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"L'amor che move il sole e l'altre stelle."
— Dante Alighieri, Paraíso, Canto XXXIII, verso 145
Beco Diagonal, 3 de dezembro de 1979 – Final da tarde
Sirius puxou o cachecol com mais força ao redor do pescoço, soltando um sopro de ar branco.
O Beco Diagonal estava vestido com suas melhores roupas. Lanternas brilhantes balançavam no alto como vaga-lumes preguiçosos, e as vitrines das lojas cintilavam com neve encantada e fitas flutuantes. Em algum lugar atrás dele, um quarteto encantado de retratos cantores entoava "Que Deus vos dê descanso, alegres hipogrifos!" completamente desafinado.
"Me diga de novo por que estou sendo arrastado por doze lojas quando você já sabe exatamente o que vai comprar?", murmurou Sirius.
Lily Evans-Potter, os cabelos ruivos enfiados dentro de uma boina de veludo, as bochechas rosadas pelo frio, lançou-lhe um olhar de lado que era ao mesmo tempo divertido e travesso.
"Eu quero os melhores macacõezinhos," disse ela com um ar muito sério, erguendo um pequeno conjunto de lã azul-claro. "De preferência algo que não grite meus pais estão em guerra."
Sirius gemeu de forma teatral. "O bebê vai vomitar nele de qualquer jeito."
"Você será padrinho desse vômito."
"Uma honra."
Ele lançou um olhar furtivo para a barriga dela, ainda lisa sob o casaco grosso. Apenas um mês, e James já olhava para ela como se carregasse uma estrela entre as costelas. Sirius fingiu que já não estava meio apaixonado pela ideia do filho deles.
Um floco de neve — mais ilusão do que clima — pousou nos cílios de Lily. Ela riu e o afastou com um gesto.
"Então..." começou Lily, a voz tingida de curiosidade, "como vão as coisas com a Marlene?"
Sirius gemeu. "Somos só amigos. A gente se diverte juntos."
Lily lançou-lhe um olhar. "Você sabe que ela está apaixonada por você, Siri. Ela também acha que você está apaixonado por ela — do seu jeito meio torto."
"Apaixonado por ela?" repetiu Sirius, soando genuinamente horrorizado. "Eu não estou apaixonado por ela."
"Bem, então provavelmente deveria dizer isso a ela," murmurou Lily.
Sirius passou a mão pelo rosto. "Tudo bem. Eu vou."
Lily inclinou a cabeça. "Você acha que algum dia vai estar? Apaixonado, quero dizer."
"Não sei, Lils..." disse Sirius com um sorriso triste. "Eu quero o que você e o James têm. Mas acho que isso não está nas cartas para mim."
"Talvez você devesse dar uma chance à Marlene?" sugeriu Lily, um pouco esperançosa.
Sirius balançou a cabeça. "Não. Não tem faísca. É só... diversão monótona."
Lily riu. "Você é a única pessoa que conheço capaz de colocar monótona e diversão na mesma frase."
"Talento," ele sorriu.
Ela suavizou a expressão. "Bem, espero que um dia a Sra. Sirius Black apareça para você."
Então um grito rasgou o ar.
Sirius instintivamente estendeu um braço à frente de Lily.
"Sirius, precisamos ir ajudar!"
"Não. Lily, vá se esconder e chamar ajuda." A voz de Sirius estava carregada de ansiedade, os olhos vasculhando freneticamente ao redor para entender o que estava acontecendo.
Mais gritos ecoaram pela rua. Pessoas corriam, gritavam, escorregavam nos paralelepípedos cobertos de gelo.
"Eu não sou indefesa, Sirius. Sou uma curandeira em treinamento. Alguém lá fora vai precisar de mim. Não vou me acovardar enquanto pessoas estão em perigo."
Sirius virou-se completamente para encará-la.
A expressão dela era de aço. "Eu vou, e você não vai me impedir. Então você pode me ajudar ou sair do meu caminho."
"Você é uma bruxa teimosa, sabia disso? Fique perto de mim. James vai arrancar minha cabeça se algo acontecer com você... com vocês dois," acrescentou, suavizando o olhar ao pousá-lo na barriga dela.
Eles não precisaram ir longe.
As lojas estavam em chamas. A fumaça subia pelas paredes do beco, espessa e escura.
No meio do caos, Lily ajoelhou-se ao lado de uma mulher mais velha, já começando a curá-la.
Sirius ficou diante delas como um escudo, varinha erguida, o corpo tenso.
Ele não conseguia ver nenhum atacante, mas também nenhum membro da Ordem.
Eles ainda não estavam oficialmente na Ordem. Dumbledore os havia abordado apenas alguns dias antes. A iniciação deles deveria acontecer em breve.
Ele não hesitou. Enviou seu Patrono, seu familiar sinistro correndo através da fumaça.
"Vá até Dumbledore. O Beco Diagonal foi atacado. Precisamos de ajuda."
Ele permaneceu ao lado de Lily, observando-a trabalhar, rezando para que alguém chegasse.
Ela estava exausta. Depois de curar pessoa após pessoa, seus ombros caíram.
Sirius tentou não perder a paciência e simplesmente pegá-la no colo e sair correndo.
"Lily, por favor. Pense no bebê. Sua magia está fraca, você já usou demais. A Ordem está a caminho," disse ele, quase implorando.
"Eu não posso parar, Sirius. Não use meu bebê contra mim. Não posso simplesmente desviar o olhar enquanto pessoas estão literalmente sangrando no chão. Não me peça para fazer isso."
Sirius resmungou. Ele sabia que ela estava certa. Odiava que ela estivesse certa.
Então veio um estalo. Aparição.
Sirius sentiu um lampejo de alívio, achando que seu Patrono havia funcionado — até se virar.
Três Comensais da Morte mascarados.
"Lily. Fique atrás de mim. AGORA."
Mas Lily mal conseguia se mover. Sua magia drenada, o cansaço visível nas mãos trêmulas.
Os Comensais da Morte sorriram com desprezo.
"Vejam só o que encontramos. O herdeiro desonrado da Casa Black."
Faíscas voaram amarelas, vermelhas, brancas. Sirius se defendia o mais rápido que podia, protegendo Lily, tentando manter a linha. Três contra um. Sem tempo para contra-atacar. Apenas sobreviver.
Os feitiços vinham cada vez mais rápido, mais sombrios. Um deles finalmente quebrou seu escudo.
Lily gritou o nome dele.
Agora Sirius lutava de volta de forma selvagem, desesperado. Mas ele sabia. Não conseguiria resistir por muito tempo.
Outro feitiço veio voando em direção a eles. Ele se jogou na frente de Lily.
Se eu tiver que morrer, que seja por eles, pensou.
"Desculpe, Lily..."
Ele fechou os olhos.
Mas nada aconteceu.
Quando os abriu, encontrou uma bolha brilhante ao redor deles. Os sons estavam abafados. A magia parecia densa no ar.
Uma mulher estava diante deles — traje de combate de couro negro, botas de couro de dragão amarradas até os joelhos. Um Comensal da Morte já estava atordoado. Outro, desarmado. O terceiro virou-se e fugiu.
Ela se ajoelhou, os dedos movendo-se rapidamente enquanto desenhava runas com sangue nos paralelepípedos.
Sua mão tremia enquanto gravava a última.
Então ela se virou e encontrou os olhos de Sirius.
O tempo parou.
Ela era a mulher mais bonita que ele já tinha visto. Os cabelos escuros estavam presos em uma trança firme, os olhos intensos.
Ela olhou para ele como se o conhecesse. Como se já tivessem se encontrado antes.
Mas não tinham, ele tinha certeza.
"Fiquem dentro do círculo. A runa vai protegê-los."
Antes que ele pudesse falar, ela já tinha desaparecido, sumindo na fumaça.
Sirius ficou olhando na direção em que ela se fora, atordoado. Quem era ela? Por que tinha olhado para ele daquele jeito? Como ela usava runas? Ela fazia parte da Ordem?
Seus pensamentos foram interrompidos por Lily, que o examinava freneticamente em busca de ferimentos.
"Estou bem, Lily. Só cansado. Precisamos te levar para o St. Mungo's."
"Não seja absurdo. O St. Mungo's deve estar lotado. É só fadiga mágica, nada que descanso e chocolate quente não resolvam."
Sirius continuava olhando através da névoa. A Ordem havia chegado, enchendo o beco, ajudando os feridos.
"Você consegue vê-la? Acho que nunca a encontramos antes..." perguntou Lily, estreitando os olhos enquanto examinava a fumaça.
"Não... acho que ela já foi embora. Mas ela salvou nossas vidas."
"Se ela estiver com a Ordem, perguntamos ao Dumbledore," disse Lily, prometendo silenciosamente a si mesma que encontraria uma forma de agradecer à salvadora misteriosa.
Ela percebeu que Sirius não estava ouvindo — apenas murmurando, meio perdido:
"...parecia feroz... como um anjo vingador... eu nem sei o nome dela..."
Ele estava tão perdido em pensamentos que nem percebeu que a bolha encantada havia desaparecido.
Lily tocou seu braço, gentilmente, como quem desperta alguém de um sonho.
"Vamos, Sirius. Nós vamos encontrá-la. Eu prometo."
Eles voltaram para a Mansão Potter, onde um James completamente aflito andava de um lado para o outro, quase perdendo o controle depois de ouvir o que havia acontecido.
Dorea e Charlus Potter imediatamente puxaram Lily e Sirius para abraços apertados, visivelmente abalados com o quão perto chegaram de perdê-los.
"Ela foi feroz, James, você devia ter visto o Sirius olhando para ela com a boca aberta, igual um peixe," dizia Lily animadamente.
Sirius murmurava para si mesmo: "Eu nunca tinha visto ela antes. Ela não estudou em Hogwarts."
"Vamos perguntar ao Albus na próxima reunião da Ordem," disse Dorea com gentileza. "Quem quer que ela seja, salvou vocês dois. O mínimo que podemos fazer é nos apresentar direito."
"Pelo visto ela anda salvando muita gente," acrescentou Charlus pensativo. "Já ouvi outros membros da Ordem comentarem que foram misteriosamente ajudados por uma mulher também."
Sirius ficou ali em silêncio, ainda revivendo a lembrança da mulher misteriosa em sua mente.
"Você está bem, Almofadinhas?" perguntou James, observando-o.
Lily deu uma risadinha. "Sim. Ele já se apaixonou."
Sirius sorriu. "Ah, Lily... como eu queria que ela fosse a nova Sra. Black."
James piscou, completamente perdido, olhando de um para o outro. "Espera, o quê? O que eu perdi?"
"Parece que Sirius acabou de encontrar a nova Sra. Black," disse Lily, rindo.
"E a Marlene?" perguntou James.
"Nem começa..." murmurou Lily por entre os dentes.
"Você me conhece, Pontas," disse Sirius com um dar de ombros. "Eu gosto da Marlene, mas não desse jeito. Ela não é a minha Lily." Ele olhou para o casal com carinho.
"E essa nova garota misteriosa é?" perguntou James, incrédulo.
"Talvez," respondeu Sirius, agora com um sorriso ainda maior.
"Ela não parecia alguém que fosse se render ao charme dos Black," cantarolou Lily.
Sirius apenas sorriu, claramente encarando aquilo como um desafio.
A porta da frente da Mansão Potter se abriu com um estrondo, e uma Marlene desgrenhada entrou correndo.
"SIRIUS!" ela gritou, jogando-se nos braços dele.
Sirius pareceu imediatamente desconfortável. "Marls... eu estou bem, de verdade," disse com cuidado, tentando soltar os braços dela.
"Merlin, eu estava tão preocupada!"
Ela se inclinou para beijá-lo, mas ele virou o rosto.
"Sirius...?"
"Vamos conversar lá fora, Marls..."
"Não. O que foi?"
Ele suspirou, dando um pequeno passo para trás. "Marls... eu achei que você soubesse que isso—" ele gesticulou entre os dois, "—não é o que você pensa."
"Eu sei que você me ama, Sirius. Do seu jeito. Eu fui a única mulher constante na sua vida. Você só precisa admitir."
Ele hesitou, então balançou a cabeça. "A questão é que não, Marls. Eu não amo você, não do jeito que você quer. Sinto muito se te dei a impressão errada. Eu pensei... pensei que você soubesse."
"Por quê?" A voz dela falhou. "O que é que eu não tenho?"
"Não é sobre você. Sou eu... eu não sou de relacionamentos. Você sabe disso."
"Você não quer uma família? Nós poderíamos ter isso..." disse ela, desesperada.
"Talvez um dia," disse Sirius baixinho. "Mas você merece alguém que esteja pronto agora. E eu não sou essa pessoa."
"Mas eu achei..."
Ele a interrompeu com suavidade, o olhar se desviando para onde James e Lily estavam encolhidos juntos do outro lado da sala.
"Quando você ama alguém," disse ele, "não há hesitação. Nem dúvidas. Nem desculpas. E eu não me sinto assim com você, Marls. Sinto muito."
Marlene ficou olhando para ele, o lábio tremendo. Deu um passo para trás. Depois outro. E então se virou e saiu correndo pela porta, soluçando.
Sirius soltou um suspiro trêmulo.
Dorea se aproximou em silêncio, colocando uma mão reconfortante em seu ombro. "Ela vai ficar bem, querido."
Ele assentiu, entorpecido. "Acho que eu estou quebrado, mãe."
Dorea sorriu suavemente. "Não, meu amor. Você não está quebrado. Só ainda não encontrou a pessoa certa."
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Hogwarts, Escritório do Diretor — Mais tarde naquela noite
O traje de combate de couro negro estava manchado de sangue e poeira. Hermione estava sentada rigidamente na cadeira diante de Dumbledore, os dedos ainda tremendo com a lembrança do encontro de mais cedo.
Ela aparatará para o Beco Diagonal assim que Dumbledore lhe contou sobre o ataque.
Só agora percebia o quão sortuda tinha sido, o quão perto havia aparatado de Sirius e Lily.
E se tivesse chegado tarde demais? Tudo isso teria sido em vão.
Sirius teria morrido.
Lily teria morrido.
E com ela... Harry.
Seu Harry.
"Alguns nuques pelos seus pensamentos?" perguntou Dumbledore gentilmente, percebendo claramente o esforço dela para manter as emoções sob controle.
O diretor era a única pessoa perto de quem Hermione não sentia necessidade de usar Oclumência. Ele já era um Legilimens poderoso, mas nos quatro meses desde que ela voltara, ela passara a conhecer um lado diferente dele.
No começo, confiar nele tinha sido quase impossível.
Ela o acusara, gritara com ele e, em um surto de magia descontrolada, destruíra metade de seu escritório.
Ela expusera todas as suas dúvidas, toda a sua raiva por ter sido usada como um peão.
Desde então — fosse por culpa pelo que aconteceu ou pela percepção de o quanto ele a havia julgado mal — algo entre os dois havia mudado.
Ela começara a confiar nele, de verdade, profundamente.
"Eu salvei Sirius e Lily hoje. Cheguei bem a tempo..." disse ela baixinho, desviando os olhos. Não precisava dizer mais. Albus entendia.
Os olhos de Dumbledore brilharam suavemente. "Você continua decidida a não se envolver com eles? A não tentar conhecê-los?"
Ela balançou a cabeça, firme.
"Eu não quero."
O sorriso dele não desapareceu. "Você poderia proteger Lily melhor se se tornasse amiga dela. Se permanecesse próxima."
Hermione sabia que ele provavelmente estava certo. Mas deixar Lily entrar — deixá-los entrar — significava expor demais.
Dor demais.
Culpa demais.
"Não se meta nisso, Albus. Minha decisão é final." A voz dela soou clara, firme.
Sem perceber, começou a erguer novamente sua barreira de Oclumência.
"Como desejar, Hermione," respondeu Dumbledore, com um sorriso triste surgindo em seus lábios. "Mas peço apenas que pense nisso. Você não pode fazer tudo isso sozinha."
"Eu não estou sozinha," retrucou Hermione. "Tenho você e Valen. Não tenho?"
"Tem, sim. Eu estou aqui." Ele fez uma pausa e então acrescentou, mais suavemente: "Mas somos suficientes? Quando tudo isso terminar... o que você fará tendo apenas um velho e um vampiro como amigos?"
"Bem, acho que vou ter que abrir um clube de tricô para viajantes do tempo e veteranos de guerra trágicos," Hermione respondeu com um sorriso.
Ela ainda não havia pensado tão à frente.
Não estava pensando no final.
Apenas na missão.
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Flashback – Agosto de 1979
Cara Sra. Granger,
Devo dizer que estou muito curioso sobre a sua história.
Por favor, venha ao meu escritório em Hogwarts.
Meus doces favoritos são balas de limão.
Atenciosamente,
Albus Percival Wulfric Brian Dumbledore
Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts
A resposta de Dumbledore veio pela mesma coruja.
Claro que veio.
Hermione encarou o pergaminho, os dedos tremendo levemente.
Isso é bom, disse a si mesma. Isso é progresso. Agora ela só precisava contar a ele que era do futuro... sem lançar um feitiço nele.
Hermione entrou cautelosamente no escritório do diretor.
Era exatamente como ela se lembrava de quando ela, Harry e Ron estiveram ali após a batalha.
Ela olhou ao redor.
Havia instrumentos estranhos e retratos curiosos cujos olhos pareciam seguir cada um de seus movimentos.
Dumbledore estava sentado atrás da mesa, os olhos brilhando com algo indecifrável.
"Srta. Granger," disse ele calorosamente, "por favor, sente-se."
O coração de Hermione batia forte. Era isso. O momento de dizer a verdade.
Ela se acomodou na cadeira, os dedos passando nervosamente pelo tecido gasto de seu jeans.
"Devo assumir que você é nova por aqui?" Dumbledore quebrou o silêncio gentilmente.
Mas Hermione mal o ouviu, repetindo mentalmente as palavras que havia ensaiado tantas vezes.
"O quê...?" perguntou, arrancada de seus pensamentos.
"Eu nunca a vi antes," continuou ele, "e você não é oficialmente uma aluna de Hogwarts — embora eu ouça seu sotaque inglês com bastante clareza."
Ela engoliu em seco e respirou fundo, lentamente, tentando se recompor. "Eu sou uma aluna de Hogwarts... só que... não neste tempo," disse baixinho, observando o rosto dele como um falcão.
A ansiedade revirava dentro dela. Sua mão se moveu involuntariamente enquanto ela coçava a pele marcada escondida sob a manga.
O sorriso de Dumbledore suavizou, mas seus olhos se estreitaram, curiosos. "Uma afirmação corajosa. E por que eu deveria acreditar em algo assim?" Seu olhar se desviou para o braço dela.
A pergunta atingiu como um soco. Toda a calma que ela havia ensaiado se despedaçou.
"Você acha que eu sou uma porra de uma Comensal da Morte?" Hermione disparou, a voz tremendo de raiva e dor enquanto puxava a manga para trás, revelando a palavra Sangue-ruim ainda cravada, crua, em sua pele.
Dumbledore empalideceu visivelmente.
Raiva e exaustão explodiram dentro do peito dela. A magia surgiu de forma descontrolada.
Os armários de vidro explodiram. Um escudo cintilante se ergueu ao redor deles enquanto vários vasos se despedaçavam no chão de pedra, um deles passando por pouco do poleiro de Fawkes.
Hermione estava no centro do caos, respirando de forma irregular, os punhos tão cerrados que os nós dos dedos estavam brancos. Todo o seu corpo tremia.
"Você acha que eu quero estar aqui?" gritou, a voz se quebrando sob o peso de tudo o que havia perdido. "Acha que eu sou apenas mais uma peça em um dos seus malditos jogos?"
Ela parecia selvagem à luz trêmula, os olhos cheios de lágrimas, sua magia crepitando ao redor como uma tempestade mal contida.
"Não sobrou ninguém, você não entende?" cuspiu.
A fênix soltou um trinado baixo e melancólico.
A respiração de Hermione falhou.
"Fawkes..." sussurrou.
Seus olhos se arregalaram, horrorizados ao perceber a cena ao redor. Ela havia destruído o escritório dele.
"Eu... eu sinto muito," murmurou, as bochechas corando. "Eu não quis—"
Dumbledore levantou uma mão, sereno. "Está tudo bem, Srta. Granger. A verdade muitas vezes faz uma grande bagunça antes de se acomodar."
"Eu preciso que o senhor faça um Voto Perpétuo," disse Hermione, a voz rouca, mas firme.
A compostura de Dumbledore vacilou pela primeira vez. Ele se inclinou ligeiramente para trás, as sobrancelhas erguidas em surpresa. "Srta. Granger... suponho que a senhorita seja do futuro e não digo isso levianamente, mas coisas terríveis acontecem com aqueles que interferem no tempo. Tem certeza de que é isso que deseja? Talvez eu possa encontrar uma forma de enviá-la de volta—"
"Não." A voz dela estalou como um chicote. "Não há futuro para o qual voltar. Não sobrou ninguém." As palavras rasgaram sua garganta, cruas e definitivas. Seus olhos ardiam, mas ela se recusou a desviar o olhar.
Dumbledore fez uma pausa, a expressão grave. Ele entrelaçou as mãos diante de si. "Então me diga os termos."
Hermione deu um passo à frente, erguendo o queixo como se sustentasse o peso do próprio luto.
"O senhor não revelará meu segredo a ninguém, a menos que eu permita expressamente. Não usará pessoas — ninguém — como peças em seu grande jogo. O senhor considerará minhas memórias, meu conhecimento, antes de tomar decisões que afetem vidas. E nós tomaremos decisões juntos. Chega de segredos. Chega de manipulação."
O silêncio que se seguiu foi pesado.
"Parece que cometerei muitos erros no seu futuro..." disse Dumbledore baixinho, uma sombra atravessando seu rosto.
"Tudo pelo bem maior," Hermione retrucou com desprezo.
Os olhos de Dumbledore examinaram os dela.
Por fim, ele disse: "São termos pesados. E o que a senhorita me oferece em troca?"
"O conhecimento do futuro," respondeu Hermione, quase em um sussurro. "Tudo o que vi. Tudo o que sei. Nomes. Datas. Erros. Vitórias. O que perdemos. O que poderíamos ter salvado."
Houve um instante de silêncio. Depois outro.
"Eu não faço votos levianamente," disse Dumbledore por fim, em tom calmo. "Mas vejo que a senhorita também não."
"Quem será a testemunha?" perguntou Dumbledore, a voz medida.
"Eu tenho um amigo," disse Hermione. "Um vampiro."
Isso fez as sobrancelhas dele se erguerem. "Um vampiro?" repetiu ele, com delicadeza.
"Eu o conheci quando cheguei," explicou Hermione. "Eu salvei a vida dele... e depois... bem, era meu primeiro dia aqui, eu estava um desastre. Acabei contando tudo."
O rosto de Dumbledore mudou, um lampejo de alarme passando por trás de sua habitual calma.
"Mas ele jurou um juramento de sangue de lealdade a mim," acrescentou Hermione rapidamente. "Então posso confiar nele."
Os dedos de Dumbledore acariciaram sua já longa barba branca. "Mmm... juramentos de sangue de vampiros são raros. E não são oferecidos levianamente."
"Eu sei," disse Hermione. "Foi por isso que aceitei."
Os olhos dele brilharam com algo que ela não conseguiu interpretar completamente — curiosidade, cautela... talvez até o mais leve indício de aprovação.
"Então estou ansioso para conhecer esse... amigo seu."
"O nome dele é Valen," disse ela.
Mais tarde naquela noite, a viajante do tempo, o vampiro e o diretor de Hogwarts estavam no escritório parcialmente destruído, selando um juramento mágico e começando, em silêncio, a reescrever o futuro.
