Chapter Text
— Você quer me matar — declara Eduarda, deslumbrada, assim que Lorena atravessa as portas da galeria, em suas botas e vestido reto, preto e solto sob um casaco estampado. Ela se impulsiona para longe do carro, um sorriso largo espelhando o seu próprio enquanto Lorena segue de encontro a ela, ansiando por seu toque e cheiro.
Ela está linda esta noite, como em todas as outras em que a viu antes, mas há algo especial em tê-la em roupas menos despojadas, sabendo para quê ela se arrumou.
Para estar junto dela. Passar tempo com ela. Ser um pouco de Lorena.
— Sério, Lorena Ferette... Como eu não vou te beijar a cada segundo quando você aparece desse jeito? — a policial argumenta, pegando a mão de Lorena e beijando os nós dos dedos antes de repetir o ato em seu rosto.
— Eu podia dizer o mesmo pra você. — Lorena encosta o corpo no dela, o nariz roçando seu pescoço e tirando um som da ruiva. Ela aspira a pele morna e eriçada. — Você tá tão cheirosa...
— Se continuar fazendo isso, a gente não vai sair daqui tão cedo.
Lorena ri e se afasta. Ela deixa que Eduarda guie seus passos até a porta do passageiro e a abra, indicando para que se acomode no banco da frente.
— Coloca o cinto, princesa.
Lorena a para no movimento de fechar a porta e a chama para baixo, espalhando os dedos em seu pescoço e se lançando para um beijo lento que deixa as duas rapidamente sem fôlego.
— Pra você ficar ciente... que não precisa se conter comigo nunca — Lorena sussurra contra a boca dela.
O sorriso de Eduarda cresce nos cantos.
— É bom saber... — Ela busca Lorena de novo. Mas acaba cedo demais. — Pronta pra ir, gatinha?
Lorena solta o ar e assente, permitindo que a ruiva se afaste e feche a porta. Ela conta os segundos em silêncio para que Eduarda dê a volta no carro e entre como a manifestação física de todos os seus desejos para ocupar o banco ao lado. Depois descobre, pela enésima vez só nessa semana, que ama vê-la ao volante, o rosto concentrado e perfil deslumbrante, e há algo de tão suave e intenso na forma como rouba olhares para ela entre uma parada e outra, os olhos refletindo o brilho das luzes da cidade que passam ao redor.
Eduarda cumpre a promessa de levá-la a um lugar divertido e sem muita pressão, onde possam rir e ficar grudadas, sem segundas olhadas de quem passa e vê onde repousam seus dedos, onde Eduarda deixa a mão. Lorena sabe que a namorada gosta de mantê-la perto assim. Sabe pela forma como a ruiva suspira, manhosa, ao se apertar em suas costas quando seu corpo escapa dela brevemente, rumando uma nova barraca ou brinquedo que as permita ficarem juntas, beijarem sem pressa e arranharem a nuca com a ponta dos dedos.
Lorena não reclamaria de tê-la sempre em seu espaço assim.
— Vem comigo. — Eduarda muda a direção de seus passos, os dedos enroscados nos de Lorena enquanto a puxa pelo pátio aberto sob o céu rosado pelas nuvens de frio.
Há uma cabine de fotos vermelha, antiga e com cortinas grossas. Eduarda as afasta num puxão para Lorena entrar, rindo de algo que deve ver em seu rosto, talvez a alegria óbvia por tê-la tão animada em registrar um momento que pertence às duas.
— Chega mais perto — Lorena pede, mas cobre a distância por si mesma. Ela enrola um braço na cintura da namorada, enquanto Eduarda fecha a cortina e empurra fichas para dentro da máquina.
Ela se aproxima quando a contagem começa, aninhando o rosto em seu ombro como faria uma criança carente, e Lorena mal impede o sorriso bobo que encurva a boca, os olhos caindo e tentando pegar a maneira como ela se molda ali, quente e macia. Minha.
O primeiro flash dispara e elas se movem para invocar uma nova pose. Eduarda a olha de frente, a mão em seu rosto, um sorriso torto que queima a pele de Lorena e faz algo vibrar, intenso, em seu peito.
— Você é tão linda — ela deixa escapar, e a câmera estala de novo. O escuro dos olhos de Eduarda se torna mais denso, algo que Lorena não sabe como receber. Ao menos, não naturalmente.
Calor sobe às bochechas.
— Lorena... — Eduarda chega mais perto, dedos leves envolvendo a nuca de Lorena enquanto um braço desliza pela abertura do casaco, se alojando em sua cintura.
Lorena não se lembra mais de como é não tremer.
— Sim? — ela sussurra, molhando os lábios, o sangue sob a pele aquecendo.
— Eu só... — Eduarda começa, mas não termina a sentença. O peito dela sobe e desce enquanto fita a boca de Lorena, com vontade clara de ceder.
O flash estoura de novo e Lorena não sabe quem avança primeiro, mas os lábios de Eduarda estão sobre os dela, e as mãos de Lorena estão em seu cabelo, e seu corpo dói de um jeito totalmente novo.
Ela arfa e puxa Eduarda mais perto, buscando, com os dedos, as sombras sob os fios ruivos que caem como brasa entre elas. A mão em sua cintura vagueia, aperta, tateia, e quando Eduarda suga e prende seu lábio entre os dentes, o frio da noite não existe mais. É como descobrir um novo propósito de vida. Como se tivesse nascido para este momento. Para pertencer aos lábios dessa mulher.
— Eduarda... — Lorena exala em uma breve pausa na busca por ar. Mas há algo sôfrego em como o nome sai de sua boca, quente e agitado, borbulhando em seu peito, e Eduarda deve sentir o mesmo, porque busca a boca de Lorena outra vez.
O peso dela deixa o assento e baixa em seu colo. Lorena conta vagamente os disparos da câmera — quatro. — conforme o sabor doce de Eduarda invade o céu de sua boca, se arrasta em sua língua, um lembrete constante de como tudo nela se encaixa em seu gosto. As mãos dela travam o quadril da namorada — cinco. — e Eduarda agarra mais de seu cabelo; emite sons em sua boca, o corpo acima gritando para se mexer.
E Lorena ama o poder que tem em tudo isso. Ela alterna entre agarrar-se à surpresa prazerosa de ter Eduarda tão ansiosa e lidar com seu próprio calor crescente, desejando que o momento não se perca, mas sabendo que não irão tão longe. Não ali.
Sete.
O rosto de Eduarda finalmente recua e não há sobriedade nenhuma em seus olhos estourados, perdidos na loucura do que estão fazendo.
— Como você faz isso? — ela arfa, sem fôlego, prendendo o corpo de Lorena entre as coxas que não cedem lugar.
Lorena a olha de baixo, turva, e Eduarda se inclina de novo, a beija arrastado, com os olhos entreabertos, riscando o centro de seus lábios com a ponta da língua, e é tão erótico que faz algo em Lorena derramar um pouco.
— Eu sinto fome o tempo todo — a ruiva continua. — Você me deixa salivando, Lorena Ferette.
Nove.
Lábios pulsam contra a pele quente de seu lábio inferior.
— A gente tem que ir — Lorena fala, grogue, quase a contragosto, mas sabe que precisa interromper isso agora, enquanto ainda é capaz de pensar por si mesma.
— Eu não quero te soltar... — Eduarda reclama, e Lorena liberta um riso da garganta, guiando o corpo relutante da namorada de volta ao banco estreito.
A ruiva não vai muito longe, porém, as mãos ainda nela, ajeitando os fios desordenados de seu cabelo enquanto Lorena esfrega a bagunça perfeita deixada em seus lábios. Ela quase se inclina de novo, tonta, viciada, sedenta por beijar aquela boca sem pensar no resto.
O último flash explode e a tira do transe.
— Você deixou a gente uma bagunça — Lorena aponta, ainda sorrindo para o quanto Eduarda está corada e meio emburrada por sua sessão de beijos interrompida.
— Vou colocar mais fichas — ela decide de repente, já movendo as mãos até os bolsos para procurar.
Lorena a segura pelo pulso, gentil e com delicadeza.
— Eduarda...
— Por favor, só quero mais alguns minutos pra gente...
— Shh...
Lorena ergue uma das mãos dela, roça os nós de seus dedos, toca a ponta do nariz no centro de seu pulso, sentindo o coração da namorada bater. E Eduarda fica todo o tempo em silêncio.
— Linda... Você não precisa de uma cabine de fotos pra tirar o que quer de mim.
Eduarda engole qualquer coisa que ia dizer, os olhos presos nos de Lorena.
— Mas... Naquela conversa, você disse...
— Eduarda. — Lorena repete, paciente, imaginando se existe um jeito certo de dizer o que quer dizer. — Me leva pra...
As cortinas se abrem num puxão. Duas crianças surgem no vão e param de repente. Um menino e uma menina, certamente irmãos, encarando a proximidade que os dedos de Eduarda têm dos lábios de Lorena.
O menino pisca primeiro, puxando a manga da menina com as pontas dos dedos.
— Olha, Zuzu — ele sussurra, quase um grito naquele silêncio. — O cabelo dela é igual o da Max.
Lorena sente um riso pesar no estômago e fazer caminho até a garganta, mas basta um único olhar confuso de Eduarda e ela sabe o que tem que fazer.
Ela se inclina para as duas crianças, cobrindo os lábios da visão da namorada e soprando para eles, baixinho:
— A minha namorada também ajuda a salvar o mundo de monstros.
Os olhos das duas crianças crescem, preenchidos por um brilho deslumbrado, curioso, inocente.
— Ela também mata demogorgons?
— Algo desse tipo. — Lorena segura a expressão e leva um dedo aos lábios, num gesto que pede silêncio. — Mas vocês não podem contar pra ninguém sobre isso. Ela tem uma identidade secreta e não pode chamar muita atenção.
O entendimento das crianças vem logo depois disso, a promessa de guardar o “segredo”, na forma de dedos gordinhos se unindo aos mindinhos compridos de Lorena.
Ela se ergue e puxa Eduarda do banco, seu riso ecoando pela noite fria enquanto deixam a cabine para as crianças, numa fuga desengonçada até o carro da policial.
*
— Você tem algo pra fazer amanhã? — Eduarda pergunta sobre a música que enche o carro, o olhar fixo no trânsito adiante.
Lorena se recosta à porta, seu foco voltado para ela — olhos sempre nela. Um sorriso lento cresce em seu rosto.
— Por quê? Você quer passar o dia comigo também? — ela fala, provocando.
Eduarda afasta uma mão do volante e estala os nós dos dedos, rubor pintando a pontinha da orelha bonita que Lorena quer morder.
— Eu devia mentir e dizer que não?
— De forma alguma — Lorena encerra a questão, rindo de como Eduarda parece ainda mais constrangida agora. — E sim. Eu tô livre amanhã.
Eduarda relaxa no banco.
— Então eu não preciso te levar pra casa ainda.
Não é uma pergunta, e Lorena adora isso, toda aquela confiança de alguém que não permite que a noite termine quando tudo vai bem.
— Não — ela sopra, tentando não sorrir tanto quanto deseja. — Você não precisa.
Eduarda a leva para longe do trânsito agitado. O caminho é confuso, a deixa curiosa, sem saber o que Eduarda planeja para estender aquele encontro que ninguém quer terminar.
— Estamos deixando o centro?
— Ah, estamos sim.
Lorena assente, os olhos brilhando de expectativa.
— Ok.
O carro entra por uma estrada de cascalho quase quarenta minutos depois, e só para quando o caminho é bloqueado por uma cerca de tábuas brancas. Eduarda desliga o motor e respira fundo.
— Deve estar um pouco frio — a ruiva pondera, preocupada de repente. — E você não tá usando o melhor casaco.
— Eu vou ficar bem, você vai me abraçar?
O sorriso de Eduarda é imenso.
— Pelo tempo que você quiser.
Satisfeita com a resposta, Lorena estala um beijo na bochecha dela e desce do carro, a deixa que Eduarda precisa para relaxar e segui-la quase que de imediato. Elas pulam a cerca velha, passam por árvores inclinadas, e continuam o caminho até o topo da colina, onde as luzes da cidade piscam ao longe e a escuridão se dissolve nas sombras suaves dos galhos ao redor.
Lorena deixa a euforia subir à garganta, se espalhar pela barriga. Não é o tipo de lugar que ela imaginaria ser levada em um encontro noturno, mas algo sobre a escolha parece tão... Eduarda. A simplicidade de estar longe, apenas as duas, sem as distrações e expectativas que a cidade demanda.
Elas se acomodam sobre a grama baixa, e Lorena logo a sente se aproximar, os braços rodeando sua cintura com um toque possessivo, a segurança confortável misturada à excitação silenciosa que Eduarda é a melhor em provocar.
Ela se inclina para trás, deixando o corpo se encaixar no dela.
— Eu tinha medo de lugares assim quando era mais nova — Eduarda comenta, a respiração quente soprada em seu ouvido. — Alto, longe do resto do mundo... Eu nunca fui boa em estar sozinha.
Lorena vira o rosto, apenas um pouco, procurando o ombro dela para descansar.
— E agora é diferente?
— Não. — Eduarda ri de si mesma. — Mas têm certas coisas que é preciso pensar sozinha.
— Como o quê?
Os dedos de Eduarda tocam o queixo de Lorena, guiando seu olhar ainda mais para cima.
— Como você — ela diz, séria. — E sobre como eu me sinto.
A resposta assenta em sua mente, e Lorena hesita um segundo, mas se ajeita contra a namorada, tecendo um caminho entre seus dedos, onde encaixa a mão.
— Você... chegou a alguma conclusão sobre isso?
A pergunta cai tensa entre as duas, ou é só o que parece à Lorena. A respiração de Eduarda muda, o aperto mais forte em sua cintura, o calor de seu corpo contrastando com a brisa fria que corta os troncos ao redor. E Lorena está congelando. Mas ela nunca dirá em voz alta. Não enquanto tiver os braços dessa mulher a cercando, o pulsar de seu peito nas costelas, rápido e constante.
— Ok, vamos te levar pra casa.
O rosto de Lorena cai.
— O quê? Não... Por quê? — Ela está fugindo da pergunta?
— Você está tremendo — a ruiva aponta o óbvio, esfregando seus dedos gelados.
— É de emoção — Lorena tenta, ainda que mentir não funcione com uma policial.
Dito e feito, Eduarda joga a cabeça para trás e ri, e o som vibra direto em seu peito.
— O que você disser, gatinha. Mas ainda estou tirando você daqui.
A ruiva se ergue de trás dela, e Lorena a deixa puxá-la para cima. Mas a traz de volta meio passo depois, matando a intenção de Eduarda de levá-la até o carro rápido demais. Ela raspa seus lábios de leve, sorrindo um pouco.
— Não me leve para casa — Lorena sopra nos lábios dela, a voz trépida, rouca. E Eduarda mal se movimenta, os olhos escuros cedendo, caindo para a boca de Lorena.
— Ok... Para onde, então?
Lorena toca a boca dela, confiando em seus sentidos para não errar sobre o pedido que está prestes a fazer.
— Me mostra a sua cama. Quero dormir com você.
