Chapter Text
Queria esfregar minhas mãos nos olhos, mas não podia borrar a maquiagem. Seria apenas uma tentativa de confirmar se era realmente isso. Se não era alguma espécie de sonho lúcido ou coisa parecida. Refletia nas minhas retinas a luz de um mar azul, fazendo jus ao nome de onde estávamos: Costazul. Um píer imenso, e ao fim dele, um arco de flores de dente-de-leão. E ao meu lado, segurando minha mão, meu Leozinho. De branco, assim como eu, ambos com uma coroa de flores na cabeça e uma guia de Iemanjá no pescoço. Meus pés descalços sentiam cada tábua do chão, e todas as cores estavam ricas em nitidez, mais do que em qualquer outra ida à praia desde que viemos morar no Brasil — e já tínhamos ido às mais charmosas.
O barulho das ondas começava a se misturar com a música “Yeha-Noha”, que pedimos para ser tocada na nossa entrada. Pétalas amarelas serviam de tapete para nós passarmos. Alguns colegas de trabalho vieram assistir. Também prestigiaram os irmãos de santo do nosso terreiro, todos nas primeiras filas, e camaradas da Unidade Popular, em retribuição a todas as greves e ocupações nas quais estivemos presentes. Sempre quisemos mudar a realidade, mas nos amar fazia parte desse plano. Não poderíamos esperar para realizar esse velho sonho de infância.
Simbolicamente, aguardava-nos no altar o Pai Leão de Oxóssi, nosso pai de santo, com suas dezenas de guias agarradas a seu pescoço retinto. Seu nome também nos fazia lembrar da razão de nossa união. Ser caçador, ágil, imponente, protetor… é tudo o que define ser “leão”. Diante da dor, saber defender. Apesar do mundo, perseguir um objetivo, um ideal, o correto, a ordem permanente e irrevogável do espírito. E desde o primeiro instante em que olhei o dourado de seus cabelos, já tinha a certeza: era daí que viria minha proteção. O amor não podia achar terreno melhor para florescer. Enquanto enxergava a extremidade do píer já ocupada pelos convidados, meu coração saudava o rei das matas com o mais genuíno “okê arô”.
Riqueza e beleza definiam essa tradição. Aqui, era certo sermos aceitos. Nada de impedimentos. Já na frente do Pai, a música se encerrou. Ouvíamos apenas o quebrar das ondas do mar, até ele pôr em jogo sua voz imponente para começar a cerimônia.
— Bom dia. Axé a todos nós. Para aqueles que não me conhecem, meu nome é Gustavo Leão, o Pai Leão de Oxóssi. Com a licença de Oxalá, iniciamos nossos trabalhos de hoje, celebrando a união de Leo e Shi… — Ele e sua dificuldade para pronunciar meu nome. — Shishi… maru. Perdoe se eu falei errado, ainda estou me acostumando. — Todos demos risadas leves. Foi um instante de descontração. — A união desses dois espíritos, desses dois corações. Tenho certeza, meus filhos: hoje Aruanda está mais alegre. Vocês provaram que não existe barreira para o amor e se libertaram de um milhão de amarras apenas para estar aqui, diante desse mar lindo de mamãe Iemanjá, e se casar. Casamentos, minha gente, são um sonho antes de tudo, e é sempre um prazer realizar sonhos assim, dos mais profundos. Mas eu não vou me prolongar muito, melhor deixar essas coisas para os votos.
Mais risos. Ele pegou o defumador e acendeu, já com os ramos de alecrim, arruda, benjoim, guiné e alfazema.
— Salve a defumação! — Todos respondemos com um sonoro “Saravá à defumação”. O ogã da cerimônia puxou o ponto e os convidados começaram a acompanhar com palmas. Quem sabia a letra cantava junto:
Corre a gira, pai Ogum
Filho quer se defumar
Umbanda tem fundamento
É preciso preparar
Com incenso e benjoim
Alecrim e alfazema
Defumar filhos de fé
Com as ervas da jurema
O defumador passou por nós, antes de tudo. Claro, éramos os protagonistas do dia. A fumaça percorreu nossos corpos e limpou o ambiente. Assim, as energias negativas se dissolveram no ar como a fumaça, e subiram para permitir a permanência apenas das boas vibrações da brisa e das flores. A mão do Leo, em cada detalhe possível de se perceber, também fazia prevalecer os bons ares e a essência do lugar. Os ossos envoltos pela pele não me deixavam esquecer do leão, pois a maciez e a rigidez como um único elemento eram o conforto e a defesa, ambos à minha plena disposição. E eu só podia garantir a reciprocidade. Pude notar suas pupilas brilhosas e em harmonia com seu sorriso genuíno, sem nada a esconder. E como era linda essa combinação. A coroa florida fazia parecer que flores brotavam de suas mechas douradas. Detalhes de uma escultura digna de ser exposta em todos os cantos da terra, em todos os museus e galerias, até em uma praça.
A fumaça gerou um certo calor a mais. Estava quente em Rio das Ostras naquele dia. Suamos um pouco. Entendi esse suor como uma saída das impurezas de dentro do meu corpo. Nada que atrapalhasse o nosso cheiro; as ervas da Jurema complementavam nosso perfume. Seu olhar ultrapassou a minha carne e se juntou à minha alma antes da nossa união ser selada de fato. Pai Leão finalizou com um “saravá a defumação”, repetido em uníssono pelos presentes, e seguiu com a condução da solenidade.
— Agora, a pedido dos noivos, vamos fazer três gestos simbólicos. Afinal, sair de um lugar que rejeita e vir para onde reconhecem, pelo menos diante da lei e da nossa fé, o amor de duas almas como legítimo é, ao mesmo tempo, uma dor de romper e uma gratidão a quem recebe. Então, vamos todos, juntos, cantar três músicas. Primeiro, o Hino Nacional. Depois, o Hino do Estado do Rio de Janeiro, e vamos terminar com o Hino de Umbanda.
Ainda de pé, nossos convidados começaram a entoar conosco o “ouviram do Ipiranga as margens plácidas…” como se fosse um evento magnânimo (e realmente era). Não conseguiria dizer tanta coisa sobre a vida aqui. Não parecia ser fácil, vários eram os problemas em todos os setores. Mesmo assim, sermos reconhecidos em nosso amor, nosso sonho, não tinha preço algum. Conquistamos a igualdade com braço forte, mas a luta iria continuar.
Não conseguia me considerar um expatriado desde minha vinda, mas esse rótulo era adequado enquanto estava no lugar onde eu “nasci”. Aquela ilha vulcânica não me representa. Não pertenço a ela. Ela me julgou estranho, mesmo tendo nascido e feito o máximo para seu bem. O nome disso é escravidão, à qual temos “ódio eterno”. Como cantamos logo depois, ao celebrar o Rio, “brilha a luz da redenção” ao se livrar dessas amarras.
Por fim, nossa voz celebrou Oxalá: “refletiu a luz divina com todo seu esplendor”. E eu via, com toda a nitidez do planeta, essa luz da Aruanda refletir na terra e no mar. Nessa parte, o ogã rufou o atabaque, diferente das duas músicas anteriores. A Umbanda é paz e amor, e também abriu nossos caminhos para uma paixão verdadeira. Uma proteção mútua. Ser leão dele abria um sentido novo. Arrancar o desejo da caixa feita na infância e gritar para o mundo era uma pequena semente da qual brotaria um canteiro colorido para substituir o cinza metálico das correntes e grilhões. Ferro é duradouro mas é sem vida, enquanto a flor sofre para crescer, mas dá cor e ilumina. E qualquer metal pode ser destruído pela fonte primordial da vida: o ar. Por isso, juramos respirar para acabar com essas amarras.
— Saravá a Umbanda! — Pai Leão bradou e foi seguido pelos presentes. — Laroyê, Seu Tranca Rua!
Um “axé, Seu Tranca Rua” precedeu o próximo ponto:
Seu Tranca Rua
Dá uma volta lá fora
Quem for bom bota pra dentro
Quem não for deixa lá fora
Que homem é esse
De capa preta
E garfo nas costas?
É Seu Tranca Rua
Todo mundo gosta
Uma saudação a Exu para abrir nossos caminhos. De fato, nosso casamento foi um deles. Havia outro adiante, e tê-lo aberto era nossa prioridade. O padê para ele, à frente do altar, nós mesmos havíamos preparado antes da cerimônia. Era uma das oferendas. A outra era para a Vó Catarina, que chegaria depois para abençoar o casamento.
— Salve Iemanjá! Odociabá! — Acompanhamos o Pai com um “odoyá” contundente, aplaudindo a rainha do mar ao rufar do atabaque. Não poderíamos deixar de cantar para ela diante daquele oceano deslumbrante.
Com uma dúzia de velas
Numa noite tão linda
Eu fui para o mar
Cantando e implorando
Fui fazer meus pedidos
À Deusa do Mar
Iemanjá
Venha me ajudar
Mamãe Oxum
Venha me salvar
Sou peregrino
Joguei na areia flores
Pra Deusa do Mar
Exaltamos com toda a nossa voz quem nos deu esse mar calmo e rico. Nossos votos e a bênção definitiva viriam da Vovó Catarina, que estava prestes a chegar. Sofia ficou na nossa frente, perto do Pai e voltada para o altar, pronta para incorporar. Parada, com seus cabelos pretos caídos para frente, lenço branco na cabeça e as guias no pescoço, virada para o chão do píer, ela se concentrou no ponto.
— Adorei as almas! — bradamos antes de cantar.
Saravá pra Vovó Catarina
Que é dona da gira do meu terreiro
Saravá pra Vovó Catarina
E pra todas as almas do cativeiro
A Vovó Catarina do congo é
A Vovó Catarina vai mostrar
Pra Vovó Catarina
É que os filhos de Umbanda vão saravar
Os Pretos Velhos dispensavam questionamentos. Sua sabedoria seria capaz de abençoar nossa união. Vovó era a mais esperada da cerimônia, e o Pai tocava o sino para chamar as almas. Conseguia ver na Sofia uma aura mais brilhante, e uma força do Orum gradualmente tomava seu orí. Quando pôs a mão esquerda para trás, todos agachamos com a mão direita ao chão. Vovó Catarina havia chegado, e caminhava com seu andar cambaleante. O Pai lhe deu uma bengala de imediato, e pôs ao chão o banquinho para que ela se sentasse. Em uma das mãos, o cachimbo, já aceso. Na outra, um ramo de guiné, pego depois de apoiar a bengala no altar. Reiteramos o “adorei as almas”, seguido de aplausos rentes ao chão.
— Fios, suncês podem ficar sentados, mas os noivos eu queria que ficassem de pé pra eu dar uma palavrinha com eles. — Pedido de Preto Velho é ordem. — Hoje é dia que suncês celebram amor. E amor é pra ser de verdade, é pra prometer um pro outro estar do lado não só quando as coisas boas acontecem, porque isso até o sinhô fazia. Quando vinha a época de pegar a cana, a gente pegava, trabalhava no moinho, fazia o açúcar, mas era tudo do sinhô. Mas quando a coisa era ruim, quando se machucava, quando a senzala caía, era tudo problema nosso, o sinhô não queria nem saber da gente. Então usar o momento bom pra tirar proveito é fácil, mas na hora que a coisa tá feia, fio, não é qualquer um que fica contigo. Mas quando é amor, aí qualquer dor a gente aguenta. Qualquer coisa que entra no coração, qualquer ferida, a gente fala “pode doer o que for, tá tudo bem se for pro meu amor sorrir”. É aceitar ser pregado na cruz por causa de um pecado que nem é seu, igual Jesus fez. É entregar seu cuidado ao outro, fio. Deixar sua vida na mão dele e colocar o outro em cima de suncê. É só conseguir sorrir quando o outro sorri. É o maior dom divino, que faz a gente ficar mais perto do plano da criação de Olorum. Ele fez o mundo pra ser como suncês querem fazer ele. Oxalá guie essa jornada de paz com muito axé.
Nada mais a dizer além do simples “adorei as almas” ao som dos atabaques. Perguntei à Vó se podíamos fazer nossas promessas, e ela respondeu afirmativamente. Preferi deixar o Leo começar, então o Pai direcionou o microfone à sua boca.
— Shiizinho… — o timbre doce da sua fala tomou o ambiente — eu confesso que não preparei nada para dizer. Na realidade, é inesperado pra mim viver isso tudo. Se você me perguntasse quando éramos adolescentes se seria possível casar, eu com certeza responderia “não, ninguém deixa”. E era verdade. Ninguém queria deixar. Mas… eu era muito… “bobo” de esperar os outros darem “OK”. Sempre esperei um “sim”, mas das pessoas erradas. Não das pessoas certas. Fui idiota. Eu só queria estar feliz, e você era motivo de eu estar feliz desde nossa infância. E um leão é e sempre será um leão. Não precisa de ninguém dizendo isso. Ele vai ser, e se os outros não querem, os outros estão errados. É pra ser quem nós nascemos para ser, apesar de outros mandando ser outra coisa. Aliás, lembra de quando eu jurei te proteger igual leão? Eu, agora, juro a mesma coisa. Igualzinho. Juro estar do seu lado pra sempre, quando você precisar desabafar, gritar, chorar, sorrir, contar sobre algum livro interessante, chamar pra tomar um sorvete na praia, em qualquer hora. — Notei alguns breves engasgos. — Eu nunca pensaria em ter mais ninguém além de você, e confirmo isso toda vez que eu pego uma flor do chão, um dente-de-leão, e te dou de presente. É porque o mais importante é te ver sorrindo, mesmo se isso me causar dor, mesmo se eu tiver que atravessar esse país inteiro, ir até Pernambuco a pé, doar algum órgão meu… é até difícil dizer tudo. Desde que você pegou na minha mão pela primeira vez no jardim de infância, quando eu percebi que havia um leão forte, pronto pra me defender, eu me sinto disposto a fazer o que fosse preciso para te ver feliz. E é isso que eu vou fazer. Prometo, Vovó. — Ela sorriu genuinamente, e um Preto Velho alegre é sinal de axé. — Então, diante de Iemanjá, eu prometo ser seu eterno leãozinho. Para sempre, até depois desta vida, até quando a gente reencarnar ou ir morar em Aruanda.
Não pude conter as lágrimas. Nem ele pôde. Meus olhos começaram a se encharcar, enquanto me perdia nas palavras mais ou menos organizadas na minha cabeça. E eu ainda teria que estruturar meus votos. Também não tinha preparado nada, pois acreditava piamente no meu instinto de amor pelo Leozinho. Mas esse mesmo instinto era capaz de me tirar o fôlego e fazer todas as palavras perderem a sonoridade. Já com o microfone na minha boca, e eu olhei fixamente para aqueles olhos esverdeados como as matas de Oxóssi e aquela bochecha de porcelana para tentar tirar dali alguma inspiração.
— Leo… hoje é aquele dia que a gente tinha sonhado quando era criança. Eu… mal tenho palavras… — Não era exagero, elas fugiram mesmo. Os olhos marejados não permitiam àquela paixão intensa permanecer oculta. — Tentei até… beliscar minha mão hoje mais cedo só para testar se não era um sonho, e realmente, não é. É tudo de verdade. Ainda me emociono quando vejo o documento oficial, timbrado, falando que eu sou todo seu… nós atravessamos o mar para isso!
Meu choro só se intensificou. Essa vinda para o nosso lugar foi uma prova de amor imensa. Não foi fácil reconstruir a vida em um lugar tão diferente, mas por ele… valeu a pena. E esse momento era a prova disso.
— Eu não consigo falar nada, então eu vou só… — Uma lâmpada se acendeu na minha mente. A arte é a maior forma de expressão da humanidade, então eu decidi usar a voz de outro jeito.
Gosto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o Sol
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no caminho
Um filhote de leão, raio da manhã
Arrastando o meu olhar como um ímã
O meu coração é o Sol, pai de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao léu
Gosto de te ver ao Sol, leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao Sol, leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e entrar numa
Soltei o canto espontaneamente, e fui acompanhado pelo pessoal da música nos instrumentos. Não me importava com o estado de choro que embargou minhas cordas vocais, afinal, não tinha outra forma de expressar aquele amor todo. E fiz questão de cantar o mais alto que pude. Minha ideia era gritar o tamanho do meu desejo pelo Leo para toda aquela praia linda enquanto o sol começava a querer se esconder. Fiz a música ecoar no céu rosado do fim da tarde. De relance, olhei o quanto Vovó estava emocionada, e os nossos convidados aplaudiram como em nenhum outro momento da cerimônia. E claro, meu noivo também caiu no choro enquanto seu sorriso genuíno esclarecia qual era a natureza dessas lágrimas.
— Que lindo, meus fios… — Vó Catarina, no alto de sua alegria, levantou e usou sua bengala para vir até o altar com o ramo de guiné. O ogã puxou mais um ponto para a bênção às alianças.
Preta Velha preparou seu cazuá
Com as flores mais bonitas
Para os seus filhos casar
Fio traga as alianças
Para a vovó preparar
Abençoo esta união
Para o amor reinar
Preta Velha preparou seu cazuá
Com as flores mais bonitas
Para os seus filhos casar
Preta Velha foi quem disse
Olha fio não se esqueça
Estejam sempre em união
Na alegria ou na tristeza
Na saúde ou na doença
Na pobreza ou na riqueza
Nem que a morte os separe
E que o amor prevaleça
Luizinho chegou com a caixinha de alianças em suas mãozinhas morenas. Fizemos questão de ele participar desse momento especial. Ele frequentava nosso terreiro e tinha exatamente a mesma idade que tínhamos quando nos conhecemos, no alto dos nossos cinco aninhos de idade. A coroa de flores dele era igual àquelas que fizemos um para o outro naquela época. Era como se nossas versões infantis estivessem celebrando nossa união permanente, exatamente como imploraram aos céus durante tanto tempo para acontecer. Por isso, ao pegar a caixa, Leo não conseguiu conter e deu–lhe um carinho na bochecha, no alto da sua simpatia. Ao ver o gesto, em um relance, o repeti. O carinho foi no Luizinho, mas chegou na alma do Leozinho e do Shiizinho; na nossa criança interior.
Nosso irmão caçula de santo voltava para perto de sua mãe enquanto Vovó já estava com a caixa na mão. Usou seu ramo de guiné para benzê-la e no instante seguinte nos benzeu com o sinal da cruz. Inclinamos a cabeça levemente para frente para receber as graças da Preta Velha direto no nosso orí. Ela deixou o ramo sobre o altar e ergueu sua mão direita em direção à minha testa. E a bênção da Vó não tem erro. Se havia alguma energia negativa naquele ambiente (o que eu duvido muito), foram absolutamente expurgadas de vez, restando apenas a fé, o fundamento e o amor, tudo que nós precisávamos para conseguir todo o resto. Meu coração começou a espalhar aqueles bons fluxos por todo meu corpo, e meu corpo fechado, da cabeça aos pés.
Das mãos da Preta Velha pegamos as alianças. Primeiro, eu cuidadosamente o coloquei no dedo anelar do Leozinho, e suas mãos se relaxaram completamente sobre as minhas ao simples toque dos meus dedos. Pude notar sua pulsação calma e constante, resultado direto da bênção e da cerimônia. Com todo o cuidado, ele deu apoio à minha mão esquerda enquanto repetia o gesto. Suas mãos estavam bem quentes depois da defumação e de ficarmos sob o sol. Seu calor contribuía para a calmaria digna de um dia de praia. Em instantes, meu dedo tinha uma cópia idêntica daquela joia. Mas a verdadeira joia era quem estava utilizando o outro par.
— Fios, agora vamos firmar a união de suncês. — O momento havia chegado. O laço já estava pronto, só faltava a ligação definitiva. — Leo, é sua vontade ter o Chico como seu marido? — Quase caí na gargalhada com o “Chico”, mas o momento era sagrado. Meu autocontrole falou mais alto.
— Vó, não é Chico. É Shishimaru — corrigi, sorrindo.
— Cumé? — indagou com feição de dúvida insanável.
— Shishimaru!
— Xixi? — Não consegui segurar o riso depois dessa. E acho que todos, até o Pai de Santo, tiveram a mesma reação. Vó Catarina também esboçou um sorriso.
— Shi-shi-ma-ru! — expliquei mais uma vez, de forma bem didática, com a separação silábica. Era um nome exótico, então ela realmente não tinha culpa alguma.
— Posso chamar só de Shi?
— Claro, sem problemas.
— Tá certo, então. Leo, é sua vontade casar com o Shi?
— Sim — respondeu, convicta e firmemente.
— E suncê, fio — ela se voltou para mim —, é sua vontade casar com o Leo?
— Com certeza! — foi minha resposta, tão convicta quanto.
— Então, fios, com a benção de nossa mãe Iemanjá, suncês agora não são mais noivos, são maridos um do outro! Saravá, meu Santo Antônio!
Todos aplaudiram e repetiram o “saravá”. Meus olhos se direcionaram para as retinas perfeitas, feitas de esmeralda. As mechas douradas impediam a minha auto-contenção. Ele também não pôde se segurar. Nós dois nos aproximamos, um com o outro na visão até as pálpebras cerrarem, permitindo o florescimento do tato enquanto os convidados fortaleciam os aplausos. Nossos lábios se tornaram oferendas ao orixá de cabeça um do outro. Meu coração pode sentir parte do seu sangue emanando direto da sua pele até meu interior. Era impossível prestar atenção em qualquer outra coisa a não ser suas mãos entrelaçadas nos meus cabelos como cipó nas árvores atlânticas, sua boca macia, molde da minha felicidade, e o ramo de guiné sobre nós, derramando axé em nosso carinho. Os atabaques rufaram, e o ponto da troca de alianças se repetiu. Até que a morte os separe? Nem ela conseguiria, mesmo se tentasse. Em todas as vidas possíveis eu o teria encontrado, e de uma forma ou de outra teríamos esse mesmo elo profundo, não interessa de que jeito. Que alegria de poder viver como seu marido, que gratidão a Iemanjá e aos Pretos Velhos.
— E que suncês sejam muito felizes, viu, fios? Só prometam isso pra Vovó poder voltar pra Aruanda.
— Prometemos — jurei.
— Sim, nós prometemos — fui acompanhado pelo leãozinho com quem havia acabado de me casar. Meu marido, e que bom poder usar essa palavra. Ela pegou nossas mãos, a minha esquerda e a direita dele, enquanto nós dois também estávamos de mãos dadas. Formamos uma espécie de “círculo de oração”, e isso com certeza ampliou o fluxo das boas forças.
— Façam muita oferenda, muita reza, reza junto, vai pro terreiro junto, que Vovó sempre vem ajudar.
— Adorei as almas! — o Pai saudou, e todos acompanharam. A Vó se afastou um pouco do altar, pronta para ir embora, e nós acompanhamos o ponto de despedida.
Preto Velho tá quebrado de tanto trabalhar
Preto Velho tá cansado de tanto curimbar
Preto Velho tá quebrado de tanto trabalhar
Preto Velho tá cansado de tanto curimbar
Canta ponto risca pemba
Que é longa a caminhada
Quem tem fé, tem tudo
Quem não tem fé, não tem nada
Vovó foi embora depois de alguns minutos, e nós nos viramos para frente para algumas fotos. De mãos dadas, nos beijando, abraçados pela cintura e pelos ombros apenas olhando um ao outro e sob uma chuva de pétalas de lírios e, como não poderia faltar, de arroz. Agimos como dois inocentes apaixonados, exatamente como no primeiro cruzamento das nossas vidas, na certeza de podermos estar juntos para toda a eternidade e viver para todos como um casal unido. Um casal bom. Um casal que faz pelo mundo muito mais do que os sacripantas da intolerância, embebidos da culpa de nos submeter ao calvário de negar nossa paixão. Aqueles registros estampariam nossa sala de estar, nosso quarto, nossa cozinha e todos os lugares possíveis de se enfeitar com nossas memórias.
Podemos ser felizes apesar de você, ilha. Apesar de você.
