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Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2021-01-18
Updated:
2021-08-12
Words:
11,917
Chapters:
3/5
Kudos:
14
Hits:
417

Ligações Clandestinas

Summary:

Como uma voraz consumidora de livros de romance, Blake reconhecia um clichê quando via um, por tanto, ela sabia o que ia acontecer quando acidentalmente esbarrou em uma mulher misteriosa e atraente na casa de sua melhor amiga.
E se as coisas não acontecessem, então ela faria acontecer com suas próprias mãos. Levada por seus desejos e fantasias, Blake se envolve em ligações clandestinas feitas na calada da noite cheias de segredos.

Chapter 1: Capítulo 01

Chapter Text

 



Blake puxou sua mochila pelo ombro enquanto equilibrava uma pequena pilha de livros em seus braços. Ela trancou a porta de seu carro que lhe foi dado de presente recentemente por seu pai, girando os quadris, já que suas mãos estavam ocupadas.

Ela correu de forma desajeitada pelo jardim da casa de sua amiga de infância, era um local onde Blake estava costumava frequentar desde criança, mas se alguém perguntasse, ela diria que havia algo diferente naquele dia. Os girassóis que o senhor Taiyang cultivava com tanto cuidado estavam com suas cabeças apontadas para o chão, talvez fosse devido às densas nuvens cinzentas que pairavam no céu de forma ameaçadora como se a qualquer momento o mundo fosse se desfazer em água.

Blake não gostava de chuva. Talvez fosse agradável quando se estava de férias em casa, com uma cama e cobertas secas acompanhada de alguns bons livros de romance e uma grande caneca de chá quente, mas não quando ela precisava estar aqui, do lado de fora molhando suas roupas e passando frio.

— Droga! — Ela ralhou irritada quando a chave de seu carro caiu no chão e ela teve de se abaixar para pegá-la.

Ela já estava na frente da porta da casa e foi surpreendida quando a porta abriu repentinamente. Alguém esbarrou nela e sua bunda bateu no chão com um baque surdo enquanto todos os seus livros voaram de seus braços.

Blake levantou a cabeça esperando dá uma bronca em sua amiga Yang ou na irmã da mesma, Ruby, só uma das duas poderiam ser tão atrapalhada, mas a pessoa a sua frente era alguém completamente desconhecido para ela.

A pele pálida contrastando com roupas de tom negro e carmesim, o rosto enfeitado com olhos grandes e predatórios de cor vermelha sangue, o cabelo preto como as penas de um corvo voando pela noite com fios selvagens que se recusavam a ficarem em seus devidos lugares. Blake notou as suaves linhas de expressão que haviam perto de seus olhos que indicava alguém com mais idade, mas isso nada afetava sua beleza tão magnética e ao mesmo tempo assustadora.

A boca de Blake ficou seca enquanto seus olhos se arregalaram ao ver a mulher lhe encarando de volta com uma expressão aborrecida.

Ela a viu se abaixar e pegar algo no chão bem a seus pés. Era um livro grosso que Blake estava lendo no momento, seu rosto se enrubesceu ao lembrar do tipo de conteúdo que aquele livro tinha. A mulher olhou a capa verificando o título e logo em seguida estendeu a mão em sua direção.

— Acho que isso é seu. — A voz aveludada e firme chegou a seus ouvidos e Blake engoliu a seco, ela pegou rapidamente o livro e o abraçou escondendo-o em seu peito.

A mulher ainda gastou alguns segundo a olhando de cima, depois pareceu decidir que não valia a pena esperar por uma resposta de Blake e a contornou com passos controlados.

A parte mais sensata de Blake ficou gritando em sua mente para ela não olhar, mas seu corpo era fraco e a traiu completamente. Seus olhos rastrearam cada movimento da mulher, seguindo as pernas longas e voluptuosas, a pele aparecendo apenas em uma faixa entre suas meias-calças e a saia, fazendo sua imaginação fervilhar ainda mais, não pelas parte visíveis e sim pelas partes que não eram visíveis por causa das roupas.

Por um longo tempo, Blake ficou ali observando aturdida a mulher se afastar e enfim sumir dobrando a esquina, ela mal percebeu que começou a chover.

— Ei! Blake? O que você tá fazendo aí no chão? Vai acabar toda molhada e com um resfriado.

A voz estridente de Ruby a trouxe de volta à realidade. Ela ainda estava esparramada no chão abraçando seu livro como uma criança assustada, os pingos de chuva fria caíram em seu rosto lhe dando o choque final para Blake se levantar, sua sorte era que a casa tinha uma cobertura na varanda de frente para a entrada, isso evitou que ela ficasse completamente encharcada.

— Desculpe, eu… — Blake se atrapalhou, o que ela podia dizer? Que ficou paralisada por causa de uma mulher atraente que esbarrou nela de forma acidental e atiçou sua imaginação? Não! Ela nunca poderia dizer isso, muito menos para Ruby.

— Deixa que eu te ajudo, não é comum te ver atrapalhada. — Ruby riu e a ajudou a recolher o resto de suas coisas do chão. — Vem, entra, acho que ainda tem chá, vou esquentar um pouco para você.

Blake seguiu Ruby para dentro da casa arrastando os pés amuada. Como ela tinha feito papel de idiota. Seus olhos se prenderam na estampa de rosa que estava no moletom da amiga mais jovem, o cabelo desalinhado e rubro-negro dela balançando enquanto ela falava algo que Blake não estava captando.

Ela havia acabado de cruzar com a mulher mais atraente que já vira e sua completa inépcia a deixou parecendo uma adolescente tola e desajeitada. Não! Blake não era assim, talvez um pouco tímida e insegura, mas não uma simplória atrapalhada. Sua atração pela mulher foi notável e inegável, não havia motivos para ela fingir que não havia se interessado, quem sabe em outra situação as coisas seriam diferentes…

— Você não acha? Ei! Você tava prestando atenção no que eu tava dizendo? — Ruby virou em seus calcanhares ficando de frente para Blake, a jovem parecia aborrecida por estar sendo ignorada.

— Me desculpe, Ruby. — Blake não achou forças para fingir interesse no que a amiga estava dizendo. — Pode me dizer uma coisa? — Ela sentiu seu rosto se aquecer e sua barriga revirar de ansiedade.

— Claro. — Ruby a olhou paciente com seus grandes olhos de cor cinza.

— Quem é aquela mulher que acabou de sair daqui? — Blake sentiu seu lábio inferior tremer, um tique nervoso que ela tinha desde a pré-adolescência.

O rosto de Ruby murchou em uma expressão que ficava entre o desconforto e a amargura. A jovem mais baixa que Blake trocou os pés e coçou a parte de trás de sua nuca.

— Então você encontrou a Raven…

Raven. Agora Blake sabia o seu nome, já era mais do que o suficiente para estimular sua imaginação outra vez. O corvo, o pássaro negro que grasna agourento trazendo mau presságio, os poetas o usavam como inspiração, a ave que carregava a morte, os mensageiros das sombras…

— Aquela bandida é minha mãe!

A voz de Yang, sua amiga de infância, cortou todos os seus pensamentos e causou a sensação de que uma pedra foi jogada dentro de seu estômago.

— Yang?! Não fala assim! — Ruby ralhou de volta para a irmã mais velha, ela contornou a bancada que separava a sala e a cozinha. — Ela é sua mãe, vocês deveriam fazer as pazes! Você deveria dar uma chance! Ela foi embora chateada, sabia?

— Ah, que peninha! Eu não ligo! — Yang projetou seu corpo na direção da irmã, ela era muito mais alta e corpulenta, mas Ruby não se intimidou.

— Você é tão cabeça dura! Eu sei que está magoada por todos esses anos, mas vai estragar a chance de se reconciliar com sua mãe por causa do seu orgulho bobo?!

Blake observou aturdida as duas irmãs discutindo. Aquela mulher era mãe da Yang? Não era possível. Elas se conheciam desde que ambas tinham 10 anos de idade e a mãe delas era outra mulher. Summer Rose, a gentil e recatada senhora dona da padaria do bairro. O que estava acontecendo?

— Ela nos abandonou por anos, e agora pensa que pode voltar como se nada tivesse acontecido? — Yang gritou enfurecida, seu cabelo loiro e selvagem parecia brilhar como chamas com a luz amarela da cozinha. — Eu não vou fingir que nada aconteceu! Não dá para fingir que ela não abandonou a própria filha por puro egoísmo!

Agora que Blake parou para pensar, havia certas semelhanças entre sua amiga loira e a mulher misteriosa. O cabelo indisciplinado, os olhos que podiam se transformar rapidamente em um mar de fúria perigosa, mas ainda sim, pareciam tão diferentes.

— Yang… por favor, não faça tudo isso ser ainda pior do que já é. — Ruby implorou para a irmã fazendo aquela cara macia que Blake conhecia bem, uma expressão que era difícil resistir.

Yang revirou os olhos soltando um som que veio do fundo da garganta semelhante a um rosnado de um animal raivoso. A loira mais alta deu as costas para a irmã e foi a passos duros na direção da escada subindo os degraus apressadamente.

Ruby soltou um longo suspiro cansado:

— Me desculpe por isso, não sabíamos que ela viria aqui.

— Ruby? O que está acontecendo? — Blake deixou suas coisas de lado com uma intimidade causal. — Eu não estou entendendo nada, eu conheço a sua mãe.

— Sim, você conhece a minha mãe. — A ruiva apontou para si mesma. — A Raven é a mãe biológica da Yang.

Blake piscou seus olhos com força como se aquilo ajudasse seu cérebro a processar as informações chocantes que estavam saindo da boca de sua amiga.

— Então quer dizer…

— Isso é uma longa história. — Ruby se virou e pegou um bule, ela despejou parte do líquido em uma grande xícara branca. — Antes do papai casar com a mamãe, ele tinha um relacionamento com a Raven. — Ela abriu a porta do micro-ondas e colocou a xícara lá dentro ligando o eletrodoméstico. — Eles eram bem jovens e a Yang nasceu, algum tempo depois ela foi embora.

— Foi embora? — Blake estava escutando atentamente, ela recebeu das mãos de Ruby a xícara quente.

— Sim, ela sumiu, deixou o meu pai e a Yang sem mais nem menos. — Ela se encostou na bancada cruzando os braços com uma expressão abatida.

— Ao estilo “foi comparar leite e nunca mais voltou”?

— É um jeito de dizer isso… — A ruiva passou os dedos de forma nervosa pelos veios da madeira da bancada. — O papai ficou mal, mas um tempo depois ele conheceu minha mãe e eu nasci.

Blake levou a xícara a seus lábios, o chá verde esquentou sua boca causando uma sensação familiar reconfortante. Ela esperou em silêncio Ruby continuar.

— Minha mãe adotou Yang como filha dela e nós crescemos sem saber disso.

— Então Yang pensava que Summer era sua mãe? — Blake perguntou tentando não soar curiosa demais.

— Quando ela completou 16 anos, o pai contou a verdade. — O olhar de Ruby ficou exasperado. — Foi uma confusão na época.

— Então seus pais esconderam isso de vocês?

— Eles achavam que estavam poupando a Yang.

— Como eu não soube disso? Por que não me contaram?

— Esse é um assunto muito delicado para Yang, ela não gosta de falar disso com ninguém. — Ruby a olhou sorrindo. — Você também tinha seus problemas, não é?

Blake estremeceu quando algumas lembranças ruins piscaram em sua mente. A época entre seus 15 e 18 anos foi bem complicada, ela inclusive se afastou dos amigos. Não era de se admirar que não tenha percebido que havia algo de errado acontecendo com sua amiga.

— Me desculpe, eu não queria me meter.

— Ei, já disse que não tem problema, foi só uma coincidência. — Tranquilizou Ruby.

— Eh, coincidência…



~**~



Naquela noite Blake estava em sua cama enrolada em cobertores, a chuva havia se intensificado e batia no teto de madeira em uma sinfonia molhada, a luz do abajur jogava sombras por seu quarto escuro iluminando apenas a garota alva de cabelo negro e olhos amarelos que estava a ler um livro distraída.

Seu gato preto de estimação estava enroscado em seus pés dormindo com tranquilidade.

O livro já havia se tornado um artifício para distrair sua mente de alguns pensamentos constantes que sempre estavam retornando. Mas nem isso estava mais funcionando, pois até a história do livro estava a lembrando do que havia acontecido na casa de suas amigas.

A Pianista era um romance que se passava na década de 30, a jovem protagonista sofria com o desprezo da família por ela se recusar a casar com um homem amigo do seus pais, ela recebe ajuda de uma mulher mais velha que já foi uma famosa pianista.

Não demora para a protagonista sonhadora engatar um romance proibido com a mulher. Blake só poderia está doida, mas enquanto lia aquele livro, sua mente estava dando uma volta e chegava na mesma imagem que parecia gravada a ferro em seus olhos.

Ela viveu uma situação típica de um clichê, esbarrou em uma pessoa bonita, se aquilo fosse em um de seus livros, logo se seguiram uma série de coincidências que culminariam em um romance.

Mas era isso que Blake queria? Um romance ou ela só sentiu uma atração leviana? Seria sua mente fértil e carente criando histórias e fantasias estranhas? Ela estava imaginando-se no lugar da jovem Isabela e porque não, imaginar Raven no lugar da sedutora Natasha.

Aquela mulher era mãe de sua melhor amiga, Blake não deveria estar pensando nela desta forma.

Um rubor subiu em seu rosto quando sua imaginação ficava mais ousada no momento que as duas mulheres trocaram palavras de flerte para logo em seguida demonstrarem fisicamente seu amor.

Blake caiu na cama cobrindo sua cabeça com o edredom se sentindo muito quente na noite fria e chuvosa. Ela deixou sua mão deslizar para baixo do seu ventre e afundou no travesseiro para abafar seus gemidos ao passo que sua mente se agitava com uma fantasia libertina.

Ela dormiu com a leveza do prazer e com o peso da culpa.



~**~



O quanto idiota era esperar que todas aquelas coisas absurdas dos romances acontecessem na vida real? Em uma escala de 1 a 10, certamente Blake se sentia um 11. Uma semana se passou e sua vida estava tão chata e mundana como sempre, não é como se sua fantasia maluca com a mãe de sua amiga fosse se tornar realidade, elas provavelmente não se veriam mais e mesmo que acontecesse, o que uma mulher vinte anos mais velha que ela iria querer com alguém como Blake?

Era burrice sequer presumir que ela estaria interessada em outras mulheres. Deus, ela tem uma filha! Idiota! Ela era muito idiota! Blake poderia até rir de si mesma por tanta estupidez. Olha que ridículo eram essas fantasias que ela criou com alguém que viu uma vez? Ainda bem que só existiam em sua mente, isso tornava menos vergonhoso. Seguro de olhos curiosos, os desejos e pensamentos mais despudorados de Blake podiam ser vividos, já que era claro que não passariam disso, meros devaneios noturnos.

Ela estava em uma tarde tranquila em sua cafeteria preferida, aquela que tinha um estilo vintage e todos os funcionários usavam coletes pretos e gravatas borboleta. Costumeiramente, ela passava as tardes ali sempre que podia, fosse para desfrutar de um livro ou trabalhar em algum projeto pessoal. Alguns estranhariam ver Blake em uma cafeteria, pois era fato conhecido que ela não gostava de café, porém aquele estabelecimento em especial, tinha ótimas opções de chá, bebida essa que era sua preferida.

Distraída com seus afazeres diante da tela de seu notebook, Blake teve uma ingrata surpresa. Ela levantou os olhos como se uma força magnética estivesse a puxando na direção de uma armadilha óbvia. Sua garganta trancou ao reconhecer a pessoa que havia adentrado no estabelecimento e caminhava despreocupadamente por entre as mesas procurando um lugar.

Raven! — Sua mente gritou em pânico.