que ela implantou na cidade, sobre como ela era a desgraça em carne e osso, sobre como ela era o Anticristo.
E aquilo amedrontava a garota, lhe dava pânico. Como um ser humano conseguiria ser tão ruim? Deus permitiria mesmo alguém tão horrível existir? Mas agora não era a hora para perguntas.
Ela tentou olhar por cima do ombro da garota, e viu que não havia mais nenhuma luz à frente delas. A multidão se dispersou pela floresta e provavelmente não haviam dado falta da garota, que seguia atrás deles.
— Ah, me poupe. Você vai me esfaquear como? Mal consegue segurar a faca. — Jennie, a bruxa, riu da garota enquanto comentava de forma sarcástica sobre sua situação. Em um movimento rápido ela agarrou a faca e a retirou da mão da garota, fincando a mesma no tronco de árvore que havia ao lado das duas. — Porra, que medo é esse? Sou só uma mulher indefesa. Nem armas eu tenho comigo. Aliás, por que você, que é uma freira, tá com uma faca?
— Você ainda pergunta? Bruxa maldit… — Antes que Lalisa prosseguisse com sua fala, a bruxa colocou a garota contra o tronco, pressionando suas costas contra o mesmo.
— Cala a boca. Se eu fosse tão ruim assim, eu já teria te matado, garota burra. — Jennie já não estava mais com a voz sarcástica ou com sua atitude debochada, parecia estar profundamente irritada com a situação e cansada. — Não sei o que aquele merdinha fala pra vocês, mas eu só quero viver a porra da minha vida em paz. — A mão de Jennie passou pelo ombro de Lisa até chegar em seu pescoço, onde a bruxa passou suas unhas levemente.
A freira sentiu seu corpo se arrepiar, seus pelos se eriçaram e as batidas de seu coração falharem. Não devia, mas o toque da bruxa parecia ter algum efeito em si.
Não. Isso é pecado. Nada de pensar sobre isso.
— Tire suas mãos de mim, por favor. — A voz de Lisa continuava trêmula, a este ponto ela estava abandonando qualquer tipo de ódio ou raiva que havia cultivado em todos seus anos de vida pela bruxa, só queria poder sair viva. — Por favor, não me mate. — A garota parecia estar hiperventilando, sua respiração estava acelerada, e seus olhos encheram-se de lágrimas.
Sentia-se como uma criancinha de novo. Parecia tão assustador ver o demônio de perto, mesmo que ele se assemelhasse tanto à ela. Mesmo que ele fosse um ser humano, como ela.
Por que o demônio se assemelhava tanto à ela?
— Querida, eu não vou te matar. Por que eu faria isso? — Jennie deslizou sua mão pelo pescoço da garota, que estava encoberto pela túnica branca que a mesma usava por debaixo de outra túnica preta. — Por que usa essa roupa?
— Porque você é a bruxa? — Lalisa respondeu a pergunta de Jennie, mas sua resposta soou quase como outra pergunta, como se a resposta fosse óbvia. Jennie revirou seus olhos com a resposta da garota. — E porque nós, como mulheres de Deus, devemos nos resguardar, ser recatadas e obedientes, assim não provocamos nenhum homem. — Jennie franziu o cenho com a resposta da garota, soltando uma risada de deboche logo em seguida.
Retirou sua mão do pescoço da garota, parando de pressionar a mesma contra o tronco da árvore.
— É uma piada atrás da outra, não é possível. Vocês têm que se resguardar? Os homens não conseguem manter o pênis dentro da calça não? — A bruxa continuava rindo, aquela realidade simplesmente não se encaixava a ela. — Você é muito boba, coitada.
O rosto de Lalisa se avermelhou fortemente, estava envergonhada de ouvir tantas palavras baixas de forma seguida, mas sentia que Jennie definitivamente não agia como esperava que a bruxa agiria.
Enquanto a bruxa continuava a rir distraída, Lalisa olhou para o lado que a multidão seguiu, e saiu do local correndo, sem olhar para trás.
— EI! ONDE VOCÊ ESTÁ INDO?! — A bruxa gritou assim que notou, mas não adiantaria de nada, Lalisa corria mais do que o esperado.
— A BRUXA! É A BRUXA! ALGUÉM ME AJUDE! SOCORRO! — A freira gritava em desespero, correndo e correndo. Entretanto, em meio ao desespero, sem tomar cuidado, a garota tropeçou em sua túnica e caiu para frente.
Bateu seu queixo e deu mau jeito em seu tornozelo, sem conseguir se levantar direito. Por sorte, a multidão havia ouvido seus gritos e acharam a garota.
— Filha! Eu falei pra você não se afastar de mim! — Seu pai chegou no local enfurecido, ajudou a garota a se levantar e limpou sua túnica e seu véu. — Olhe para você! Está toda suja. Onde está a maldita?
Lalisa apontou para a direção onde estava até pouco tempo atrás, e onde a bruxa estava com ela. Seu pai partiu na direção que ela havia falado, sem sequer ajudar sua filha com os machucados.
— Lali! Você está bem? — Uma voz familiar fora ouvida por Lisa. Era Roseanne, sua amiga de infância.
— Ah, Rosé… — Lali se apoiou em sua amiga que ajudava ela a andar, já que a mesma estava com o tornozelo torcido. — Papai está bravo comigo, não está? — Lisa colocou-se a chorar, se sentia errada e culpada, seu pai estava bravo e nem sequer havia lhe fornecido ajuda.
— Lali, seu pai estava nervoso e preocupado com você. Ele está indo atrás da bruxa para salvar todos nós, não foi por mal que ele não parou, ela só não pode escapar de novo. — Rosé consolava sua amiga, enxugou suas lágrimas com as costas da mão e deu-lhe um abraço.
— Mas eu precisava dele aqui, Rosé…
22:47
— Não faça mais isso, nunca mais, está me ouvindo Lalisa Manoban?! — O pai da garota gritava. Transmitia preocupação com a filha, mas aquela gritaria certamente a assustava.
— Perdão, pai. Eu não vou mais fazer isso. — A garota estava cabisbaixa, enquanto segurava as lágrimas e apertava sua túnica fortemente.
O padre notou que a garota estava cabisbaixa, e foi até ela e lhe deu um abraço, suspirando fortemente, como se tirasse um peso.
— Eu estava muito preocupado com você, Lalisa. Você sabe que o pai só briga contigo porque te ama, não sabe? — O abraço do homem era apertado, como se tivesse medo de soltar sua filha e perdê-la.
Quando soltou o abraço, seu pai pediu para que a garota o esperasse e saiu do quarto por um momento, voltando após cerca de 30 minutos com água quente em uma bacia.
O homem colocou a bacia no chão e pegou os pés da garota, colocando-os dentro da bacia com água, molhando e aquecendo seus pés. Ele lavava os pés da garota e massageava o tornozelo torcido da mesma.
— Eu errei. Eu deveria ter ficado com você. A bruxa fez algo contigo?
— Não fez, pai. E não é sua culpa, eu me descuidei.
— Tem certeza de que encontrou a bruxa? — O homem parou de fazer o que estava fazendo e olhou para a garota.
— Tenho. Ela estava com a marca da besta que o senhor falou. — A garota olhava para seu pai com um olhar preocupado, falando de forma sincera e honesta.
— E ela não fez nada com você? Acho que você só estava alucinando Lalisa. — O homem retirou as mãos da água e as secou em uma toalha que havia deixado ali perto para a garota secar seus pés. — Termine de lavar seus pés e vá deitar. Acho que a noite foi longa para a senhorita. — O pai da garota claramente não acreditava nela, afinal, a bruxa é um ser horrível e mal, e não havia feito nada com sua filha? Ela só poderia estar louca.
Ele saiu do quarto e fechou a porta, deixando a garota sozinha com seus próprios pensamentos.
— Noite longa… — A garota repetiu para si mesma. Seus pensamentos turbulentos a dominavam e perguntas sem resposta preenchiam sua mente.
“Você é muito boba, coitada.” Uma das frases ditas pela bruxa tomou espaço, e as mãos de Lalisa agarraram fortemente o lençol de sua cama.
— Eu não sou uma boba, e muito menos uma coitada. Você vai ver só, bruxa maldita. — A garota retirou seus pés da água quente e os secou, aproveitando para trocar o curativo que havia molhado. Com cuidado, levantou-se e foi jogar a água fora e guardar a bacia em um canto de seu quarto, já que não conseguiria aguentar a dor de descer as escadas estando com o tornozelo torcido.
Lisa retirou suas túnicas e colocou uma camisola levemente larga, mas confortável. Voltou para a sua cama e antes de deitar-se, se ajoelhou na beirada da mesma.
— Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido, não nos deixei cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém. — Lalisa rezou, com seus cotovelos apoiados na beirada da cama, ajoelhada e com as mãos entrelaçadas, seus olhos fechados e a voz baixa que possuía um tom quase de súplica.
A garota suspirou profundamente e levantou-se do chão com dificuldade, olhou através da janela de seu quarto, que dava para a floresta em que a bruxa vivia.
— Eu vou atrás de você amanhã, bruxa. — A freira falou, como uma afirmação para si mesma, já que não havia como ameaçar alguém que não estava no mesmo espaço que a garota.
Franziu os cenhos, insatisfeita. Fechou as cortinas e deitou-se, se cobrindo com as cobertas logo em seguida. A garota se acomodou na cama, enquanto seus pensamentos insistiam em voltar. Haviam tantas perguntas que se faziam presente em sua mente, mas tentava ignorar todas elas.
“Ela era bonita.”, “Ela não agia como a bruxa que papai falava.”, “Se ela é a bruxa e ela mesma confirmou, por que não me atacou? Por que me deixou sair viva?”, “Ela é realmente má?”, “Afinal, o que é o certo e o errado?”.
A garota encolheu-se e chacoalhou sua cabeça, numa tentativa de afastar todos estes pensamentos. Suspirou mais uma vez, fechando seus olhos.
Lalisa pensava consigo mesma que, se capturasse a bruxa que seu pai estava caçando há anos, então conseguiria o perdão e o orgulho que tanto desejava de seu pai. Planejava que iria até a floresta novamente na noite do dia seguinte, para poder encontrar a bruxa novamente. Para poder capturar a bruxa.
