Work Text:
A carruagem parou com um solavanco diante da residência dos Bridgerton, mas o silêncio lá dentro era mais violento que qualquer movimento. Colin desceu primeiro, os olhos injetados de uma mistura de traição e descrença.
— Uma armadilha, Penelope. — A voz dele era um sussurro ríspido, cortante como navalha. — Cada palavra de encorajamento, cada lição de charme... tudo planejado para que o grande segredo da Lady Whistledown estivesse seguro sob o sobrenome Bridgerton?
Penelope tentou falar, mas as lágrimas sufocavam sua garganta. Ela ficou ali, parada na calçada úmida, vendo o homem que amava entrar em casa sem olhar para trás. Ela não podia ir para a casa dos Featherington — não naquele estado. Seus passos, guiados pelo instinto de fuga, a levaram para os jardins laterais, em direção à entrada dos fundos.
Ela se encolheu em um banco de pedra sob o caramanchão, tentando conter os soluços que tremiam seus ombros.
— Sabe, o jardim é muito mais interessante quando não se está tentando desaparecer entre as flores.
Penelope saltou, limpando o rosto freneticamente. Benedict Bridgerton estava encostado em uma coluna, segurando um caderno de esboços e um copo de conhaque. Ele não parecia surpreso, apenas... atento.
— Sr. Bridgerton... eu... eu já estava de saída.
— Por favor, Penelope. — Benedict se aproximou, sua voz mantendo aquele tom suave e boêmio que Colin havia perdido naquela noite. — Eu vi meu irmão entrar como se estivesse marchando para a guerra. E vi você... — Ele gesticulou para o rosto dela, agora pálido sob o luar. — Você parece alguém que acabou de perder o mundo.
Benedict sentou-se ao lado dela, respeitando a distância, mas oferecendo uma presença sólida que Colin não conseguira manter.
— Colin acha que eu sou uma farsa — confessou ela, a voz falhando. — Ele descobriu algo sobre mim que não consegue perdoar.
Benedict soltou um riso curto, mas não de escárnio. — Colin tem a tendência de enxergar as pessoas como ele quer que elas sejam, não como elas são. Ele ama o ideal. Mas eu... — Ele olhou para os próprios dedos sujos de carvão. — Eu prefiro a verdade das sombras. A Whistledown é você, não é?
O coração de Penelope parou. — Como...?
— Eu sou um artista, Pen. Eu reconheço o traço de uma mão em qualquer lugar, seja em um pincel ou em uma pena. Há uma ironia nas crônicas que só alguém que passou a vida sendo invisível poderia captar.
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Nos dias que se seguiram, a casa dos Bridgerton tornou-se um campo minado para Penelope. Colin era um fantasma de gelo; ele não a denunciava à família (o escândalo destruiria a todos), mas seu silêncio era uma punição pior do que qualquer grito.
Sem conseguir suportar o peso do olhar de sua mãe ou as expectativas da sociedade, Penelope passou a usar a chave da entrada de serviço que Eloise um dia lhe dera. Mas ela não ia mais ao quarto de Eloise. Seu destino agora era o último andar: o ateliê de Benedict.
O ateliê cheirava a terebentina, óleo de linhaça e liberdade. Lá, as convenções da Regência pareciam não atravessar a porta.
— Outra manhã difícil? — perguntou Benedict, sem desviar os olhos da tela onde esboçava a anatomia de um ombro.
— Ele nem sequer olha na minha direção, Benedict — desabafou Penelope, deixando-se cair em uma poltrona velha coberta de respingos de tinta. — Ele me trata como uma vilã de romance barato que armou um bote para capturar um marido. Como se eu não o amasse desde que aprendi a ler.
Benedict largou o pincel e se virou para ela, limpando as mãos em um pano sujo. — Colin está cego pela própria narrativa heroica que criou para si mesmo nesta temporada. Ele queria ser o seu salvador, Pen. Descobrir que você se salvou sozinha — e que ainda ganha a vida criticando a aristocracia — feriu o ego dele mais do que o coração.
Benedict caminhou até uma mesa lateral e entregou a Penelope um bloco de papel e um pedaço de carvão.
— Se não pode escrever suas crônicas agora sem sentir o peso da culpa, tente outra coisa. Desenhe. Ponha no papel a raiva que você não pode gritar.
Penelope hesitou, os dedos trêmulos tocando o papel áspero. — Eu não sou uma artista, Benedict. Eu sou apenas... observadora.
— E o que é um artista, senão um observador que se cansou de apenas olhar? — Ele sorriu, aquele sorriso cúmplice que raramente mostrava nos bailes. — Ninguém virá aqui. É o meu santuário. E, por enquanto, pode ser o seu também.
As semanas passaram. Enquanto a Ton comentava sobre o "noivado misteriosamente silencioso" de Colin e Penelope, a verdadeira história acontecia no sótão.
Eles dividiam garrafas de vinho barato e conversas que Penelope nunca imaginou ter com um Bridgerton. Benedict falava sobre sua frustração com a Academia de Artes e o medo de ser apenas um amador talentoso. Penelope, por sua vez, lia para ele trechos de seus diários — não as fofocas da Whistledown, mas seus pensamentos reais sobre solidão e ambição.
Uma tarde, enquanto Benedict a observava desenhar distraída, ele comentou em voz baixa: — Você é muito mais vibrante do que as cores que Colin tenta te impor, Penelope. Ele quer o amarelo pálido da segurança. Mas você... você é o carmesim de uma chama.
O clima na sala mudou. O ar pareceu mais pesado, carregado de uma compreensão mútua que ia além da amizade. Penelope levantou o olhar, encontrando os olhos de Benedict, e pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu uma "armadilha". Ela se sentiu vista.
Naquela mesma noite, no baile da Lady Danbury, o cenário era perfeito para o desfecho de um teatro que Penelope não aguentava mais encenar. Enquanto a música preenchia o salão, o contraste entre os irmãos Bridgerton nunca foi tão evidente.
Colin estava lá, em pé, perto da mesa de refrescos, mantendo a postura de um noivo zeloso para quem olhasse de longe. Mas seus olhos eram frios. Ele se aproximou de Penelope para a dança obrigatória, estendendo a mão com um dever mecânico.
— Vamos acabar logo com isso, Penelope — ele murmurou, sem um pingo de afeto.
— Não — disse ela, a voz firme, atraindo o olhar surpreso dele. — Eu já prometi esta dança ao seu irmão.
Antes que Colin pudesse processar a afronta, Benedict surgiu das sombras. Ele não pediu permissão; ele apenas ofereceu o braço a Penelope com um sorriso que era um desafio aberto. Eles foram para o centro do salão para uma valsa rápida e animada.
Pela primeira vez em anos, Penelope não estava olhando por cima do ombro do parceiro para ver onde Colin estava. Ela estava rindo. Benedict a girava com uma energia boêmia, sussurrando piadas sobre as perucas das matronas que só eles entendiam.
— Olhe para ele, Pen — sussurrou Benedict perto do ouvido dela enquanto giravam. — Ele está tentando decidir se sente raiva ou se está apenas confuso porque o roteiro dele falhou.
— Ele não me vê, Benedict — ela respondeu, olhando nos olhos do irmão mais velho. — Mas você vê.
O salão inteiro notou. O "solteiro convicto" e a "parede" que Colin supostamente salvara estavam em perfeita sintonia, deixando o terceiro filho Bridgerton isolado em seu próprio orgulho.
Após o baile, no jardim da residência dos Featherington, o ar estava gelado. Colin a seguiu, a fúria finalmente rompendo a máscara de indiferença.
— O que foi aquilo, Penelope? Dançar com o meu irmão daquela forma? Você quer me humilhar diante de toda a cidade depois de tudo o que fez?
Penelope parou e se virou. Não havia mais lágrimas. A convivência com Benedict nas últimas semanas a havia lembrado de que ela era uma mulher de recursos, uma escritora, uma mente brilhante — e não um prêmio de consolação.
— O que você chama de humilhação, Colin, eu chamo de liberdade — disse ela, a voz calma e cortante. — Você diz que eu armei uma armadilha. Pois bem, estou abrindo a porta dela agora.
Colin piscou, confuso. — O que está dizendo?
— Eu estou terminando o nosso compromisso. — As palavras pairaram entre eles como um veredito. — Você passou semanas me tratando como um erro que você era obrigado a cometer. Você não me ama, Colin. Você ama a ideia de ser o herói que me perdoa. Mas eu não preciso do seu perdão para existir.
— Penelope, você vai arruinar sua reputação... — ele começou, mas a voz dele fraquejou.
— Minha reputação sempre esteve nas minhas mãos, não nas suas. Eu prefiro ser a Lady Whistledown, sozinha e odiada por alguns, do que ser a Sra. Bridgerton, invisível e desprezada pelo próprio marido.
Ela deu um passo à frente, encostando o dedo no peito dele.
— Vá viajar, Colin. Vá encontrar a si mesmo na Grécia ou na Itália, porque aqui, você só encontrou uma versão de mim que não existe mais.
Ela entrou em casa sem olhar para trás, deixando Colin estático sob o luar. No dia seguinte, a primeira pessoa que ela veria não seria um pretendente, mas Benedict, esperando-a no ateliê com uma tela em branco e uma pergunta silenciosa sobre o que o futuro — o deles, desta vez — reservava.
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No dia seguinte, sol da manhã entrava pelas janelas altas do sótão, transformando a poeira que flutuava no ar em partículas de ouro. Penelope estava sentada em um divã de veludo desgastado, vestindo um robe de seda verde-musgo que Benedict insistira que ela usasse para "harmonizar com as sombras".
Havia um silêncio confortável entre eles, quebrado apenas pelo som do carvão riscando o papel e o ocasional estalar da lenha na lareira.
Benedict não estava apenas desenhando; ele a estudava. Seus olhos alternavam entre a tela e o rosto de Penelope com uma intensidade que a fazia perder o fôlego.
— Incline o rosto um pouco para a esquerda, Pen — ele comandou suavemente. — Não, um pouco mais... aí. Mantenha os olhos na janela, como se estivesse observando o futuro chegar, mas com a calma de quem já o conquistou.
Penelope obedeceu. Ela sentia o peso do olhar dele em sua pele, quase como um toque físico.
— Colin veio falar comigo hoje cedo — disse Benedict, sua voz baixa e neutra. — Ele parecia... perdido. Como se tivesse acordado em uma cidade cujas ruas mudaram de lugar durante a noite.
— Ele precisa aprender a caminhar sozinho — Penelope respondeu, sem desviar o olhar da luz. — Por muito tempo, eu fui a bússola dele. Mas uma bússola que aponta apenas para o que o outro quer ver acaba perdendo o próprio norte.
Benedict largou o carvão e pegou um pincel fino. Ele se aproximou dela, não para falar, mas para ajustar a posição de uma mecha de cabelo ruivo que havia caído sobre a testa dela. Os dedos dele roçaram sua têmpera, e Penelope sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Ele não se afastou imediatamente. Ficou ali, a poucos centímetros, observando as sardas no nariz dela como se fossem constelações em um mapa desconhecido.
— Eles sempre quiseram que você fosse uma flor de jardim, Penelope — sussurrou ele, quase para si mesmo. — Com cores suaves e fragrâncias contidas.
Ele voltou para o cavalete, mergulhando o pincel em um tom de âmbar profundo.
— Mas eu não vejo uma flor. Eu vejo fogo. Eu vejo a tinta que mancha a história. Você não é algo que se cultiva, é algo que se contempla.
As horas passaram como se o tempo não existisse dentro daquele ateliê. Benedict trabalhava com uma urgência febril, suas mãos movendo-se com uma confiança que ele raramente demonstrava em suas obras acadêmicas. Penelope observava a expressão dele: o vinco de concentração entre as sobrancelhas, o leve sorriso que surgia quando ele conseguia capturar exatamente o que queria.
Ela sentia uma ternura crescente por aquele homem que, em meio ao caos de sua vida, lhe deu um refúgio. Era romance? Ou era apenas a gratidão de ser finalmente compreendida? Ela ainda não sabia dizer.
Quando ele finalmente parou, limpando o pincel com um pano, ele parecia exausto, mas seus olhos brilhavam.
— Posso ver? — ela perguntou, levantando-se e começando a caminhar em direção à tela.
Benedict rapidamente colocou um pano de linho por cima da pintura, cobrindo-a antes que ela pudesse ver qualquer traço.
— Ainda não — ele disse, com um brilho travesso e protetor no olhar. — Um segredo por outro, Lady Whistledown. Você guarda as verdades da cidade em seus papéis; eu guardarei a sua verdade nesta tela até que ela esteja pronta para ser revelada.
Ele estendeu a mão para ela, um convite silencioso para saírem daquela bolha de arte e voltarem para o mundo real. Penelope aceitou, sentindo que, embora a pintura estivesse escondida, algo irremediável havia começado a ser traçado entre os dois.
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Enquanto aproveitavam uma manhã tranquila, o escândalo explodiu como pólvora seca em Londres. Com a entrega de Whistledown, a notícia de que Penelope Featherington havia "rejeitado" um Bridgerton — e não o contrário — correu pelas salas de chá mais rápido do que qualquer um poderia prever.
Portia Featherington estava em colapso. Os gritos dela ecoavam pelas escadas, uma ladainha sobre ingratidão, ruína financeira e a "loucura absoluta" de deixar um noivo como Colin escapar por entre os dedos.
— Ela precisa voltar! — Portia vociferava, batendo o leque na palma da mão. — Vai implorar perdão, vai dizer que foi um surto de nervos, que a pressão do casamento a deixou confusa...
Mas Penelope estava decidida e nada – nem ninguém – a faria mudar de opinião.
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Sabendo que sua vida em Featherington House se tornaria uma prisão de cobranças, Penelope enviou um bilhete curto para o único endereço onde sabia que encontraria silêncio. Naquela mesma noite, uma carruagem não identificada a esperava na esquina, com u rosto muito familiar dentro.
Ela não foi para a mansão principal dos Bridgerton em Mayfair. Ela seguiu para My Cottage, a residência de campo de Benedict, um lugar que ele mantinha como seu verdadeiro refúgio, longe da vigilância de Violet ou dos julgamentos de Anthony.
Ao chegar, o cenário era o oposto do caos da cidade. O ar era fresco, com cheiro de terra úmida e grama cortada. Benedict desceu primeiro e depois lhe estendeu a mão.
— Eu imagino que a Ton está pegando fogo a esta hora — disse ele, pegando a pequena mala de viagem dela. — Seja bem-vinda ao exílio, Penelope.
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Os primeiros dias em My Cottage foram envoltos em uma névoa de tranquilidade e estranhamento. Não havia criados fofoqueiros, apenas um casal de empregados antigos que mal falavam. Penelope passava as tardes escrevendo — desta vez, não fofocas, mas um romance que guardava há anos — enquanto Benedict se dividia entre o jardim e o ateliê improvisado.
A pintura de Penelope, trazida de Londres sob lençóis, permanecia escondida no canto da sala, um segredo monumental entre eles.
Certa noite, enquanto jantavam à luz de velas, o isolamento pareceu diminuir a distância entre as cadeiras.
— Você não tem medo? — Penelope perguntou, observando o reflexo das chamas nos olhos dele. — Do que dirão quando souberem que a noiva fugitiva de seu irmão está sob o seu teto?
Benedict pousou a taça de vinho. — Penelope, eu passei a vida tentando me encaixar em um molde que nunca teve o meu tamanho. O que a Ton pensa sobre minha moralidade é um preço pequeno a pagar pela sua paz. E pela minha.
Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para a escuridão da propriedade. — Colin mandou um mensageiro hoje. Ele quer saber se você está aqui.
O coração de Penelope deu um salto. — E o que você respondeu?
Benedict virou-se para ela, um sorriso de lado que tinha tanto de proteção quanto de algo mais profundo, algo que ele ainda não nomeava. — Eu respondi que, neste momento, não há nenhuma Penelope Featherington aqui. Apenas uma artista em busca de inspiração.
Ele caminhou até ela e, por um momento, a mão dele pairou sobre o ombro de Penelope, quase tocando a pele exposta pelo decote do vestido. O silêncio da casa de campo era tão absoluto que ela podia ouvir a respiração dele.
— Ficaremos aqui o tempo que você precisar — ele murmurou. — Até que você esteja pronta para que o mundo veja a mulher que eu vejo naquela tela.
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Enquanto o silêncio e o cheiro de mato dominavam My Cottage, Londres fervia em um caldeirão de indignação, confusão e fofocas sussurradas atrás de leques de seda.
Colin Bridgerton estava na biblioteca, cercado por garrafas de conhaque e mapas que ele não conseguia ler. Ele não viajava; ele não comia; ele apenas remoía. A ferida em seu ego era tão profunda que ele mal conseguia distinguir a raiva da saudade.
— Ela não pode simplesmente ter desaparecido! — Colin exclamou, atirando uma pena sobre a mesa quando Eloise entrou no recinto, os braços cruzados e um olhar de puro escárnio.
— Por que não, Colin? — Eloise rebateu, sua voz gotejando sarcasmo. — Você a tratou como uma criminosa e depois como um fardo. Penelope sempre foi excelente em se tornar invisível quando o mundo não a merece. Talvez ela tenha apenas decidido que você não é mais o centro da gravidade dela.
Eloise sentia uma pontada de culpa e uma admiração secreta. Ela ainda estava magoada pelo segredo de Whistledown, mas ver Penelope dar as costas ao "grande herói" Colin Bridgerton era a coisa mais emocionante que ela vira em anos.
No andar de baixo, Violet Bridgerton bordava com movimentos nervosos, mal ouvindo o que Francesca tocava ao piano. Seu coração de mãe estava dividido. Ela conhecia Colin, mas também conhecia Benedict — e o fato de seu segundo filho ter "saído para pintar no campo" exatamente no dia em que Penelope sumiu não lhe parecia uma coincidência.
— Benedict sempre teve um coração errante — Violet murmurou para si mesma. — Mas ele nunca foi cruel. Se ele a levou, é porque ela precisava ser protegida. Mas de quem? Do escândalo ou de nós mesmos?
Do outro lado da rua, a atmosfera era de funeral, mas sem a dignidade do luto. Portia Featherington andava de um lado para o outro na sala de estar, ignorando as reclamações de Prudence sobre o chá estar frio.
— Ruína! — Portia sibilava. — Uma solteirona de vinte e poucos anos rejeitar um Bridgerton é um convite para a fome, Prudence! Onde aquela menina está com a cabeça? Se ela acha que vai voltar para esta casa e viver de migalhas enquanto eu sou alvo de piadas no mercado...
Portia parou diante da janela, olhando para a rua deserta. Pela primeira vez, não havia uma carruagem amarela à porta. Ela não sentia falta da filha; sentia falta da segurança que o nome Bridgerton traria. Mas, no fundo de sua mente pragmática, uma dúvida surgia: Como Penelope conseguiu coragem para dizer "não"?
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A chuva batia rítmica contra as vidraças de My Cottage, criando o isolamento perfeito para o que Penelope pretendia fazer. No pequeno escritório de Benedict, que cheirava a madeira antiga e tinta fresca, ela mergulhou a pena no tinteiro com uma determinação que não sentia há meses.
Benedict estava sentado no parapeito da janela, observando-a em silêncio. Ele não fazia perguntas; ele apenas garantia que o mundo exterior não atravessasse aquela porta.
— Tem certeza de que quer fazer isso agora? — ele perguntou suavemente. — O silêncio da Whistledown poderia ser a sua paz.
— O silêncio da Whistledown é o que me condena, Benedict — respondeu ela, sem desviar os olhos do papel. — Se ela se cala agora, todos saberão que ela está sofrendo ou escondida. Whistledown precisa falar para que Penelope possa desaparecer.
Penelope escreveu com uma maestria que só a distância do drama de Londres poderia proporcionar. Ela não usou a sua raiva; usou a sua inteligência.
"Diz-se que o amor é uma dança, mas esta autora começa a suspeitar que, para os Bridgerton e os Featherington, a música tornou-se um tanto desafinada. A notícia do fim do noivado entre o Sr. Colin Bridgerton e a Srta. Penelope Featherington caiu sobre a Ton como um raio num dia ensolarado.
No entanto, enquanto as matronas de Mayfair afiam as suas línguas para culpar a Srta. Penelope pelo 'infortúnio', esta autora pergunta: não será a ausência da jovem a prova mais clara de que a virtude ainda reside na discrição? Consta que a Srta. Featherington retirou-se para o campo por motivos de saúde delicada, exausta pelas pressões de uma temporada que prometia flores e entregou espinhos. Que ironia seria se o grande explorador da família Bridgerton, o Sr. Colin, tivesse perdido o rumo precisamente quando acreditava ter encontrado o porto seguro.
Parece que, por agora, a Srta. Penelope encontrou algo que o Sr. Bridgerton ainda procura nas suas viagens: a coragem de ficar em silêncio."
Benedict leu o rascunho por cima do ombro dela. Um sorriso lento espalhou-se pelo seu rosto.
— Você é brilhante, Pen. Ao dizer que está com "saúde delicada", você justifica o seu sumiço sem dar um local exato. E ao alfinetar o Colin desta forma, ninguém jamais suspeitaria que você é a autora. Ninguém escreveria sobre o próprio fracasso amoroso com tanta... acidez.
— É o meu melhor disfarce — disse ela, entregando-lhe o folhetim. — A verdade escondida sob a autocrítica.
Benedict selou o envelope. Ele mesmo cavalgaria até uma cidade vizinha para garantir que o material chegasse aos impressores de Londres por meio de um estafeta desconhecido, mantendo o segredo de Penelope intacto.
Quando Benedict voltou, horas depois, encharcado pela chuva mas com a missão cumprida, encontrou Penelope diante da pintura coberta no ateliê. O ambiente estava escuro, iluminado apenas por uma única vela.
— Está feito — anunciou ele, aproximando-se. — Em dois dias, Londres estará a discutir a saúde da Srta. Featherington e a incompetência emocional de meu irmão, enquanto você continua aqui, segura.
Penelope virou-se para ele. A luz da vela acentuava as curvas do seu rosto e o brilho nos seus olhos.
— Obrigada, Benedict. Por tudo. Eu não sei o que teria feito se...
— Você teria sobrevivido — interrompeu ele, encurtando a distância entre eles. O cheiro da chuva que emanava das suas roupas misturava-se ao calor do quarto. — Você é a pessoa mais forte que já conheci, Penelope. Mas fico feliz por não ter de sobreviver sozinha desta vez.
Ele estendeu a mão, não para a pintura, mas para o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo húmida. O toque foi leve, mas carregado de uma eletricidade que a crónica da Whistledown jamais conseguiria descrever.
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A edição da Whistledown caiu sobre Londres como uma pedra em um lago congelado. O efeito foi imediato, mas, para aqueles que conheciam a verdade por trás da pena, o impacto foi de uma natureza muito mais sombria.
Colin Bridgerton leu o folhetim sentado no mesmo banco de jardim onde, semanas antes, havia confrontado Penelope. Suas mãos tremiam levemente. Ao contrário do resto da Ton, ele não via ali apenas uma fofoca; ele via uma arma.
— "Coragem de ficar em silêncio"... — ele repetiu, a voz embargada. — Ela está rindo da minha cara, não está? Ela está em algum lugar, escondida, escrevendo sobre como eu falhei com ela.
Ele olhou para o papel com uma mistura de ódio e admiração doentia. Ele sabia que era ela. O estilo era inconfundível para quem agora conhecia o segredo. Mas o que o torturava era o "onde". Ele havia enviado criados para as propriedades dos Featherington em Sussex, checado as estalagens na estrada para o norte, mas Penelope parecia ter evaporado.
— Ela é brilhante demais para ser encontrada se não quiser — ele murmurou, fechando os punhos. O fato de ela ter usado a Whistledown para justificar o próprio desaparecimento como uma "convalescença" era o xeque-mate perfeito. Ninguém a procuraria se achassem que ela estava apenas doente e envergonhada.
Eloise, por outro lado, estava em seu quarto, relendo a mesma passagem pela décima vez. Ela conhecia Penelope melhor do que qualquer um. Aquela frase sobre "saúde delicada" era um código. Penelope nunca foi de ter saúde delicada; ela era feita de aço e tinta.
— Você é muito esperta, Pen — Eloise sussurrou para as paredes vazias. — Mas você não faria isso sozinha. Você precisaria de um cúmplice para levar o texto ao impressor. Alguém que saiba onde você está.
Ela começou a descartar nomes. Madame Delacroix? Talvez. Mas a modista estava ocupada com as encomendas para o próximo baile. Um criado subornado? Arriscado demais.
Sua mente viajou para o irmão, Benedict. Ele andava estranhamente calmo nos últimos dias antes de partir para o campo. Benedict, o irmão que sempre defendeu os excêntricos, os artistas, os que não se encaixavam.
— Benedict... — os olhos de Eloise se estreitaram. Ela não tinha certeza, mas o instinto de uma investigadora nata começou a formigar. Entretanto, o pensamento parecia absurdo demais: por que Benedict ajudaria a noiva do próprio irmão a fugir?
Portia Featherington usou a edição para se validar. — Viram? — ela exclamou para as outras filhas. — "Saúde delicada"! Eu disse que ela estava apenas com os nervos abalados. Agora, quando ela voltar, diremos que o ar do campo a curou e que ela está pronta para encontrar um marido que não seja tão... temperamental quanto o Sr. Bridgerton.
Portia não percebeu que, naquelas linhas, Penelope estava se despedindo da vida que a mãe planejara para ela.
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Enquanto isso, a quilômetros dali, Benedict entrava no quarto de Penelope com uma bandeja de chá e um sorriso vitorioso.
— Londres está a seus pés, Pen. Eles engoliram a história inteira. Até o Colin... embora ele pareça estar à beira de um colapso nervoso tentando decifrar suas entrelinhas.
Penelope deixou o livro de lado, sentindo uma pontada de culpa ao ouvir o nome de Colin, mas logo a sensação foi substituída pela segurança que a presença de Benedict trazia.
— Ele vai ficar bem, Benedict. Ele sempre fica. Mas eu... eu nunca me senti tão viva.
Benedict aproximou-se, deixando a bandeja de lado. O ambiente estava carregado. O "interlúdio" de Londres parecia pertencer a outra vida. Aqui, o tempo era marcado apenas pelas pinceladas de Benedict e pelas palavras de Penelope.
— Acho que é hora — disse ele, a voz subitamente rouca. Ele caminhou até o cavalete coberto. — A tinta secou. A Whistledown falou para o mundo, agora... deixe-me mostrar o que eu tenho a dizer para você.
O pano de linho escorregou suavemente do cavalete, revelando a tela para Penelope. O ar no ateliê pareceu rarefeito, e até mesmo o crepitar da lareira pareceu cessar.
Penelope deu um passo hesitante para frente. O que viu não era um simples retrato; era uma revelação.
A pintura retratava Penelope, mas não a Penelope que o mundo conhecia. Não a Penelope dos vestidos amarelos, nem a "parede" que observava à margem. Aquela era a Penelope da verdade.
Ela estava sentada, não com a postura encolhida de sempre, mas com uma dignidade serena. A luz que a banhava era suave, mas destacava a intensidade de seus olhos, que pareciam conter universos de segredos e sonhos. Seus cabelos ruivos, antes vistos como uma "desgraça" por sua mãe, eram um halo de fogo ao redor de seu rosto, pincelados com tons de cobre e ouro que Benedict havia descoberto. A pele, salpicada de sardas, era retratada com uma textura tão real que Penelope sentiu vontade de tocar seu próprio rosto.
Mas o que mais a impactou foi o que Benedict havia escolhido acentuar. Em uma das mãos, havia uma pena, mas não uma pena qualquer. Era uma pena de pavão, com um olho vibrante e misterioso, símbolo de observação e beleza oculta. E no fundo, sutilmente misturadas nas sombras da composição, havia palavras esparsas, frases que pareciam flutuar como pensamentos, fragmentos de crônicas da Whistledown, mas também de seus diários mais íntimos.
Aquela não era uma pintura para a sociedade. Era uma pintura para ela. Era como se Benedict tivesse pintado sua alma.
Penelope levou uma mão à boca, as lágrimas brotando em seus olhos, mas desta vez não eram lágrimas de tristeza ou vergonha, e sim de pura, avassaladora, compreensão. Ela se virou para Benedict, que a observava com uma quietude que parecia reter mil palavras.
— Sou eu — ela sussurrou, a voz embargada. — Mas é a mim que ninguém nunca viu.
Benedict apenas assentiu, seus olhos fixos nos dela, comunicando mais do que qualquer frase poderia. Ele não precisava se declarar. A pintura era a sua declaração.
E naquele momento, diante daquele espelho de sua alma, Penelope percebeu uma verdade devastadora e libertadora: o amor que ela sentia por Colin era uma miragem. Uma fantasia de menina criada em cima de um menino que ela idealizou. Colin nunca a havia visto. Ele a via como um problema a ser resolvido, uma responsabilidade a ser suportada, uma prova de sua própria bondade.
Colin não era o herói romântico que ela esperou a vida inteira. Ele era o vilão que a cegava para quem ela realmente era. Ele a queria menor, mais quieta, mais amarela. Benedict, por outro lado, a via em todas as suas cores vibrantes, em toda a sua complexidade, e a pintou em sua glória.
Benedict não falou. Ele deu um passo à frente e parou ao lado dela, olhando para a tela com o mesmo olhar de admiração que Penelope tinha. Ele não precisava forçar palavras de amor; a pintura já tinha feito isso. Seus sentimentos estavam ali, em cada pincelada, na forma como ele havia capturado a essência dela.
Penelope estendeu a mão, hesitante, e tocou o braço de Benedict. A eletricidade entre eles era palpável, mas não era a urgência de uma paixão cega, e sim a profundidade de duas almas que finalmente se encontraram em um terreno de verdade e compreensão.
— Colin... — ela começou, e a palavra saiu com uma estranha falta de peso. Era um nome vazio agora, desprovido de qualquer poder sobre seu coração. — Ele nunca me viu. Não de verdade.
Benedict apenas apertou levemente o braço dela. Ele sabia. E o silêncio entre eles, recheado com a revelação da pintura e a epifania de Penelope, era mais potente do que qualquer declaração de amor poderia ser.
O silêncio no ateliê não era mais um vazio; era uma presença pulsante, preenchida pela imagem de Penelope na tela e pela proximidade física de Benedict. Ela ainda sentia o rastro do toque dele em seu braço, um calor que parecia ancorá-la na realidade enquanto sua mente se despedia, peça por peça, da obsessão de uma vida inteira por Colin.
Penelope virou-se para Benedict. Ele estava a poucos centímetros, o perfil iluminado pela luz dourada do fim da tarde, o olhar ainda fixo na obra que havia criado. Ele parecia exausto, como se tivesse deixado uma parte de si naquelas pinceladas.
— Benedict — ela chamou, a voz mal passando de um sussurro.
Ele se virou, e a intensidade no olhar dele quase a fez recuar. Não era o olhar de um amigo, nem o de um protetor. Era o olhar de um homem que havia encontrado algo precioso e estava apavorado com a própria sorte.
— Durante anos — começou Penelope, as mãos entrelaçadas para esconder o tremor — eu medi meu valor através dos olhos de outra pessoa. Eu achava que o amor era uma espera eterna, uma dor que eu precisava merecer. Eu pensei que o amor era Colin.
Benedict abriu a boca para falar, talvez para defendê-lo por hábito, ou para confortá-la, mas Penelope colocou dois dedos suavemente sobre os lábios dele.
— Não. Deixe-me terminar. Colin me queria como uma nota de rodapé na história dele. Ele me queria pequena para que ele pudesse se sentir grande. Mas você... — ela gesticulou para a tela, as lágrimas finalmente escorrendo, mas acompanhadas de um sorriso — Você me pintou como se eu fosse o próprio sol. Você me deu um lugar onde eu não preciso me esconder.
Ela deu um passo à frente, diminuindo a última barreira entre eles.
— Eu não amo mais o Colin. Aquele sentimento era uma prisão, e as chaves estavam sempre comigo, eu só tinha medo de usá-las. Mas aqui, com você, eu sinto que posso finalmente respirar. Benedict, eu... eu acho que passei tanto tempo procurando um herói que não percebi que precisava de um cúmplice. E eu amo quem eu sou quando estou com você.
Benedict pareceu perder a força nas pernas por um segundo. Ele soltou um suspiro longo, uma mistura de alívio e desejo contido.
— Penelope — ele murmurou, a voz rouca. — Eu não queria que você se sentisse obrigada a me amar apenas porque eu a acolhi. Eu estava preparado para ser apenas o seu amigo, para ser o seu segredo, se isso significasse que você estaria segura.
Ele envolveu o rosto dela com as duas mãos, os polegares limpando as lágrimas em suas bochechas.
— Mas a verdade é que, desde a primeira vez que você entrou naquele ateliê em Londres e me desafiou a ver além das aparências, eu não consegui pintar mais nada que não tivesse um pouco de você. Você não é minha inspiração, Penelope. Você é o motivo pelo qual eu quero ser um artista de verdade.
Ele não a beijou imediatamente. Ele encostou a testa na dela, fechando os olhos, permitindo que aquela nova realidade se assentasse entre eles. O amor por Colin havia sido um estrondo alto e doloroso; o que estava nascendo ali era um incêndio silencioso e constante.
Enquanto eles permaneciam naquele abraço, o mundo de Londres parecia a anos-luz de distância. O silêncio que se seguiu à confissão dela foi absoluto, quebrado apenas pelo estalar suave da lenha que se transformava em brasa.
Benedict não se afastou. Ele permaneceu ali, com as mãos ainda emoldurando o rosto de Penelope, os polegares traçando círculos lentos em suas maçãs do rosto. Ele a olhava como se estivesse diante da obra-prima que passara a vida inteira tentando esboçar, mas que só agora ganhava cores reais.
— Penelope — ele murmurou, e o nome dela soou como uma prece nos lábios dele. — Você não faz ideia do quanto eu esperei para ouvir que você não pertence mais a ele. Mas, acima de tudo... que você pertence a si mesma.
Ele se inclinou, mas parou a milímetros dos lábios dela, dando-lhe o espaço — o oxigênio — que Colin sempre lhe roubara. Benedict não queria tomar nada dela; ele queria que ela lhe entregasse, se assim desejasse.
Penelope não hesitou. Ela eliminou a distância, selando seus lábios nos dele com uma urgência que vinha de anos de palavras caladas e desejos reprimidos.
O beijo não foi como nos romances que ela costumava ler ou nas fantasias infantis que nutria por Colin. Não foi um toque casto ou uma promessa de salvação. Foi um encontro de verdades. Tinha o gosto do vinho que dividiram, o cheiro de óleo de linhaça do ateliê e a intensidade de duas pessoas que haviam se encontrado nas sombras e decidido caminhar juntas para a luz.
As mãos de Benedict desceram do rosto dela para a cintura, puxando-a para mais perto, como se quisesse fundir a realidade dela com a dele. Penelope sentiu a força dos braços dele, um porto seguro que não a sufocava, mas a sustentava. Ela enroscou os dedos nos cabelos levemente desalinhados da nuca dele, soltando um suspiro trêmulo contra os lábios dele.
Naquele momento, cada memória de Colin Bridgerton — cada olhar de desprezo, cada comentário impensado, cada dança mecânica — foi incinerada. O fogo que a pintura revelara agora ardia nela, mas não a consumia; ele a aquecia.
Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, os olhos brilhando com uma nova e perigosa compreensão. Benedict encostou o nariz no dela, um sorriso leve e genuíno surgindo em seus lábios.
— Eu deveria ter pintado isso também — ele brincou, a voz rouca, tentando aliviar a carga emocional do momento.
Penelope riu, uma risada clara que não escondia nada. — Acho que algumas coisas são bonitas demais para serem capturadas em uma tela, Benedict. Precisam ser vividas.
Ele a abraçou, escondendo o rosto na curva do pescoço dela, inspirando o perfume de baunilha e tinta que agora definia o seu mundo.
— Então vamos vive-las — ele prometeu. — Longe de Londres, longe das expectativas e, definitivamente, longe de qualquer um que não consiga ver o fogo que você é.
Eles ficaram ali, abraçados diante da pintura secreta, dois cúmplices em um mundo que ainda não sabia que havia perdido Penelope Featherington para sempre, e que Benedict Bridgerton finalmente havia encontrado seu motivo para nunca mais largar o pincel.
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A última edição de Lady Whistledown não foi entregue por um estafeta comum, nem deixada discretamente nas portas de Mayfair. Ela apareceu simultaneamente em todos os clubes e salas de estar, impressa em um papel de gramatura superior, como se a própria autora tivesse decidido vestir sua melhor seda para a despedida.
Em My Cottage, Penelope terminou de selar o destino de sua persona literária enquanto Benedict observava, segurando uma taça de vinho e admirando a mulher que, finalmente, não tinha mais nada a esconder de si mesma.
"Diz-se que todas as grandes histórias precisam de um fim, embora esta autora sempre tenha preferido as reticências. No entanto, há um momento na vida de todo observador em que o espetáculo no palco torna-se menos interessante do que a vida que pulsa fora do teatro.
Por anos, fui os olhos e os ouvidos desta cidade. Registrei suas quedas, seus escândalos e suas raras demonstrações de nobreza. Mas Londres é uma amante exigente, que prefere a fofoca à verdade e o brilho do diamante à força do carvão. Recentemente, a Ton dedicou-se a procurar culpados para corações partidos e explicações para desaparecimentos que não lhes dizem respeito. Procuraram por uma jovem que acreditavam estar perdida, sem perceberem que ela apenas se encontrou.
Quanto a este autor — ou autora — minha pena está cansada das sombras. Descobri que há mais prazer em ser o protagonista de um capítulo privado do que o narrador de uma farsa pública. Lady Whistledown retira-se não por derrota, mas por plenitude. Deixo-vos com vossas próprias vidas para administrar; que elas sejam tão interessantes quanto as que eu inventei para vós.
Não me procurem nos bailes, pois não estarei mais nas paredes. Procurem-me na liberdade de quem não precisa mais de um pseudônimo para ser ouvido.
Adeus, Londres. Foi, no mínimo, instrutivo.
Lady Whistledown"
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Penelope largou a pena. O silêncio que se seguiu foi o mais doce que já experimentara. Ela olhou para Benedict, que se aproximou e leu as últimas linhas.
— Um encerramento digno de uma rainha — disse ele, beijando o topo da cabeça dela. — Ou de uma mulher que acaba de recuperar seu próprio nome.
— Whistledown morreu para que eu pudesse viver, Ben — Penelope sorriu, sentindo um peso de anos deixar seus ombros. — Colin terá que encontrar outra pessoa para culpar por suas frustrações. E Londres terá que aprender a se olhar no espelho sem a minha ajuda.
Benedict caminhou até o canto do ateliê e pegou a pintura — a obra que revelava a verdadeira Penelope. Ele a colocou em uma caixa de transporte, protegida.
— A carruagem está pronta — anunciou ele. — A maré está alta em Dover e a Itália nos espera. Quero ver você pintada contra o pôr do sol da Toscana, Pen. Sem disfarces. Sem segredos.
Penelope olhou para o escritório uma última vez. Ela não era mais a garota invisível de amarelo, nem a escritora ácida que punia a sociedade com palavras. Ela era Penelope — amada, vista e, acima de tudo, livre.
Ela pegou a mão de Benedict e, juntos, eles cruzaram o limiar de My Cottage. Atrás deles, o fogo na lareira consumia os últimos rascunhos da Lady Whistledown, transformando o passado em cinzas enquanto eles cavalgavam em direção ao amanhã.
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A publicação da última edição de Lady Whistledown caiu sobre Londres como o silêncio que precede um desmoronamento. Enquanto Colin Bridgerton lia as palavras de despedida em seu clube, sentindo o amargor de saber que nunca teria o perdão daquela mulher, Penelope e Benedict já estavam a quilômetros de distância, deixando para trás a poeira e o julgamento da capital.
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Foi a decisão mais impulsiva de suas vidas, mas não menos perfeita por isso.
A cerimônia não aconteceu em uma catedral imponente, nem sob o olhar de centenas de convidados curiosos. Aconteceu em uma pequena capela de pedra na costa de Kent, pouco antes de embarcarem para o Canal da Mancha. O ar cheirava a salitre e flores silvestres.
Benedict não vestia o traje formal de gala dos Bridgerton, e Penelope não usava o amarelo que tanto odiava. Ela estava em um vestido de viagem simples, de um tom creme suave, com o cabelo ruivo preso apenas por uma fita de seda.
O vigário local, um homem de mãos calejadas e voz bondosa, conduziu a cerimônia. No momento dos votos, Benedict segurou as mãos de Penelope, ignorando as convenções e olhando-a com uma devoção que faria qualquer pintura parecer pálida.
— Eu, Benedict, prometo não ser o seu salvador, mas o seu companheiro de jornada. Prometo que meus olhos sempre verão a sua luz, mesmo quando o mundo tentar nos deixar nas sombras.
Penelope sorriu, sentindo que, pela primeira vez, suas palavras não precisavam ser escritas para terem poder.
— Eu, Penelope, prometo amar o homem que me viu quando eu era invisível. Prometo ser sua cúmplice, sua musa e sua igual, em cada tela que pintarmos e em cada estrada que escolhermos percorrer.
Quando o vigário os declarou marido e mulher, o beijo que trocaram selou não apenas um contrato, mas uma fuga. Eles assinaram o registro — Penelope e Benedict Bridgerton — com a mesma caneta que ela usara para encerrar a Whistledown.
No porto de Dover, o navio os aguardava. Enquanto subiam a rampa, Benedict carregava pessoalmente a caixa que continha o retrato de Penelope, protegendo-a como o tesouro que era.
Eles ficaram no convés enquanto a costa da Inglaterra diminuía no horizonte. O vento batia no rosto deles, trazendo a promessa de novos ares.
— O que você está pensando? — perguntou Benedict, envolvendo-a pela cintura e puxando-a para o seu calor.
Penelope olhou para o mar, para a imensidão que os separava de tudo o que haviam sido.
— Estou pensando que Lady Whistledown teria muito a dizer sobre um Bridgerton que foge com uma Featherington no meio da noite — ela riu, encostando a cabeça no ombro dele. — Mas, pela primeira vez na vida, eu não me importo com o que ela diria. Eu só quero saber o que a Sra. Bridgerton vai escrever na próxima página.
Benedict sorriu, beijando-lhe a têmpora. — Na Itália, as cores são diferentes, Pen. O sol é mais quente, o vinho é mais doce e a liberdade é absoluta. Mal posso esperar para ver como você vai brilhar lá.
E assim, enquanto Londres ainda discutia o mistério da escritora desaparecida e Colin remoía o peso de seu orgulho ferido, Penelope e Benedict navegavam em direção ao renascimento. Eles não eram mais personagens de uma crônica alheia; eram os autores de sua própria e vibrante história.
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Pouco antes de partirem, Benedict envia uma única carta:
Minha querida Mãe,
Escrevo-lhe estas linhas sob a luz de uma manhã que promete mudanças, enquanto me preparo para cruzar o Canal. Peço que não receba esta notícia com sobressaltos ou preocupação excessiva, mas sim com a compreensão que sempre dedicou às minhas inquietações artísticas.
Londres tornou-se pequena para os meus pincéis. Sinto que passei anos apenas esboçando a vida, sem nunca pintá-la com as cores que o meu coração exige. Preciso do sol da Toscana, das sombras de Florença e do silêncio que só o exílio voluntário pode proporcionar a um homem que busca a própria voz.
Não sei quanto tempo ficarei fora, mas sei que esta viagem é necessária para que eu possa, finalmente, ser o homem que a senhora sempre soube que eu poderia ser. Não me procurem nas listas de passageiros ou nas estalagens habituais; pretendo perder-me para me encontrar.
Dê o meu afeto a Eloise e aos menores. Quanto ao Colin... diga-lhe que a vida é feita de momentos que não se repetem, e que espero que ele encontre a paz que as suas viagens anteriores não lhe trouxeram.
A senhora sempre me ensinou que o amor e a arte exigem coragem. Estou apenas seguindo o seu conselho.
Com todo o meu amor e gratidão,
Seu filho, Benedict.
A carta de Benedict chegou à mesa do desjejum na manhã em que a última edição de Lady Whistledown ainda era o único assunto nas rodas de fofoca. O impacto daquelas linhas, lidas em voz alta por uma Violet com as mãos trêmulas, foi como um segundo terremoto na residência dos Bridgerton.
Violet releu a carta três vezes. Como mãe, ela sentia o alívio de saber que o filho estava bem, mas, como uma Bridgerton experiente, ela sentia que algo estava faltando entre as linhas.
— Ele partiu sem se despedir... — murmurou Violet, levando um lenço aos lábios. — "Perder-se para se encontrar". Benedict sempre foi o mais profundo de vocês, mas há uma urgência nestas palavras que não condiz com um simples passeio artístico.
Ela olhou para a cadeira vazia de Benedict, sentindo um aperto no peito. No fundo, Violet sabia que aquela partida era diferente das viagens de Colin. Benedict não estava fugindo de algo; ele estava correndo em direção a algo.
Colin, que já estava em um estado de nervos deplorável desde o término com Penelope e a revelação de Whistledown, levantou-se tão abruptamente que derrubou sua xícara de chá.
— É isso? — ele vociferou, a voz carregada de uma amargura que beirava o vilanesco. — Benedict se vai para "encontrar sua voz" enquanto a família está em frangalhos? Penelope desaparece, Lady Whistledown se cala nos insultando, e meu próprio irmão nos abandona para pintar sombras na Itália?
Ele andava de um lado para o outro, os punhos cerrados. Para Colin, a partida de Benedict era uma afronta pessoal, um abandono no momento em que ele mais precisava de um aliado para validar sua raiva contra Penelope. Ele não percebia a ironia: Benedict estava vivendo o amor que Colin jogara fora por puro orgulho.
Eloise estava sentada em silêncio absoluto, observando a reação dos irmãos com olhos de lince. Ela pegou a carta da mão da mãe e a cheirou discretamente. Baunilha. Tinta.
Um brilho de compreensão cruzou seus olhos, mas ela não disse nada. Eloise lembrou-se de como Benedict defendera Penelope nos últimos bailes. Lembrou-se do tempo que ele passava no ateliê.
— Benedict sempre teve um gosto por segredos — disse Eloise, com um sorriso de lado que ninguém conseguiu decifrar. — Talvez ele tenha encontrado algo na Itália que Londres nunca soube oferecer. Algo... ou alguém.
Anthony, suspirou pesadamente, massageando as têmporas. — Se ele está no continente, não há nada que possamos fazer agora. Temos um escândalo de noivado desfeito e um desaparecimento para gerenciar. Benedict escolheu um momento oportuno para sua "crise artística".
Anthony estava exausto. Para ele, eram apenas mais dois nomes para proteger do julgamento da Ton. Ele não imaginava que, sob a proteção do nome Bridgerton, seu irmão estava agora nos braços da mulher que Colin mais desprezava e que ele, Anthony, um dia chamara de "insignificante".
Enquanto a família Bridgerton tentava entender o vazio deixado por Benedict, a cidade de Londres aceitava a versão oficial: Benedict Bridgerton era um artista excêntrico em busca de luz, e Penelope Featherington era uma jovem doente que buscava a cura no campo.
Mal sabiam eles que, naquele exato momento, o "exílio" era a maior aventura de amor que aquela família já vira.
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Seis meses haviam se passado, e o inverno rigoroso de Londres não era mais do que uma lembrança pálida sob o sol persistente da Toscana. Em uma villa de pedras claras, cercada por oliveiras e vinhedos que pareciam pintados à mão, a vida de Penelope e Benedict Bridgerton florescia em uma liberdade que nenhum dos dois jamais acreditou ser possível.
A manhã começou no terraço. Penelope estava sentada em frente a uma mesa de madeira rústica, mas não havia folhetins de fofoca ou listas de convidados sobre ela. Havia manuscritos. Seu primeiro romance, escrito sob o pseudônimo de P. A. Bridgerton, estava quase concluído.
Ela usava um vestido de algodão leve, sem espartilhos sufocantes, e seus cabelos ruivos estavam soltos, balançando com a brisa que trazia o cheiro de alecrim e terra aquecida. Ela não era mais a "parede" de Mayfair; sua pele estava levemente dourada pelo sol e seus olhos brilhavam com a paz de quem não teme ser descoberta.
Benedict surgiu da parte interna da casa, com as mãos manchadas de azul e ocre. Ele parou por um momento apenas para observá-la. Nesses seis meses, ele a pintara mais de vinte vezes, e cada tela parecia descobrir uma nova camada da mulher que ele chamava de esposa.
— A luz está perfeita hoje — ele disse, aproximando-se e depositando um beijo demorado no ombro dela. Delicadamente, Benedict colocou suas mãos sobre a barriga de sua esposa. — Mas a minha musa parece distraída. Você está bem? Como esse bebê está te tratando?
Penelope sorriu, recostando-se no peito dele. — Estou apenas pensando no capítulo final. É estranho escrever sobre finais felizes quando se está vivendo um. Parece quase... ficção demais. Está tudo tão perfeito. Em cerca de sete meses, teremos um bebê. Eu me sinto tão feliz que nem sei como poderia melhorar.
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Nesses seis meses, o nome de Colin raramente era mencionado, e quando aparecia, não trazia mais dor. Era apenas o nome de um estranho que um dia ela pensou conhecer. Benedict, com sua sensibilidade artística e seu amor paciente, havia curado cada cicatriz que o descaso de Colin deixara.
No ateliê de Benedict, o retrato que ele pintara em My Cottage ocupava o lugar de honra. Ele era o lembrete constante do momento em que a verdade os libertou.
— Sabe o que recebi hoje na vila? — Benedict comentou, tirando uma carta amassada do bolso. — Uma carta de Eloise. Parece que a Ton finalmente parou de procurar por você. Ela diz que Colin partiu novamente para as ilhas gregas, mais amargurado do que nunca, reclamando que "o mundo não é mais o mesmo".
Penelope deu uma risada curta e cristalina. — O mundo dele não é o mesmo, Benedict. O nosso, por outro lado, está apenas começando a ganhar cores.
Benedict a conduziu até o cavalete onde trabalhava. Desta vez, ele não estava pintando Penelope sozinha. No esboço, havia três vultos caminhando por uma estrada de ciprestes — uma representação deles mesmos e seu filho, seguindo em direção ao horizonte.
— Eu nunca fui tão feliz, Ben — ela confessou, virando-se para ele e enlaçando seu pescoço. — Em Londres, eu era uma observadora. Aqui, eu sou a história.
— E que história, minha querida Penelope — ele murmurou, antes de beijá-la com a mesma intensidade da noite em que fugiram. — A melhor que eu já tive o privilégio de ilustrar.
Eles eram agora os párias favoritos de si mesmos. Longe das regras de Anthony, da amargura de Colin e das expectativas de Portia, os Bridgerton da Toscana viviam a verdade que Londres nunca foi capaz de suportar: a de que o amor real não precisa de plateia, apenas de luz e cumplicidade.
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O sucesso não veio como um sussurro, mas como um estrondo que atravessou o oceano. Enquanto o casal vivia sua idílica realidade na Toscana, o nome "Bridgerton" voltava a ser o mais comentado de Londres, mas por razões que ninguém poderia ter previsto.
Sob o pseudônimo de P. A. Bridgerton, Penelope publicou seu romance intitulado "As Sombras de Mayfair". Não era um folhetim de fofocas, mas uma crítica mordaz, profunda e brilhantemente escrita sobre as máscaras da aristocracia e a busca de uma mulher por sua própria voz.
O livro tornou-se um sucesso absoluto. Nas livrarias de Londres, as filas dobravam a esquina.
— É a escrita mais afiada que já vi desde a Lady Whistledown — comentavam as damas nos salões — mas com uma humanidade que a Whistledown nunca teve.
Colin, em suas viagens solitárias, comprou um exemplar em uma escala em Marselha. Ao ler a primeira página, seu coração gelou. Ele reconheceu o ritmo das frases, a cadência das vírgulas, a ironia que ele, em sua cegueira, chamara de "insignificante". Ele soube, naquele instante, que Penelope não apenas sobrevivera sem ele; ela havia se tornado gigante.
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Ao mesmo tempo, um renomado curador de arte descobriu, por meio de um intermediário, uma coleção de telas enviadas da Itália. Eram as obras de Benedict. Ele não assinava como "um amador", mas como Benedict Bridgerton, assumindo finalmente sua identidade como artista.
Uma grande galeria em Londres organizou uma exposição exclusiva. A peça central, protegida por um cordão de seda, era o retrato de Penelope — aquela mesma pintura feita no ateliê de My Cottage.
O dia da abertura da galeria em Londres não foi apenas um evento cultural; foi o julgamento final da elite britânica. O silêncio que caiu sobre o salão quando a cortina de veludo revelou a peça central foi mais ensurdecedor do que qualquer grito.
A pintura não deixava margem para dúvidas. A técnica de Benedict havia evoluído, mas a essência da modelo era inconfundível. Ali, em dimensões hercúleas, estava Penelope Featherington. Mas não a Penelope que eles desprezaram; era uma mulher radiante, envolta em uma aura de fogo e inteligência, segurando a pena que todos agora associavam ao sucesso literário do momento.
Violet Bridgerton sentiu os joelhos fraquejarem. Ela olhou para a assinatura no canto inferior: Benedict Bridgerton, Toscana.
— Meu Deus — sussurrou Violet, levando a mão ao peito. — Ele não fugiu para se encontrar. Ele fugiu com ela. Eles estão casados.
Embora estivesse feliz pelo casal, ficou ainda mais contente por Colin ainda estar na Grécia: não queria que percebesse que sua ex-noiva estava com o seu irmão enquanto estivessem em público.
Eloise, ao lado da mãe, soltou uma risada que beirava o triunfo e a descrença. — Ele a escolheu. Enquanto todos nós olhávamos para o chão, Benedict olhou para ela. Ele sabia de tudo. Ele sempre soube.
Portia estava na galeria apenas para manter as aparências, esperando encontrar algum pretendente para suas outras filhas. Quando seus olhos encontraram a tela, seu leque caiu ao chão.
Por anos, Portia tratara Penelope como um investimento fracassado, uma filha que precisava ser "empurrada" para qualquer homem que a aceitasse. Ver a filha retratada daquela forma — como uma deusa, uma musa, uma mulher de poder — foi um golpe em seu pragmatismo.
— Aquela é... Penelope? — a voz de Portia falhou. — Ela não está doente. Ela está na Itália... com um Bridgerton.
Pela primeira vez na vida, Portia sentiu uma pontada de algo que não era ganância, mas uma vergonha profunda. Ela percebeu que nunca conhecera a própria filha. Penelope havia alcançado a glória que Portia tanto cobiçava, mas fizera isso longe dela, rejeitando tudo o que a mãe pregava. O brilho na pintura era a prova de que Penelope só florescera quando se libertou das correntes da família Featherington.
A fofoca correu as ruas de Londres como um incêndio. O mistério da Whistledown, o sumiço de Penelope e a partida de Benedict finalmente se encaixaram. Eles não eram apenas um escândalo; eles eram a maior história de amor e rebeldia da década.
Londres percebeu que fora derrotada. Penelope e Benedict não pediram permissão para serem felizes; eles tomaram a felicidade para si e deixaram para a sociedade apenas o rastro de sua genialidade.
Naquela noite, na Toscana, Penelope e Benedict dormiram em paz, sem saber — ou se importar — que em Londres, o nome deles era agora sinônimo de uma liberdade que ninguém ali teria coragem de buscar.
— E parece que o seu irmão Colin terá que ler o meu livro para entender por que o deixei — Penelope respondeu, fechando o jornal com um sorriso satisfeito. — Mas a melhor parte, Ben, é que eles podem ver as pinturas e ler as palavras, mas não podem nos ter.
Benedict levantou sua taça de vinho, brindando ao sol que se punha sobre as colinas.
— Eles têm a obra, Penelope. Mas eu tenho a artista.
Eles não precisavam mais de Londres. Penelope era uma autora aclamada e Benedict era um pintor mestre. Juntos, eles haviam transformado o escândalo em arte e a solidão em um império de amor e criatividade que nenhuma fofoca de salão jamais seria capaz de destruir.
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A atmosfera na sala de visitas da Casa Bridgerton não era apenas de tensão; era de ruína. Colin estava parado diante da janela, mas não via a rua. Seus dedos apertavam o parapeito de mármore com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ele não era mais o viajante encantador; era um homem consumido por uma raiva fria e uma obsessão que beirava o desespero.
Mesmo após uma viagem de meses pela Grécia, parecia que nem um dia havia se passado para acalentar sua raiva e vergonha.
— Ela sumiu, mãe! — Colin rugiu, virando-se abruptamente, derrubando uma taça de cristal que se estilhaçou no chão. Ele não se desculpou. — Penelope Featherington não desaparece simplesmente da face da terra. Alguém a levou, ou ela está escondida em algum lugar, sofrendo, e a senhora se recusa a mover um dedo!
Violet permaneceu sentada, mas sua expressão era de uma severidade que Colin raramente via. Ela observou os cacos de vidro, um reflexo do estado emocional do filho.
— Ninguém a levou, Colin. E ela certamente não está sofrendo — Violet disse, sua voz cortando o ar como uma lâmina de gelo. — Penelope está onde escolheu estar. Com o homem que escolheu amar.
Colin soltou uma risada ríspida, carregada de escárnio. — Amar? Quem? Algum lorde italiano de meia-tigela? Algum estranho que a seduziu com promessas vazias?
— Não foi um estranho, Colin — Violet levantou-se, caminhando até ele com um envelope que parecia pesar toneladas. — Foi seu irmão.
Colin parou. O tempo pareceu congelar. — O quê?
— Benedict e Penelope estão na Toscana — Violet disparou, sem mais rodeios. — Eles se casaram em segredo há quase um ano. Ele me escreveu para dizer que ela é sua vida, sua arte... sua musa. Ele a reivindicou enquanto você a tratava como um acessório de sua própria conveniência.
O rosto de Colin passou do pálido ao vermelho vivo em segundos. A raiva que antes era generalizada agora tinha um alvo: o próprio sangue.
— Benedict? — O nome saiu como um veneno de seus lábios. — Aquele covarde... aquele traidor! Ele sabia! Ele me ouviu falar dela por anos! Ele viu o meu interesse, ele viu a minha...
— O seu interesse? — Violet o interrompeu, dando um passo à frente, sua voz subindo de tom pela primeira vez. — Você disse a metade de Londres que nunca a cortejaria! Você a deixou dançando sozinha enquanto viajava pelo mundo escrevendo cartas vazias. Benedict não a roubou, Colin. Ele a resgatou de uma vida de migalhas que você oferecia com condescendência!
Colin pegou o esboço que Violet lhe estendeu e, ao ver a imagem de Penelope — nua em sua confiança, transbordando uma sensualidade e uma paz que ele nunca soube que ela possuía — ele sentiu um ódio cego. Ele amassou o papel em seu punho.
— Ele a pintou... — Colin sibilou, as lágrimas de fúria queimando seus olhos. — Ele a tocou. Ele a levou para a cama dele enquanto eu... eu confiava nele! Eu vou atrás dele. Eu vou para a Itália e vou trazer Penelope de volta nem que eu tenha que...
— Você não vai a lugar nenhum — Violet sentenciou, bloqueando o caminho dele. — Se você der um passo em direção a eles, você perderá esta família. Penelope não é um troféu que você perdeu em um jogo, Colin. Ela é a esposa de Benedict. Ela é a Duquesa do mundo dele. E, a julgar pelas cartas dele, ela finalmente encontrou um homem que não tem vergonha de amá-la em voz alta.
Colin desabou em uma cadeira, cobrindo o rosto com as mãos, soluçando não de tristeza, mas de uma raiva impotente que o corroía por dentro. Ele fora superado pelo irmão que sempre considerou um sonhador.
Enquanto o grito silencioso de Colin ecoava pelas paredes da Casa Bridgerton, a carruagem de Benedict e Penelope já estava a poucos quilômetros de My Cottage, carregando o fruto daquela "traição" que Colin jamais seria capaz de perdoar.
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A Toscana era um paraíso, mas quando Penelope sentiu os primeiros movimentos do bebê, um desejo ancestral de pertencimento a tomou. Ela não sentia falta da Ton, mas sentia falta das paredes que a acolheram quando o mundo desmoronou. Ela queria que seu filho nascesse onde o amor deles realmente floresceu.
Um ano após o casamento, uma carruagem sem brasões cruzou os portões de My Cottage sob o manto de uma noite sem lua. Penelope, agora com oito meses de gestação, desceu com a ajuda cuidadosa de Benedict. Ela estava radiante; a gravidez lhe dera uma beleza etérea, e o vestido de corte império acomodava a curva proeminente de seu ventre.
Eles não avisaram os criados da cidade, nem a Violet, nem a ninguém. Apenas o casal de idosos que cuidava da propriedade foi mantido sob um juramento de silêncio absoluto.
— Estamos em casa — sussurrou Benedict, carregando-a no colo para dentro, apesar dos protestos risonhos dela. — Aqui ninguém pode nos tocar.
As semanas que se seguiram foram de um isolamento doce e estratégico. Benedict passava os dias preparando o quarto do bebê, entalhando ele mesmo o berço de madeira, enquanto Penelope revisava as provas de seu segundo livro.
Eles caminhavam pelos jardins ao entardecer, escondidos pelas sebes altas. Penelope observava as luzes de Londres brilhando fracamente no horizonte distante e sentia um triunfo silencioso. Ela estava ali, no coração do território Bridgerton, carregando o herdeiro da linhagem de Benedict, e ninguém tinha a menor ideia.
— Você acha que eles sentiriam o nosso cheiro se o vento soprasse para o lado certo? — brincou ela certa noite, recostada em Benedict diante da lareira.
— Eles estão ocupados demais olhando para o próprio umbigo em Mayfair, Pen — Benedict respondeu, beijando o topo da cabeça dela. — Para eles, somos apenas fantasmas na Itália.
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Certa tarde, o som de cascos de cavalo na estrada de acesso fez o coração de Penelope disparar. Benedict espiou pela fresta da cortina. Era Colin. Ele parecia mais magro, cavalgando sem rumo, parando por um instante diante dos portões de My Cottage antes de seguir caminho. Ele olhou para a casa com uma expressão de melancolia profunda, sem imaginar que a mulher que ele perdeu estava a poucos metros dali, vivendo a vida que ele nunca soube oferecer.
— Ele parece triste — observou Penelope, sem nenhum traço de saudade, apenas uma observação clínica.
— Ele está colhendo o que plantou, meu amor — Benedict disse, fechando a cortina e voltando-se para ela. — Mas nós... nós estamos plantando algo novo.
Com nove meses chegando, o ateliê foi transformado. As telas foram encostadas nas paredes para dar lugar a lençóis brancos e bacias de água morna. Benedict, que antes usava as mãos para criar arte, agora as usava para estudar livros de medicina e parteiras, decidido a ser o apoio de que Penelope precisava.
Eles decidiram que não chamariam um médico da cidade. O segredo era o escudo deles.
— Será apenas nós dois, como sempre foi — prometeu Penelope, segurando a mão dele sobre seu ventre. — Nosso filho vai abrir os olhos em um lugar onde só existe amor e verdade. Sem títulos, sem fofocas, apenas nós.
O plano estava traçado: o bebê nasceria no santuário onde Benedict a pintara pela primeira vez. E só quando Penelope estivesse pronta, quando o pequeno Bridgerton estivesse forte, eles decidiriam se o mundo merecia conhecer a verdade.
O silêncio de My Cottage foi subitamente quebrado por um gemido baixo, mas agudo, que fez Benedict largar o cinzel com o qual trabalhava no berço de madeira. O tempo de espera havia acabado.
O Início da Tormenta
Penelope estava de pé junto à janela do ateliê, observando o céu escurecer, quando a primeira contração verdadeira a atingiu. Ela se curvou, as mãos agarrando o peito de mármore de uma lareira apagada. Benedict estava ao seu lado em segundos, os braços fortes envolvendo-a antes que ela pudesse fraquejar.
— Pen... é agora? — A voz dele, geralmente tão calma, tinha um fio de urgência.
— Sim — ela ofegou, a testa franzida de dor, mas os olhos brilhando com uma determinação feroz. — Ele não quer mais esperar, Ben. O nosso bebê quer o mundo.
Benedict a carregou para a cama preparada no centro do ateliê. Ele não queria levá-la para o quarto principal; queria que o filho deles nascesse cercado pelas telas que contavam a história do amor deles — os quadros da Toscana, os esboços dela dormindo, a prova visual de que ela era a sua luz.
As horas que se seguiram foram um teste de resistência e devoção. Benedict não se afastou por um segundo. Ele limpava o suor do rosto dela com panos umedecidos em lavanda, sussurrando palavras de encorajamento em seu ouvido, fundindo sua força com a dela.
— Respire comigo, Pen. Olhe para mim — ele pedia, as mãos calejadas segurando as dela com uma delicadeza absoluta. — Só existe você e eu. O mundo lá fora não existe. Mayfair não existe. Somos apenas nós.
Penelope apertava as mãos dele com tanta força que os nós dos dedos de ambos estavam brancos. Entre as ondas de dor, ela olhava para as pinturas nas paredes. Ela via a si mesma através dos olhos dele e encontrava a coragem necessária. Ela não era mais a menina que temia o julgamento de Londres; ela era uma mulher dando vida ao fruto de uma paixão que desafiara toda uma dinastia.
Lá fora, a chuva começou a cair, abafando os gritos contidos de Penelope. O isolamento de My Cottage era agora o seu maior aliado. Benedict agia com uma competência calma, guiado pelo instinto e pelo estudo profundo que fizera nos últimos meses. Ele não era apenas o marido; era o guardião do portal entre dois mundos.
Em um esforço final, que pareceu drenar toda a energia do universo para aquele pequeno ateliê, o som de um choro vigoroso e faminto rompeu o silêncio da noite.
Benedict segurou a criança — um menino robusto, com tufos de cabelo escuro e a promessa dos olhos penetrantes dos Bridgerton. Ele o envolveu em um pano de linho macio e o depositou nos braços exaustos de Penelope.
— Um menino, Pen. Nosso Thomas. — Benedict sussurrou, as lágrimas finalmente vencendo sua guarda e escorrendo pelo rosto. — Ele é perfeito. Ele é... nós.
Penelope olhou para o pequeno rosto, sentindo uma paz que nunca conhecera. O bebê se aninhou em seu peito, e naquele momento, o segredo deles tornou-se de carne e osso.
Benedict ajoelhou-se ao lado da cama, abraçando ambos. Ele olhou para a janela, onde a escuridão da noite escondia a estrada que levava a Londres, onde um Colin enfurecido e uma família fragmentada ainda os procuravam.
— Ninguém vai tirar isso de nós, Penelope — ele jurou, beijando a testa dela e depois a cabecinha do filho. —Se Londres quiser nos encontrar, terão que passar por cima de mim. Mas hoje... hoje o mundo é apenas este quarto.
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A quilômetros dali, na Casa Bridgerton, Violet não conseguia dormir. Uma inquietação estranha, uma espécie de "chamado" que ela só sentira quando seus filhos estavam em perigo ou nascendo, a fizera levantar. Sem dar explicações a Anthony ou Colin, ela ordenou que preparassem sua carruagem. Ela precisava ir a My Cottage. Não sabia o porquê, mas sentia que as paredes daquela casa clamavam por ela.
Ao chegar, a casa parecia deserta, mas havia uma luz trêmula vindo da janela superior do ateliê. Violet não bateu; ela ainda tinha a chave. Ela subiu as escadas em silêncio, o coração na boca.
Quando abriu a porta do ateliê, a cena que encontrou paralisou o seu tempo.
Benedict estava de joelhos no chão, com a camisa manchada e os cabelos desgrenhados, amparando Penelope, que estava encostada em uma pilha de almofadas de veludo, com um pequeno embrulho em seus braços.
— Benedict? — O sussurro de Violet foi um sopro. — Penelope?
Benedict olhou para cima, os olhos arregalados.
— Mãe! — Benedict exclamou, a voz entre o alívio e o pânico. — Conheça o nosso filho, Thomas.
Violet Bridgerton deixou o choque de lado em um segundo e se aproximou para conhecer seu neto. Penelope parecia cansada, mas possuía um ar de felicidade que apenas uma mãe possuía e era impossível de replicar.
Ao olhar para o pequeno pela primeira vez, Violet reprimiu um soluço: Thomas era extraordinariamente parecido com Benedict, possuía a boca e o nariz que um dia ela vira no rosto de seu amado marido.
-- Ele é perfeito.
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No dia seguinte, após uma noite de descanso para Penelope, mas a primeira de muitas noites mal dormidas para o novo pai, Violet iniciou uma conversa com o filho e a nora.
— Vocês estiveram juntos esse tempo todo — afirmou Violet, não como uma acusação, mas como uma constatação que lhe apertava o peito. — Na Itália. O casamento... a fuga.
— Nós nos amamos, mãe — disse Benedict, com uma firmeza que Violet nunca vira nele. — De uma forma que ninguém em Londres poderia entender. Especialmente o Colin.
Violet olhou para Penelope, que apertava o bebê contra si. Ela viu na nora a mesma luz que vira na pintura de Benedict. A raiva pela mentira foi dissipada pela visão daquela nova família.
— Colin... — Violet começou, suspirando. — Ele vai ficar devastado. Mas, vendo vocês dois agora... percebo que ele nunca teria sido capaz de te fazer brilhar assim, Penelope.
— Eu não queria que a senhora soubesse dessa forma — Penelope disse suavemente.
— Eu sou mãe, Penelope. Eu sempre soube que o coração de Benedict não estava sozinho naquelas telas — Violet aproximou-se e beijou a testa de Penelope. — O segredo de vocês está seguro comigo. Por enquanto. Mas saibam que o resto da família não vai ficar no escuro para sempre.
Naquele dia, sob o teto de My Cottage, a família Bridgerton ganhou um novo membro e uma aliada inesperada. O segredo agora tinha o peso de uma nova vida.
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A atmosfera em My Cottage mudou drasticamente. O calor do nascimento foi substituído pelo ar gélido das convenções sociais que Violet, apesar de sua ternura, ainda representava. Ela não aceitaria que o primeiro neto dessa nova união vivesse como um fantasma.
Uma semana depois, contra a vontade de Benedict, a carruagem dos Bridgerton parou novamente no cascalho. Mas desta vez, as portas se abriram para revelar Anthony e um Colin visivelmente instável. Violet os convocara com um bilhete críptico que dizia apenas: "O que estava perdido foi encontrado. Venham sozinhos."
O encontro não aconteceu na sala de estar, mas no ateliê. Penelope estava sentada em uma poltrona, o bebê adormecido em seu colo. Benedict estava de pé ao lado dela, a mão pousada em seu ombro como um escudo vivo.
Quando Colin entrou, ele parou bruscamente. Seus olhos foram da pintura monumental na parede para Penelope, e então para a criança. O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante e carregado de um desconforto que fazia o ar parecer denso.
— O que é isso? — a voz de Colin saiu falha, um sussurro quebrado. Ele olhou para Benedict. — O que você fez?
— Eu não "fiz" nada, Colin — Benedict respondeu, sua voz fria e cortante como gelo. — Eu amei a mulher que você desprezou. Eu casei com a mulher que você chamou de armadilha.
Anthony, o Visconde, mantinha a mandíbula travada. Ele olhava para o bebê, depois para o irmão. O senso de dever lutava contra o choque.
— Um casamento secreto? Na Itália? — Anthony perguntou, a voz vibrando com uma autoridade contida. — Benedict, você tem noção do escândalo que isso representa? Você desonrou a família e traiu seu irmão sob o mesmo teto.
— Traição? — Penelope interveio, sua voz soando clara e sem medo, fazendo Colin estremecer. — A única traição aqui, Lorde Bridgerton, foi a de Colin contra a amizade que cultivamos por uma década. Benedict me deu um nome, uma casa e uma vida onde eu não preciso me desculpar por existir. Se isso é um escândalo para os Bridgerton, então talvez eu devesse ter ficado na Itália.
Colin deu um passo à frente, os olhos fixos no bebê. O desconforto era palpável; ele parecia um homem vendo o próprio funeral.
— É meu? — ele perguntou, uma esperança patética e desesperada cruzando seu rosto.
Benedict soltou uma risada ríspida, sem nenhuma alegria. — Olhe para o calendário, Colin. E olhe para a data do nosso casamento. Este filho é meu em todos os sentidos que importam. No sangue, no nome e no amor. Ele nasceu da verdade, não de uma lição de charme que você não soube apreciar.
Colin recuou como se tivesse sido esbofeteado. Ele olhou para Penelope, esperando encontrar algum resquício daquela menina que o adorava, mas só encontrou a Sra. Bridgerton — uma mulher completa, que o olhava com uma piedade que era pior do que o ódio.
— Você me substituiu pelo meu próprio irmão — Colin sibilou, a amargura transbordando.
— Eu não substituí ninguém — Penelope disse calmamente. — Eu apenas finalmente fui vista. Algo que você nunca foi capaz de fazer.
O desconforto no quarto era quase insuportável. Anthony olhou para Violet, que permanecia em um canto, observando a ruína de um filho e o triunfo do outro.
— O casamento é legal? — Anthony perguntou secamente.
— Totalmente — afirmou Benedict. — Documentado e selado.
— Então — Anthony suspirou, fechando os olhos por um momento — Londres saberá que vocês se casaram no continente após um "entendimento mútuo" entre os irmãos. Não haverá duelos, não haverá brigas públicas. Colin, você voltará para a cidade comigo agora.
Colin olhou para o bebê uma última vez — o símbolo vivo de sua derrota — e para Benedict, o irmão que ele agora odiava e invejava. Sem dizer mais uma palavra, ele girou nos calcanhares e saiu, o som de seus passos pesados ecoando pelo corredor como o fim de uma era.
Anthony seguiu o irmão, restando apenas Violet. O silêncio que restou era amargo, mas limpo.
— Eu não sei se um dia ele vai conseguir superar — Violet disse suavemente, olhando para o neto.
— Nós sabemos — respondeu Benedict, voltando-se para Penelope e beijando sua testa. — Mas, pela primeira vez, seremos felizes por nós mesmos, sem depender da opinião de mais ninguém.
Eles haviam enfrentado a tempestade final. O desconforto passaria, mas a família que construíram no ateliê de My Cottage era inabalável.
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Dois anos se passaram desde o confronto em My Cottage. Londres não era mais a mesma, e o motivo tinha nome e sobrenome: Benedict e Penelope Bridgerton.
O retorno deles à capital não foi um pedido de desculpas; foi uma demonstração de poder. O sucesso estrondoso dos quadros de Benedict na Europa e as vendas recordes dos livros de Penelope ao redor do mundo os transformaram em um dos casais mais ricos e influentes da Europa. Eles não precisavam mais da herança dos Bridgerton; eles haviam construído seu próprio império de ouro e tinta.
A carruagem que parou diante da mansão naquela noite não era uma carruagem comum. Era um modelo italiano sob medida, laqueada em um azul profundo com detalhes em ouro maciço, puxada por quatro cavalos brancos puro-sangue. Quando a porta se abriu, o burburinho na entrada da festa cessou imediatamente.
Penelope desceu primeiro. Ela era a personificação da opulência. Seu vestido não era amarelo, nem as sedas modestas de outrora. Ela usava um modelo de seda francesa em tom esmeralda, bordado com fios de prata real e adornado com diamantes que capturavam cada centelha de luz das tochas. Em seu pescoço, um colar de safiras que custaria o dote de dez debutantes brilhava com uma intensidade arrogante.
Benedict estava ao seu lado, vestindo uma casaca de corte impecável, com a postura de um homem que não apenas herdara um nome, mas que agora comandava o mercado de arte do continente.
Ao entrarem no salão, a Ton abriu caminho como se estivesse diante da realeza. O burburinho sobre o "escândalo" de dois anos atrás foi substituído por suspiros de cobiça e admiração. Eles eram intocáveis.
Portia Featherington, parada perto de uma coluna, quase engasgou com o próprio champanhe. Ela via a filha que um dia chamara de "fardo" agora ostentando em um único pulso o equivalente a toda a fortuna dos Featherington. Penelope lhe deu um aceno de cabeça educado, porém distante — um lembrete de que o dinheiro e o sucesso eram dela, e de mais ninguém.
No centro do salão, o encontro inevitável aconteceu. Colin estava ali, parecendo mais velho, suas roupas menos luxuosas do que as do irmão, sua expressão marcada pelo amargor de quem viu o mundo seguir em frente sem ele.
Ele olhou para Penelope, para as joias que a adornavam, para a confiança que exalava de cada poro de sua pele. Ele tentou dizer algo, talvez uma saudação, mas a voz morreu na garganta.
— Colin — Benedict disse, sua voz calma e ressonante, a voz de um homem que possui tudo o que deseja. Ele não tinha ódio; tinha algo pior: indiferença. — Espero que esteja aproveitando a noite.
Penelope apenas sorriu, um sorriso de uma rainha para um súdito esquecido. — A propósito, Colin — ela disse, ajustando uma de suas safiras — comprei aquela propriedade que você tanto admirava na Grécia. Pretendemos transformá-la em uma galeria de verão. Benedict achou que a luz lá é excelente para pintar... nosso segundo filho.
O golpe foi final. Colin percebeu que eles não apenas o haviam superado emocionalmente; eles agora possuíam o mundo que ele apenas sonhava em visitar.
Enquanto a música começava, Benedict puxou Penelope para a pista de dança. Eles não dançavam para a plateia; dançavam um para o outro, como faziam na Toscana.
— Eles ainda estão olhando — sussurrou Penelope, encostando a cabeça no ombro do marido enquanto giravam pelo salão dourado.
— Deixe que olhem, minha vida — Benedict respondeu, apertando a mão dela, onde um anel de diamante de tamanho obsceno brilhava. — Eles passaram a vida nos subestimando. Agora, o mínimo que podem fazer é admirar a obra de arte que nos tornamos.
Londres pertencia a eles, não por tradição, mas por conquista. Penelope e Benedict Bridgerton eram a prova de que o amor, quando aliado ao talento e a uma fortuna incalculável, era a maior vingança de todas.
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Com retirada da sociedade para o campo, o verão em Aubrey Hall nunca havia sido tão vibrante — ou tão silencioso nas entrelinhas. O retorno da família para a propriedade de campo dos Bridgerton era uma tradição, mas, sob o brilho do sol de agosto, a dinâmica agora era ditada pela presença magnética de Benedict e Penelope.
A opulência que o casal trouxe consigo transformou a rotina da casa. As carruagens extras para transportar as telas de Benedict, os baús de seda de Penelope e a comitiva de amas para o pequeno Thomas — o herdeiro do casal — eram um lembrete constante de que eles agora eram um estado dentro de um reino.
Violet Bridgerton observava a cena de sua cadeira de vime. Penelope estava sentada sob um carvalho secular, vestindo um traje de passeio em seda pérola que reluzia sob o sol. Ela lia as provas de seu novo livro enquanto Benedict, a poucos metros, esboçava o perfil dela em um bloco de papel artesanal italiano.
— É fascinante — comentou Eloise, sentando-se ao lado da mãe com um olhar de admiração mal disfarçada. — Penelope não apenas comprou metade das ações da editora que a publica, como agora dita quem entra e quem sai dos círculos literários de Londres. Quem diria que a nossa "parede" se tornaria a fundação de um império?
Violet sorriu, mas seu olhar desviou para o outro lado do jardim, onde Colin caminhava sozinho.
Colin tentava manter a dignidade, mas a diferença de status era humilhante. Ele passara os últimos meses tentando publicar seus próprios diários de viagem, apenas para ouvir dos editores que "o mercado estava saturado, a menos que o texto tivesse a perspicácia de P. A. Bridgerton". Ver a mulher que ele ignorou ser a dona do mercado que ele cobiçava era um veneno diário.
Ele se aproximou do círculo da família quando o pequeno Thomas, agora com dois anos, correu em sua direção, tropeçando nos próprios pés. Colin o segurou por instinto.
— Ele tem os seus olhos, Benedict — disse Colin, a voz tensa, tentando uma reconciliação que o orgulho ainda dificultava.
Benedict levantou-se e pegou o filho no colo, um gesto de posse natural. — E a mente da mãe, felizmente — respondeu Benedict com um sorriso educado, mas que não chegava aos olhos. — Ele já reconhece as cores primárias. Um prodígio, não acha?
O desconforto era uma névoa invisível. Benedict não precisava ser cruel; sua mera felicidade e sua riqueza incalculável eram punição suficiente para o irmão.
À noite, o jantar em Aubrey Hall foi uma exibição de poder. Anthony, à cabeceira, parecia finalmente ter aceitado que o irmão mais novo era agora mais rico que o próprio Viscondado.
Penelope usava um conjunto de esmeraldas que pertencera a uma princesa russa, comprada em um leilão em Paris. A luz das velas refletia nas pedras e na taça de cristal de alta qualidade que ela segurava.
— Soube que você adquiriu a propriedade vizinha a My Cottage, Benedict? — perguntou Anthony.
— Sim — respondeu Benedict, servindo-se de um vinho que ele mesmo trouxera de sua adega particular na Itália. — Penelope queria um espaço maior para sua biblioteca pessoal, e eu precisava de um estúdio com luz do norte. Decidimos expandir. Thomas terá espaço para correr sem sair de nossas terras.
Portia Featherington, que fora convidada por insistência de Violet, não conseguia parar de contar os talheres de prata. Ela tentava, a todo custo, atrair a atenção de Penelope.
— Minha querida filha — começou Portia, com um sorriso bajulador — eu sempre soube que você tinha um brilho especial...
Penelope pousou a taça e olhou diretamente para a mãe. O olhar não era de raiva, mas de uma distância intransponível. — Você sabia que eu tinha utilidade, mamãe. O brilho... quem viu foi o meu marido. E é por isso que hoje as chaves de sua nova residência em Bath estão no meu nome, e não no seu. Sinta-se à vontade para aproveitá-la, mas lembre-se de quem assina as notas promissórias.
O silêncio na mesa foi absoluto. A nova Penelope não perdoava, ela apenas gerenciava.
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Após o jantar, Penelope e Benedict caminharam até o lago. Longe dos olhos da família, a rigidez da opulência cedia lugar à ternura.
— Você foi dura com ela — sussurrou Benedict, envolvendo-a em seus braços.
— Fui justa, Ben — Penelope respondeu, encostando a cabeça no peito dele. — O dinheiro nos deu algo que Londres nunca nos daria: a capacidade de colocar cada pessoa no seu devido lugar.
Benedict riu, beijando-lhe o topo da cabeça. — E onde é o meu lugar, Sra. Bridgerton?
— Exatamente aqui — ela disse, olhando para o reflexo da lua na água. — No centro do meu mundo, pintando a nossa história enquanto o resto da família tenta entender como dois "exilados" acabaram sendo os donos de tudo.
Naquela noite, em Aubrey Hall, a hierarquia tradicional dos Bridgerton foi enterrada de vez. O poder não estava mais no título de Anthony ou nas viagens de Colin, mas na união inquebrável da artista e do pintor, que transformaram seu amor na maior fortuna da Inglaterra.
dia seguinte em Aubrey Hall amanheceu com uma névoa baixa e elegante, o tipo de manhã que Benedict costumava chamar de "poesia atmosférica". A família estava reunida no salão de café, um ambiente de carvalho escuro e tapeçarias antigas que agora parecia pequeno demais para a energia que o casal exalava.
Penelope entrou no recinto usando um vestido de seda matinal em tom de azul-sereno, com detalhes em renda de Veneza que custavam mais do que a carruagem de qualquer debutante daquela temporada. Benedict caminhava logo atrás dela, sua mão possessiva e protetora descansando levemente na curva das costas de sua esposa.
A mesa estava farta, mas o clima ainda era de uma observação cautelosa. Colin, sentado à ponta oposta, mal tocava em seu prato de ovos e rabanadas, seus olhos desviando constantemente para as joias discretas, porém valiosíssimas, que Penelope usava logo cedo.
— Você parece radiante hoje, Penelope — observou Violet, com um brilho de suspeita amorosa nos olhos. — O ar de Aubrey Hall sempre lhe fez bem, mas há algo diferente... uma calma.
Penelope olhou para Benedict, e um sorriso cúmplice passou entre eles. Ela pousou sua xícara de porcelana fina — uma peça que ela mesma trouxera da Itália, pois achava a louça da casa "funcional, porém sem alma".
— Na verdade, Violet — começou Penelope, sua voz clara e aveludada capturando a atenção de todos, até mesmo de Anthony, que parou de ler seus relatórios de terras — Aubrey Hall é apenas o primeiro cenário de uma nova celebração. Benedict e eu decidimos que Thomas já passou tempo demais sendo filho único.
O silêncio caiu sobre a mesa. Benedict deu um passo à frente e segurou a mão de Penelope, entrelaçando seus dedos.
— O que Penelope quer dizer — completou Benedict, a voz vibrando de orgulho — é que nossa família está crescendo novamente. Esperamos nosso segundo filho para o início da primavera.
O impacto foi imediato. Violet soltou um grito de alegria contida, levantando-se para abraçar a nora. Eloise bateu palmas, rindo da cara de choque dos irmãos.
— Mais um sobrinho! — exclamou Eloise. — Espero que este também herde o talento da mãe para a escrita e o descaramento do pai para a fuga.
Para Colin, a notícia foi como um golpe físico. Ver Penelope grávida novamente, carregando o fruto de uma felicidade que ele nunca soube cultivar, era a prova definitiva de sua obsolescência. Ele percebeu que, enquanto ele vagava pelo mundo buscando "inspiração" em ruínas, Benedict e Penelope estavam construindo um legado real, de carne, sangue e ouro.
— Meus parabéns — Colin conseguiu murmurar, sua voz saindo seca e sem vida. Ele se levantou, incapaz de suportar a visão do carinho óbvio entre os dois. — Se me dão licença, preciso de um pouco de ar.
Ele saiu para o jardim, deixando para trás o som das risadas e os planos de Benedict para expandir ainda mais a ala infantil de My Cottage e da villa na Itália.
Anthony aproximou-se de Benedict, apertando-lhe a mão com um respeito que ele nunca demonstrara antes da riqueza e do sucesso do irmão.
— Parece que os Bridgerton da Toscana serão em breve mais numerosos que os de Londres — Anthony comentou com um sorriso genuíno.
— Talvez não mais numerosos, mas com certeza terão uma vida confortável, irmão — respondeu Benedict com uma piscadela. — Já providenciei para que um fundo seja aberto no Banco da Inglaterra no nome do bebê. Ouro e arte são as melhores heranças que podemos deixar.
Penelope, observando a cena, sentiu uma satisfação profunda. Ela não era apenas uma escritora de sucesso ou a mulher mais rica daquela sala; ela era o centro de uma dinastia que ela e Benedict criaram do nada, sobre as cinzas de um amor medíocre e sob a luz de uma verdade inabalável.
Naquela tarde, enquanto o sol dourava os campos de Aubrey Hall, Penelope e Benedict caminharam sozinhos perto do lago. Ele ajoelhou-se na grama e beijou o ventre dela, ainda imperceptível sob a seda.
— Mais um para nossa familia — sussurrou Benedict.
— Mais um para amar — completou Penelope, sorrindo. — E para nos lembrar de que, no fim, nós ganhamos tudo.
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O nascimento do novo Bridgerton não poderia ser nada menos que monumental. Embora Penelope e Benedict tivessem recursos para contratar os melhores médicos da Europa, eles escolheram, mais uma vez, o santuário de My Cottage. Eles queriam a mesma paz e o mesmo segredo que cercaram a chegada de Thomas, mas o destino reservava uma surpresa em dobro.
Era uma noite de primavera, com o perfume das glicínias invadindo as janelas abertas do ateliê. Benedict estava ao lado de Penelope, mas desta vez ele não era um iniciante assustado. Ele era o seu porto seguro, movendo-se com a confiança de quem já conhecia cada ritmo do corpo da esposa.
— Está mais intenso desta vez, Ben — ofegou Penelope, apertando as mãos dele. A riqueza e os diamantes estavam guardados nas caixas de veludo; ali, ela era apenas a mulher entregue à força da criação.
Benedict limpou o suor da testa dela com um pano de linho finíssimo. — Você é a criatriz deste mundo, Pen. Eu estou aqui apenas para segurar a sua mão enquanto você traz a vida.
Quando o primeiro choro ecoou, Benedict sentiu o alívio de sempre. Era um menino, forte e com os pulmões cheios, que Violet — presente novamente, pois agora era a guardiã oficial dos segredos do casal — segurou com um sorriso radiante.
— Um menino, Benedict! Outro lindo menino! — disse Violet.
Mas, antes que o casal pudesse celebrar, Penelope soltou um gemido renovado, mais agudo. O esforço não havia terminado. Benedict e Violet trocaram um olhar de choque e urgência.
— Tem mais um — sussurrou Benedict, os olhos arregalados de maravilha e temor.
Minutos depois, um segundo choro, mais delicado porém igualmente persistente, preencheu o quarto. Benedict recebeu a pequena criança nos braços. Era uma menina, com a pele de porcelana e uma promessa de cabelos ruivos que faria jus à linhagem da mãe.
— Gêmeos — declarou Violet, as lágrimas correndo livremente. — Um casal. Que maravilha, uma linda menininha!
Semanas depois, a notícia se espalhou por Londres como um rastilho de pólvora. Não era apenas um bebê; eram dois.
Os nomes foram escolhidos com o significado de sua jornada: Elliot, o futuro guardião das terras e dos negócios, e Agatha, a pequena "dádiva" que Benedict prometeu que teria todas as cores do mundo à sua disposição.
Desta vez, eles não se esconderam para o batismo. A cerimônia ocorreu na capela particular de uma nova e luxuosa propriedade que compraram nos arredores de Londres. A carruagem de Colin passou pelos portões apenas para entregar um presente — um conjunto de talheres de prata que parecia humilde perto dos berços de carvalho entalhado e seda italiana onde os bebês descansavam.
Naquela tarde, Benedict levou Penelope até o jardim da nova casa. Thomas corria ao redor deles, e as amas cuidavam dos gêmeos sob a sombra de um gazebo de mármore.
— Três filhos, uma fortuna que não conseguimos contar, e o mundo inteiro lendo suas palavras e admirando meus quadros — disse Benedict, abraçando-a por trás. — Você imaginava isso quando éramos apenas dois jovens solitários nos bailes de Londres?
Penelope olhou para as mãos — as mãos que escreveram seu destino e que agora seguravam a vida. Ela viu o brilho de sua aliança e a paz em seu coração.
— Eu imaginava que o amor era um sacrifício, Ben. Você me ensinou que o amor é um investimento. E veja só... — ela apontou para os gêmeos e para a vida vibrante ao redor deles — o retorno foi infinito.
Eles não eram apenas o casal mais rico ou mais talentoso da Inglaterra. Eles eram a prova de que, quando a arte se une à coragem, o resultado é uma dinastia que nem o tempo, nem a fofoca, nem a inveja seriam capazes de apagar. Penelope e Benedict Bridgerton não apenas venceram o jogo da sociedade; eles compraram o tabuleiro e reescreveram todas as regras.
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Para que esta história de superação e arte se encerre com perfeição, o tempo cuidou de curar as feridas que o orgulho havia aberto. Anos depois, a harmonia finalmente encontrou o caminho de volta para a família Bridgerton, transformando a amargura em uma maturidade serena.
O ponto de virada para Colin não veio através de uma viagem, mas de um espelho. Após anos vagando pela Europa tentando preencher o vazio deixado por Penelope, ele retornou a Londres e decidiu, finalmente, abandonar a máscara de "viajante incompreendido". Ele usou sua experiência para abrir uma fundação de apoio a jovens escritores, focando em talentos que, como Penelope, eram ignorados pela sociedade.
Foi lá que ele conheceu Jane, que não o via como um herói, mas como um homem em busca de perdão. Ela o desafiou, o ouviu e, pela primeira vez, Colin não precisou de "lições de charme". Ele se apaixonou pela mente dela, e o casamento deles foi baseado em uma honestidade crua que ele nunca teve antes. Colin e Benedict finalmente apertaram as mãos em um baile em Aubrey Hall, selando uma paz que permitiu a Colin olhar para os sobrinhos sem sentir o peso do "e se...".
Eloise encontrou seu final feliz nos seus próprios termos. Com o apoio financeiro ilimitado de Penelope e Benedict, ela fundou a primeira universidade feminina de artes e ciências políticas de Londres. Ela nunca se casou por obrigação, mas viveu um romance intelectual duradouro com um acadêmico chamado Philip que respeitava sua independência. Ela se tornou a tia favorita dos gêmeos e Thomas, ensinando Agatha a questionar o mundo tanto quanto o pai a ensinava a pintá-lo.
Violet Bridgerton viveu para ver todos os seus filhos estabelecidos. Sua maior alegria era visitar a villa na Toscana, onde passava os verões cercada pelos netos ruivos e morenos. Ela via a união de Benedict e Penelope como o maior triunfo de sua criação: a prova de que o amor verdadeiro sobrevive a qualquer escândalo.
Portia e o Legado Featherington
Portia Featherington aposentou-se com uma pensão generosa enviada por Penelope. Ela passava seus dias em Bath, ostentando para as amigas que sua filha era "a maior mente da Inglaterra". Embora nunca tenham sido íntimas, a paz financeira permitiu que Portia finalmente relaxasse, orgulhosa do império que Penelope construíra, mesmo que não o compreendesse totalmente.
No vigésimo aniversário de casamento de Penelope e Benedict, uma retrospectiva de suas obras foi inaugurada no Museu Britânico. O salão estava repleto de nobres, artistas e intelectuais.
No centro da galeria, os dois estavam de mãos dadas, observando o quadro original de My Cottage. Seus três filhos, agora jovens adultos, circulavam pelo salão, carregando o nome Bridgerton com uma mistura de orgulho e liberdade.
— Conseguimos, Pen — sussurrou Benedict, agora com fios de prata nas têmporas, mas com o mesmo brilho de admiração nos olhos. — Criamos um mundo onde ninguém precisa se esconder.
Penelope, elegante em sua maturidade e ainda a escritora mais lida do continente, sorriu para o marido. — Nós não apenas criamos um mundo, Ben. Nós o pintamos com as nossas próprias cores.
O ápice da retrospectiva de vinte anos não ocorreu em um brinde ou em um discurso improvisado, mas no momento em que o sol se punha sobre Londres, tingindo as janelas do museu com o mesmo tom de âmbar que Benedict tanto amava pintar.
No centro do salão principal, sobre um pedestal de mármore branco, repousava um único exemplar de couro legítimo com detalhes em ouro: o volume final da autobiografia de Penelope, intitulado "A Pena e o Pincel: Uma Vida em Duas Cores".
A elite de Londres, incluindo os Bridgerton e até mesmo um redimido Colin, cercava o pedestal. Penelope, com a elegância soberana que só as décadas de liberdade lhe deram, subiu ao pequeno palanque ao lado de Benedict.
— Por vinte anos — começou Penelope, sua voz ressoando com uma autoridade que silenciou até o menor tilintar de taças — o mundo conheceu a Sra. Bridgerton como uma autora de romances e uma mecenas das artes. Mas o mundo sempre teve outra dívida comigo, uma que decidi cobrar apenas hoje, quando o tempo já não pode mais me ferir.
Ela abriu o livro na última página e leu o parágrafo final, que estava sendo impresso naquele exato momento em edições especiais por toda a Europa:
"Muitos se perguntaram para onde foi a mulher que um dia governou esta cidade com apenas uma gota de tinta. Perguntaram se ela havia morrido, se havia se arrependido ou se havia simplesmente cansado. A verdade é que Lady Whistledown não morreu; ela apenas se apaixonou. Ela trocou a observação do escândalo pela experiência da verdade. Eu fui a voz que vocês temeram, e hoje sou a mulher que vocês admiram. Eu sou Penelope Bridgerton, e por muito tempo, eu fui Lady Whistledown."
O choque foi absoluto, seguido por um silêncio tão profundo que se podia ouvir a batida dos corações. Colin, parado ao fundo, fechou os olhos e sorriu — uma paz final o encontrando ao perceber que o segredo que ele um dia tentou usar para diminuí-la era, na verdade, a fundação da grandeza dela.
Violet Bridgerton chorou abertamente, não de vergonha, mas de um orgulho avassalador. Ela olhou para Benedict e percebeu que o filho sempre soube. Ele fora o cúmplice da maior farsa e da maior obra de arte da história da Inglaterra.
Benedict aproximou-se de Penelope diante de toda a aristocracia. Ele não se importava com os sussurros que começavam a borbulhar. Ele pegou a mão da esposa — a mão que outrora escrevera fofocas e que agora escrevia a história — e a beijou com a mesma devoção do primeiro dia em My Cottage.
— Você finalmente contou a eles — sussurrou ele.
— Eu não precisava mais do segredo, Ben — ela respondeu, olhando nos olhos dele. — Eu já tenho tudo o que ele um dia tentou me dar.
Eles saíram do museu sob o peso de mil olhares, mas não baixaram a cabeça. Penelope e Benedict Bridgerton deixaram para trás o mistério para abraçar o mito. A partir daquela noite, ninguém mais falaria de Lady Whistledown sem mencionar o pintor que a amou ou a fortuna que construíram juntos.
Eles não eram apenas ricos em ouro, mas em verdade. E, enquanto a carruagem partia em direção à noite, Londres sabia que nunca mais haveria outro casal como eles.
