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loml (loss of my life)

Summary:

O que começa como algo casual entre Castiel e Dean logo se transforma em um sentimento poderoso. Dean Winchester é a mente brilhante do campus, um prodígio das ciências e o cara mais bonito que ele já viu. Castiel tem tantos problemas de confiança que sequer deixa amigos chegarem perto demais, quem dirá um rapaz romântico disposto a conquistá-lo.

Embora a relutância seja constante e ele tente estabelecer um muro entre os dois, Castiel está secretamente encantado. A gentileza, a delicadeza, o quão vulnerável e entregue Dean é na cama. Talvez esse seja o momento de encarar o passado e se dar permissão para sentir outra vez, mas só tem um problema: se Dean descobrir sobre o vídeo, Castiel não conseguirá mais confiar nele, tampouco amá-lo.

Notes:

Oi, essa fanfic é bem clichê, mas meio sofrida. Gosto dos diálogos, então decidi tirar dos meus rascunhos e publicar. Se alguém achar, boa leitura! O próximo capítulo não vai demorar.

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

"Oh, what a valiant roar, what a bland goodbye
The coward claimed he was a lion
I'm combing through the braids of lies
"I'll never leave, " "Never mind"
Our field of dreams engulfed in fire
Your arson's match, your somber eyes
And I'll still see it until I die
You're the loss of my life"

- loml, T.S.

 


Ao erguer o rosto para o cara parado diante da mesa, Castiel ainda não sabe o que vem. 

Não existe o menor sinal, seja de encorajamento ou de alerta, nem o mínimo presságio do que está prestes a mexer com toda a sua vida. 

Não há luzes em tons quentes ao redor da cabeça dele como uma auréola ou câmera lenta. Não há fogos de artifício, nem música romântica de fundo. Nem o menor dos arrepios, ou a mais simples das reações.

Parece um evento comum, afinal você está sempre encontrando pessoas desconhecidas. Elas entram e saem da sua vida sem o menor impacto porque estão apenas de passagem. Quase ninguém fica, e ele tem experiência nisso.

Dean vai ficar, por um tempo. Castiel ainda não sabe disso.

Ele tem o reflexo de pedir outro milkshake de baunilha, mas logo nota que a pessoa não está de avental como os funcionários de Jody. Na verdade, este que lhe deu boa noite e o fez tirar os olhos dos livros pela primeira vez hoje é familiar. Castiel já o viu antes, perambulando pelo campus com pilhas de livros ou levando sua pose de badboy nas palestras de Antropologia. 

Mas embora pareça ele não é um badboy. 

É um Legado.

— Boa noite — diz o cara, pelo que parece ser uma segunda vez cuja primeira Castiel não escutou. — Posso me sentar com você um pouquinho?

Ao redor, o bar de Jody segue agradável, confortável e espaçoso. A iluminação é ótima, a comida nem se fala, e muitos alunos frequentam o local para encontros, grupos de estudos. Castiel é dos que estudam sozinhos, qualquer companhia é uma imensa distração. Ele não tem motivo algum para deixar um Legado de jaqueta jeans sentar-se à mesa.

— Posso te ajudar com alguma coisa?

— Meus amigos ali apostaram que eu não teria coragem de vir aqui falar contigo — responde o cara, prontamente, sem hesitar. Aponta para um grupo de caras reunidos a algumas mesas dali, assistindo o jogo do Barcelona juntos. — Eles te acham um desafio, do tipo que tem poucos amigos. Mas eu te acho um gatinho, então vim conversar um pouco.

Castiel repete cada palavra entrementes antes de abrir a boca.

— Eles têm razão. Eu sou de poucos amigos.

O cara sorri. Castiel ainda não disse não, mas ele não quer dizer. Ele quer dizer, mas ainda não disse porque não é todo dia que um Legado de repente nota sua existência. Ele se sente estúpido e interesseiro, mas não pode perder uma chance. 

Estar perto de um Legado é ter acesso a uma oportunidade ímpar dentro do campus. Castiel planeja usá-lo assim, de imediato, já arquitetando as etapas de como fará para conseguir uma bolsa também.

— De quanto foi a aposta?

— Cem.

— Mentira.

— Vinte e cinco de cada. Cem ao todo se eu ficar quinze minutos conversando, adicionais se eu te fizer rir.

— Eu não rio, nunca. — Castiel aponta o lugar à frente. — Pode sentar se me der metade.

— Metade? Não! Noventa a dez.

— Sessenta a quarenta.

— Meu Deus! Setenta a trinta.

Castiel suspira.

Sessenta a quarenta.

— Beleza, mercenário de olhos azuis!

O Legado ergue as mãos em defesa e desliza diante dele. Pode-se notar que seus amigos estão prestando atenção, mas eles fingem bem. Eles se cutucam e revezam entre quem estará espiando. É ridículo, típico de grupos de amigos homens. 

Castiel não faz ideia de como é, nunca entendeu esse pressuposto, os códigos dos homens em grupo. Nunca andou por aí atado a outros semelhantes com quem tivesse conexões, a menos que fosse para alguma pesquisa em campo.

— Meu nome é Dean Winchester. — O Legado estende a mão, mas Castiel apenas acena. Não vai apertar a mão dele, odeia apertar mãos. Os dedos das pessoas às vezes são ásperos e você nunca sabe quando foi a última lavagem com detergente ou sabonete líquido. — Tudo bem.

A mão é recolhida, mas ele não vai se desculpar.

— Fala alguma coisa, assim não vai aparecer que tô te ameaçando com uma faca.

Em resposta, Castiel aponta os livros e cadernos sobre a mesa, a mochila ao lado, a comida bagunçada cutucada de pouquinho em pouquinho. Ele está nisso desde a tarde, já deve ser mais de nove horas da noite. Pesquisa, pesquisa. Revisão, revisão. 

Um jantar e duas aspirinas depois, não tem como tagarelar sobre qualquer bobagem.

— Bla bla bla — murmura, então. — Bla bla bla, bla bla. Bla bla? Bla, bla.

— Isso não é bem… — Dean está meio reclamando, meio rindo. — Não foi bem assim que imaginei. 

— Tanto faz.

— Por que não me diz o que tá estudando com tanta dedicação?

— Já estou pensando nesse assunto há horas, ainda quer que eu fale mais sobre isso? Eu prefiro recitar Walt Whitman, assim minha boca não vai fechar e seus amigos vão saber que estou muito entusiasmado com a nossa conversa.

— Ah, beleza. — Dean mexe a mão no ar. — Pode citar esse Walt…?

— Whitman. Walt Whitman. Não sabe quem é Walt Whitman?

— Eu sou de Medicina. — Dean toca no peito como se isso explicasse tudo.

— E por isso não sabe Geografia básica?

— Ai! Jesus Cristo, você pensa que é quem? De onde veio?

— Ucrânia — Castiel responde, sem elaborar.

Dean Winchester contrai os lábios e queixo como quem diz a si mesmo “nossa”. Mas para Castiel é apenas bate-pronto, uma resposta ácida a uma pergunta simples. 

Ele nasceu em Boston, não na Ucrânia. Ele visitou a terra de sua família uma vez para nunca mais. Tudo era caro e as pessoas eram sérias ao ponto do próprio Castiel se sentir simpático. Um tremendo absurdo.

— Qual é o seu curso? 

— História.

— Bem que tem cara de professor. 

— Isso é insulto? — Castiel questiona, sem resposta.

— Um elogio do mais sincero.

Dean não parece nada sincero. E não quer parar de falar.

— Te imagino saindo de uma sala com os braços cheios de pastas, jogando tudo no banco do carona do seu Fiat Uno e parando no primeiro bar que encontrar porque é sexta-feira, um aluno te deu uma cotovelada sem querer quando foi apartar uma briga na escola pública de bairro, seu salário é uma merda, as condições de trabalho são uma piada, e não tem nada que uma boa vodka não resolva.

— Eu também dirijo embriagado nessa sua visão e depois morro? Porque se sim, até que não é tão ruim para o que você pensa que é a vida de um professor.

— Posso pensar uma previsão melhor se quiser.

— Não é necessário.

— Vamos ver. — Dean passa as mãos uma na outra e murmura um longo hm enquanto pensa. — Você tem trinta e oito. Está divorciado, mas tudo bem porque sua esposa só seguiu um caminho diferente. Ela queria pegar a poupança e viajar, mas você sempre foi cauteloso, meio careta e queria comprar uma moto pra se sentir jovem de novo. 

— Trinta e oito é jovem…

— Você ainda é jovem, mas às vezes esquece disso porque se sente culpado por ela ir embora. Sabe que não foi só por serem diferentes, foi porque não conseguiam engravidar e parecia que estavam tentando cumprir etapas de uma vida pré-estabelecida. E, nossa, é muito chato viver assim.

— Isso é uma previsão melhor? Eu também morro nessa?

Dean ergue um dedo, como quem põe um “mas” na questão.

— Aí um dia você tem a chance de ensinar numa turma que todo mundo considera perdida. 

— Roteiro batido de salvador branco, um clássico.

A mão de Dean repousa sobre o peito numa pausa dramática.

— Ninguém gosta daquelas crianças que cresceram em lares violentos sem chances e sem amor, ninguém luta por elas, mas você vai lutar porque seu filme favorito é Sociedade dos poetas mortos e você nunca largaria crianças com potencial à própria sorte. Você se torna uma figura paterna pra elas, mantém elas seguras e faz todas se sentirem acolhidas. 

— Meu filme favorito não é esse.

— Você descobre que se formou não para ficar de pé na frente de uma lousa falando pra jovens que não querem ouvir, mas sim porque enxerga propósito em estar lá. Porque sabe que é importante ter alguém que esteja lá quando se é jovem.

— É nessa hora que eu lembro que ainda sou jovem e compro uma moto?

— Sim, e passa as suas próximas férias viajando sozinho pelo litoral.

— Todas as suas previsões me colocam sozinho, não acha que isso é puro sadismo? — Castiel acusa. — Se você fosse o escritor que está desenhando o meu destino, eu teria medo. Nunca faria um personagem feliz.

— Eu poderia te fazer feliz — Dean diz, mas de repente recua, franzindo o cenho. — Bem, na história. Supostamente.

— Supostamente também posso fazer previsões sobre um cara que não conheço. Não é coisa de gênio, certo?

Dean estende a mão, cedendo-o a vez.

— Me dê o seu melhor.

Castiel toma um tempo para pensar. Sete longos segundos.

— Você não vai terminar Medicina.

Dean ergue as sobrancelhas, à espera, mas isso é tudo.

— Não vou terminar Medicina porque vou morrer, ou o que?

— Não é o que você quer.

— Está supondo e projetando.

— Supondo, apenas. Projetar é espelhar no outro o que eu não admito, e eu amo cursar História. Mas você não ama Medicina, e não vai terminar.

— Jeito interessante de encorajar um calouro.

— Eu sou um balde de água fria esperando o primeiro distraído.

Dean ri dele. Por causa dele.

— O que mais?

— Provável que compre uma moto, se não tiver uma, ou um carro desses clássicos bem masculinos, porque seus ídolos são homens clássicos do rock, tipo Jimmy Hendrix, Robert Plant ou Paul Stanley.

Dean entreabre a boca.

Como sabe que gosto de Led Zeppelin?

Castiel já o viu com camisas da banda pelo campus, mas prefere morrer a contar.

— Aí vai tentar montar uma banda, mas vai dar errado porque não são mais os anos 2000 e tudo é absurdamente difícil hoje em dia. Vai perceber que o rock morreu porque a cultura pop engoliu tudo e se sentir emasculado por como “música de verdade” não é mais valorizada.

— Eu não desmereço a cultura pop, qual é! Adoro a Taylor Swift!

— Só que tem um porém, porque a vida adulta vai te cobrar responsabilidade e você vai se formar em algum curso que te dê sustento básico, mas não tenha importância de verdade. E vai acabar frustrado e alcoolizado trabalhando numa empresa de contabilidade, ganhando bem, mas sem poder fazer nada que realmente gosta porque sua esposa branca loira padrão tem vergonha toda vez que você pega a guitarra pra dar uma de Slash nas reuniões de família.

Dean fica completamente mudo por tanto tempo que Castiel quase ri.

Quase. 

— É o irmão do Lúcifer Novak, não é? Seu irmão caçula não se chama Gabriel, da equipe de natação? Qual é o lance, o pai de vocês quis criar um culto? Não me diz que o nome dele é Jesus.

Castiel sabe que ele muda o rumo do assunto de propósito. Não gosta, mas sabe como jogar o jogo. Na verdade, ele é o melhor de todos nesse jogo, e é ótimo que Dean Winchester não saiba.

— O nome do meu pai é Charles — responde. — E se você considerar que o negócio da família é missionário, da Igreja dos Últimos Dias, então sim, é um culto.

Dean ri de novo, embora Castiel tenha certeza de que não fez uma piada.

— Minha família é toda de ateus — diz. — Uma vez um primo da família que é católico deu uma bíblia pra minha mãe e antes de dormir ela leu uma parte pra mim e pro meu irmão. Era sobre um bando de crianças que tinham rido de um careca aleatório e sido mortas por um urso raivoso que o próprio Deus enviou. Tipo, cara, que porra é essa? É isso que ensinam às crianças nas escolas dominicais, que um urso te come se você rir de um calvo?

Castiel o encara sem ter a menor ideia do que dizer. 

— Não sei o que dizer sobre isso, minha genética é ótima e é provável que eu nunca fique calvo. Nenhum urso nunca vai me comer.

Dean gargalha. Nossa, ele é muito bonito, a curva do nariz franzido, os olhos redondos apertados, as sardas. O jeito que as mãos entrelaçam os dedos sobre a mesa, meio relaxado, mas os ombros vez ou outra mexem em tensão. Dean Winchester está nervoso em conversar com ele, não consegue parar de sorrir e tem uma voz grave maravilhosa.

Castiel não tem interesse nele, mas caramba, ele não é estúpido de negar.

— Você é um Legado — diz, então. — Já te vi na biblioteca e no prédio de Pesquisa Aplicada. Curiosamente, também já te vi no Muro da Fumaça.

Dean não está interessado em negar nada. As pessoas que vão ao muro nos fundos do prédio de atletismo fumam tanto que, se alguém acender um fósforo sem cuidado, pode causar combustão em todo mundo. 

Além disso, é contraproducente perder tempo por lá ou passar todas as horas livres enterrado atrás de pilhas de livros. Não parece lógico.

— As pessoas precisam de uma boa distração. — Dean não menciona seu legado, tampouco os privilégios e regalias que isso traz. — Você não fica meio doente quando passa tempo demais só estudando? 

— Pra isso que serve o curso de Farmácia, pra que remédios sejam produzidos e você vá até o prédio deles tomar um comprimido quando tiver dor de cabeça.

Credo. — Dean sorri, pasmo. — Então, não para pra nada? Não precisa ser um ato de rebeldia como se drogar, você não para nem pra fazer uma corrida, cozinhar alguma receita vegana esquisita ou rezar junto com seus irmãos, sei lá?

— Não sou vegano. Tenho anemia, não posso correr ao ar livre por causa do calor já que minha pressão desregula, e não cozinho nada. Sou ateu, também. Eu disse que minha família é um culto, não que sou crente.

— Hm. — O Legado estreita os olhos na direção dele. — Pelo menos nenhum urso nunca vai te comer.

Castiel poderia rir, ele realmente poderia. Mas não parece o momento.

— Como conseguiu uma vaga no laboratório de pesquisa?

Dean tamborila os dedos sobre a mesa. Castiel encara brevemente as unhas pintadas de um preto descascado, o anel de prata no dedo anelar esquerdo.

— Eu acabei de entrar, passei pelo trote só há um mês. Foi uma bolsa, como qualquer outra. Vamos dizer que eu era o único gênio da Saint Mary High School, a escola pública de periferia onde cresci. Todos os projetos de pesquisa vinham pra mim e isso contou vantagem quando apliquei pra cá.

— Sua pontuação geral na seleção foi…?

— Oitenta e oito.

Meu Deus.

— Eu sei.

Castiel nem sabe se ele está mentindo ou se exibindo, mas de qualquer forma é estarrecedor. 

A média para bolsistas é de setenta e oito. Em duzentos anos de Universidade apenas seis pessoas tiraram acima disso. Se Dean não está mentindo, ele é apenas o sétimo. Em duzentos anos. 

A pontuação de Castiel foi sessenta e sete. Não dirá isso a um Legado, é vergonhoso.

— Parece confuso. — Dean lê sua expressão bem demais e ele odeia. — “Como será que um cara como ele pode ter se saído tão bem?”

— Na verdade, eu não critico ou duvido da sua inteligência, é óbvio que ninguém vira um Legado sendo medíocre. Só estava pensando em me matar quando chegasse no dormitório e lembrasse da minha nota na seleção.

Dean abre a boca para responder, mas sopra e acaba rindo dele.

— Você é mesmo muito gatinho, Castiel.

— Eu não te disse meu nome.

— Todo mundo sabe seu nome. Até a Jody assistiu o seu vídeo de natal.

Merda.

— Nossa, que ótimo — Castiel diz, sem emoção alguma. Ele baixa o rosto na direção do caderno e fecha os olhos por um segundo. — Você viu o vídeo todo?

— Acho que sim. Você vomitou tudo, certo? O tapete caro daquela garota rica. Foi bem engraçado. Meio rebelde pra caras do seu tipo que engolem bibliotecas e essas coisas.

— Não viu o vídeo todo? — Ele precisa ter certeza.

Dean franze a testa.

— Como assim o vídeo todo? Aprontou mais alguma?

Algo bem parecido com alívio esquenta no peito de Castiel. Ele respira fundo, mas não entrega nada tão fácil. É estranho que Dean nunca tenha assistido o que acontece depois do minuto seis de vídeo, porque todo mundo viu. Semana passada um professor de Castiel ofereceu seus sentimentos e lamentou o fato de que o vídeo tinha chegado até ele e o homem não entendeu como aquela pessoa estóica e dedicada de sua classe podia se humilhar àquele ponto.

— Pode olhar pra mim um momento? 

— Já olhei demais pra você e ainda tenho sete linhas de relatório pra terminar.

— Pra quando é esse relatório?

— Sexta-feira.

— Hoje é terça.

— Os perus são mortos meses antes do natal.

— Pode olhar pra mim um momento, Castiel?

Castiel olha. 

Ele percebe melhor o rosto simétrico, os lábios curtos e levemente carnudos, os olhos redondos e verdes, um pouco juntos, as sardas no nariz e no topo das bochechas. Ele percebe que Dean é bonito, que a beleza dele não é descartável, é o tipo de beleza que envelhecerá com o dono, tornando-o mais e mais bonito com o agravante dos cabelos brancos.

— O que foi?

— Posso ser honesto com você, já que em alguns minutos vamos poder dividir em setenta a trinta o valor da aposta?

Sessenta a quarenta.

— Isso. Posso ou não?

— Melhor não.

— Tudo bem, eu vou dizer, não precisa insistir — Dean caçoa, inclinando-se um pouco sobre a mesa e fazendo com que Castiel deixe a coluna mais reta, menos alcançável. — A aposta não é exatamente por sua causa. Eles estão tentando fazer com que eu transe.

— Não.

— Mas eu nem te propus nada.

— A resposta sempre vai ser não.

— Certo, certo, mas não é mesmo uma proposta, só escuta. — Dean diminui o tom de voz após olhar ao redor. O sorriso no canto de sua boca faz com que Castiel considere fugir correndo antes que tenha problemas. — Eles estão tentando me ajudar a perder a virgindade.

Se não fosse extremamente ridículo, Castiel estaria rindo e ganhando adicionais.

— Você não é um predador sexual, é?

— O que?! Não!

— Que papo estranho é esse de virgindade? Você é de maior, né?

— Sim, eu… — Dean recua, na defensiva. — O que tem de errado em ser virgem?

— Nada, mas você conta pra um estranho, então espera que ele acredite e te leve pro quarto mais próximo pra te desvirginar? A aposta é sobre isso?

— Não quero ser desvirginado. — Dean repete o termo com horror.

— Tá, então qual é a tua, cara?

— A aposta é sobre eu conseguir conversar com alguém sem transformar tudo num drama e acabar sozinho de novo, e sem sexo de novo.

— Se veio de fracassos anteriores, o que viu em mim que pode estar te dizendo que isso é uma possibilidade?

— Nada. — Dean encolhe os ombros. — Só achei que seria legal te contar, pra criar um vínculo e quem sabe fazer você se abrir. Aí a gente podia ser amigos, não sei.

— Quando você fez amizade com aqueles caras, contou pra cada um deles que nunca comeu ninguém pra que eles rissem da sua cara?

— Não, eu cresci com dois deles…

Castiel revira os olhos.

— Essa conversa foi pra um lado muito estranho, acho melhor tentar os seus cem dólares com outra pessoa.

Dean abre a boca. Depois, a fecha.

— Eu não ia te pedir pra fazer sexo comigo. Só queria ter uma conversa legal.

— Você não deve conversar com muitas pessoas, então.

— E você tem muita cara de quem é o próximo Miss Simpatia. Como vai a sua campanha de Pessoa Mais Querida do Campus?

Castiel o encara. Pensa em responder com ofensas, mas ofensas são coisas que escalam sem parar e só acabam quando alguém está ferido. Ele não tem motivos para ferir Dean, para destratá-lo, mas também não tem motivos para estar sentado conversando com ele. 

Após uma pausa, no qual o Legado verifica os minutos no relógio analógico de pulso, Castiel suspira e larga a caneta sobre o caderno.

— A virgindade na faculdade é uma falácia estúpida — diz, e algo muda nos olhos de Dean, pego de surpresa. — As pessoas acham que existe uma lista de coisas que determina quem é adulto, por isso elas ficam infelizes quando não marcam ok nos tópicos. Faculdade, emprego? Ok, ok. Sair da casa dos pais? Ok. Ainda não saiu da casa dos pais? Péssimo, saia logo ou não será um adulto. Namora? Ok. Não namora? Dá um jeito, vai comer alguém. 

— É… — Dean não parece ter certeza das intenções dele. — É, por aí.

— É uma performance. Tudo é uma maldita performance. Se seus amigos que cresceram com você não podem suportar que outras coisas ocuparam espaço na sua vida e não foi possível ou só não foi o momento de transar, então senta e conversa com eles porque amigos pra vida toda não jogam esse tipo de jogada culpabilizadora. 

— Obrigado!

— E se está mentindo, o que pode estar, é provável que esteja, então não é tão engraçado fazer piada sobre isso. 

— Caramba, não é piada.

— Eu perdi a virgindade ano passado, quando cheguei aqui, porque queria me enturmar e porque na escola eu era um nerd de péssimo tato pra socializar. 

— Não me diga.

— Eu não era o gênio da minha escola, eu não ganhei bolsa, quando cheguei só tinha ansiedade generalizada e um discurso enorme sobre os gastos da minha família na minha formação batucando na minha cabeça vinte e quatro horas por dia, então dei pro primeiro que quis. Sabe o que eu descobri? 

— Acho que sei.

— As pessoas são um lixo. Tudo que puderem fazer pra te deixar mal em seu corpo, em suas escolhas, com seu jeito de ser, elas vão fazer sem dó. Então manda tudo pra casa do caralho. Se não quiser transar, não transa.

— Mas eu quero, só não tenho sorte. Nem jeito com as pessoas, assim como você. Por isso te contei, mas obrigado por me mostrar que as pessoas são um lixo.

Dean o olha um tanto tímido, como quem verifica se Castiel vai ouvir dessa vez. Quando ele não pega na caneta novamente, o Legado continua.

— Eu tive várias namoradas na escola, mas não fui muito longe com nenhuma. Eu saí com caras, mas entrei em pânico antes de qualquer coisa. Depois que cheguei aqui, parece que recebi uma mensagem dos céus pra focar nos estudos já que pra minha família eu sempre fui o burro, o sem futuro, o que não ia fazer nada de interessante. Meu irmão, Sam, é o prodígio, o amado. Quando passei na seleção do Legado, meus pais pensaram que eu tinha colado de alguém na prova.

— Que ótimo, nossas famílias nos odeiam — Castiel comenta. — Tudo bem, podemos ser amigos.

Dean ri fracamente, de si mesmo, de tudo.

— Eu tenho mania de compartilhar demais quando tô nervoso, por isso acabei falando do lance da virgindade e foi mesmo muito estranho. Desculpa.

— Eu não sei ouvir ninguém desabafando porque meu terapeuta disse que trauma de abandono gera insegurança em ter alguém dependendo de você, já que você sempre se virou sozinho. Por isso minha reação foi bem pior do que o seu desabafo fora de hora com um estranho que só te julgou. Desculpa.

Eles ficam completamente quietos depois disso, um tentando fugir dos olhos do outro.

— Certo… — Dean assente, mexendo a cabeça como se aceitasse uma série de condições em um contrato muito detalhado e longo. — Eu só contei porque não queria você achando que sou desses que só querem conversar com alguém pra fazer sexo.

— Tanto faz. — Castiel abana o ar, dispensando a culpa dele.

É uma conversa muito estranha. É um primeiro encontro horrível.

Não, não, não é um encontro. Não é.

— Posso te pagar um jantar?

— Estou estudando desde a tarde. — Castiel tira os óculos do rosto e tenta limpá-lo na manga do suéter. — Já comi demais, obrigado.

Dean olha obsessivamente para os óculos dele, então para os olhos azuis que as lentes estiveram cobrindo.

— Posso cozinhar pra você, então? Disse que não cozinha.

— Já comi demais, obrigado.

— Hoje não. Outro dia.

Castiel pisca, considerando com o máximo de gentileza que consegue.

— Melhor não. Já se passaram quinze minutos.

— Já, sim. Quer dizer, quase, acho. Posso ficar mais um pouco.

— Quero meu dinheiro. Sessenta a quarenta, como combinado.

Dean sorri. Ele realmente abre um sorriso imenso por algo simples, virando-se para a mesa onde seus amigos se agitam e comemoram com sutileza, a fim de que Castiel permaneça supostamente inconsciente da aposta.

— Setenta a trinta se me levar até o meu dormitório — sugere de repente.

Dean arregala os olhos.

— Oh.

— É. Você não sabe dar em cima de ninguém e parece um idiota estabanado, mas pelo menos não é feio. Eu vou juntar minhas coisas, você se despede dos seus amigos. Quando voltar daquela mesa, vai colocar minha mochila nas costas e me levar pra sua moto, carro, carroça, pouco importa.

— É um Chevy Impala meia-sete.

— Saúde. E aí a gente sai e depois pode dizer pra eles que transamos. Ou sei lá, eu só não quero pegar ônibus.

— Não sou assim. Não vou espalhar por aí uma coisa que não fizemos.

— Não precisa se preocupar. — Castiel abana o ar de novo, dispensando a gentileza boba dele. — Seus amigos me escolheram por um motivo, e acredite quando digo que não foi a profundidade dos meus olhos azuis.

 


 

Castiel não fuma, mas parte dele considera fumar enquanto espera Dean. Ele imagina que tipo de coisas os amigos do Legado estão explanando para deixá-lo a par da situação. Imagina Dean ficando surpreso, descrente e depois chocado porque um deles tira o celular do bolso e mostra o vídeo na íntegra. 

Os pais de Castiel conseguiram uma limiar para apagarem o vídeo, mas nada nunca some realmente da internet. Todo mundo sabe disso.

Ele pesquisa na internet qual dos carros é o chevy-foda-se e repousa a mochila cheia de cadernos no capô. Encostado e nervoso, prepara-se para o momento em que as pessoas descobrem. Ou fazem disso um escarcéu ou minam a conversa aos poucos, arrumando desculpas estúpidas. 

Dean é um mistério, ele pode simplesmente xingá-lo e mandá-lo à merda. Desencosta do meu carro, putinha. Algo assim.

O sorriso de Dean ao se aproximar não é nem suspeito, e isso o incomoda. Ao sair do bar de Jody com uma das bolsas de Castiel a tiracolo, a própria mochila nas costas e as chaves na mão, não há sinais de desconforto. 

Não contaram, Castiel pensa, considerando que os amigos decidiram deixar para depois, então. Para quando a revelação possa destruir os dois. Seria tão clichê, não seria?

— Jody me deu uma porção extra de fritas. — Dean sorri com todos os dentes, indo dar a volta até a porta do motorista.

Após destrancado, Castiel entra no carro. Suas duas mochilas pesadas são jogadas no banco traseiro. Tenta relaxar no banco do carona com todas as forças, mas é difícil. Tem um cheiro de couro e cigarro em tudo, mas é bem limpinho. Não tem poeira acumulada em nenhum canto do painel. Os vidros estão lustrados e o volante tem um revestimento sintético bacana. 

Dean liga o rádio e algum pop do momento enche o interior enquanto dão a partida.

Com a porção de batata frita extra entre eles, quietinha no porta-copos, Dean dirige sem preocupação com nada no mundo.

— Nós não vamos fazer sexo — Castiel declara.

— Nós não vamos fazer sexo — Dean concorda. Ele aumenta o volume da rádio e começa a berrar. — I want your love and I want your revenge. You and me could write a BAAAD ROMAAAAANCE! Vamo’, canta comigo, Castiel!

Castiel o olha como se fosse louco.

— Para o carro, é melhor ir de ônibus.

Ra-ra, ah-ah-ah. Ro-ma, ro-ma-ma. Ga-ga, ooh, lala. Want your bad romance!

— O urso que matou as crianças por causa do calvo te possuiu?

Dean gargalha. Ele é leve e simples. 

Castiel vê logo de cara que não daria certo.

— Olha, é o começo da semana, eu tenho um monte de coisa pra estudar e você passou horas no mesmo trabalho hoje. Não quer fazer alguma coisa? Alguma coisa divertida?

— Eu vou me divertir muito depois de tomar um bom banho e me deitar nu na minha cama, assistir Friends até dormir como um anjo.

Dean anui como quem concorda com uma aventura.

— Tudo bem, então. Vou passar na farmácia e comprar uma escova de dentes pra mim, deu pra notar que você não gosta muito de toque físico, quem dirá indireto. Vai que eu uso a sua e te provoco um ataque de ansiedade, sei lá.

— Escova de dentes… — Castiel pensa a respeito. — Não vai dormir lá.

— Qual é, meu dormitório é do outro lado do bairro, cara!

— Para ali depois do sinal, eu fico na próxima parada de ônibus.

— Relaxa, nós não vamos fazer sexo. — Dean estapeia o ar.

— Não, nós não vamos fazer sexo — Castiel reafirma.

Ele não pode ignorar o jeito que Dean mexe os ombros como se soubesse a coreografia da música, porém. É tão ridículo.

— O que seus amigos disseram? — pergunta, cautelosamente.

— Que eu não ia conseguir transar porque você tava com uma cara de que queria colocar minha cabeça numa latrina.

— Eu não sou tão ruim assim.

— Tranquilo. — Dean encolhe os ombros. — Sem pressão, tudo bem? A gente tá saindo juntos agora e eu te acho um gostoso, mas se depois de hoje quiser fingir que não existo não é um problema. Caras como você geralmente têm mais o que fazer.

— Caras como eu — Castiel repete.

— Caras que levam as coisas a sério.

— Ninguém se torna um Legado sendo irresponsável e não levando nada a sério — supõe. — Aposto meu baço que você é tão obcecado pelos estudos quanto eu, ou até mais. Deve virar noites inteiros relendo artigos, fazendo fichamentos e mapas mentais. Então, tudo isso seria uma pose, uma performance. Só ainda não sei pra quem.

— Não tem performance — Dean garante. — Eu sou tudo isso naturalmente, é o charme. Um homem intelectual com jeitinho de malvado. Nos livros, costuma ser alguém bom de cama.

— Nunca nem esteve numa cama com outra pessoa. 

Dean entorta o canto da boca, olhando-o brevemente. 

Castiel desvia os olhos para a janela.

— Parece que eu te conheço há uns dez anos ou mais. Já esteve no Kansas?

— Sou de Boston. Nunca saí de Boston até vir estudar.

— Eu poderia jurar que me apaixonei por olhos exatamente como os seus uma vez.

— Vai se foder. — Castiel revira os olhos.

Dean suspira como um idiota.

— Talvez nos meus sonhos. 

Castiel decide que não o odeia. Ele não é tão ruim que mereça desdém.

O dormitório de Castiel tem um estacionamento, mas a vaga dele só comporta uma bicicleta. Dean sai do veículo, ajusta a bicicleta contra a parede de forma que não seja esmagada, e estaciona com perfeição na vaga. Castiel reclama que a corrente da bicicleta não vai até a roldana no canto da parede, então tranca a corrente no aro do Impala. 

Dean o olha mudo e preocupado como se ele estivesse tentando furar um balão com uma agulha sem estourar.

— Meu bebê vai ficar bem. — O Legado reza consigo.

— Acho que entendi por que você é virgem.

Dean toca o próprio peito e, boquiaberto, balbucia sobre o insulto.

Ele segue Castiel pelo estacionamento. Pelas escadas. Ele na verdade leva as duas mochilas de Castiel, e não tem motivo algum para reclamar disso. Ele sequer se cansa, e isso é ótimo porque Castiel sempre carrega peso por aí sozinho. Usá-lo está de boa.

Dean murmura algo sobre estar em perfeita forma e grato por ser gostoso. Ele fala sobre como homens inteligentes deixam qualquer um louco. Ressalta que poucas atraem mais do que um cara bonito que não sabe que é bonito, mas sabe o que quer. Ele se gaba de ser um pacote completo, uma tentação das boas, dessas que faz os pobres coitados que se interessam babarem por cima e por baixo. 

Mas quando Castiel rebate que ele não é isso tudo, Dean faz um muxoxo e responde:

— Eu estava falando de você.

Castiel para na escada, então. Puxa as mochilas dos ombros dele e ignora a camisa amarrotada. A cara de safado. A compenetração dos olhos de Dean nos seus.

— Eu nunca assisti Friends.

— Boa noite, Dean Winchester.

— Qual é o seu apartamento?

— Ainda está longe. Boa noite.

— Não vai me dizer nem o andar?

— Eu disse boa noite.

Castiel vê a frustração arder dentro dele, mas também outra coisa.

— Não estou fazendo disso um desafio. Não sou um desafio pra você decifrar, não estou bancando o difícil. — Ele estende a palma da mão entre os dois. Dean está dois degraus abaixo e Castiel odeia o peso das mochilas, então as deixa nos pés por enquanto. — Meus quarenta.

Dean parece estar pensando. Pensando com muito cuidado.

— Quanto do que você falou hoje era mentira?

Castiel sente o gelo escalar seus ossos. A tontura ameaça pegá-lo. Embora mantenha uma expressão firme, por dentro está sempre trincado, com medo do confronto que leva as pessoas a falarem: então, eu vi o resto do vídeo

É sempre o pior momento. Não importa o que veio antes, tudo sempre acaba aqui.

— Como assim?

— Gente que já assistiu Friends sempre tem algo a falar sobre Friends. Ai o Chandler isso, Ai a Phoebe aquilo. Ninguém que assiste Friends todos os dias antes de dormir não tem nada a dizer nem quer apresentar a série a quem nunca assistiu. Eu nunca assisti, mas meu irmão tenta me convencer desde que era criança, é um saco.

— E daí?

— O que faz antes de dormir? Quer comer uma pizza?

— Eu só durmo. Você quer detalhes da cor do meu pijama, meu tipo sanguíneo? Se for assar e comer minha carne, ou guardar minha cabeça numa geladeira, já vai logo sabendo que eu seria um péssimo poltergeist.

— Não é mais simples ver que quero ficar mais um pouquinho com você do que me acusar de ser um predador? De novo, aliás?

— Não é mais simples apenas ir embora depois de me dar os meus quarenta e admitir que não vai conseguir dormir comigo pra ter o que contar aos seus amigos?

— Te peguei. 

Dean sorri de um jeito único. O rosto erguido, a garganta exposta, o pomo de adão a subir e descer enquanto seus olhos traçam as feições de Castiel. 

— Disse que não importava o que eles pensavam, mas importa. Se importa, então por que não fazer valer a pena?

— Você não vale o meu esforço.

— Está supondo ou projetando?

Merda. Castiel odeia esse momento. O momento em que seu pau simplesmente decide que um cara aleatório é atraente o bastante para acordar o acúmulo de incertezas e medos dentro dele.

Ele toca o indicador duas vezes sobre a palma ainda estendida, tentando manter os olhos de Dean nos seus para evitar constrangimento. Graças a Deus a camisa tem bainha longa e pode disfarçar a vergonhosa ereção fora de hora em suas calças.

— Não acho que você seja um desafio, Castiel. Se eu dormir no seu sofá hoje, ninguém perde. Mas eu te desafio e me querer, e aposto que me deixar ir embora não é o tipo de jogo que você gosta de jogar.

— Eu nem te acho interessante o bastante pra…

Castiel engole o nada quando o dedo de Dean paira entre eles e alcança a bainha solta de sua camisa frouxa, puxando-a levemente para cima. Dean não está tocando-o, apenas o tecido da camisa, mas seu estômago esfria e a virilha esquenta em um momento raro. 

Ele estremece e suspira, os olhos vidrados na expressão maliciosa, desgraçada de Dean. 

O Legado olha para o volume na virilha dele e lambe os lábios. É ridículo.

Sua garganta está seca. Respirar de repente dói.

— Nós não vamos fazer sexo — ele diz, mas dessa vez estupidamente frágil.

— Nós não vamos fazer sexo — Dean repete, e soa ainda pior.

 

[...]

 

Eles não fazem sexo, porque Castiel é incompetente e Dean virgem. Castiel se recusa a ser o primeiro de uma pessoa como ele. De qualquer pessoa.

Dean deixa os sapatos na entrada, dobra as meias dentro e põe o casaco no gancho da parede. Logo tira a jaqueta jeans e caminha até a sala como se o apartamento fosse dele. Garth Fitzgerald está na varanda fumando maconha e adentra com uma cueca samba-canção e uma camisa do Deep Purple ao ver a visita.

— Ei, e aí? — Dean se anima todo, é ridículo. — Não me disse que tinha um colega de quarto, Castiel.

— Oi. Desde quando você gosta de homens? — Garth pergunta ao rapaz sério com cara de nada, e Dean franze o nariz confuso. — Ou de gente.

— Fiquem amigos, vocês têm muito em comum — Castiel diz, balançando a mão em direção ao quarto. — Vou tomar meu banho.

Ele não dá a mínima para o que eles vão conversar. Depois de entrar no banheiro, ouve o que parece ser Slipknot na TV e risadas de camaradas. Não surpreende. Em meses compartilhando o apartamento com Garth, aprendeu a separar os sons e vocalistas e assim determinar certas bandas, mas não todas. Garth adora essas músicas em que os caras ficam rugindo, mas Castiel acha tudo muito engraçado. 

Por questões básicas anti-humilhação, ele não coloca o pijama do Garfield já que está com um estranho em casa, e também escova os dentes por mais tempo do que o costume. Depois de guardar todos os livros e cadernos, sai descalço para a cozinha, onde começa a preparar café com umas torradas. 

Embora não pareça, Garth cursa Engenharia e é muito mais responsável que ele em tudo, então os armários estão sempre bem abastecidos. Se dependesse de Castiel, eles só comeriam porcaria.

Dean o olha do sofá. Os dois roqueiros estão discutindo sobre bateristas, mas Dean Winchester faz questão de manter-se atento a ele. Garth nunca para de falar e lhe oferece uma tragada do cigarro, mas recusa. De repente, eles começam a sussurrar e Castiel nota a risadinha familiar de quando Garth está falando baixo para esconder uma fofoca.

Eles riem. Castiel não acha nada engraçado.

De repente, Garth se levanta e estica, falando bem alto:

— Ah, tá na hora de descansar minha mente brilhante. Os grandes precisam de repouso, não é mesmo? Vocês vão ficar bem, meninos?

— Não fode — Castiel murmura.

Garth ri. Sopra um beijo para ele, despede-se de Dean com um olhar suspeito e desaparece no quarto atrás do sofá. Castiel põe o dedo contra a boca pedindo silêncio e vai até a porta do quarto, dando uma batida de punho fechado.

— Vê se não fica ouvindo tudo feito um stalker!

— Um stalker debaixo do meu próprio teto, ah, claro! — Garth rebate lá de dentro.

Dean acompanha Castiel até a cozinha. Mãos nos bolsos, sem saber onde tocar ou o que dizer. As torradas são preenchidas com queijo e um presunto defumado que Garth adora e postas numa prensa para derreter o queijo. Dean debruça no balcão e o observa quieto, mas não é um silêncio desconfortável. 

— Quer café?

— Não tem nenhum refrigerante?

— Gosto de tomar café antes de dormir.

— Você tem hábitos tão ruins quanto os de um drogado.

Castiel abre a boca, mas não vai discutir com ele. Apenas aponta a geladeira e Dean vai buscar o maldito refrigerante.

— Garth Fitzgerald tá na mesma banda que um amigo meu, Ash. Não é estranho que nossos amigos se conheçam e a gente nunca tenha…?

— Não somos amigos. Nem ele e eu, nem você e eu.

— Ah, claro. — Dean entorna um gole do refrigerante com os olhos vidrados em cada movimento de Castiel partindo o misto quente na diagonal para ambos. — Prepara comida e café pra todo estranho que dá em cima de você no bar da Jody?

— Você está aqui a contragosto. — Ele aponta o caminho da porta. — À vontade caso queira ter um surto de consciência e me deixar em paz.

— Não acho que você queira ser deixado em paz.

Castiel não responde. Pega o café, o sanduíche e vai para o sofá. Dean o segue feito um cachorrinho, entusiasmado demais para uma pessoa que não terá o que quer. Na TV, Castiel tira o show ao vivo do Slipknot no Rock in Rio e coloca no noticiário local.

— Por que não Friends?

— Eu nunca assisti Friends, tá bem? — admite. — Feliz?

Dean sorri. Ele puxa um banquinho e apoia os pés como se estivesse em casa.

— Eu realmente gosto de Medicina.

Castiel não questiona. Apenas o deixa falar.

— Sei que não é um encaixe interessante e parece que não sei o que quero. Mas eu sei. Eu era o gênio da minha escola. Mesmo com todos os problemas, sempre tirava as melhores notas e a maioria dos meus professores ficavam putos. Eles faziam de tudo pra provar que eu não sabia de nada e só dava um jeito de trapacear. Uma vez refizeram um simulado numa sala só com o diretor, a professora e eu porque fui o único a tirar nota boa de todas as turmas.

— Você devia inspirar muita confiança — Castiel provoca, mas Dean não morde a isca.

— Eu era meio maluco desde cedo, mas… — Uma risada fraca escapa dele. Insegurança, incerteza. — Se eu contar, vamos ter que ser amigos. Ou nunca mais nos falar. Não vai existir meio termo.

Castiel deu de ombros. Dean o olhou tímido.

— Eu tenho TDAH. Diagnosticado, medicado, tenho acompanhamento desde os dezenove anos. Acho que tem muita coisa acontecendo na minha cabeça e talvez por isso não tenha conseguido pensar em sexo como as outras pessoas. Olhando pra trás, é meio engraçado. Eu sempre quis só estudar feito um maluco e conseguir uma boa bolsa. Me tornar um doutor. Cuidar das pessoas. Aí agora é meio tarde pra tentar ser um adolescente com os hormônios à flor da pele, certo?

— Ainda não entendo por que você acha que isso é um problema. Não é.

— Não mesmo?

— Não mesmo.

— Tudo bem. — Dean aquiesce, todo contente, relaxado e de boca cheia. — Obrigado pelomistoquente, táódimo.

Castiel não tem um bom motivo para puxar papo, então come e descansa as pernas esticadas um pouco. Dean chega a cutucar sua panturrilha, mas um rosnado o para e o faz rir. Eles assistem o noticiário sem dar a mínima para as notícias, é claro, trocando suspiros e olhares pouco sutis. 

Depois de colocar o pratinho e a xícara de café vazia na mesa de centro, Castiel ajusta os travesseiros e deita. Logo seus pés estão no colo de Dean e os dois estão tão confortáveis que mal percebem o tempo de silêncio entre eles. Ele deixa Dean Winchester tocar as panturrilhas na calça de pijamas do Garfield e as meias de abelhinha. 

Não é tão ruim. Não é nada demais.

Cochila e, ao despertar, Dean o mexeu cuidadosamente e ficou de pé. Ele se senta e o observa buscando a jaqueta em uma cadeira, indo calçar os sapatos na porta. Castiel está tão cansado, seria uma experiência humilhante sequer tentar retribuir o que quer que Dean esteja querendo oferecer. Deixá-lo ir é a ideia mais cabível. 

Afinal, Castiel tem quarenta pratas da aposta que ganharam juntos e Dean vai ter uma história interessante para contar aos amigos. Ganho mútuo.

— Vai me dar o seu número de telefone ou não?

Dean Winchester para e o encara um tanto surpreso.

— Não é nada demais — Castiel mente, pondo-se de pé. 

Ele estica a mão e mexe os dedos, de modo que o Legado tira o celular do bolso e põe em sua palma. Enquanto digita, seus dedos tremem um pouco, mas Dean está ocupado olhando-o nos olhos e não percebe.

— Que foi? — pergunta ao devolver o aparelho.

— Sei lá. — Dean Winchester suspira. — Que noite estranha.

Castiel ri. Sai totalmente sem querer.

Contudo, quando acontece, Dean arregala os olhos e fica parado por segundos duradouros demais. Segundos que puxam a timidez em Castiel para fora e o fazem sentir bobo, meio perdido. As pupilas de Dean estão dilatadas e sua respiração mudou. Ele pensa em dizer algum absurdo para evitar que Dean goste dele, mas já é tarde. 

Quando Dean o beija, é apenas ternura e delicadeza. Mãos calmas em seu rosto, um toque calmo em seus lábios. Não era o que Castiel esperava. Ele põe as mãos na cintura de Dean sem apertar, sem puxá-lo, e move-se conforme o ritmo dele. Quando Dean decide abrir o beijo e enfiar a língua em sua boca, Castiel o permite guiar.

Logo as costas de Dean estão contra a parede e as mãos de Castiel estão por dentro da jaqueta, buscando a silhueta deliciosamente torneada que ele costuma ver perambulando pelo campus. Dean aperta seus ombros e o traz mais perto com as mãos no cós da calça do Garfield, então Castiel o pressiona e o faz sentir a verdade por trás das suas palavras esquivas, do seu humor ruim.

— Meu Deus. — Dean suspira em sua boca, esfregando-se de volta nele. — Que bunda incrível é essa?

Castiel ri ao ser apalpado. Eles viram uma nuvem de timidez.

— Caramba. — Dean o pega pela nuca e o olha nos olhos. — Você está mesmo muito cansado?

— Estou. Estou realmente acabado.

— Tudo bem. Tudo bem, eu vou ligar. Não me deu seu número errado, né?

— Não.

— Tranquilo. Legal, é… legal, então…

Eles se separam. Dean veste o casaco e Castiel o observa considerando um monte de atos estúpidos inconsequentes que podem trazer somente sofrimento para ambos.

— A gente se vê.

— A gente se vê.

Castiel abre a porta. Dean fica parado na saída.

— Até depois.

— Até depois.

Dean balança o corpo. Mas não se mexe ainda.

— Você não se importaria de, tipo, sei lá, me dar outro beijo?

— Vem cá.

Dean vai. Castiel o pressiona no batente mesmo e arranca o fôlego dele. Ri quando tem a bunda apertada de novo. Toma então a liberdade de mordiscar o lóbulo da orelha de Dean, o que o faz estremecer, e tocar a curva musculosa de seu quadril, o que o faz gemer

E, minha nossa, Dean Winchester é passivo. Ele definitivamente é passivo e o pensamento faz Castiel considerar absurdos.

— Ok, agora é pra valer.

Eles se afastam de novo. Dessa vez, Dean dá um passo enorme para trás. Ele está todo vermelho e tímido. O jeans está apertado ao redor de uma ereção evidente. A boca está úmida e os olhos brilhando. Ele não consegue parar de sorrir.

Ele é tão lindo que dá raiva.

— Tenha uma boa noite, Castiel.

— Tenha uma boa noite, Dean.