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Maikely caminhava pelas ruas de forma preguiçosa. Já era a quinta entrevista de emprego que fazia essa semana - era recém terça-feira. E tinha certeza de que não seria chamada, visto que a secretária havia lhe olhado com um desgosto enorme após a entrevista.
Não podia culpar a secretária, afinal ela bem sabia que não tinha nenhuma habilidade, nada que a tornasse única. Nada que chamasse a atenção de alguém.
Ela sentia-se como um fracasso. Um mero fracasso que nunca faria nada de sua vida.
Com um suspiro alto e fundo, ela atravessa a rua olhando para baixo, com a música alta em seus ouvidos tocando em seu fone de ouvido de R$10,00 que comprou na vendinha da esquina de seu bairro.
Do nada, o som alto de um carro freando pode ser ouvido, e Maikely sente o impacto brutal da colisão do veículo contra seu corpo.
Foi a última coisa que sentiu, uma dor enorme por todo o seu corpo. As costelas perfurando seus órgãos, as pernas e braços fraturados, virados anormalmente para lados que o corpo humano não deveria virar.
Sentindo o sangue escorrendo de cada canto de seu corpo, ela desmaia, a escuridão eterna tomando totalmente conta de seus sentidos.
Quando ela abre os olhos alguns segundos depois, ela observa o quarto branco e o som abafado de água escorrendo - o mesmo som dos vídeos relaxantes que ouvia sempre que ia fazer alguma prova importante.
Ela estava em um hospital? Mas como poderiam ter curado ela tão rápido? Até um momento atrás ela estava sentindo a pior dor de toda a sua - curta - vida.
Maikely olhou ao redor, e quando voltou seus olhos a sua frente, pode ver… algo. Diria que fosse uma aparição, um ser esquisito que se parecia com um corvo humanóide.
Levando um susto e saltando para trás, ela acaba se chocando contra um sofá branco, caindo no chão.
Não sentindo nada com o impacto contra o chão, ela olha para cima, para o Corvo, com um olhar questionador.
- Perdoe-me por lhe assustar, Maikely, minha cara. Essa não era minha intenção.
O ser fala com uma voz grave e distorcida, como se houvesse um efeito nela para deixá-la ainda mais estranha.
- O que… é você? E onde eu estou? Que lugar é esse?
- Você está na passagem, minha cara. E eu, sou seu guia.
- Passagem?
- Exato. A passagem de uma vida para outra. Deve se lembrar do acidente que sofreu, creio eu? No momento, você está morta.
- Eu… morri?
Maikely olhou para suas próprias mãos, um tanto abalada. Não podia dizer que gostava de sua vida ou do mundo em que vivia, mas ainda assim sentia um vazio. Então aquilo era a morte?
- Como eu lhe disse, sou seu guia. Fui mandado em sua direção pelo Grande Mutuwa, que lhe concedeu a chance de sentir a vida novamente.
- Eu… vou voltar à vida? Por que?
- Grande Mutuwa não dá explicações de suas vontades. Porém, ouso dizer que tenha sido pela vida patética que você teve de viver até então, minha cara.
O Corvo faz um movimento com a mão torta e coberta por um lodo fedorento. O corpo de Maikely começa a se retorcer e quebrar.
- O que tá acontecendo!?
- Eu estou lhe dividindo.
- Você tá O QUE!?
- Grande Mutuwa lhe deu a oportunidade de reencarnar em corpos que já possuem alguns anos de existência. Alguns jovens; algumas crianças. Você irá experienciar a vida pelos olhos dessas pessoas, que você bem conhece, minha cara. Seis vidas diferentes.
- Bem conheço? O que quer dizer?
- Você vai entender, assim que olhar para si mesma e seus novos corpos.
E com um estalo, o corpo de Maikely é quebrado em inúmeros pedacinhos, que se unem e se diluem, tornando-se seis bolhas de uma essência pura de vida. O Corvo faz um movimento de mão, como que para empurrar as esferas, que são propulsionadas para direções diferentes.
Universos diferentes.
Vidas diferentes.
