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Dizer que Sicheng estava cansado era um eufemismo.
Ele olha para o que acabou de digitar, ajustando seus óculos, percebendo que já estavam sujos. Ele lê e relê a última linha do contrato que está trabalhando no momento, mas as palavras dançam em sua frente, perdendo todo sentido.
Com um empurrão fraco, ele se afasta da mesa, deixando seus óculos ao lado do notebook e passando a mão pelo rosto, deixando escapar um suspiro pesado, quando ouve alguém batendo na porta.
Ele não se levanta, mas estica a coluna, se encostando na cadeira que já estava desconfortável depois de horas na mesma posição, e pigarreia antes de responder.
“Pode entrar” sua voz saiu rouca, por mal ter sido usada nas últimas horas. Ele fez uma nota mental para passar no café 24h que fica no térreo antes de voltar para casa, ele precisa de um chá quente.
Taeil não ficará feliz se eu demorar muito para ir para casa...
Sicheng está tão perdido em suas “notas mentais” que não repara na porta se abrindo e acaba se assustando quando ouve a mesma sendo fechada. Quando ele faz menção de abrir a boca pra perguntar o que a pessoa queria, ele trava. Boca ainda aberta e palavras presas na garganta.
Diante de sua mesa encontrava-se um jovem, não mais novo que sua própria idade.
Ele vestia uma calça jeans escura apertada, marcando as coxas- Sicheng se controlou para não babar- a camisa vinho que usava estava com três botões abertos, o suficiente para o chinês se perder na pele do outro.
A roupa era um contraste gritante com as bochechas cheias e com a forma que ele não parava de mordiscar o lábio inferior. Uma mão segurando sua nuca e esfregando o cabelo caramelo crescido quase desleixado.
Sicheng tinha que admitir que ele era um dos homens mais… encantadores que ele conhecera- e o promotor já tinha tido encontros com homens lindíssimos.
Homens como os irmãos Moon.
Yuta. Taeil. Donghyuck.
Sicheng ouviu uma voz sussurrar, em uma voz esganiçada mas estranhamente familiar, que ele deveria se lembrar de seu marido. Mas quando o homem à sua frente se senta na poltrona de veludo, a voz é ignorada completamente.
Apesar da roupa provocante, o rapaz se senta acanhado, as mãos apertando de tempos em tempos os joelhos e os ombros encurvados.
Por um momento Sicheng desliga sua libido, preocupação assumindo quando ele nota que o estranho está com os olhos inchados, como se estivesse chorando a pouco.
Sicheng se inclina levemente, se apoiando na mesa e limpando a garganta.
“Então, como posso ajudar?” Ele pergunta em tom baixo.
Pela primeira vez o estranho levanta o rosto e faz contato visual direto com Sicheng, olhos tristes e marejados.
O estranho respira fundo, como se segurasse o choro, engolindo exageradamente, o som fazendo com que os olhos do advogado descessem para sua garganta, se encontrando momentaneamente fissurado em tal ato.
“O.... o senhor é Dong Sicheng, certo?” Sicheng olha de novo para o rosto do rapaz, acenando solenemente, e um pouco confuso. “Ah… me desculpe...” ele esfrega as mãos nas coxas, o movimento não passando despercebido por Sicheng, e o oferece a mão, a qual Sicheng aperta sem hesitação “Meu nome é Suh Jaehyun, e eu preciso de sua ajuda”
Sicheng levanta a sobrancelha em questionamento e Jaehyun começa a explicar.
“Meu marido, ele…” Jaehyun respira fundo, piscando rapidamente, tentando não chorar. “ele tem me traído por um tempo já e…” ele seca uma lágrima que escapa e o outro o oferece um lenço de papel que ele guarda na gaveta “eu peguei ele com um...amigo no trabalho” ele diz com um sorriso azedo “e… agora eu não sei o que fazer, eu preciso ir embora mas eu não tenho nada comigo”
Sicheng ouviu a história em silêncio, sua raiva se transformando em compaixão à medida que Jaehyun prosseguia a narrativa.
A verdade era que Sicheng tinha o coração mole, mesmo tendo passado pela faculdade de direito e se formado advogado, o seu lado prestativo nunca tinha o deixado por completo. Talvez isso que tinha feito com que se inclinasse para que secasse ele mesmo uma lágrima que escorreu do rosto do rapaz e que sorrisse asseguradamente para o mesmo.
“Vamos fazer assim,” começou Sicheng, depois de retornar a seu lugar na cadeira e secando o dedo na coxa, “eu te levo pra casa e te passo o número do meu secretário e ele marca um dia para discutirmos sobre o caso do seu divórcio”
O rosto de Jaehyun se iluminou de forma perceptível e uma parte do ego de Sicheng se inflou ao ver que o rapaz sorria e deixava a mostra suas covinhas.
“O senhor é muito bom” Jaehyun disse, inclinando a cabeça em agradecimento sucessivamente “Muito obrigado, eu não sei como agradecer” o rapaz continuou, levantando-se e continuando a se curvar, agora de forma quase veemente.
O advogado se levantou também alvoroçado, segurando o mais novo pelos braços e tentando fazer com que ele parasse o movimento que fazia.
“Por favor, se levante, é.. é o mínimo que eu posso fazer” Sicheng começa, um pouco sem jeito e com uma mão segurando o outro pelo braço, impedindo-o de se curvar novamente. Jaehyun levanta a cabeça, olhando para o advogado com o olhar tão aberto que fez com que Sicheng corasse sem saber o porquê. “E…” Sicheng respirou fundo para tentar se recompor, sem notar que apertava o bíceps de Jaehyun “e não tem muito o que eu possa fazer agora, mas pode me procurar se-”
“Na verdade…” Sicheng se surpreendeu com a voz de Jaehyun, tinha se esquecido que estava em um ambiente com outra pessoa e não sozinho em sua cabeça. “Se… se o senhor pudesse me dar uma carona pra casa…” Jaehyun sorriu acanhado, lhe lançando um olhar nervoso, com uma ponta de nervosismo em sua voz. Seus olhos arregalam quando o advogado inala repentinamente, uma desculpa na ponta da língua quando Sicheng solta um “Claro!” surpreendendo ambos.
Para ser sincero Sicheng deveria ter chamado um Uber para o outro.
Ele não deveria estar andando até seu Audi, o último carro no estacionamento do escritório.
A descida até o subsolo fora quieta e, em certo ponto, constrangedor.
Sicheng se forçou a não abrir a porta para o outro, pensando consigo mesmo que isso já estava em outro nível.
O caminho até a casa de Jaehyun foi relativamente calma, o rádio tocando rock dos anos 70 em volume baixo o suficiente para que Sicheng conseguisse ouvir quando o passageiro lhe dava as direções para seu destino.
Quando Sicheng estacionou em frente a um prédio conhecido por abrigar universitários, o chinês olhou para o outro, um olhar curioso porém não julgador em seu rosto. Jaehyun percebeu a confusão que se passava na mente de Sicheng e soltou uma risada nervosa.
“Eu tenho um quarto alugado aqui pra quando meu marido começa a ficar agressivo…” Jaehyun explicou, fazendo com que a expressão de surpresa no rosto de Sicheng caísse e seu cenho franzisse em indignação. “Isso então já é recorrente?”.
Jaehyun não respondeu, mas nem precisou, o jeito que seu olhar se fixou na rua iluminada a sua frente em lieu de uma resposta concreta foi o suficiente para preencher o silêncio.
Sicheng pigarreia para trazer a atenção do outro para si novamente e ignora a voz em sua cabeça que clamava sua casa, sua cama e seu marido …
Em vez disso ele sorri reconfortante, o que Jaehyun retribui, revelando suas covinhas.
“Ah não… covinhas? Esse homem está parecendo cada vez mais ter saído de um sonho…”
Sicheng se recuperou do tormento com uma sacudida de cabeça, não notando como o sorriso do outro se alargou com esse gesto, um sorriso beirando a crueldade.
Como sempre fora cavalheiro, o chinês desceu do carro primeiro, contornando-o para abrir a porta para Jaehyun com um floreio forçado.
Quando este desceu do carro, Sicheng esperava que se despediram ali e cada um seguiria o seu caminho. Então quando sente uma mão se esticar para segurar seu antebraço ele fica confuso.
Ao olhar para o outro, Jaehyun estava com os olhos baixos, em o que Sicheng interpretou como acanhamento, o que ia contra a mão que agora chegava a queimar em seu antebraço.
“Ah…” o advogado começa, mas não tem tempo de completar quando o outro o puxa para mais perto.
“Você não acha melhor você ficar comigo esta noite?” Jaehyun pergunta, sua voz calma e pendendo mais para culpa do que sensualidade. “Porque…” ele continua, parando para passar a língua pelos lábios, um gesto nervoso “ eu estou com medo de meu marido voltar…”
Agora, Sicheng não era bobo, ele sabia o que aconteceria assim que ele concordasse com o pedido do outro, e, deixando claro, ele não queria fazer isso. Seu marido e cunhado lhe vêm à mente, seu doce Taeil, que levara suas filhas para visitar os avós no começo do mês, e seu amado Yuta, morando agora fora do país, mas que sempre lhe ligava quando a saudades batia, chegando a lhe escrever e mails de adoração.
Sicheng pensou nos dois, pensou em suas filhas e em…
“O senhor não quer passar a noite comigo?” Sicheng não tinha notado o quão próximo o outro estava, apenas a centímetros de seu rosto, seus olhos brilhavam, diferindo de suas ações tímidas de antes.
Sicheng engole a seco, ele não deveria, ele realmente não deveria…
Uma mão sobe pelo seu braço, passando pelo seu ombro e chegando a sua nuca e ele não percebe o quanto seu corpo reage a este estímulo depois de tanto tempo sem intimidade mas uma de suas mãos está no quadril do outro, não sabe ao certo se para o afastar ou o aproximar.
Eu não posso. Eu não posso. Eu não…
“Eu…” Sicheng tenta começar, mas Jaehyun usa essa oportunidade para chegar mais perto se possível, ficando tão perto que Sicheng sentia sua respiração em seus lábios quando Jaehyun responde
“Você…”
Sicheng não saberia contar depois se fora Jaehyun que começara o beijo ou se foi ele que se inclinou. Mas ele não esquece de como foi bom sentir os lábios do outro sobre os seus. Ele poderia jurar que sentiu um sorriso no meio do beijo.
Jaehyun dá um passo para frente, guiando Sicheng em direção às portas da portaria do seu prédio, cortando o beijo para puxar o outro para dentro.
Deixando para trás a lua brilhando no céu noturno e o vento gélido que batia em seus corpos quentes.
Ninguém precisava saber sobre isso.
