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Português brasileiro
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Published:
2026-03-09
Words:
18,183
Chapters:
1/1
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94
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2,079

PACIENCE

Summary:

Quando Lorena e Eduarda viajam para o isolamento de Campos do Jordão, percebem rápido que o frio lá fora não é páreo para o que queima entre as duas. Uma faísca, uma taça de vinho, e nenhuma regra fica de pé.

Work Text:

O porta malas do SUV bateu com um som suave, abafado pela acústica do estacionamento da Galeria Da Matta. Eduarda espanou as mãos na calça jeans, um sorriso aberto, quase derretido, moldando seus lábios enquanto observava Lorena se despedir da fachada do prédio. O sol do início da tarde brilhava lá fora, prometendo uma viagem com o céu limpo.

As duas malas médias estavam perfeitamente acomodadas ao lado da sacola térmica recheada de mantimentos estritamente veganos que Lorena havia preparado com todo o cuidado para o fim de semana. Kasper e João Rubens haviam passado rapidamente pelo hall mais cedo apenas para desejar boa viagem e Maggye tinha feito questão de gritar do quarto para que elas "usassem proteção e não quebrassem os móveis da família Fragoso".

Eduarda, é claro, havia ficado da cor dos próprios cabelos ruivos, escondendo o rosto nas mãos em um gesto de pura timidez, enquanto Lorena apenas ria com gosto, divertindo-se com a situação.

Agora, encostada na lateral do carro, a investigadora não exibia absolutamente nada da postura rígida ou intimidadora que o título de sua profissão pudesse sugerir. Quem a visse ali, com os olhos castanhos, profundos e transbordando gentileza, acompanhando cada movimento da namorada, veria apenas uma mulher completamente apaixonada. Lorena usava uma calça larga bege e uma camisa curta que deixava sua barriga livre. Ela era alguns centímetros mais alta que Eduarda, uma diferença física que a morena adorava usar a seu favor para encurralá-la em abraços apertados e roubar beijos de surpresa.

— Maggye é impossível — Lorena comentou, virando-se finalmente para o carro, a luz do dia realçando os traços de seu rosto. As covinhas profundas já marcavam suas bochechas, um sinal claro e adorável de que ela estava se divertindo horrores com a timidez residual de Eduarda.

— Eu achei que ia derreter e sumir no carpete quando ela gritou aquilo — Eduarda confessou, soltando uma risada anasalada e balançando a cabeça. Ela deu dois passos curtos para frente, diminuindo a distância entre elas de forma natural. Sem hesitar, ergueu as duas mãos e segurou o rosto de Lorena. Os polegares da ruiva acariciaram as maçãs do rosto dela com uma delicadeza que beirava a devoção, um toque que carregava o peso de todo o carinho que sentia. — Você pegou tudo? Seus lanches, o fone de ouvido, o casaco pesado? Campos do Jordão não perdoa nessa época do ano, mesmo que a gente chegue à tarde. O vento lá corta.

Lorena inclinou o rosto contra o toque quente da namorada, fechando os olhos por um segundo, aproveitando o momento. Aquele era o efeito inegável que Eduarda tinha sobre ela: uma calmaria absurda em meio ao seu próprio caos interno.

— Peguei tudo, meu amor. Maggye me ajudou a conferir a mala três vezes antes de fechar. E sobre o frio... eu estou contando com você para me esquentar de qualquer forma.

A voz de Lorena saiu um tom mais baixa no final da frase, arrastada, cheia daquela intenção que Eduarda já conhecia tão bem. Ela abriu os olhos, fixando-os diretamente na boca da ruiva. O contraste entre as duas era magnético e evidente. Eduarda era a personificação da cautela, do cuidado extremo para não machucar a garota que amava, já Lorena tinha uma energia que parecia sempre a um passo de transbordar, era a provocação em pessoa, sempre testando os limites daquela contenção.

Eduarda sentiu o rosto esquentar de novo, uma reação involuntária à ousadia da namorada, mas não recuou. Pelo contrário, ela ficou na ponta dos pés, as mãos ainda embalando o rosto de Lorena, e deixou um beijo demorado, carinhoso e suave na ponta do nariz dela, sorrindo contra a pele clara.

— Eu prometo que vou ser o seu aquecedor particular o fim de semana inteiro — Eduarda murmurou, doce, a voz carregada de promessas sinceras. — Mas agora a gente precisa pegar a estrada. O trânsito da Marginal na sexta-feira, mesmo no início da tarde, não é tão carinhoso quanto eu.

— Tudo bem, vamos. Mas eu dirijo pelo menos um trecho? — Lorena pediu, já dando a volta com passos animados em direção à porta do passageiro.

— Nem pensar. O carro está no meu nome e a sua carteira de motorista tem menos de um ano. E eu gosto de dirigir. — Eduarda destravou as portas com um clique sonoro, entrando no veículo e ligando o motor, que ronronou suavemente, pronto para a viagem.

Os primeiros quarenta minutos de trajeto foram exatamente o que Eduarda havia previsto: um teste de paciência com o fluxo pesado de carros tentando escapar da capital paulista. O interior do SUV, no entanto, era um verdadeiro casulo confortável e alheio ao estresse de fora. O ar condicionado mantinha a temperatura amena e agradável, e uma playlist de indie pop, meticulosamente escolhida por Lorena, tocava baixinho nos alto-falantes do veículo.

Eduarda dirigia com uma tranquilidade admirável, as mãos repousando no volante sem qualquer sinal de tensão, os ombros relaxados, cantarolando baixinho o refrão de uma música qualquer que tocava no som. No banco do carona, Lorena parecia ter uma bateria extra ligada no máximo que simplesmente se recusava a descarregar. Ela já havia vasculhado o porta-luvas, ajustado o próprio encosto de cabeça umas duas vezes, checado o celular e, agora, estava virada lateralmente no banco. Sua perna esquerda estava dobrada sobre o assento, de forma que seu joelho ficasse a poucos milímetros do console central e do braço da namorada.

O olhar de Lorena era fixo, quase estudioso. Ela analisava o perfil de Eduarda iluminado pela luz clara do sol da tarde que entrava pelo para-brisa. Observava o maxilar desenhado, o pescoço pálido à mostra na regata verde, as mechas ruivas que caíam soltas e macias pelos ombros, balançando levemente com o movimento do carro.

— Você é muito linda, sabia? — Lorena soltou de repente, a voz cortando o som suave do rádio e quebrando o silêncio confortável que havia se instalado entre as duas nos últimos quilômetros.

Eduarda olhou pelo retrovisor, mudou de faixa com a calma de quem tinha todo o tempo do mundo, e então virou o rosto rapidamente para a namorada. Um sorriso largo, brilhante e inevitável tomou conta de seus lábios, fazendo os olhos castanhos se enrugarem nos cantos em uma expressão de pura felicidade.

— E você é muito suspeita para falar, meu bem. Mas obrigada. Você é muito linda também. Essa camisa deixa seus olhos parecendo duas esmeraldas sob a luz do sol.

Lorena sorriu, as covinhas aparecendo de imediato nas bochechas, marcando sua satisfação com o elogio. Mas ela não estava interessada em apenas trocar frases fofas para passar o tempo. A mente dela estava trabalhando em outro ritmo. Ela queria testar as águas. Ela sempre queria.

— Três meses — Lorena disse, mudando o rumo da conversa sem aviso prévio. O tom de voz perdeu a leveza da brincadeira e ganhou uma nota mais rouca, mais arrastada e carregada de significado. — Noventa dias inteiros, Duda. A gente se vê quase todo dia. A gente dorme abraçada. A gente passa horas no sofá da Maggye...

— Onde você quer chegar com isso, meu amor? — Eduarda perguntou, a voz extremamente mansa e receptiva, já sabendo exatamente qual era o destino final daquela linha de raciocínio. Não era a primeira vez naquela semana, e ela estava preparada para a investida.

— Você sabe onde eu quero chegar. — Lorena esticou o braço devagar, descansando a mão no estofado do console central. A ponta dos seus dedos roçou de leve, quase imperceptivelmente, o tecido da calça jeans de Eduarda, bem na lateral da coxa direita. Um toque que, para um observador externo, pareceria puramente acidental, mas que ambas sabiam ser carregado de intenção. — A gente se beija até eu perder o ar. Você me toca, eu te toco, e quando a coisa parece que vai pegar fogo de verdade e não tem mais volta... você recua. Você me dá um beijo na testa e vai fazer um chá.

Eduarda soltou um suspiro longo e suave. Ela não afastou a mão de Lorena, nem demonstrou incômodo. Na verdade, ela tirou a mão direita do volante e cobriu os dedos da namorada, entrelaçando-os com os seus e apertando com um carinho imenso. A pele de Lorena era quente, macia, e a sensação de tê-la ali era reconfortante.

— A gente já conversou sobre isso, Lo. — O tom de Eduarda não carregava um pingo sequer de repreensão ou impaciência. Era puro afeto, uma tentativa genuína de fazê-la entender. — Não é falta de vontade. Deus sabe que não é. O meu corpo inteiro reage quando você está perto. Eu fico maluca quando você me olha desse jeito, com essa intensidade toda.

— Não parece. Você tem o controle de um monge budista.

Eduarda riu, o som cristalino e divertido enchendo o interior do carro. Ela levou a mão de Lorena, ainda entrelaçada à sua, até os próprios lábios e deixou um beijo demorado, quente e reverente nos nós dos dedos da morena, mantendo a mão dela presa na sua, descansando as duas juntas sobre a própria coxa.

— Eu não tenho controle nenhum quando o assunto é você, Lorena. Eu só me importo demais. Você me disse, logo no início, que nunca esteve com ninguém. Nunca. Eu não sou a primeira pessoa que você esteve, mas eu vou ser a sua primeira... vez. Isso tem um peso imenso para mim. Um peso incrivelmente bom. Eu não quero que seja algo que a gente faça às pressas numa terça-feira à noite, com a Maggye no quarto ao lado, nós duas preocupadas com o barulho, ou com o horário do meu plantão no dia seguinte. Você merece mais que isso.

Lorena apertou os dedos de Eduarda de volta, assimilando as palavras. Ela entendia. Logicamente, racionalmente, ela entendia e achava a atitude protetora de Eduarda a coisa mais linda, doce e rara do mundo. Mas o seu corpo, fervendo de antecipação há semanas, discordava veementemente da lógica. A paciência estava no limite.

— Eu não ligo pra onde a gente está, Duda. Eu não preciso que seja perfeito, com pétalas de rosa na cama e música clássica tocando ao fundo. Eu só preciso que seja com você. Onde quer que seja.

Eduarda virou o rosto de novo. Dessa vez, seus olhos encontraram os de Lorena com uma intensidade que fez a respiração da mais nova falhar por uma fração de segundo. Não havia dureza no olhar da ruiva, mas havia uma promessa silenciosa, pesada, inegável e cheia de amor.

— E vai ser comigo. — Eduarda sussurrou, a voz levemente embargada pela emoção e pela própria expectativa que vinha segurando. — Mas a gente está indo para Campos do Jordão agora. A casa é isolada. Não tem sinal de internet direito, não tem ninguém num raio de quilômetros para bater na porta. A gente tem lenha, tem vinho, tem lanches gostosos. A gente vai ter tempo. Tempo de sobra. Sem olhar para o relógio, sem se preocupar com o amanhã. Só confia em mim, tá bem? Eu quero cuidar de você do jeito que você merece.

As covinhas de Lorena apareceram novamente, mas dessa vez acompanhadas de um brilho faminto e obstinado no olhar. Ela soltou a mão de Eduarda apenas para deslizar os dedos ousadamente pelo braço da policial, subindo até a nuca dela e brincando com os fios ruivos e curtos na base do pescoço, causando um arrepio imediato na motorista.

— Eu confio em você de olhos fechados, Eduarda Fragoso. Mas se você acha que eu vou facilitar a sua vida e ficar quieta como uma boneca durante essas três horas de viagem, você é muito ingênua. Você disse que a gente tem tempo. Eu pretendo usar cada segundo desse tempo para te lembrar exatamente do que vai acontecer quando a gente chegar lá.

Eduarda balançou a cabeça, um sorriso frouxo e apaixonado brincando nos lábios enquanto ela voltava a focar na estrada, que finalmente começava a fluir melhor, deixando os limites da capital para trás.

— Você é um perigo constante, Lorena Ferette.

— E você é completamente apaixonada por mim.

— Irremediavelmente apaixonada. — Eduarda corrigiu prontamente, ajeitando-se no banco, o coração já batendo em um ritmo ligeiramente mais acelerado no peito sob o tecido da camiseta.

O silêncio que se instalou a seguir foi denso, carregado daquela eletricidade prévia que antecede as grandes tempestades de verão. Conforme o SUV engolia os quilômetros de asfalto da rodovia Ayrton Senna, a paisagem urbana cinzenta de concreto foi gradativamente substituída pelo verde escuro exuberante das árvores e pelas elevações grandiosas da Serra da Mantiqueira.

A estrada exigia um pouco mais de atenção na direção. As curvas sinuosas, ladeadas por paredões de pedra de um lado e vales profundos do outro, obrigavam Eduarda a usar o câmbio manual com frequência, reduzindo as marchas para manter a estabilidade e a força do carro na subida.

Lorena, atenta a cada mínimo detalhe, não perdeu a oportunidade. A brincadeira havia sido anunciada, as regras haviam sido estabelecidas, e ela não costumava voltar atrás nas próprias palavras.

Ela escorregou o corpo um pouco mais para baixo no banco de couro, esticando a perna esquerda e apoiando o cotovelo de forma despretensiosa no console central. Sua mão direita ficou estrategicamente parada no espaço exato entre o freio de mão e a alavanca do câmbio.

Eduarda percebeu a movimentação pelo canto do olho. Um sorriso contido ameaçou quebrar sua concentração. Ela conhecia a namorada melhor do que ninguém. Sabia que a mente brilhante de Lorena estava trabalhando a mil por hora para encontrar uma brecha na sua compostura.

Uma curva fechada à esquerda se aproximou na pista banhada pelo sol da tarde. Eduarda levou a mão à alavanca para reduzir a marcha. Ao fazer o movimento, as costas de sua mão roçaram inevitavelmente nos nós dos dedos de Lorena. O contato foi rápido, pele contra pele, elétrico.

Eduarda puxou a marcha com precisão e voltou a mão para o volante, lançando um olhar rápido, banhado pela luz dourada, para a direita. Lorena fingia observar distraidamente a paisagem iluminada lá fora, assobiando baixinho a música que ainda tocava no rádio.

— Você sabe que está com o braço bem no meio do caminho, né? — Eduarda comentou, a voz mansa, soando muito mais divertida com a provocação do que incomodada.

— Meu braço está doendo de ficar na mesma posição. O espaço aéreo do carro é livre. — O cinismo na voz de Lorena era delicioso e perfeitamente ensaiado. Ela virou o rosto, as esmeraldas de seus olhos brilhando sob o sol, piscando inocentemente. — Eu estou te atrapalhando, amor?

— Não. Só estou avisando para você não reclamar se eu esbarrar em você sem querer durante as curvas.

— Eu nunca reclamaria dos seus toques. Pode esbarrar à vontade. O quanto você quiser.

Na subida seguinte, uma ladeira mais longa e íngreme, o motor pediu uma redução da marcha. Eduarda desceu a mão, mas desta vez, Lorena foi intencional e letal. Em vez de deixar a mão parada e passiva, ela moveu os dedos longos, abrindo a palma e repousando-a exatamente sobre a mão de Eduarda no momento exato em que a policial segurou a manopla do câmbio.

O carro trepidou de leve, perdendo um pouco do embalo, simplesmente porque a mente de Eduarda entrou em curto-circuito por dois longos segundos.

A mão de Lorena estava ligeiramente fria por causa do fluxo do ar condicionado, mas a pressão suave e deliberada dos dedos dela sobre a pele sensível de Eduarda mandou uma onda de calor direto para o estômago da ruiva, arrepiando os pelos de seus braços. Elas fizeram o movimento juntas, em sincronia, puxando a alavanca para trás.

Eduarda engoliu em seco, a garganta repentinamente seca. Ela não afastou a mão de Lorena, não conseguiu. Em vez disso, paralisou os dedos sobre o câmbio, o calor do toque espalhando-se por seu corpo.

— Lo... — O nome saiu quase como um suspiro quebrado, uma confissão de vulnerabilidade. Eduarda olhou para a namorada. A postura doce e sempre no controle da policial estava lutando uma batalha perdida contra a urgência avassaladora que aquele toque simples havia despertado.

Lorena não recuou um milímetro. Ela não sorriu, e as covinhas sumiram, dando lugar a uma expressão focada, atenta, os olhos verdes absorvendo cada microexpressão no rosto iluminado de Eduarda. Ela começou a mover o polegar lentamente, traçando a linha fina das veias nas costas da mão da motorista, um carinho quase hipnótico.

— O que foi? — Lorena sussurrou, a voz baixa, incrivelmente perigosa e envolvente. — A gente só está trocando a marcha juntas. Qual o problema?

— A gente vai acabar caindo da serra se você continuar fazendo isso comigo. — Eduarda tentou soar racional, mas sua voz saiu incrivelmente suave, trêmula, sem força nenhuma para impor um limite real ou afastar a garota. Em um gesto de pura rendição, ela virou a própria mão por baixo da de Lorena, entrelaçando os dedos novamente, apertando firme contra a palma dela.

— Eu não me importo nem um pouco de cair, desde que você caia junto comigo. — Lorena inclinou o tronco na direção da motorista, a distância entre elas agora reduzida ao mínimo possível permitido pelos cintos de segurança. O cheiro natural dela - aquela mistura inebriante de baunilha e terra molhada que Eduarda tanto amava - invadiu o ar que a ruiva respirava. — O seu coração está batendo muito rápido, sabia? Dá pra ver a sua pulsação bem ali no seu pescoço.

Eduarda fechou os olhos por uma fração de segundo, soltando uma respiração profunda e trêmula, tentando buscar algum foco. Ela puxou a mão de Lorena, trazendo-a com delicadeza para cima da sua própria perna esquerda e deixando-a lá, sob sua própria mão protetora.

— Lorena, por favor, meu amor. — O tom de Eduarda era uma súplica doce e derretida. — Eu prometi que a gente ia ter o fim de semana perfeito. Não me faz ter que parar esse carro no primeiro acostamento que aparecer agora. Eu sou humana. E eu sou completamente maluca por você. Se você continuar me olhando assim, me tocando assim, eu juro que não respondo por mim.

Um sorriso lento, absolutamente vitorioso e de tirar o fôlego abriu no rosto de Lorena. As covinhas reapareceram, fundas e charmosas. Ela havia conseguido exatamente o que queria: quebrar a barreira daquela paciência infinita e arrancar a confissão crua e sincera da namorada.

Lorena deixou a mão pousada docemente na coxa de Eduarda, apertando a musculatura por cima do jeans com carinho apenas uma vez antes de recolher o braço e voltar a se encostar no próprio banco, satisfeita com o estrago.

— Fique calma, Duda. Eu vou ser uma boa menina até a gente chegar lá. — Lorena murmurou, voltando a olhar para a janela banhada de sol, mas o sorriso presunçoso não abandonou seus lábios pelo resto da viagem.

Eduarda soltou todo o ar dos pulmões de uma vez, sentindo o rosto quente como se estivesse com febre. Ela focou na estrada com determinação renovada, mas o lugar exato na sua coxa onde a mão de Lorena havia descansado continuou formigando, como se estivesse marcado a ferro, por mais de quarenta quilômetros.

Quando a placa de boas-vindas de Campos do Jordão finalmente cruzou o para-brisa, o relógio do painel marcava quatro e pouco da tarde. O sol já estava mais baixo, criando sombras longas e pintando a cidade com uma luz dourada e aconchegante. No entanto, a temperatura do lado de fora havia despencado para implacáveis quatorze graus, com um vento que prometia esfriar muito mais à medida que a noite caísse.

Eduarda não entrou no centro turístico, onde os turistas já começavam a se aglomerar nas calçadas com seus casacos elegantes. Ela pegou a primeira alça de acesso para uma estrada secundária, fugindo do movimento e buscando o isolamento. A pista de asfalto liso logo deu lugar a um caminho de terra batida muito bem conservado, ladeado por araucárias gigantes que filtravam os últimos raios de sol do dia.

O ambiente era cercado pela natureza intocada. O barulho dos pneus triturando as folhas secas caídas no chão e o cascalho da estrada era o único som presente, embalado pelo silêncio das montanhas.

— É realmente no meio do mato, hein. — Lorena comentou, os olhos arregalados, o fascínio evidente na voz enquanto observava as árvores imensas passando pela janela iluminada. — É lindo demais. E tão tranquilo.

— Meus pais queriam um refúgio de verdade. Quando eu era adolescente, eu odiava vir para cá com eles porque não tinha sinal de celular nem televisão a cabo pra ver filme. — Eduarda riu baixinho, os olhos castanhos brilhando de nostalgia enquanto manobrava o carro em uma curva fechada que revelou a extensa entrada da propriedade. — Hoje em dia, eu pagaria o dobro para morar aqui o ano inteiro e não ter que atender o telefone da delegacia.

O SUV parou em frente à casa de campo. Era uma construção de dois andares deslumbrante, de arquitetura rústica, feita inteiramente de madeira escura envernizada e pedras largas, com enormes janelas de vidro que refletiam o céu quase alaranjado do fim de tarde. Uma varanda larga circundava a frente da casa, com cadeiras de balanço adormecidas e vasos de plantas esperando pelos donos.

Eduarda desligou o motor. O silêncio que engoliu o carro foi ensurdecedor e pacífico ao mesmo tempo.

— Chegamos, meu bem. — Eduarda disse, a voz suave, destravando as portas. O som da trava elétrica pareceu um clique alto no meio da quietude da montanha.

Lorena respirou fundo, absorvendo a beleza do lugar banhado pelo sol poente, e empurrou a porta do carona. Assim que seus pés de tênis tocaram o chão de cascalho, a realidade climática a atingiu. O vento da serra cortou suas roupas impiedosamente. A camisa de botão, embora linda, não era páreo para os quatorze graus da Mantiqueira, ainda mais com a brisa gelada que descia das montanhas. Ela cruzou os braços em torno do próprio corpo imediatamente, soltando um gemido baixo e trêmulo.

— Caramba... Você disse frio, não disse que o vento tentaria me congelar viva no meio da tarde!

Eduarda havia saído do lado do motorista vestindo uma jaqueta de couro forrada por cima da camiseta, a experiência falando mais alto e antecipando o clima. Ao ouvir a reclamação sincera e tremida da namorada, ela nem sequer hesitou. Deixou as portas do carro abertas e deu a volta pela traseira do veículo em passos rápidos e decididos.

Sem dizer uma única palavra, Eduarda parou na frente de Lorena, o olhar doce brilhando sob a luz dourada. Ela abriu os dois lados da própria jaqueta de couro e puxou a morena para dentro de seus braços, envolvendo-a contra o seu corpo quente, fechando a jaqueta ao redor das duas como um casulo de proteção.

Lorena soltou um suspiro longo, audível, de puro alívio e surpresa pela atitude fofa. Ela passou os braços ao redor da cintura de Eduarda rapidamente, enfiando o rosto no pescoço quente da ruiva, buscando abrigo. O calor natural do corpo de Eduarda era um contraste imediato e delicioso com o vento gelado que chicoteava ao redor. O cheiro marcante de seu perfume misturado com o couro da jaqueta inundou os sentidos de Lorena, fazendo-a fechar os olhos de contentamento.

— Você é muito teimosa, amor. Eu falei para você colocar o casaco pesado antes de sair do carro. — Eduarda murmurou com um tom afetuoso, o lábio roçando levemente na bochecha de Lorena enquanto falava. Ela passou as mãos carinhosamente pelas costas da namorada, esfregando o tecido fino da camisa em movimentos de cima para baixo para aquecê-la.

— Mas assim é infinitamente melhor. — Lorena rebateu, a voz abafada contra a curva sensível do pescoço de Eduarda. Ela ergueu a cabeça lentamente, descansando o queixo no ombro da mais baixa, olhando diretamente para o rosto iluminado dela.

A claridade do entardecer pintava tudo com um tom quente e romântico. O vento frio balançava as copas das araucárias, mas ali, dentro daquele abraço, Lorena sentia-se invencível.

Eduarda olhou para os olhos de Lorena, verdes, brilhantes e vivos sob a luz da golden hour. A distância entre suas bocas era mínima, perigosa. O mundo inteiro lá fora havia desaparecido. Não existia a loucura de São Paulo, não existia a delegacia, não existiam os plantões cansativos, a Maggye ou o trânsito barulhento. Só existiam elas duas, o farfalhar das folhas com o vento da montanha, a casa de madeira esperando por elas, e aquela tensão esmagadora que vinha sendo cultivada com tanto carinho e paciência desde que saíram da garagem do prédio.

O olhar de Lorena desceu para a boca de Eduarda, demorando-se ali com uma fome evidente. A provocação insistente, as brincadeiras perigosas do carro, os toques sutis nas trocas de marcha... tudo aquilo havia finalmente chegado ao seu limite de contenção.

Eduarda sentiu o próprio coração bater na garganta, descompassado. Sua postura cuidadosa fraquejou irreversivelmente diante da expressão de desejo puro estampada no rosto da garota que ela tanto amava. Ela não pensou, não calculou os riscos. Ela apenas agiu, movida pelo sentimento que transbordava do peito.

As mãos de Eduarda subiram das costas quentes de Lorena para o pescoço alvo dela, os dedos finos embrenhando-se nos cabelos castanhos espessos. Ela inclinou a cabeça levemente, fechando os olhos, e tomou os lábios de Lorena para si.

O beijo não começou suave. Não foi um daqueles selinhos hesitantes, doces e tímidos que trocavam em público. Foi uma explosão de necessidade contida há meses. A boca de Lorena se abriu no exato instante em que os lábios macios de Eduarda a tocaram, recebendo a invasão com um gemido baixo, satisfeito e arrastado que ecoou pela varanda silenciosa, misturando-se ao som do vento.

Lorena apertou os braços com força ao redor da cintura de Eduarda, puxando-a com tanta vontade que os corpos se colaram completamente, eliminando qualquer milímetro de ar frio que pudesse existir entre elas. A língua de Eduarda explorava a boca de Lorena com uma urgência que ainda tentava ser doce, uma paixão que ela vinha tentando domar heroicamente há meses para não assustar a mais nova. Mas Lorena não estava nem um pouco assustada. Pelo contrário, ela correspondia na exata mesma intensidade, mordendo o lábio inferior de Eduarda e sugando com força, as mãos subindo afoitas pelas costas da ruiva, apertando o couro da jaqueta como se sua própria vida dependesse daquele contato.

O contraste térmico era um absurdo para os sentidos. O vento frio congelava a ponta do nariz e as bochechas expostas de ambas, enquanto o calor ardente dos beijos, das respirações ofegantes que se cruzavam e das mãos ávidas fazia o sangue ferver nas veias. Eduarda suspirou na boca de Lorena, mudando o ângulo do beijo, aprofundando o contato cada vez mais, perdendo-se completamente e de bom grado na sensação inebriante de ter a garota que amava entregue em seus braços no meio daquela imensidão verde.

A tensão palpável que vinha movendo as duas não era mais uma possibilidade; agora tomava forma, densa, pesada e incontornável.

Quando os pulmões finalmente começaram a queimar pedindo por oxigênio, Eduarda foi a primeira a recuar, movida por aquele resquício de instinto protetor que nunca a abandonava. O rompimento do beijo foi lento, quase doloroso, os lábios se arrastando e se soltando devagar, as respirações entrecortadas e quentes batendo de frente uma na outra. As testas se encostaram. Eduarda mantinha os olhos fechados, aproveitando a vertigem, as mãos ainda presas na nuca de Lorena, o polegar acariciando a pele macia sob os cabelos despenteados pelo vento.

— Meu Deus, Lorena... — Eduarda sussurrou, a voz irreconhecível de tão rouca e falha. Ela precisou de alguns segundos preciosos para estabilizar o próprio eixo, inspirando o ar gelado da serra para tentar clarear a mente nublada.

Lorena não disse nada no primeiro momento. Ela apenas ofegava com a boca levemente aberta, os olhos arregalados e fixos no rosto iluminado de Eduarda, um sorriso atordoado lutando bravamente para surgir. Ela levou as duas mãos, ainda frias pelo vento, ao rosto da policial, segurando-o com um carinho que desarmava qualquer defesa.

— A gente não precisa descarregar as malas agora, precisa? — A sugestão de Lorena era clara, carregada de malícia, desejo urgente e pressa. — Tá claro ainda. O sol nem se pôs direito. E ninguém vai roubar nada no meio do nada.

Eduarda abriu os olhos devagar. O sorriso fofo, paciente e completamente derretido voltou aos seus lábios pintados de vermelho pelo atrito do beijo, embora os olhos ainda carregassem os resquícios intensos da luxúria de segundos atrás. Ela cobriu as mãos de Lorena com as suas, trazendo-as para baixo e depositando um beijo casto na palma da mão da morena.

— A sacola térmica está cheia de mantimentos delicados que estragam se não forem direto para a geladeira. — Eduarda argumentou, o tom sensato de volta, quebrando a tensão sexual com uma onda de romance puro e preocupação doméstica. Ela se afastou meio passo, com muito esforço, deixando que o frio do ambiente servisse como o balde de água fria altamente necessário para ambas não perderem a cabeça ali mesmo, no cascalho do quintal. — A gente vai entrar agora. Eu vou te ajudar a guardar as coisas, e nós vamos ter a nossa primeira tarde oficial aqui. No nosso tempo. Como eu te prometi no carro. Sem pular etapas.

Lorena cruzou os braços novamente, o frio voltando a beliscar a pele, mas as covinhas estavam mais fundas e marcadas do que nunca. Ela aceitou a pequena derrota momentânea, sabendo no fundo do seu coração que a guerra inteira já estava ganha.

— Tudo bem, dona Eduarda Fragoso. Vá abrir a porta logo antes que eu mude de ideia e te agarre de novo na frente das formigas. A sua casa de campo. As suas regras. Por enquanto.

Eduarda balançou a cabeça, rindo baixinho de pura felicidade enquanto caminhava até o porta-malas aberto para pegar as pesadas bagagens. O som de seus passos no cascalho parecia rítmico, acompanhando o compasso acelerado e alegre de seu coração. Ela puxou as malas, equilibrando a sacola térmica em um dos ombros, e entregou a mala menor para Lorena carregar.

Caminharam juntas, ombro a ombro, até os degraus rústicos de madeira da varanda, banhadas pela luz dourada que começava a dar sinais. Eduarda tirou o pesado molho de chaves do bolso da calça, as mãos ainda tremendo levemente pela adrenalina do beijo que haviam compartilhado. A chave girou com um estalo seco e satisfatório na madeira maciça da porta principal.

O hall da casa de campo engoliu as duas em um silêncio que parecia ter textura. Quando a pesada porta de madeira maciça se fechou nas costas de Eduarda com um clique definitivo, o som pareceu reverberar pelas paredes rústicas da sala imensa. A luz natural do fim de tarde entrava pelas janelas panorâmicas de vidro, banhando o piso de tábua corrida com um tom alaranjado e quente.

Lorena parou no meio da sala, soltando a mala menor no chão com um baque surdo. Ela girou nos calcanhares, absorvendo o ambiente. Os sofás de couro marrom pareciam incrivelmente macios, a lareira de pedra ocupava quase uma parede inteira, e havia uma sensação de isolamento que era, ao mesmo tempo, assustadora e libertadora.

Quando ela finalmente se virou para trás, encontrou Eduarda encostada na porta recém trancada, observando-a.

A detetive havia tirado as chaves da fechadura e as girava distraidamente no dedo indicador, mas seus olhos castanhos estavam fixos na namorada. Com a luz dourada batendo de frente, os detalhes que a pressa e o vento lá fora haviam ofuscado agora ficavam impossíveis de ignorar.

Lorena estava deslumbrante. A calça de alfaiataria bege, de corte largo e tecido fluido, abraçava o quadril dela com perfeição, caindo de forma elegante por cima do tênis. Mas era a parte de cima que testava a sanidade de Eduarda. A camisa de botão clara era curta o suficiente para deixar uma faixa generosa de pele à mostra. A barriga lisa de Lorena estava ali, exposta, o umbigo aparecendo a cada vez que ela se movia ou respirava mais fundo.

Eduarda, por sua vez, sentia o peso da própria roupa. A calça jeans escura estava justa, a regata verde musgo abraçava seu tronco, e a jaqueta marrom, que antes serviu de escudo contra o vento, agora parecia aquecer mais do que o necessário apenas por causa do olhar que Lorena retribuía.

— É lindo, Duda. — Lorena quebrou o silêncio, a voz ecoando suavemente pelo pé-direito alto. Ela deu um passo na direção da namorada, as mãos enfiadas nos bolsos da calça de alfaiataria. — É muito maior do que eu imaginei.

— Meus pais gostam de espaço. — Eduarda respondeu, a voz saindo um pouco mais baixa do que o normal. Ela desencostou da porta, deixando as chaves sobre o aparador de madeira próximo à entrada. — A cozinha fica ali para a direita, os quartos são no andar de cima.

— E onde a gente vai ficar agora? — O tom de Lorena carregava aquela velha malícia, as duas covinhas marcando presença nas bochechas enquanto ela se aproximava mais um pouco. O contraste do tecido social da calça com a pele nua do abdômen era uma visão que prendia os olhos da ruiva.

Eduarda sorriu, aquele sorriso fofo e desarmante que quebrava qualquer marra de policial. Ela ergueu a mão, apontando para a sacola térmica que ainda descansava no chão perto de seus pés.

— Nós vamos aproveitar que ainda tem sol. Eu vi a quantidade de coisas que você fez a Maggye ajudar a preparar antes de sairmos. Se a gente não comer nada disso agora, você vai ficar de mau humor mais tarde.

Lorena revirou os olhos verdes, mas não conseguiu conter a risada.

— Eu não fico de mau humor quando estou com fome. Eu fico irritada, é diferente. E tudo ali dentro é estritamente vegano e planejado para durar o fim de semana. Mas confesso que a ideia de comer agora não é ruim. O frio do quintal me deu uma fome absurda.

— Então pegue a térmica. Eu vou na cozinha buscar uma toalha grossa e umas taças. — Eduarda se abaixou, pegando a própria mala pesada com uma mão. — O sol bate bem no gramado dos fundos. Dá para fazermos um piquenique antes que esfrie de vez e a gente precise acender a lareira.

A menção a um piquenique fez os olhos de Lorena brilharem. Havia algo inegavelmente romântico naquilo, uma doçura que contrastava com a tensão urgente que dividiam no carro e na varanda.

Dez minutos depois, a cena estava montada. O gramado nos fundos da casa era vasto, cercado por araucárias que formavam um muro natural de privacidade. A luz do sol, agora em tons de cobre e dourado, aquecia a temperatura de forma agradável, compensando o vento gelado que havia as recebido.

Eduarda havia estendido uma manta xadrez grossa sobre a grama levemente úmida, além de trazer duas almofadas dos sofás da varanda para maior conforto. Lorena estava sentada com as pernas cruzadas, a calça de alfaiataria se ajustando ao movimento, enquanto tirava os potes da sacola térmica com cuidado.

— Homus de beterraba, pão de fermentação natural que o João Rubens jura que é a melhor receita da vida dele, morangos, uvas, e um queijo de castanhas que me custou os olhos da cara. — Lorena narrava, arrumando os potes sobre a manta como se montasse uma exposição de arte. — Se você disser que sente falta de laticínios depois de provar isso, eu vou pedir o divórcio.

Eduarda, que estava ajoelhada de frente para ela, tirando a jaqueta marrom e ficando apenas com a regata verde musgo por causa do sol que batia direto em suas costas, riu alto.

— A gente precisa casar primeiro para você pedir divórcio, Ferette. — Eduarda brincou, dobrando a jaqueta e colocando-a de lado. — E eu nunca reclamei da sua comida. Na verdade, desde que a gente começou a namorar, eu acho que perdi uns dois quilos de retenção de líquido só de comer as coisas que você me apresenta.

Lorena parou de arrumar os morangos. Ela levantou o rosto, o olhar verde fixo no peito de Eduarda, acompanhando a respiração calma da ruiva sob a regata justa. Um sorriso lento e perigoso começou a se formar.

— Três meses já... — Lorena repetiu a frase que havia usado no carro, mas agora o tom era contemplativo. Ela esticou a mão, pegando um morango pequeno e levando aos próprios lábios. — Três meses oficiais, né? Mas a gente sabe que isso começou muito antes.

Eduarda se sentou mais confortavelmente, abraçando os próprios joelhos contra o peito. A calça jeans escura esticou nos joelhos, e ela apoiou o queixo ali, olhando para a namorada com uma expressão divertida.

— Ah, é? E quando foi que começou na sua cabeça, senhorita dona da razão? — Eduarda perguntou, fingindo inocência.

Lorena mordeu a ponta do morango, mastigando devagar antes de responder, mantendo o contato visual.

— No dia daquele encontro de luluzinhas na casa da Maggye. — Lorena disse com convicção. — O dia em que a gente se viu pela primeira vez.

O sorriso de Eduarda se alargou, os olhos se fechando por um breve segundo enquanto a memória daquela noite a inundava com a força de um filme sendo reprisado. Era impossível esquecer.

— Eu lembro de cada segundo daquela noite. — Eduarda sussurrou, a voz carregada de uma doçura infinita.

E ela realmente lembrava. Eduarda não estava a trabalho naquele dia, Maggye havia insistido incansavelmente para que ela fosse para um jantar só de meninas, prometendo drinks bons e comida descente para tirar a ruiva do tédio de um dia de folga. Eduarda estava ansiosa rindo de alguma piada ruim que Maggye contava e Lucélia não entendia.

E então, a campanhia tocou e a porta da frente se abriu.

Lorena havia chegado atrasada. Muito atrasada. Ela entrou no apartamento curiosa, o cabelo levemente bagunçado pelo vento de São Paulo, bochechas coradas pela pressa, murmurando desculpas em voz alta. E quando ela levantou o rosto e seus olhos verdes cruzaram a sala... eles encontraram os de Eduarda.

— Você parou no meio da sala como se tivesse visto um fantasma. — Eduarda relembrou em voz alta, apontando o dedo na direção de Lorena de forma acusatória, mas rindo. — Você estava com aquele look lindo. O mundo inteiro parou de girar por uns bons cinco segundos. Eu juro que esqueci como se respirava. A gente ficou se encarando no meio da Galeria enquanto ela falava sozinha.

Lorena riu, um som gostoso e rouco que se misturou perfeitamente ao farfalhar do vento nas folhas das araucárias.

— Eu fiquei em choque. A Maggye nunca me disse que tinha uma amiga tão estupidamente linda escondida na manga. — Lorena confessou, sem o menor pudor, usando a camisa curta para se abanar levemente do calor repentino que a lembrança trouxe. — Eu perdi completamente a linha de raciocínio. A gente sentou frente a frente na mesa de jantar depois daquilo.

— E conversamos a noite inteira. — Eduarda completou, os olhos brilhando. — Eu mal toquei na comida. Você falava com as mãos, contava histórias, ria alto... e eu só conseguia prestar atenção em como a sua voz era arrastada e em como as suas covinhas apareciam a cada trinta segundos. Eu estava hipnotizada. Você dominou a mesa.

— E você fingiu que não estava prestando atenção em mim o tempo todo. — Lorena rebateu, provocando, pegando um pedaço do pão de fermentação natural. — Mas quando a noite acabou e você foi a primeira a se oferecer para me dar uma carona até em casa, já que eu ia pedir um aplicativo de transporte.

O coração de Eduarda errou uma batida leve ao lembrar daquela carona. O interior do seu carro, as ruas escuras de São Paulo, o silêncio confortável que rapidamente se transformou em uma tensão deliciosa.

— Eu não podia deixar você pegar um Uber sozinha. Era minha obrigação moral. — Eduarda se defendeu, os ombros subindo em um dar de ombros fofo.

— Obrigação moral, sei. — Lorena ironizou, com um sorriso de canto de boca. — Foi a carona mais intensa da minha vida. Você ligou o aquecedor do carro, colocou uma música baixinha. Nós paramos em uns três semáforos vermelhos na Avenida Paulista, e toda vez que o carro parava, você virava o rosto e me olhava. Um olhar longo. E a gente não dizia nada. Você elogiou o meu perfume, eu elogiei o seu vestido. Quando a gente parou na frente do meu prédio, eu fiquei com a mão na maçaneta da porta do carro por uns dez minutos, criando coragem pra te beijar ali mesmo depois de você ter a audácia de me mostrar sua arma.

— E por que não beijou? — Eduarda provocou de volta, a voz caindo um tom, desafiadora e macia.

— Porque você ia me achar muito fácil, detetive. — Lorena bufou, fingindo indignação, mas o sorriso a traía. — Mas você me deixou completamente louca desde o dia um, Eduarda Fragoso.

Eduarda riu, desfazendo o abraço nos joelhos e inclinando-se para a frente, pegando um pedaço do pão e mergulhando no pote de homus rosado.

— Eu queria fazer as coisas do jeito certo. Eu já sabia que você era importante na hora em que você cruzou aquela porta. E olha pra nós agora. Você morando com a Maggye, me enlouquecendo todo santo dia, e a gente aqui, isoladas no meio da serra, comendo queijo de castanha sob o pôr do sol.

Lorena observou Eduarda levar o pão generosamente sujo de homus à boca. A mastigação lenta, o movimento do maxilar desenhado da ruiva, a forma como a luz do sol brincava nos fios do cabelo dela. Um pequeno, quase imperceptível rastro do creme de beterraba sujou o canto do lábio inferior de Eduarda.

O clima de nostalgia imediatamente abriu espaço para algo muito mais quente e urgente. Sem pensar duas vezes, impulsionada pela confissão do passado e pela visão do presente, Lorena se moveu.

Ela não engatinhou. Lorena simplesmente se ergueu sobre os joelhos, ágil e decidida. A diferença de altura entre as duas ficando gritante e evidente mesmo ali, ajoelhadas na grama. A calça de alfaiataria roçou ruidosamente no tecido xadrez da manta enquanto ela diminuía a distância, invadindo o espaço vital de Eduarda com a graciosidade e a precisão de um felino caçando sua presa.

Eduarda parou de mastigar no mesmo instante. Seu olhar subiu, sobressaltado, encontrando a imensidão verde e escura dos olhos de Lorena. A proximidade repentina fez o cheiro de baunilha e terra molhada invadir suas narinas de forma avassaladora, ofuscando o cheiro da grama e do pão.

Lorena inclinou o tronco para a frente, dominando o espaço aéreo acima da policial. A camisa de botão curta subiu mais uns dois centímetros com o movimento, deixando o abdômen completamente e absurdamente exposto a míseros centímetros do rosto de Eduarda. A morena esticou o braço com uma lentidão calculada e, com o polegar macio, limpou delicadamente a mancha de homus do canto da boca da namorada.

— Você se sujou, meu amor. — Lorena sussurrou, a voz caindo uma oitava inteira, arrastada, carregada de uma intenção pesada e palpável. Ela não recolheu a mão depois de limpar a sujeira. O polegar continuou traçando o contorno do lábio inferior de Eduarda, que agora estava entreaberto pela surpresa e pela respiração que começava a falhar.

O coração de Eduarda deu um salto perigoso contra as costelas sob a regata verde. A postura de Lorena, pairando imponente sobre ela, usando a própria altura para encurralá-la visualmente e fisicamente contra a manta, era pura covardia. As covinhas apareceram, emoldurando um sorriso que sabia exatamente o estrago monumental que estava causando nas defesas da mais velha.

— Lorena... — A voz de Eduarda saiu trêmula, rasgada, quase inaudível. Ela tentou, por puro instinto de sobrevivência, recuar o tronco para trás, mas estava sentada. Não havia para onde ir a não ser deitar na manta. E, no fundo da sua alma, ela não queria ir a lugar nenhum que não fosse para os braços da garota.

— Você mesma disse que a gente tem o fim de semana inteiro. — Lorena lembrou as palavras de Eduarda no carro, a mão livre descendo com ousadia para repousar pesadamente no joelho de Eduarda, sobre o jeans escuro. Os dedos apertaram a musculatura firme ali, um toque possessivo. — Mas eu estou exausta de esperar, Duda. Eu olho pra você e sinto que vou explodir em mil pedaços. Você é tão cuidadosa, tão perfeitamente fofa, cheia de regras... e isso me deixa completamente insana.

Eduarda engoliu em seco. A sombra do corpo esguio de Lorena bloqueava os últimos raios do sol da tarde, deixando o rosto da policial em uma penumbra íntima e perigosa. O frio do vento contrastava violentamente com o calor que emanava do corpo a poucos centímetros do seu.

— Eu só quero fazer as coisas direito pra você. — Eduarda respondeu, a voz embargada pelo desejo feroz que a consumia de dentro para fora, lutando contra o racional. Ela soltou as mãos que apertavam os próprios joelhos, deixando-as cair sobre a manta buscando apoio, mas acabaram encontrando a perna de Lorena no caminho. Os dedos trêmulos de Eduarda roçaram o tecido macio e refinado da calça de alfaiataria, sentindo o calor ardente da pele da coxa dela por baixo.

— Fazer direito não significa, em lugar nenhum, fazer devagar. — Lorena argumentou, com a lógica distorcida pelo desejo, inclinando-se ainda mais para a frente. Seus rostos agora estavam a um fio de cabelo de distância. A respiração ofegante e doce de Lorena batia ritmadamente contra as bochechas coradas de Eduarda. — Eu quero você. De verdade. Eu não quero mais esperar pelo momento cinematográfico ideal que você criou na sua cabeça. O momento ideal é esse aqui. É agora. É você e eu.

E então, sem esperar por uma resposta racional, Lorena acabou impiedosamente com a pouca distância que ainda restava.

Não foi um beijo fofo de reencontro, nem o beijo urgente e desesperado que trocaram na varanda sob o vento frio. Foi um beijo profundo, absurdamente molhado, dominador e faminto. Lorena tomou o controle absoluto da situação, os lábios quentes se abrindo sobre os de Eduarda, a língua invadindo a boca da ruiva com uma fome e uma propriedade que haviam sido duramente reprimidas por três meses inteiros.

Eduarda soltou um gemido surpreso, abafado pelo beijo, mas não recuou um único milímetro. Seus instintos mais primitivos a traíram completamente. Em vez de erguer as mãos para pedir calma ou segurar os ombros de Lorena para afastá-la, as mãos de Eduarda subiram rapidamente e por vontade própria pelo tecido da calça bege, encontrando a faixa generosa de pele nua da barriga exposta. O contraste da pele escaldante de Lorena sob a brisa fresca da tarde causou um arrepio imediato que percorreu a espinha da morena.

O toque possessivo de Eduarda na pele nua foi o gatilho explosivo que faltava. Lorena soltou todo o peso do próprio corpo sobre a namorada de uma vez, obrigando Eduarda a deitar as costas na manta xadrez com um suspiro longo. As almofadas grossas que estavam estrategicamente colocadas amorteceram a queda da cabeça da ruiva, mas o impacto do corpo de Lorena prensando-a impiedosamente contra o chão macio foi completamente arrebatador.

A diferença de altura fazia com que as pernas compridas de Lorena encurralassem o quadril de Eduarda com facilidade, prendendo a policial sob si em uma gaiola de calor e desejo. A mão esquerda de Lorena se embrenhou possessivamente nos cabelos ruivos de Eduarda, segurando o rosto dela no lugar para aprofundar o beijo, enquanto a mão direita desceu, espalmando-se firme contra a regata verde musgo, sentindo as batidas descontroladas do coração da investigadora.

Os beijos perderam, em questão de segundos, qualquer rastro de inocência ou pudor. Lorena beijava com agressividade e uma doçura latente na mesma medida, mudando o ângulo da cabeça, sugando o lábio inferior de Eduarda com força suficiente para machucar de leve, arrancando suspiros rasgados que morriam antes mesmo de ecoar pelo jardim silencioso. A língua de Lorena mapeava a de Eduarda, bebendo do sabor dela e compartilhando o calor abrasador.

As mãos de Eduarda, que estavam espalmadas na barriga nua de Lorena, começaram a ganhar vida própria e a subir em uma exploração cega. Os dedos trêmulos deslizaram sorrateiramente por baixo da camisa de botão curta, encontrando as costelas delicadas e a pele extremamente macia das costas da namorada. A respiração de Lorena falhou ruidosamente no instante exato em que as unhas curtas de Eduarda arranharam levemente a linha da sua espinha dorsal em um movimento ascendente.

— Duda... meu Deus. — Lorena arfou, rompendo o beijo por uma necessidade desesperada de oxigênio. Ela desceu os lábios rapidamente pelo queixo da policial, encontrando a pele pálida, vulnerável e supersensível do pescoço, logo abaixo da linha do maxilar perfeito. Ela chupou a pele ali com vontade, marcando o território sem pedir licença, ouvindo Eduarda arfar alto e arquear as costas contra a manta xadrez em resposta.

A mão direita de Lorena deslizou da regata verde para a lateral do corpo de Eduarda. Os dedos longos e ágeis se enfiaram ousadamente entre o cós da calça jeans escura e a pele da cintura, roçando a barra da regata, buscando um acesso mais direto e sem barreiras. O corpo de Lorena pesava maravilhosamente sobre o dela, quente, vivo, inegavelmente exigente e suplicante.

A tensão entre as duas havia deixado de ser uma corda esticada; agora era uma barragem prestes a arrebentar e inundar o vale inteiro. A inexperiência técnica de Lorena em nada importava; ela era ofuscada pela intensidade brutal e pela coragem que ela possuía de ir atrás do que queria. E Eduarda estava derretendo sob aquele domínio inesperado, perdendo a guerra contra si mesma. A policial fechou os olhos com força, os dedos embrenhados na camisa clara de Lorena apertando o tecido até os nós dos dedos ficarem brancos, enquanto o mundo inteiro parecia girar de forma caótica ao seu redor.

Mas então, em um movimento rápido e impensado ditado pela urgência, a mão de Lorena desceu um pouco mais. O toque metálico e firme do polegar de Lorena tateando desajeitadamente sobre o botão de ferro da calça jeans de Eduarda trouxe a detetive de volta à realidade em um baque surdo e congelante.

O choque térmico do raciocínio a atingiu. A grama sob a manta grossa estava ficando cada vez mais úmida. O vento continuava gelado, agora com um tom noturno inconfundível. A luz do sol havia sumido quase que completamente por trás das araucárias majestosas. Elas estavam completamente ao ar livre, no meio do quintal.

Eduarda abriu os olhos arregalados, o peito subindo e descendo descontroladamente, o ar gelado invadindo os pulmões em grandes lufadas. O instinto inquebrável de proteção, a promessa silenciosa e sagrada que havia feito a si mesma sobre cuidar da garota, falou muito mais alto e gritou na sua mente, superando o desejo latejante que pulsava em suas veias.

Com um esforço físico e mental que quase a fez chorar de frustração ali mesmo, Eduarda moveu as mãos, tirando-as com dor debaixo da camisa quente de Lorena, e segurou os dois pulsos da morena com uma firmeza gentil, mas implacável. Não foi um movimento violento ou assustado; foi extremamente cuidadoso, mas a mensagem era inegável.

Ela interrompeu a trilha de beijos molhados que Lorena ainda distribuía avidamente em seu pescoço.

— Lo... Lorena, meu amor, espera. — A voz de Eduarda estava incrivelmente rouca, falha, quase inaudível, arranhando a garganta seca. Ela precisou engolir em seco duas vezes e piscar várias vezes para conseguir articular as palavras.

Lorena parou instantaneamente, congelada pela interrupção. Ela ergueu a cabeça pesada. Os olhos verdes estavam escuros, as pupilas dilatadas a ponto de quase engolir a íris por conta da luxúria, a respiração pesada e quente batendo compassada contra o rosto frio de Eduarda. O batom labial que ela usava havia borrado não apenas na boca de Eduarda, mas em seu próprio queixo. As covinhas charmosas haviam sumido do mapa, substituídas por uma expressão de confusão genuína e um toque de pânico.

— O que foi? O que eu fiz? Eu machuquei você? — Lorena perguntou apressada, a voz ofegante, a preocupação rompendo a espessa névoa do tesão instantaneamente, as sobrancelhas se juntando em um vinco de culpa.

— Não, vida. Não, claro que não. Você é absolutamente perfeita. Nunca me machucaria. — Eduarda apressou-se em responder para acalmar a ansiedade alheia, soltando os pulsos de Lorena apenas para levar as próprias mãos trêmulas ao rosto dela, segurando-o com um carinho que era dolorosamente doce e afetuoso. Ela acariciou as bochechas coradas e quentes da namorada com os polegares, tentando ancorar as duas na realidade. — É só que... meu bem, olha em volta.

Lorena franziu o cenho, piscando os olhos algumas vezes, lutando com muita dificuldade para desviar a atenção da boca inchada e atrativa de Eduarda e focar no ambiente ao redor. A realidade era um banho de água fria literal. O sol havia sumido completamente atrás das árvores imensas. O céu estava ganhando um tom profundo de roxo e azul escuro, anunciando a noite. A temperatura havia despencado de forma absurda nos últimos dez minutos, e a grama ao redor da manta onde estavam deitadas estava começando a acumular o sereno gelado do fim de tarde.

— A gente está literalmente no meio do quintal. — Eduarda sussurrou, a voz carregada de uma culpa sincera por ter que ser a adulta chata e parar aquilo, mas transbordando de uma ternura que só ela possuía no mundo. — Eu sei muito bem que eu disse lá no carro que a gente não ia pular etapas, e eu confesso que quase joguei todas as minhas regras pela janela agora porque você me deixa completamente sem chão. Mas eu não quero, eu me recuso, a deixar que a sua primeira vez seja assim. No chão duro do quintal, no meio do mato, com você passando frio com essa blusinha curta, e a gente correndo o risco de ficar toda suja de terra úmida e grama pinicando. Você merece o mundo, Lorena. Não um amasso improvisado no escuro.

Lorena soltou uma respiração pesada e frustrada pelo nariz, os ombros caindo visivelmente enquanto ela processava o argumento irrefutável. A frustração a atingiu como uma parede de tijolos. Ela se sentou sobre as próprias pernas, saindo com relutância de cima do corpo de Eduarda, passando a mão nervosamente pelos cabelos castanhos espessos e bagunçados.

A calça bege e elegante estava inegavelmente amassada na altura dos joelhos pelo atrito com a manta, e a camisa curta parecia ainda mais fora de lugar e insuficiente agora que o calor protetor do corpo de Eduarda não estava mais ali para blindá-la do vento da serra.

— Duda, eu não ligo pra grama. Eu juro por Deus, por tudo que é mais sagrado, que eu não ligo pra um pouco de terra na minha calça. — A voz de Lorena carregava um misto infantil de manha e irritação genuína com a quebra do clima. Ela cruzou os braços em frente ao corpo, e a barriga exposta encolheu-se involuntariamente quando uma rajada de vento mais forte varreu o quintal, fazendo-a arrepiar dos pés à cabeça.

Eduarda se sentou lentamente na manta xadrez, ajeitando a regata verde musgo que havia sido repuxada para cima durante o frenesi. Ela suspirou fundo, esticou o braço e pegou a jaqueta marrom de couro que estava largada de lado sobre a grama, vestindo-a rapidamente. O frio cortante havia voltado a ser um fator impossível de ignorar.

Ela se arrastou de joelhos pela manta, aproximando-se da namorada emburrada. Ignorando solenemente a comida maravilhosa e intocada que ainda estava espalhada nos potinhos entre elas, Eduarda abraçou Lorena por trás. Os braços fortes da policial envolveram a cintura da morena, puxando-a com firmeza contra o próprio peito quente protegido pela jaqueta. Eduarda encostou o queixo no ombro tenso de Lorena, beijando a bochecha fria dela de forma prolongada, estalada e imensamente carinhosa.

— Mas eu ligo. Eu ligo muito, Lorena. Mais do que você imagina. — Eduarda murmurou contra a pele macia dela, a voz mansa, tranquilizadora e cheia de amor. — Eu prometi a mim mesma há semanas que seria perfeito pra você. Que você teria um quarto quentinho, uma cama incrivelmente confortável, lençóis limpos cheirando a amaciante, que a gente teria todo o tempo do mundo pra tirar a roupa uma da outra sem o vento da Mantiqueira congelando nossos ossos. Você vale cada segundo do esforço de esperar mais algumas horas. Por favor, não fica brava comigo.

Lorena fechou os olhos e encostou a nuca pesada no ombro acolhedor da namorada. Ela soltou a tensão acumulada nos braços cruzados, e permitiu-se relaxar e ser abraçada. O calor natural e a jaqueta de couro de Eduarda envolviam suas costas congeladas, e o cheiro do perfume dela acalmava seus nervos à flor da pele. O lado puramente racional de Lorena concordava integralmente com cada sílaba que saiu da boca da ruiva. Era inegável e comovente o quanto Eduarda a amava a ponto de lutar contra o próprio desejo e frear o próprio corpo só para garantir o conforto absoluto e a segurança emocional dela.

Mas o lado irracional... ah, o lado irracional. O corpo fervendo de hormônios, juventude e antecipação... esse lado queria virar e estapear a ruiva por ser tão nobre.

— Você é muito, mas muito irritante quando tem razão, sabia disso? — Lorena resmungou, a manha ainda presente, virando o rosto apenas o suficiente para deixar um beijo preguiçoso e suave na mandíbula desenhada de Eduarda. As covinhas voltaram a aparecer timidamente nas bochechas, embora o olhar verde obstinado e perigoso continuasse brilhando no escuro. — Mas você tem plena consciência de que está cavando a própria cova, não é, investigadora? Se a gente guardar isso tudo, for lá pra dentro, e você me colocar naquela cama confortável e perfeita que você tanto faz questão... eu não vou deixar você pregar o olho até domingo de manhã. Considere-se avisada.

Eduarda riu, um som baixo, rouco e genuíno que vibrou no peito de Lorena através do abraço. A policial apertou o aperto na cintura fina da namorada, sentindo a textura rica da calça de alfaiataria sob seus dedos firmes.

— Eu estou contando exatamente com isso, meu bem. E eu prometo que não vou reclamar do cansaço.

A promessa de Eduarda pairou densa no ar frio, muito mais pesada do que o sereno gelado que já molhava as bordas da manta na grama. A tensão sexual, que havia escalado em um ritmo assustador até quase o ponto de ruptura irreversível, havia sido estrategicamente recolhida e contida pela razão. No entanto, ela não havia se dissipado nem um milímetro. Muito pelo contrário. Ela estava ali, latejando furiosamente entre as duas, muito mais forte e madura do que antes, pronta para explodir sem misericórdia na primeira oportunidade que tivessem dentro das quatro paredes protetoras da casa.

— Vem. — Eduarda soltou o abraço com relutância e ficou de pé num movimento rápido, esfregando as mãos para aquecê-las antes de oferecer a mão direita para ajudar Lorena a levantar do chão duro. — Vamos recolher todos esses potinhos maravilhosos e levar tudo lá pra dentro antes que a gente vire picolé. A temperatura deve estar beliscando os oito graus agora, com sensação térmica de menos. A lareira da sala precisa ser acesa urgente, e eu acho que vi algumas garrafas de vinho muito boas na adega do meu pai que vão combinar perfeitamente com esse queijo.

Lorena aceitou a mão quente de Eduarda e ficou de pé num salto elegante, batendo as palmas das mãos na calça bege para tirar apressadamente os fiapos de grama úmida que haviam grudado no tecido. Ela observou em silêncio enquanto Eduarda se abaixava novamente e começava a empilhar os potes de vidro com homus e queijo vegano de volta na sacola térmica azul, a jaqueta marrom acompanhando os movimentos precisos, eficientes e cuidadosos da detetive.

A paciência de Lorena havia sido esticada ao seu limite elástico absoluto. O piquenique vegano, que deveria ser um momento de calmaria, havia terminado abruptamente antes mesmo de a fome real por comida ser saciada. Em seu lugar, uma fome muito mais primal, incontrolável e avassaladora havia tomado conta de cada célula do seu corpo.

Enquanto caminhavam lado a lado de volta para a varanda de madeira sob a luz fraca e prateada da lua que começava a despontar no céu, carregando a manta pesada e os alimentos salvos do frio, Lorena não conseguia tirar os olhos das costas de Eduarda. O jogo de paciência de gato e rato estava prestes a acabar de forma definitiva. O sol havia se posto, e com ele, a necessidade de agir de forma contida ao ar livre havia desaparecido. A noite de inverno havia chegado com força a Campos do Jordão, e com ela, o fim de absolutamente todas as desculpas e limites impostos.

A porta de madeira se fechou com um estrondo abafado, cortando instantaneamente o vento noturno que castigava as árvores do lado de fora. O som da fechadura girando, trancada pelas mãos ainda trêmulas de Eduarda, ecoou pelo hall escuro da casa de campo como um ponto final definitivo para qualquer tentativa de fuga. Elas estavam dentro. Isoladas, protegidas do frio implacável da Serra da Mantiqueira, e, o mais importante de tudo: sozinhas.

O contraste térmico foi imediato. Embora a casa ainda estivesse fria pela falta de uso, a ausência da ventania cortante já era um alívio absurdo. Lorena soltou um suspiro longo, audível e trêmulo, deixando a sacola térmica azul escorregar de seu ombro até o chão de tábua corrida com um baque suave. Ela cruzou os braços com força ao redor do próprio corpo, esfregando as mãos contra a pele arrepiada da barriga que a camisa de botão curta deixava exposta.

— Eu achei genuinamente que a gente ia morrer congelada lá no gramado. — Lorena murmurou, a voz ainda vibrando pelo frio, os dentes batendo levemente. Ela olhou para Eduarda, que estava parada a poucos passos de distância, a respiração pesada marcando o peito sob a jaqueta de couro marrom. — E você ainda queria que a gente ficasse catando potinho de homus no escuro.

Eduarda soltou uma risada baixa, anasalada, e balançou a cabeça. A luz fraca do hall iluminava os fios ruivos bagunçados pelo vento e pelo beijo desesperado que haviam compartilhado minutos atrás. Ela se aproximou, diminuindo a distância em dois passos precisos, e levou as mãos quentes até os braços cruzados de Lorena, esfregando o tecido da camisa clara para tentar aquecê-la.

— Eu não queria que a gente morresse congelada. Eu só estava tentando salvar o seu jantar perfeitamente planejado, senhorita Ferette. — O tom de Eduarda era manso, carregado daquela paciência doce que fazia o coração de Lorena errar as batidas. Os olhos castanhos da policial desceram rapidamente para o abdômen nu da namorada, e ela franziu o cenho em uma preocupação genuína. — E eu avisei que essa roupa não ia aguentar o clima daqui. Você é muito teimosa.

— E você é muito controladora, detetive. — Lorena rebateu, mas sem nenhuma acidez. Ela descruzou os braços e deixou as mãos descansarem na cintura de Eduarda, sentindo a textura do couro da jaqueta. As covinhas apareceram em suas bochechas, um sorriso vitorioso despontando nos lábios que ainda estavam inchados e avermelhados. — Mas eu admito que entrar foi a melhor decisão. Eu não estava mais sentindo os dedos dos pés dentro do tênis.

— Vem. — Eduarda puxou Lorena com delicadeza pela mão, guiando-a pelo hall até a ampla sala de estar. — Pega a térmica. Nós vamos direto para a cozinha. Eu acendo a lareira depois, quando a gente vier para o sofá. A cozinha é menor, vai esquentar muito mais rápido com o fogão ligado, e a gente precisa comer alguma coisa antes que o meu estômago ou o seu comecem a roncar de verdade.

Lorena obedeceu sem pestanejar. Ela pegou a sacola pela alça e seguiu a namorada pela casa escura até que Eduarda alcançou o interruptor na parede. A luz amarela e quente inundou o ambiente. A cozinha da casa de campo era um sonho rústico: armários de madeira maciça, uma ilha central de granito escuro enorme, panelas de cobre penduradas sobre o fogão industrial e uma janela larga que, agora, refletia apenas a escuridão da noite lá fora.

Eduarda caminhou direto para a ilha central. Ela parou de frente para o balcão, suspirou fundo, e começou a tirar a jaqueta de couro marrom. O movimento foi lento, quase coreografado. Ela puxou os braços para fora das mangas pesadas, jogando a peça de roupa sobre uma das banquetas altas.

Lorena, que acabara de colocar a sacola térmica sobre o granito, parou e ficou apenas observando. Sem a jaqueta, Eduarda exibia a regata verde musgo que se ajustava perfeitamente ao seu corpo. O tecido marcava os ombros desenhados e a postura ereta que a profissão lhe exigia, mas também evidenciava a respiração ainda um pouco descompassada. A calça jeans escura abraçava suas pernas e quadril com precisão. Havia algo na simplicidade daquela roupa que deixava Lorena completamente fascinada.

— O que foi? — Eduarda perguntou, virando-se para a pia para lavar as mãos. Ela sentiu o olhar queimando em suas costas.

— Nada. — Lorena apoiou os cotovelos na ilha de granito, apoiando o queixo nas mãos e sorriu de lado. — Eu só estava pensando em como você consegue ser tão linda lavando as mãos. É um dom irritante.

Eduarda secou as mãos em um pano de prato limpo que estava dobrado perto do escorredor, balançando a cabeça com um sorriso contido. Ela caminhou de volta para a ilha, parando de frente para Lorena, com a bancada de granito separando as duas.

— Você não vai conseguir me distrair com elogios agora, Lorena Ferette. A gente precisa cozinhar. O que sobrou do nosso piquenique abortado?

Lorena suspirou teatralmente e abriu o zíper da sacola térmica.

— Bom, o homus e o pão estão intactos. Os morangos e o queijo de castanhas também. Mas isso é entrada. Para o prato principal, eu trouxe macarrão, tomates cereja, manjericão fresco, abobrinha e bastante alho. A ideia era fazer uma massa rústica, rápida e quente.

— Perfeito. — Eduarda arregaçou as mangas invisíveis da regata, assumindo o controle da situação com a mesma eficiência que usava na delegacia, mas com um brilho de empolgação nos olhos. — Você senta aí e tenta não congelar. Eu corto os legumes e coloco a água do macarrão para ferver.

— Eu posso ajudar. Eu não sou inútil na cozinha, Fragoso. — Lorena protestou, fingindo ofensa, erguendo levemente a postura.

— Eu sei que não é. Mas você está tremendo. — Eduarda apontou o dedo indicador para a mão de Lorena, que ainda tinha um leve tremor imperceptível para quem não a conhecesse tão bem. — Senta. Fica quietinha. Deixa eu cuidar de você um pouco.

Ouvir aquilo com aquela voz macia e firme ao mesmo tempo fez o estômago de Lorena dar um salto duplo. Era impossível não ceder àquela mulher. Eduarda não mandava; ela cuidava. E isso desarmava qualquer resistência que Lorena pudesse ter.

A morena puxou uma das banquetas altas e sentou-se. A camisa de botão curta subiu mais um pouco, deixando a barriga exposta à mercê da temperatura da cozinha que ainda começava a se aquecer. Ela cruzou as longas pernas, a calça caindo com elegância, e ficou apenas assistindo Eduarda se movimentar pelo espaço com uma familiaridade invejável.

A detetive abriu os armários de baixo, tirando uma panela grande e uma frigideira de fundo grosso. O som do metal batendo no fogão preencheu o silêncio. Eduarda ligou a boca do fogão, e o fogo azul iluminou seu rosto concentrado. Ela pegou uma tábua de corte de madeira, uma faca de chef imensa que estava no cepo sobre a pia, e começou a lavar os tomates cereja e a abobrinha que Lorena havia tirado da térmica.

O clima era de uma intimidade doméstica que nenhuma das duas havia experimentado com tanta intensidade antes. Nesses meses de namoro, elas ficavam na Galeria com Maggye, pediam comida por aplicativo, assistiam filmes, mas aquele nível de isolamento, de cozinhar uma para a outra no silêncio de uma casa no meio do nada... era novo. Era profundo. E era perigoso para o autocontrole de ambas.

Eduarda começou a fatiar a abobrinha. O som da lâmina afiada batendo ritmicamente contra a madeira era o único ruído além do chiado da água começando a esquentar na panela.

— Duda. — A voz de Lorena soou depois de longos minutos, quebrando o transe de Eduarda.

A ruiva parou a faca no ar, virando o rosto para olhar a namorada.

— Oi. Fome? A água já vai ferver.

— Não, não é fome. — Lorena descruzou as pernas. Ela apontou para o canto da cozinha, onde um pequeno móvel de madeira funcionava como uma adega improvisada. Algumas garrafas repousavam ali, cobertas por uma fina camada de poeira. — Você disse lá fora que tinha vinho.

Eduarda olhou para a adega e depois voltou os olhos castanhos para Lorena, visivelmente confusa. Ela largou a faca sobre a tábua e encostou o quadril na pia, cruzando os braços sob os seios.

— Eu disse. Tem algumas garrafas do meu pai aí. Mas eu achei que você tinha trazido suco de uva integral na térmica.

— Eu trouxe. Mas eu não quero suco. — O olhar verde de Lorena era direto, sem desvios, carregado de uma decisão súbita. Ela sustentou o olhar da detetive com uma firmeza que beirava o desafio. — Eu quero uma taça de vinho.

O silêncio que se instalou na cozinha foi pesado. Eduarda franziu a testa, a expressão doce dando lugar a uma surpresa cautelosa. Ela descruzou os braços e deu um passo na direção da banqueta onde Lorena estava sentada.

— Lorena, meu amor, você não bebe. — Eduarda disse devagar, como se lembrasse a namorada de um fato óbvio. — Você é vegana restrita, você medita, você nunca colocou uma gota de álcool na boca desde que a gente se conheceu. Você sempre disse que odiava a sensação de perder o controle do próprio corpo e da própria mente.

Lorena não desviou o olhar. Pelo contrário, as covinhas apareceram, mas não havia humor nelas. Havia uma intensidade crua. Ela deslizou da banqueta, os tênis tocando o chão sem fazer barulho, e encurtou a distância até Eduarda, parando a menos de um palmo dela.

— Você tem razão. Eu não bebo. Eu odeio perder o controle. — Lorena sussurrou, a voz caindo uma oitava, arrastada, preenchendo o pequeno espaço entre elas. A diferença de altura obrigou Eduarda a erguer levemente o queixo para encará-la. — Mas hoje é diferente, Duda. Essa noite é diferente. Eu não quero ter o controle de absolutamente nada.

Eduarda engoliu em seco. A garganta arranhou. As palavras de Lorena não eram apenas sobre uma taça de vinho, e ambas sabiam muito bem disso. Era uma declaração de intenções. Era a entrega completa e absoluta da vulnerabilidade de Lorena nas mãos da policial.

— Lo... — Eduarda tentou formular uma frase, mas a voz falhou. O peso daquela confiança era esmagador e incrivelmente excitante.

— Eu quero relaxar. O frio travou meus músculos. O meu coração está batendo tão rápido desde que a gente saiu de São Paulo que eu sinto que vou ter um colapso. — Lorena continuou, as mãos subindo para segurar os braços tensos de Eduarda, os dedos longos apertando a pele nua logo acima de onde a regata verde terminava. O toque era quente, urgente. — Eu não vou encher a cara. É só uma taça. Eu quero sentir o gosto de um vinho bom. Eu quero sentir o meu sangue esquentar de verdade. E eu quero que você beba comigo. Por favor.

A súplica nos olhos verdes, combinada com a proximidade e o calor das mãos dela, foi o golpe final nas defesas racionais de Eduarda. A ruiva soltou um suspiro longo, quebrando o contato visual por um segundo apenas para olhar para os próprios pés antes de voltar a encará-la, o sorriso derretido ressurgindo nos lábios.

— Você é impossível de dizer não, sabia? — Eduarda murmurou, levantando a mão e passando o polegar pela maçã do rosto de Lorena com uma ternura absurda.

— Eu conto com isso diariamente. — Lorena sorriu de volta, aliviada, soltando os braços da detetive e recuando meio passo para dar espaço.

Eduarda balançou a cabeça e virou-se em direção à adega rústica. Ela se abaixou, os olhos correndo pelos rótulos até encontrar um Cabernet Sauvignon chileno que sabia que o pai guardava para ocasiões especiais. Aquela noite, indiscutivelmente, era a maior ocasião especial de sua vida. Ela puxou a garrafa, limpou a poeira com o antebraço e foi até a gaveta da ilha buscar o saca-rolhas e duas taças de cristal guardadas no armário de cima.

O som do saca-rolhas perfurando a cortiça foi alto no silêncio da cozinha. Eduarda puxou com força, e o "pop" seco anunciou a quebra da regra de ouro de Lorena.

A policial despejou o líquido vermelho escuro e espesso nas duas taças, enchendo apenas um terço de cada uma. O aroma de frutas vermelhas e carvalho tomou conta do ar, misturando-se ao cheiro do alho que estava separado na tábua. Ela pegou uma das taças pela haste e a estendeu para Lorena.

A morena pegou o cristal fino. Seus dedos roçaram nos de Eduarda na troca, uma faísca silenciosa e eletrizante.

— À nossa primeira noite aqui. — Eduarda propôs um brinde simples, a voz rouca, erguendo a própria taça.

— À nossa primeira vez em tudo. — Lorena corrigiu, o tom carregado de duplo sentido, os olhos travados nos de Eduarda.

O tilintar do cristal soou frágil. Lorena levou a taça aos lábios e deu o primeiro gole. Eduarda observou atentamente. Ela viu a garganta de Lorena trabalhar, viu a testa dela franzir de leve com o impacto inicial do álcool não familiar descendo rasgando a garganta, e depois, viu a expressão dela suavizar. Os olhos verdes se fecharam por um segundo, os cílios longos repousando nas bochechas, enquanto o calor prometido do vinho atingia o estômago dela.

Quando Lorena abriu os olhos novamente, o brilho neles estava diferente. Mais líquido, mais letal, mais solto.

— Desce queimando. — Lorena comentou, passando a língua pelos próprios lábios, que agora estavam manchados com um tom avermelhado pelo vinho. — Mas o calor que deixa depois é... interessante.

— Vá devagar. O seu estômago está vazio desde o lanche da tarde, e você não tem resistência nenhuma. Isso vai subir para a sua cabeça em dez minutos. — Eduarda alertou, dando um gole em sua própria taça. O vinho era encorpado e delicioso, mas o foco de Eduarda não estava na bebida. Estava inteiramente nas reações da mulher à sua frente.

— Esse é exatamente o plano. — Lorena deu um sorriso enviesado e colocou a taça de volta sobre o granito da ilha. — Agora, volte para a sua abobrinha, chef. Eu estou com fome.

Eduarda riu, virando as costas e retornando para a tábua de corte. Ela bebeu mais um grande gole do vinho antes de deixar a taça ao lado da pia. O alho foi descascado e amassado com a lateral da faca em movimentos precisos. O azeite caiu na frigideira quente com um chiado sedutor, e logo os dentes de alho douraram, enchendo a cozinha inteira com um aroma insuperável de comida caseira. Os tomates cereja seguiram o mesmo caminho, estalando na frigideira.

Enquanto Eduarda trabalhava, focada na panela, mexendo os ingredientes com uma colher de pau, o álcool começou a cumprir sua promessa na corrente sanguínea de Lorena.

A morena sentiu uma onda de calor agradável começar na boca do estômago e se espalhar por seus membros. A tensão acumulada do frio da viagem e a frustração do piquenique começaram a derreter, substituídas por uma coragem pulsante e uma ausência total de inibições. O vinho havia silenciado a voz racional que dizia para ela esperar as coisas acontecerem naturalmente.

Lorena observou as costas de Eduarda. Viu a tensão dos músculos dos ombros da detetive sob a regata verde a cada movimento que ela fazia mexendo a comida. Viu como a calça jeans abraçava as coxas firmes dela. Viu a nuca exposta, os fios ruivos levemente úmidos de suor pela proximidade com o fogão quente.

Ela não aguentava mais esperar. A cozinha estava aquecida pelo fogão, o cheiro de comida era embriagante, e a visão de Eduarda cozinhando para ela era a coisa mais erótica que ela já havia presenciado na vida.

Lorena pegou a taça, deu um segundo gole, um pouco mais generoso dessa vez, e engoliu de uma vez. Ela deixou a taça vazia sobre a bancada. O som do vidro no granito não foi ouvido por Eduarda, que estava concentrada em adicionar as abobrinhas fatiadas na frigideira.

Com passos lentos, felinos e silenciosos graças aos tênis, Lorena deu a volta na ilha central. Ela parou exatamente atrás de Eduarda, tão perto que podia sentir o calor que emanava do corpo da policial somado ao calor do fogão.

Eduarda não percebeu a aproximação até que foi tarde demais.

Sem qualquer aviso, Lorena ergueu os braços e envolveu a cintura de Eduarda em um abraço por trás. O impacto foi duplo e paralisante. Primeiro, a força repentina do abraço; segundo, o choque térmico avassalador. A barriga completamente nua de Lorena, que já estava quente pela temperatura ambiente e pelo vinho, colou-se rigidamente contra as costas de Eduarda, separadas apenas pelo tecido fino da regata verde musgo.

Eduarda engasgou, a mão que segurava a colher de pau congelando no ar sobre a frigideira fervente. O coração dela disparou violentamente contra as costelas, o baque surdo ecoando em seus ouvidos.

— Lorena... — A repreensão de Eduarda morreu antes de sair completamente da garganta. A voz falhou em uma nota aguda.

Lorena não recuou. Ela encurralou Eduarda contra a pia e o fogão, usando o próprio peso e a vantagem de altura. Ela encostou o queixo no ombro esquerdo de Eduarda, o rosto virado para o pescoço da ruiva. O cheiro de baunilha e vinho invadiu o espaço aéreo da detetive, misturando-se com o cheiro do azeite e do alho.

As mãos de Lorena, longas e firmes, espalmaram-se sobre a barriga lisa de Eduarda, logo acima do cinto da calça jeans escura. Os dedos apertaram o tecido da regata, puxando o corpo da policial ainda mais contra si, colando seus quadris sem deixar um único milímetro de ar entre elas.

— Você cozinha muito concentrada, sabia? — Lorena sussurrou, a voz arrastada pelo álcool, rouca de desejo, os lábios roçando perigosamente o lóbulo da orelha de Eduarda a cada palavra pronunciada. — Fica com uma ruga adorável bem no meio da testa.

Eduarda fechou os olhos. Um arrepio violento e incontrolável subiu pela sua espinha, arrepiando todos os pelos do seu braço. A colher que ela ainda segurava com a outra mão tremeu visivelmente antes que ela a soltasse sobre a tábua de madeira com um baque seco, temendo se machucar diante daquele ataque sensorial.

— O que você está fazendo? — Eduarda tentou soar racional, tentou invocar o tom de comando, mas o que saiu de sua boca foi uma súplica fraca e derretida. Ela tentou se virar, mas o abraço de Lorena era uma algema deliciosa. A água do macarrão começava a ferver ruidosamente na panela ao lado.

— O que eu venho querendo fazer há meses. — A resposta de Lorena veio acompanhada de ação.

A morena virou o rosto levemente e abriu a boca, pressionando os lábios úmidos de vinho diretamente contra a pele pálida e sensível do pescoço de Eduarda, bem no ponto onde o ombro encontrava o pescoço. Ela não deu um beijo simples. Ela sugou a pele ali, os dentes arranhando de leve a superfície, a língua quente demarcando território sem a menor hesitação.

Eduarda soltou um gemido sôfrego, agudo e completamente involuntário, a cabeça caindo para o lado oposto para dar mais acesso a Lorena. As mãos da detetive, que haviam ficado sem função, procuraram desesperadamente um apoio e encontraram a borda fria da pia de mármore. Seus nós dos dedos ficaram brancos pela força com que ela se segurou para não perder as forças nas pernas.

O fogo sob a frigideira continuava aceso. O azeite estalava. A água fervia borbulhando. Mas o mundo de Eduarda havia se reduzido ao espaço entre o seu pescoço e a boca insaciável de Lorena.

— Lorena, o jantar... a panela... a gente precisa... — Eduarda tentou balbuciar, lutando bravamente para manter o cérebro conectado à realidade. O instinto protetor e de cuidadora ainda tentava gritar no fundo de sua mente entorpecida.

As mãos de Lorena ignoraram o apelo. Elas deixaram a barriga de Eduarda e subiram. Uma das mãos deslizou perigosamente para cima, sobre o peito esquerdo da policial, apertando levemente através da regata verde. A outra mão mergulhou de forma possessiva dentro da calça jeans traseira de Eduarda, apertando o tecido grosso, empurrando o quadril da ruiva contra a própria pélvis com uma urgência que fez Eduarda arfar alto.

A inexperiência de Lorena não a impedia de ser absurdamente instintiva. O álcool havia diluído qualquer medo de errar, deixando apenas a fome pura e destilada.

— Dane-se o jantar, Duda. Eu não me importo com o jantar. Eu não estou com fome de comida. — Lorena rosnou contra a pele dela, a voz abafada pelo contato. Ela subiu a trilha de beijos, abandonando o pescoço e mordendo a linha do maxilar de Eduarda. — Você disse que queria uma cama. Que queria que fosse perfeito e no quarto, lembra? O quarto é lá em cima. Me leva pra lá.

Foi a gota d'água.

O muro de tijolos que Eduarda havia construído com meticuloso cuidado e paciência infinita durante meses, a muralha de autocontrole que havia resistido à viagem de carro, às provocações na grama, ao frio e à própria lógica, ruiu em um único segundo. Desabou sem deixar rastros. A passividade e o controle da detetive desapareceram, consumidos pelo fogo que a namorada havia provocado e que agora estava fora de controle.

Eduarda Fragoso não era apenas a namorada fofa e paciente. Ela era uma mulher de vinte e cinco anos, apaixonada e faminta, que havia chegado ao seu limite biológico e emocional.

Em um movimento rápido, violento e imensamente ágil, impulsionado pela pura adrenalina e desejo acumulados, Eduarda esticou a mão e girou o botão do fogão industrial, desligando o fogo. O silêncio da boca do fogão se apagando contrastou com o barulho da panela de água. Ela não se importou.

Com a outra mão, Eduarda segurou os pulsos de Lorena que estavam em seu corpo e forçou a abertura do abraço. Antes que a morena pudesse protestar ou reclamar da quebra de contato, Eduarda girou nos próprios calcanhares com uma força surpreendente, invertendo completamente as posições.

Agora era Eduarda quem estava no comando da situação.

Ela avançou um passo largo, usando o próprio corpo para empurrar Lorena para trás até que a lombar da namorada batesse contra a beirada da ilha de granito. O choque da inversão de poder fez Lorena arregalar os olhos verdes, a surpresa cortando a névoa do vinho por uma fração de segundo.

Mas Eduarda não lhe deu tempo para respirar ou falar.

A detetive cravou as duas mãos na cintura de Lorena. Com um puxão firme para cima e para frente, ajudada pelo impulso da própria Lorena que cruzou as pernas na cintura dela por instinto, Eduarda a levantou do chão e a sentou no balcão de granito gelado da ilha central.

O movimento foi fluido e perfeitamente agressivo.

Antes mesmo de as pernas de Lorena se assentarem ao redor de seus quadris, o rosto de Eduarda já estava sobre o dela. A boca da ruiva colidiu contra a de Lorena com uma ferocidade e uma pressa que a morena ainda não conhecia. O choque de dentes foi real, mas foi imediatamente ignorado, anestesiado pela força avassaladora do beijo que se seguiu.

O gosto de vinho tinto, denso e encorpado, estava presente na boca de ambas, misturado ao sabor salgado da urgência. Eduarda beijou Lorena com a intensidade de quem estava com sede há meses e finalmente havia encontrado água. Foi um beijo profundo, descontrolado, as línguas lutando por domínio em uma dança molhada e barulhenta que ecoava pela cozinha agora silenciosa de fogão.

Lorena soltou um gemido estrangulado de pura satisfação e vitória no fundo da garganta. Suas pernas se fecharam como um alicate ao redor da cintura de Eduarda, a calça bege prendendo a jeans escura, puxando-a para ficar alojada bem no meio de suas coxas. Ela cravou as unhas nos ombros da regata verde de Eduarda, arranhando a pele nua dos braços da policial.

A postura doce havia morrido. Eduarda escorregou as mãos pelas coxas de Lorena, apertando o tecido de alfaiataria com força suficiente para deixar marcas, antes de subir as palmas apressadas pelas laterais do corpo dela. As mãos da detetive encontraram a pele nua e quente do abdômen de Lorena sob a camisa curta. Eduarda espalmou as mãos ali, sentindo a contração do abdômen da namorada contra as pontas de seus dedos a cada beijo arrancado.

Eduarda rompeu o beijo com um puxão brusco, as testas coladas, ambas ofegantes, os peitos subindo e descendo descompassados, os olhos fixos um no outro. O olhar de Eduarda estava escurecido, as pupilas totalmente dilatadas, o maxilar travado. A fofura havia desaparecido, substituída por uma fome territorial.

— Você não sabe a hora de parar, não é? — Eduarda falou, a voz irreconhecível, um rosnado grave que vibrou contra a boca entreaberta de Lorena. A respiração das duas se misturava em pequenas nuvens invisíveis de calor na cozinha.

Lorena sorriu. O sorriso iluminado, vitorioso e absurdo, exibindo as covinhas e os lábios inchados e brilhantes de saliva. Ela passou as mãos pelos cabelos ruivos de Eduarda, puxando a cabeça dela de volta para perto, sem quebrar o contato visual por um milésimo de segundo.

— Eu nunca sei a hora de parar quando se trata de você. E eu avisei para não subestimar o tempo que a gente tem. Você venceu as rodadas da paciência, Fragoso. — Lorena sussurrou, a ousadia transbordando de cada poro, as pernas apertando mais a cintura da outra. — Mas a paciência acabou. E o jantar também.

Eduarda fechou os olhos e soltou um sorriso de canto, uma mistura de rendição completa e aceitação do destino inevitável que a namorada havia selado. A batalha do autocontrole estava oficialmente perdida, e ela nunca havia se sentido tão aliviada em perder uma guerra.

A detetive desceu as mãos pela cintura de Lorena, apertando as coxas dela e a puxando da beirada do balcão de granito. Os pés de Lorena tocaram o chão com um baque surdo dos tênis na madeira. Eduarda não quebrou o abraço. Na verdade, ela agarrou a mão direita de Lorena com firmeza, entrelaçando os dedos com força brutal.

— Você tem toda a razão. O jantar acabou. — Eduarda decretou, o tom de voz grave e sem volta.

Sem olhar para trás, sem se importar com a frigideira cheia de abobrinhas pela metade, com o alho dourado, com a panela de água fervendida ou com a garrafa de vinho caro deixada aberta no balcão ao lado das taças meio cheias. Eduarda virou as costas para a ilha central.

Ela puxou Lorena pela mão, caminhando com passos firmes e apressados, quase correndo em sua determinação, cruzando a sala de estar escura em direção ao hall onde estava o pé da escada de madeira que levava ao segundo andar. O caminho até o quarto principal, que havia sido cuidadosamente evitado desde a chegada, havia finalmente e irrevogavelmente começado.

O som dos passos apressados na escada de madeira maciça ecoava pelo hall silencioso. Eduarda não soltou a mão de Lorena em nenhum momento, os dedos entrelaçados com uma força que beirava a possessividade, puxando a namorada degrau por degrau com uma determinação cega. A escuridão do segundo andar não as intimidou. A detetive conhecia aquela casa de olhos fechados.

Ela empurrou a porta do quarto principal com o ombro, o estalo da madeira batendo contra a parede anunciando a chegada. O ambiente estava imerso em penumbra, iluminado apenas pela luz pálida da lua que invadia a fresta da cortina pesada, mas era o suficiente.

Antes que Lorena pudesse processar o tamanho da cama king size no centro do cômodo ou o frio do ar não aquecido, Eduarda a puxou para dentro e bateu a porta com o pé. No mesmo movimento fluido e bruto, a ruiva empurrou Lorena contra a madeira da porta trancada. O baque das costas da mais alta fez a calça de alfaiataria bege amassar contra o batente.

— Você passou dos limites lá embaixo — Eduarda rosnou, a voz grave, quase irreconhecível, o hálito quente e com gosto de vinho batendo contra o rosto de Lorena. Ela cravou as duas mãos na cintura nua da morena, os polegares afundando na pele acima do cós da calça.

— E você demorou meses pra tomar uma atitude — Lorena rebateu, o peito subindo e descendo freneticamente, a provocação inata ainda lutando para se manter na superfície. Ela ergueu o queixo, os olhos verdes brilhando em desafio. — Vai me prender por isso, investigadora?

O sorriso que rasgou os lábios de Eduarda não tinha um pingo da fofura habitual. Era letal, faminto, carregado de uma promessa que fez o estômago de Lorena despencar.

— Eu vou fazer você esquecer o próprio nome, Lorena. É isso que eu vou fazer.

Eduarda não esperou resposta. Ela tomou a boca de Lorena com uma urgência violenta, um beijo que não pedia permissão. As línguas se chocaram, lutando por espaço em uma dança molhada e barulhenta. A mão direita de Eduarda subiu da cintura, agarrando a nuca de Lorena por baixo dos cabelos castanhos, puxando o rosto dela para aprofundar o contato, enquanto a mão esquerda descia para a coxa dela, apertando a musculatura com força através do tecido largo.

Lorena soltou um gemido abafado, a cabeça batendo levemente contra a porta. Ela tentou manter o controle, tentou ser a garota atirada de sempre, mas a energia que emanava de Eduarda era esmagadora. A inexperiência bateu em sua porta na forma de um arrepio incontrolável. Era real. Estava acontecendo.

Eduarda sentiu a leve hesitação no corpo contra o seu. O tremor minúsculo nos ombros de Lorena. A detetive quebrou o beijo, ofegante, as testas coladas, e a encarou na penumbra. O olhar investigativo de Eduarda capturou a nuance imediatamente.

— O que foi? — Eduarda sussurrou, a voz ainda rouca, mas o tom perigosamente focado. Ela passou o polegar pelos lábios inchados de Lorena. — Bateu o peso?

Lorena engoliu em seco. As covinhas sumiram. A respiração dela estava curta.

— Não é peso — ela sussurrou de volta, as mãos segurando os braços firmes de Eduarda por cima da regata verde. — É só... é muito. Você é muito. Eu passei meses imaginando isso, mas você me prensando nessa porta, me olhando desse jeito... eu perdi o chão.

Eduarda sorriu de canto, um sorriso rasgado e confiante. Ela não recuou. Ela não ofereceu o ombro fofo ou um beijo na testa. Ela sabia que Lorena não precisava de pena, precisava ser conduzida com a mesma intensidade que provocou.

— Que bom que perdeu o chão. Porque eu vou te desmontar inteira, e você vai adorar cada segundo. — O tom de Eduarda era sujo, direto, despido de pudores. — Tira essa camisa. Agora.

Lorena sentiu o sangue ferver. A ordem direta, dita com aquela voz rouca, enviou uma onda elétrica direta para o seu baixo ventre. Sem desviar os olhos dos castanhos escuros e dominadores da namorada, Lorena levou as mãos trêmulas aos botões da camisa curta. Ela desfez um, dois, três botões. O tecido claro caiu pelos ombros e foi parar no chão escuro do quarto, revelando os seios pequenos e firmes, os mamilos já duros pelo frio e pela excitação.

Eduarda soltou uma respiração pesada, os olhos descendo e devorando a visão.

— Minha vez — Lorena exigiu, a voz ganhando força, o tesão superando a vulnerabilidade inicial. Ela avançou, segurando a barra da regata verde musgo de Eduarda com as duas mãos. Com um puxão agressivo para cima, ela arrancou a blusa da policial pela cabeça, jogando-a para qualquer canto.

O corpo desenhado de Eduarda, com a pele pálida e os ombros tensos, ficou exposto. Ela usava um top esportivo cinza, algo prático, mas que ressaltava a força dos seus braços e o volume dos seios.

Eduarda não deu tempo para Lorena admirar. Ela agarrou a calça de alfaiataria bege pela cintura, soltando o fecho metálico com um puxão ríspido e abaixando o zíper.

— Levanta os braços e segura em mim — Eduarda ordenou, a voz baixa. Lorena obedeceu imediatamente, passando os braços ao redor do pescoço da detetive.

Eduarda se abaixou levemente, puxando a calça bege e a calcinha de Lorena de uma só vez pelas pernas longas, obrigando-a a dar passos desajeitados para se livrar do tecido e dos tênis. Quando Lorena ficou completamente nua, sentindo o ar frio do quarto bater contra a pele febril, Eduarda se ergueu novamente, as mãos espalmadas nas coxas nuas e quentes da morena.

— Você é a mulher mais gostosa que eu já vi na minha vida — Eduarda sussurrou contra a barriga de Lorena, deixando um beijo molhado ali, bem acima do umbigo, antes de subir pelo peito e atacar o pescoço dela com os dentes.

Lorena arfou alto, jogando a cabeça para trás. As mãos dela agarraram os cabelos ruivos de Eduarda, puxando-os sem delicadeza.

— Tira a porra do jeans, Duda. Eu quero sentir você. — Lorena rosnou, o sotaque paulistano carregado pela urgência, a boca seca.

Eduarda riu contra o pescoço dela. Um som de puro deboche e luxúria. Ela deu um passo para trás, desabotoou o jeans escuro e o empurrou pelas pernas, chutando-o para o lado junto com os próprios sapatos e o top cinza. Nenhuma delas se importou com o frio do cômodo. O calor que irradiava entre os dois corpos nus no centro do quarto era o suficiente para incendiar a serra.

Sem aviso, Eduarda avançou. Ela envolveu as coxas de Lorena, erguendo-a do chão com facilidade. Lorena soltou um grito curto de surpresa e prendeu as pernas imediatamente ao redor do quadril estreito e forte de Eduarda.

A detetive caminhou os três passos que as separavam da cama e jogou Lorena de costas sobre o colchão. Os lençóis de algodão estavam gelados, causando um choque térmico violento nas costas quentes de Lorena, fazendo-a arquear a coluna para cima.

Antes que ela pudesse voltar ao lugar, Eduarda estava sobre ela, engatinhando como uma predadora no escuro, o joelho afundando no colchão macio. A ruiva parou pairando sobre o corpo da namorada, observando-a. O peito de Lorena subia e descia, a pele brilhando com um suor fino, os olhos verdes arregalados e fixos no rosto de Eduarda.

A ruiva inclinou-se sobre o corpo da mais nova devagar até que sua boca estivesse há milímetros de distância de seu mamilo rosado. Eduarda ergueu a língua lentamente sem desviar o olhar de Lorena e capturou o seio direito.

A de olhos verdes sentiu todo seu corpo tremer com o ato, até que Eduarda se afastou centímetros do local sensível apenas para soprá-lo suavemente. Aquela atitude enviou um choque elétrico que atravessou toda a espinha de Lorena, o que não passou despercebido pela ruiva.

Eduarda ergueu o corpo com cuidado e encarou fixamente a mulher sob si.

— Abre as pernas pra mim, amor. — O comando de Eduarda cortou o silêncio do quarto. Não foi um pedido fofo. Foi uma exigência absoluta.

Lorena não hesitou por uma fração de segundo. Ela separou os joelhos, cedendo completamente ao domínio de Eduarda. O movimento expôs seu centro úmido e pulsante à visão escurecida da ruiva.

Eduarda rastejou para o espaço entre as coxas de Lorena. Ela desceu o rosto, mas não foi direto ao ponto. Em vez disso, a boca da detetive começou um tormento lento e cruel. Ela beijou a parte interna das coxas de Lorena, arranhando a pele macia com os dentes, chupando pequenos pedaços de pele e deixando marcas vermelhas que floresciam no escuro.

— Duda... por favor... — Lorena gemeu, as mãos agarrando os lençóis gelados com força, os nós dos dedos brancos. O quadril dela começou a se mover involuntariamente, buscando o contato que Eduarda negava.

— Por favor o quê? — Eduarda provocou, a respiração quente batendo diretamente contra a intimidade exposta de Lorena. Ela subiu o olhar, encarando o rosto distorcido de prazer da mais nova. — Fala o que você quer. Você passou a viagem inteira falando. Não vai ficar calada agora.

— Eu quero você. Eu quero que você me toque. Me fode logo, Eduarda. — O palavrão saiu rasgado, quebrando qualquer resquício de garota inexperiente. Lorena não estava ali para ser apenas uma tela em branco.

O xingamento sujo fez os olhos de Eduarda brilharem com uma escuridão intensa.

— Com prazer.

Eduarda desceu a boca. O primeiro contato da língua quente e experiente da ruiva contra o clitóris intocado de Lorena foi como um choque de mil volts. Lorena gritou. Um grito agudo e gutural que foi absorvido pelas paredes de madeira da casa. As costas dela saíram totalmente do colchão, apoiadas apenas pelos calcanhares e pelos ombros.

Eduarda segurou os quadris de Lorena com as duas mãos, prendendo-a no lugar com uma força bruta, não permitindo que ela fugisse da intensidade. A língua de Eduarda era implacável. Ela chupava, lambia e pressionava com uma precisão cirúrgica, lendo cada espasmo das pernas de Lorena como se lesse a cena de um crime: descobrindo os pontos fracos, as reações nervosas, os limites de tolerância ao prazer.

— Puta merda, Duda... meu Deus... — Lorena soluçava entre gemidos altos, a cabeça jogando de um lado para o outro no travesseiro. As mãos dela soltaram os lençóis e agarraram os ombros nus de Eduarda, as unhas cravando na pele da detetive, marcando-a de vermelho.

Eduarda não parou. Quando sentiu os músculos das coxas de Lorena tremerem violentamente, anunciando que ela estava perto do limite, Eduarda levou a mão direita à intimidade dela. Os dedos longos e habilidosos, umedecidos pelo próprio desejo de Lorena, encontraram a entrada estreita.

A detetive fez uma pausa milimétrica. O instinto protetor relampejou rapidamente.

— Olha pra mim, Lorena. — Eduarda exigiu, a voz rouca, levantando o rosto. Os olhos verdes estavam opacos, perdidos na neblina do tesão. — Respira. Eu vou devagar, mas eu não vou parar. Entendeu?

Lorena assentiu freneticamente. — Não para. Só não para.

Eduarda introduziu um dedo. O atrito inicial, a barreira do hímen e a estreiteza da inexperiência a receberam. Lorena soltou um gemido agudo, o corpo enrijecendo levemente com o incômodo pontiagudo no meio do mar de prazer.

Eduarda retomou o ataque com a boca, usando os lábios e a língua para anestesiar qualquer dor, enquanto o dedo avançava milímetro por milímetro, esticando a carne, mapeando o interior quente e apertado. O gemido de dor de Lorena transformou-se quase instantaneamente em um gemido longo, arrastado e sujo quando Eduarda curvou o dedo lá dentro, acertando em cheio a parede sensível.

— Meu Deus, amor... É tão apertada, porra — Eduarda xingou baixinho, a voz rouca vibrando contra a pele de Lorena. Ela adicionou um segundo dedo, empurrando com firmeza, rompendo de vez o obstáculo.

Lorena arfou, as lágrimas de tensão e prazer se misturando nos cantos dos olhos, embora não houvesse choro de tristeza. Era uma sobrecarga sensorial absoluta. O movimento dos dedos de Eduarda começou. Vai e vem. Constante, ritmado, pesado. A cada estocada dos dedos, a língua de Eduarda acompanhava no clitóris, criando um curto-circuito no sistema nervoso de Lorena.

— Eduarda, eu acho que vou... eu não aguento... — Lorena gritou, as unhas agora afundando nos cabelos ruivos de Eduarda, puxando a cabeça dela com força contra si, não por querer afastá-la, mas pela necessidade física de ter mais.

— Goza pra mim, Lorena. Goza na minha boca. — A voz de Eduarda saiu abafada, o movimento dos dedos acelerando em um ritmo alucinante, bruto, sem espaço para hesitações.

O clímax de Lorena não foi contido. Foi uma explosão violenta. O corpo alto dela arqueou de forma antinatural, os músculos do abdômen travando em contrações duras. O interior dela apertou os dedos de Eduarda com uma força que fez a ruiva gemer junto. Lorena soltou um grito rasgado, longo, enquanto as ondas de prazer esmagavam seu cérebro e seu corpo. Ela tremeu da cabeça aos pés, esvaziando-se completamente sob o domínio da namorada.

Eduarda continuou os estímulos por mais alguns segundos cruciais, garantindo que Lorena sentisse cada onda, até que as pernas da morena perderam a força e cederam contra o colchão.

A detetive recuou lentamente. O rosto de Eduarda estava corado, os lábios brilhantes. Ela subiu pelo corpo de Lorena, engatinhando até parar com o rosto sobre o dela. Lorena estava de olhos fechados, a respiração num ritmo enlouquecido, o peito nu subindo e descendo descontroladamente, uma expressão de puro êxtase e esgotamento moldando suas feições.

Eduarda desceu, colando os corpos quentes. A pele suada de Lorena contra a dela. Ela beijou a testa da namorada, depois as bochechas, e finalmente os lábios, misturando o gosto do clímax.

— Você é espetacular — Eduarda murmurou, a voz falhando, tentando recuperar o próprio fôlego.

Foi então que a dinâmica virou.

Lorena não estava ali para ser apenas a garota que recebeu. O sangue ainda fervia, e o vinho em suas veias gritava por retaliação. Mesmo com os músculos trêmulos do orgasmo recente, os olhos verdes de Lorena se abriram. O brilho dentro deles não era de passividade. Era fome.

Em um movimento brusco que pegou a policial completamente desprevenida, Lorena segurou os ombros de Eduarda e, usando a alavanca do próprio quadril longo e das pernas, empurrou a ruiva para o lado e girou o corpo.

O baque surdo inverteu as posições. Eduarda caiu de costas no colchão, os olhos castanhos arregalados de surpresa quando Lorena montou sobre seu quadril, prendendo a policial sob si. As pernas longas de Lorena travavam a fuga. Os cabelos castanhos caíam desordenados sobre os ombros nus e o rosto corado.

— Achou que eu ia só deitar e dormir, detetive? — A voz de Lorena era rouca, as covinhas marcando um sorriso incrivelmente predatório. Ela não deu tempo para Eduarda formular uma frase inteligente.

Lorena abaixou o tronco, cravando os dentes na clavícula de Eduarda com força. A ruiva soltou um gemido agudo de surpresa e dor misturada com um tesão absurdo. As mãos de Lorena percorreram o corpo de Eduarda com urgência, sem técnica, mas com uma intensidade animal que compensava qualquer falta de experiência.

A morena beijou o peito de Eduarda, mordendo o mamilo e puxando, arrancando outro arfar descontrolado da mulher mais velha. Lorena sabia como provocar, ela havia passado meses estudando Eduarda, e agora estava aplicando a teoria na prática. A mão de Lorena desceu sem pedir licença. Sem as preliminares cuidadosas que Eduarda usou. Lorena escorregou a mão entre as próprias pernas, onde estava montada no quadril de Eduarda, e encontrou a intimidade molhada e já absurdamente excitada da policial.

— Lorena... espera... você não precisa... — Eduarda arfou, os quadris já se movendo para cima, buscando o atrito.

— Cala a boca, Eduarda. — O comando de Lorena foi ríspido, sujo, carregado de autoridade. A inversão de papéis incendiou o cérebro da ruiva.

Lorena não hesitou. Usando a umidade do próprio corpo e da excitação abundante de Eduarda, ela introduziu dois dedos de uma vez só na ruiva. Foi um movimento bruto, sem aviso, ditado puramente pelo desespero do momento.

Eduarda gritou, as costas arqueando, a cabeça batendo contra o colchão. O movimento desajeitado, porém firme e extremamente profundo de Lorena atingiu um ponto exato.

A morena começou a se mover. Ela não tinha a precisão, mas tinha ritmo e força. Lorena esfregava a própria intimidade contra a coxa de Eduarda enquanto enfiava os dedos dentro dela em um movimento de estocada rápido e furioso, abaixando-se para beijar a boca da ruiva, misturando as respirações caóticas.

— Isso... caralho, Lorena... mais forte — Eduarda implorava, a postura de investigadora no controle completamente reduzida a pó. As mãos da policial apertavam o quadril de Lorena, guiando o movimento para que fosse ainda mais fundo, batendo contra ela de baixo para cima.

O quarto foi preenchido pelo som úmido do sexo, da pele batendo contra pele, dos gemidos roucos e desesperados que rasgavam as gargantas secas de ambas. Lorena não demonstrava cansaço; a adrenalina e a descoberta de dominar aquela mulher eram o combustível mais potente do mundo.

Eduarda não durou muito sob aquele ataque. Ela estava à beira do precipício desde a viagem de carro, e a agressividade inesperada e deliciosa de Lorena foi o empurrão final. Os quadris da ruiva começaram a se debater, os músculos internos se contraindo violentamente contra os dedos invasores de Lorena.

— Lorena... eu vou... — Eduarda gemeu, a voz quebrando. Ela puxou o rosto da namorada e a beijou com desespero enquanto o orgasmo a atingia com a força de um trem descarrilado. As pernas de Eduarda se enrolaram nas costas de Lorena, prendendo-a ali, esmagando os corpos um contra o outro enquanto ela tremia e gemia o nome da morena em meio ao clímax esmagador.

Lorena manteve o ritmo até sentir a última contração de Eduarda ceder, o corpo tenso da ruiva finalmente relaxando contra o colchão, os olhos fechados e o peito subindo em lufadas de ar enormes.

Apenas então Lorena parou. A exaustão finalmente bateu na porta. O álcool, a adrenalina, os orgasmos múltiplos e o frio do ar ambiente colidiram.

Lorena soltou um suspiro tremido e tombou o corpo para o lado, caindo pesadamente no espaço vazio do colchão king size. O baque foi suave. Elas ficaram ali, lado a lado, em silêncio absoluto por vários longos minutos, o som das respirações pesadas sendo o único ruído no quarto escuro.

O suor em seus corpos começou a esfriar rapidamente com a temperatura da serra que caía drasticamente do lado de fora das janelas. Lorena estremeceu, os dentes ameaçando bater de novo, mas ela estava exausta demais para se mover.

Eduarda abriu os olhos. O instinto cuidadoso, que havia sido silenciado pela fúria do momento, retornou em força total. A detetive virou o rosto, observando o peito nu de Lorena arrepiado pelo frio. Com um esforço monumental, Eduarda se sentou na cama. Os músculos das coxas doíam.

Ela se inclinou sobre o corpo de Lorena, esticou o braço e puxou o edredom pesado, grosso e forrado que estava dobrado no pé da cama. Em um movimento amplo, Eduarda jogou a coberta espessa sobre as duas, isolando-as do frio do quarto em um casulo escuro e absurdamente quente.

Debaixo das cobertas, o mundo era apenas delas.

Eduarda se deitou de lado e puxou Lorena para os seus braços. A morena não resistiu. Ela rolou o corpo exausto, encaixando as costas perfeitamente contra o peito e a barriga quentes da ruiva. A posição de conchinha era o auge da intimidade depois da tempestade brutal. Eduarda passou o braço direito pela cintura de Lorena, puxando-a para que ficassem pele contra pele, o nariz da policial enterrado nos cabelos castanhos e perfumados da namorada.

— Você está congelando. — Eduarda sussurrou, a voz mansa, rouca e cheia de uma adoração absoluta, beijando a nuca de Lorena por debaixo das cobertas. A mão dela desceu pela barriga lisa da morena, fazendo um carinho lento e circular que acalmava o coração acelerado de ambas.

— Agora não estou mais. — Lorena respondeu, a voz saindo pesada pelo sono iminente e pela letargia do cuidado. Ela levou a própria mão e a repousou sobre a de Eduarda em sua barriga, entrelaçando os dedos. O peso do edredom sobre elas era reconfortante. — Isso foi... caramba.

Eduarda soltou uma risada fraca e abafada, apertando o corpo dela.

— Isso foi apenas o começo, Lorena Ferette. Você destruiu o meu autocontrole e quase me matou de prazer. Você é a coisa mais perigosa que já me aconteceu.

— E você amou cada segundo da perda de controle. — A provocação ainda existia, mas era doce, embalada pela segurança do abraço. As covinhas se formaram mesmo no escuro, contra o travesseiro.

— Amei. Mais do que qualquer coisa na minha vida inteira. — A sinceridade crua de Eduarda preencheu o silêncio. A detetive escondeu o rosto no pescoço de Lorena, inalando o cheiro de suor, sexo e baunilha que emanava dela. — Doeu muito? No começo?

A pergunta veio carregada de preocupação tardia. O lado fofo exigindo saber se havia cuidado bem do seu bem mais precioso.

Lorena virou o rosto levemente para trás, esfregando a bochecha contra o nariz de Eduarda.

— Só no primeiro segundo. Depois... eu nem lembro de dor nenhuma. Eu só lembro da sua boca, das suas mãos, e de como eu achei que ia explodir. Você cuidou de mim perfeitamente, meu amor. Foi além de tudo que eu imaginei na porra daquela viagem inteira.

A respiração de Eduarda falhou de alívio. Ela beijou o ombro nu de Lorena, apertando o abraço sob as cobertas pesadas, sentindo o calor do corpo da namorada se estabilizar e fundir ao seu. A tensão palpável que moveu as duas desde a garagem em São Paulo havia finalmente evaporado, deixando em seu lugar apenas um amor profundo, uma intimidade recém-descoberta e a certeza absoluta de que aquele fim de semana ainda teria muitas noites como aquela.

— Eu te amo, Lorena. — O sussurro de Eduarda foi a última coisa a quebrar o silêncio do quarto antes do sono. Uma confissão dita entre o cansaço e a paz.

— Eu também te amo, Eduarda. Muito. — Lorena murmurou de volta, os olhos verdes pesando e finalmente se fechando sob a proteção da escuridão e do calor das cobertas.