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Honra aos Caídos

Summary:

Após os eventos de Calamidade, Senhor Veríssimo está desaparecido e cabe ao Arthur proteger e guiar os membros da Ordem, mas essa responsabilidade se prova pesada demais para que o homem carregue sozinho. Dante então assume sua posição ao lado do novo líder da organização, lhe dando suporte para enfrentar seus medos e abrindo caminho para uma nova era onde um novo significado de família fica claro para os dois.

 

Ou, Dante cuida de Arthur quando ele acreditava estar sozinho.

Notes:

Comecei a ver Ordem esse final/começo de ano e estou viciado, precisei escrever isso.
Me perdoem se estiver mt fora de personagem, isso é com base na minha interpretação deles, mas posso estar errado.

Work Text:

Ele escuta uma leve batida na porta do escritório e, sem levantar os olhos do documento, murmura de forma quase ininteligível para que a pessoa adentre o local.

Sabe que quem quer que seja não é tão importante quanto a papelada em sua mesa, não pode perder tempo, mesmo que sejam apenas alguns segundos, tem de finalizar o que está fazendo. Há dias que o Senhor Veríssimo não aparece na base da Ordem, quase um mês desde a última vez que o homem mandou notícias. Depois da conversa que tiveram no cemitério, há cerca de dois meses, Arthur sabia que onde quer que o homem estivesse, o que quer que estivesse fazendo, sua chance de retorno era pequena. Por isso, desde seu desaparecimento, o líder da Equipe Abutres tem tomado conta do escritório e dos principais afazeres da organização, dando o seu melhor para garantir que até que o líder original regresse, se ele regressar, tudo esteja caminhando de acordo com o passo correto.

É difícil para ele, estressante, o que fez com que surgisse em si uma nova onda de respeito pelo velho líder. Tantas vidas dependem de suas escolhas, tantas decisões importantes precisam ser feitas, mal consegue dormir. De tempos em tempos pede a Samuel que cheque as câmeras de segurança na sala de Kian, só para ter certeza de que o maldito ainda está onde devia. Ansiedade o consome, agentes de todo o país enviam pendências para que ele tente resolver, novas bases estão sendo construídas em regiões onde C.R.I.S detectou alto nível de atividade paranormal, líderes locais entram em contato com frequência para resolver problemas ou sugerir mudanças. Relatórios e mais relatórios de missões, muitas vezes fracassadas, chegam todos os dias. Chizue ajuda o quanto pode, sem ela talvez Arthur já teria enlouquecido. A velha Senhora Veríssimo tem supervisionado a expansão da Ordem, desde o recrutamento de novos membros, principalmente ocultistas, até a formação de novas bases.

A batalha contra Kian terminou, mas eles sentem em suas peles que na realidade isso foi só o começo. Não há como baixar a guarda agora, há muito que ainda não sabem. Arthur está cansado, exausto, mas não pode parar, não agora.

— Arthur — escuta uma voz familiar que faz com que o peso em seus ombros diminua um pouco. — A Ivete me pediu para checar se você comeu alguma coisa.

Ele murmura positivamente, embora esteja satisfeito em ouvir a voz de Dante novamente, ainda não pode se dar ao luxo de parar o que está fazendo. Sente a aproximação do outro homem enquanto assina alguns documentos, mas não como Arthur Cervero.

Não, não mais.

Assina como: “A. Veríssimo”.

— Arthur — sente uma mão grande, porém delicada, sobre seu ombro — Arthur, você precisa parar um pouco, você nem tem dormido direito.

— Não posso, olha o quanto de coisa eu tenho que fazer, o Senhor Veríssimo me deixou encarregado disso, não dá para parar agora — diz sem desviar o olhar dos documentos.

— Tudo bem, mas você não precisa se esforçar tanto, você pode descansar também!

— O Senhor Veríssimo não descansaria até ter tudo terminado, eu tenho que…

Sente a mão deixar seu ombro e então sente duas palmas frias segurarem seu rosto e o virarem delicadamente em sua direção. Os olhos negros do homem o encaram com uma mistura de tristeza e carinho, sentimentos tão fortes que, mesmo o homem que costuma ser tão contido e introvertido não consegue escondê-los.

— O Senhor Veríssimo não tinha um Dante ao lado dele — diz baixinho. — Eu me preocupo com você, Arthur, e não só eu… Todos estão preocupados, você não precisa lidar com isso tudo sozinho.

— A senhora Chizue está me ajudando, não tem com que se preocupar — sente seu rosto corar e desvia o olhar.

― Arthur Cervero, não finja que está realmente deixando que ela faça mais do que só algumas coisas para te ajudar ― Dante franze o cenho. ― Não sei o que o Senhor Veríssimo te disse antes de desaparecer, mas se ele te pediu para cuidar da Ordem, eu tenho certeza de que ele não queria que você assumisse todo o fardo sozinho… Você… Você me ensinou que nós somos uma família.

― E nós somos, por isso eu tenho…!

― Ninguém fica sozinho em uma família ― o loiro volta a tocar seu rosto. ― Nos deixe te ajudar, por favor.

Seu líder, um de seus mentores e uma de suas maiores inspirações desde a morte de seu pai o havia solicitado que protegesse sua família. Que cuidasse da Ordem. Arthur se sentia no dever de fazer isso, de honrar o pedido de Veríssimo e honrar o desejo de todos aqueles que morreram para proteger essa organização, essas pessoas. Thiago, Liz, Kaiser, Joui, até mesmo Cristopher que morreu muito antes de Arthur realmente ser parte dessa família, todas essas pessoas significavam um marco para ele em sua vida. O homem sentia que precisava dar tudo de si para proteger o legado deles, para manter vivo tudo o que existe graças ao sacrifício deles.

― Eu não posso ― Arthur nega com a cabeça. ― Eu tenho que fazer isso sozinho, por eles… Por vocês.

― Mas você não está sozinho, olha para mim ― Dante pede e se ajoelha ao lado da cadeira onde Arthur está sentado. ― Eu estou aqui, todos nós estamos, Arthur você não precisa fazer nada disso sozinho.

Seus olhos ardem e Arthur sente que vai começar a chorar, há dias que não é capaz disso, há dias que não sente nada além de cansaço e ansiedade. É como se algo gritasse no fundo de sua mente lhe ordenando a sentir, a deixar fluir toda essa emoção presa em seu peito. E é só somente sob o olhar doce de Dante que ele se permite desabar, sendo envolvido pelos braços finos do ocultista que se enroscam nele com cuidado e carinho.

― Me deixe te ajudar ― o homem mais novo sussurra, ― Me deixe ser o seu suporte.

Arthur deixa sua testa repousar sobre o ombro do loiro, sentindo o leve aroma de jasmim que exala das roupas de seu amigo, e fecha os olhos pela primeira vez em muito tempo.

 

 

Dante o convence a sair do escritório e lá fora, no salão principal da base, muitos dos membros da organização se encontram reunidos. Balu e Carina se levantam de suas cadeiras em espanto ao verem Arthur finalmente deixando aquela sala e a mulher corre em direção ao líder de equipe, lhe dando um firme abraço. Aaron, que até o momento não tinha sido avistado por nenhum dos membros ali presentes, sai das sombras e caminha até seu pupilo, sinalizando com as mãos uma simples pergunta.

“Você está bem?”

Arthur sorri, cansado, e sinaliza de volta: “Melhor agora.”

São por volta das oito da noite e a maioria dos agentes ali presentes estão na base para se recuperar de ferimentos de batalha ou fazer pesquisas para novas missões. Estão todos cansados, mas seus olhos se voltam para Arthur com ansiedade e esperança, atentos para o que seu novo líder tem a dizer.

― A Ordem está passando por um período de transição mais difícil que eu poderia ter previsto, eu… Eu finalmente entendo o porquê do Senhor Veríssimo estar sempre com olheiras ― coça a cabeça e suspira.

― Há algo que possamos fazer para te ajudar? ― Carina pergunta com seu sotaque forte ficando ainda mais carregado devido a preocupação.

Arthur olha para Dante e o homem loiro assente em silêncio.

― A equipe de Inteligência detectou usando o C.R.I.S atividade paranormal incomum em várias áreas do país, também estamos investigando as consequências das ações de Kian em prol da Calamidade e para isso precisamos expandir o alcance da Ordem ― o ex-guitarrista explica alto o bastante para que todos possam ouvir.

Os membros ali presentes começam a se reunir a sua volta e alguns que estavam em outras salas da base saem para se aproximar dele e ouvir o que ele tem a dizer. Arthur não pode evitar se sentir nervoso, falar em público nunca foi um problema, em sua época de banda e com os Gaudérios já esteve rodeado por dezenas de pessoas, mas aqui a sensação é diferente. Ele não é um músico ou o membro de uma gangue, não tem seu pai ou um de seus colegas para apoiá-lo em suas falhas.

Aqui ele é um líder e tudo o que disser tem consequências muito além da sua imaginação.

Parte de si tem medo, um frio surge em seu estômago e ele se pergunta se realmente é capaz disso. Deve ter hesitado por alguns segundos pois logo sente a mão de Dante em seu ombro novamente e os olhos negros do ocultista encontram os seus. Arthur respira fundo, se lembra das palavras do homem ao seu lado: “Você não está sozinho.”

― Vou repassar algumas missões para todos vocês, nesse momento nosso foco é estabilizar a Ordem e prosseguir com as atividades de contraofensiva ― declara.

― Recrutar novos membros capazes e firmar relações diretas com outras bases em regiões diferentes do país são nossas prioridades, muitos Escriptas escaparam e ainda temos que nos preocupar com duas Relíquias e com as consequências dos planos de Kian, precisamos de suporte ― Dante completa.

Balu ergue a mão e sorri de forma sacana.

― ‘Xa comigo, campeão, se tem alguém aqui que vai saber trazer mais gente para a Ordem sou eu ― ele pisca, cheio de si.

― Rubens, você poderia ajudar o Balu? Formem uma equipe para conseguir novos membros e conversar com os líderes regionais ― Arthur sugere.

― Ajudar ― o homem baixinho e assente, está sentado em um canto do salão brincando com uma faca despreocupadamente.

― E quanto a mim? Tem algo que eu possa fazer? ― Carina pergunta ansiosa. ― Eu vim da Itália para isso, deve ter algo que eu possa ajudar!

Arthur toca o ombro da mulher e sorri.

― Quero que ajude a equipe de inteligência a estudar mais a fundo as questões relacionadas a Calamidade, assim como tem feito, pode criar sua própria sub-equipe se precisar ― propõe.

A italiana assente animada.

O homem olha para os outros e vai repassando os detalhes, tentando dividir todo o trabalho que tem cuidado sozinho no último mês. Mia, Samuel e Agatha vão ficar em cargo de encontrar o pai da garota, ela sente que Veríssimo está em algum tipo de perigo e vai dar seu máximo para encontrá-lo. Arthur não se opõe, sabe que o quanto antes encontrarem o antigo líder da Ordem, mais rápido serão capazes de se estabilizar novamente. Walter vai ajudar a dar treinamento básico para os novos membros da base da Ordem de São Paulo, entre eles Arthur não está nenhum pouco surpreso em ouvir os nomes de Hugo, Eduarda e Cassiano. Se sente orgulhoso e relutante ao mesmo tempo e só consegue pensar em como Thiago e Liz devem ter se sentido quando Joui, um garoto que eles salvaram, se juntou a Ordem em uma missão tão perigosa quanto Santo Berço. Para Arthur, só lhe resta acreditar que assim como Joui os três adolescentes vão se sair bem sem ajuda de um mentor, e em silêncio reza para que eles não tenham o mesmo fim que seu amigo espadachim.

Aaron ficará em cargo de conseguir mais informações em viagens de campo, assim como a equipe Espiãs, ele tem muita experiência entrando e saindo de lugares sem ser notado, encontrando informações que um simples agente não seria capaz. Chizue e Arthur ficarão em cargo de supervisionar as atividades, verificar e repassar novas missões comuns aos agentes. Enquanto isso, todos os outros devem se esforçar ao máximo para se manterem seguros e manterem todos informados sobre suas ações.

Quando finaliza as divisões de trabalho, Arthur solta um suspiro aliviado.

― Bem… É isso… Eu, hm, vou dar meu melhor por todos vocês ― ele promete. ― Eu vou proteger todos vocês!

A maioria deles sorri e Rubens imita uma leve continência, sem levar muito a sério sua própria ação.

― Pode crer, Senhor Veríssimo.

Os outros assentem.

― A gente vai dar o nosso melhor também, Senhor Veríssimo! ― Walter declara daquela forma largada que ele sempre fala.

Com isso, muitos dos agentes concordam, todos se referindo a Arthur da mesma forma.

“Senhor Veríssimo”.

Embora tenha assinado com esse nome por tanto tempo e praticamente se colocado nessa posição, é a primeira vez que Arthur é propriamente reconhecido dessa forma. Sente algo estranho no estômago, uma mistura de felicidade e ansiedade que faz com que seus olhos fiquem marejados. Do outro lado da sala pode ver Ivete olhando para ele com orgulho e um sorriso trêmulo surge em seu rosto.

Dante aperta seu ombro e sussurra em seu ouvido.

― Está na hora de descansar agora, Senhor Veríssimo.

Arthur sente seu rosto corar e assente.

Se despede de todos e vai até sua mãe, que o abraça e o acompanha até o lado de fora da base. O ocultista os segue até o carro e os três entram, vão até a casa que um dia foi compartilhada por Ivete, Arthur e Kaiser e que agora tem o homem loiro como novo morador. Desde os acontecimentos mais recentes, Dante tem estado cada vez mais próximo dos dois Gaudérios, não só devido ao fato de que eles se preocupam com sua solitude, mas também pois o próprio homem parece preocupado com eles.

Já faz alguns dias desde a última vez que Arthur dormiu em casa, e adentrar aquele lugar depois de tanto tempo é como respirar ar puro pela primeira vez em anos. Pega Jennifer no colo assim que seus olhos encontram a gata e o animalzinho ronrona em seu braço, esfregando o focinho em seu ombro. Ivete prepara o jantar, estrogonofe e batatas fritas para celebrar o dia que na verdade nem teve nada de tão especial, mas todos sabem que tem um grande significado. Depois de um banho quente merecido, os três fazem a refeição juntos em meio a uma conversa leve e divertida. Arthur ainda se sente cansado, talvez até um pouco mais agora que se permitiu baixar a guarda, mas consegue manter um certo nível de conversa durante o jantar.

Logo depois segue para a cama, se despedindo de todos de forma breve, mal consegue se manter de pé. Sua cama o abraça e ele fecha os olhos assim que sua cabeça repousa sobre o travesseiro, tudo fica escuro.

 

 

No meio da escuridão escuta o som de metal se arrastando no chão.

O ar está pesado, é estranho e familiar ao mesmo tempo, como aquele leve calafrio na espinha que já lhe é tão costumeiro. O sinal da presença do paranormal. Se levanta com dificuldade, o cansaço parece três vezes pior agora. Procura por sua arma, mas sua mão encontra algo que é diferente porém que reconhece muito bem. Seus dedos se fecham ao redor do cabo firme e enrolado com tiras de couro, o pedo do martelo não lhe surpreende. É como se nunca tivesse se separado dele, como se ainda o usasse em batalhas com frequência.

Tenta enxergar a arma em sua mão, mas o local está escuro demais para que veja muito além de uma silhueta. Seguindo o som do metal que se arrasta, ao longe ele pode ver o leve brilho de algo azulado. Seus pés descalços dão passos hesitantes pelo chão rochoso e frio e em uma respiração trêmula ele inala a poeira da caverna.

Arthur sabe onde está e sabe quem vem em sua direção.

O som se aproxima cada vez mais e o homem quer fugir, quer correr para longe e gritar por ajuda. Como um fantasma, pode sentir o peso de algo à sua esquerda, algo que já não existe mais, mas agora está ali. Presente e óbvio, como um grande lembrete não só do que perdeu, mas do horror que plantou sementes e se enraizou em sua mente há tanto tempo.

“Fuja,” ele pensa. “Não tem ninguém aqui para proteger, só fuja!”

E como se em resposta àquele pensamento, como se zombasse dele, a caverna ecoa em vozes conhecidas:

― Arthur!

― Arthurzinho!

Você tem que proteger eles, Arthur!

Ele balança a cabeça.

“Não, não… Eles se foram, eles morreram, só sobrou eu,” ele repete para si mesmo em sua mente, várias vezes sem parar.

― Arthur, por favor! ― As vozes imploram.

Ele quer fugir, quer correr para longe e se esconder.

O som do metal está mais alto e no meio da escuridão pode sentir a presença daquela figura enorme e imponente. Seu rosnar de ódio é alto e fácil de reconhecer, na verdade, seria impossível para Arthur não reconhecê-lo.

Arthur dá um passo para trás instintivamente e o som do metal é substituído pela sensação de um movimento brusco e um brulho oco, nojento. A imagem em sua mente é clara como o dia, mesmo que não consiga ver nada naquela caverna agora, ele se lembra bem. O grito desesperado de seu amigo quando a picareta finca em suas costelas torna tudo ainda mais real.

O homem se encolhe e continua negando com a cabeça.

― Não, não, não, não pode ser ― ele repete para si mesmo.

― Arthur!

― Arthur, protege eles!

― Arthur! Por favor!

Sabe bem o que vai acontecer se der um passo à frente, se tomar aquela batalha novamente.

Ele sabe.

Ele tem medo.

― Você tem que proteger eles, mesmo que você morra…

― Como eu morri ― todas as vozes dizem juntas.

Arthur grita irritado e corre em direção a figura com a picareta, com seu martelo em mãos ele salta para atingi-lo. A batalha segue a coreografia original e enquanto ele chora, o homem se prepara para o que está por vir. Como da primeira vez, quando isso acontece, ele nem é capaz de sentir nada a princípio. A escuridão se dissipa e ele vê a ferramenta fincada em sua carne, deformando seu ombro e pintando sua pele de vermelho. Logo duas mãos grandes, calejadas e cinzentas se agarram ao seu corpo e começam a puxar.

Lenta e dolorosamente como da primeira vez.

― Proteja eles. ― As vozes dizem. ― Mesmo que doa.

E seu braço é arrancado.

 

 

Acorda gritando, suado e respirando com dificuldade, ele agarra o lado esquerdo de seu corpo onde seu braço deveria estar. Dante entra em seu quarto depressa, com uma faca em mãos preparado para atacar alguma coisa. A luz do corredor ilumina o ambiente e os olhos negros do homem encontram a figura assustada e trêmula de Arthur sentado em sua cama.

O ocultista joga a faca no chão e se apressa até o outro homem, se ajoelhando diante dele, mãos delicadas tocando seu rosto.

― Arthur, calma, eu estou aqui ― acaricia as bochechas do homem. ― Olha para mim, eu estou aqui.

Soluços interrompidos escapam da garganta do homem barbado e ele abaixa a cabeça, chorando como uma criança. Dante o abraça com força e permite que Arthur chore em seus braços por um tempo, sem dizer nada, apenas o reconfortando da melhor forma que pode com o calor de seu corpo e caricias em seus cabelos. O gaudério abutre ainda consegue sentir a dor fantasma em seu braço perdido e por isso leva bastante tempo até se firmar novamente na realidade.

No presente.

Quando finalmente se acalma um pouco, se afasta do loiro e seca as lágrimas com as costas da mão, fungando.

― Foi mal… Eu… Me desculpa.

― Está tudo bem, eu estou aqui ― Dante continua acariciando seu cabelo.

― Foram só lembranças ruins, eu… Droga, me desculpa.

― Arthur ― o ocultista pega sua mão e a aperta. ― Não tem que se desculpar, quantas vezes eu vou ter que dizer? Eu estou aqui por você, não importa o que aconteça, do mesmo jeito que você me apoiou quando eu perdi a visão e… Depois de tudo o que aconteceu, eu estou aqui.

Arthur nega com a cabeça.

― Eu devia ser mais forte, eu devia proteger você… Todos vocês.

― Você é forte, mas você não tem que fazer nada disso sozinho, não se culpe por essas coisas ― massageia a mão calejada do ex-músico.

Eles ficam em silêncio por um momento e Arthur tem mais uma chance de se acalmar. Dante se senta ao seu lado, ainda segurando sua mão e fazendo movimentos circulares com seu polegar, firmes e gentis, na palma de Arthur.

― Quando eu perdi a Jasmim eu… Tudo o que eu pensava era em uma forma de honrar ela, de ajudar as pessoas e… Encontrar um jeito de trazer ela de volta ― sussurra. ― Eu estava tão desesperado que eu me deixei ser enganado, tentei lidar com tudo sozinho, fiz escolhas que agora eu sei não terem sido as melhores, só porque eu achei que precisava ser forte, por ela, pela Bea, por tudo o que eu perdi.

― Mas você foi forte ― Arthur murmura.

― Mas se eu tivesse pedido ajuda, se eu tivesse confiado mais em outras pessoas e não… Se eu tivesse visto as coisas com mais clareza e menos desespero, talvez eu não tivesse perdido tanto ― declara com o olhar baixo e uma expressão triste. ― Nossa vida é complicada demais para seguirmos nela sozinhos, Arthur, nós somos mais fortes e mais espertos juntos… Eu demorei tempo demais para notar isso.

O ex-guitarrista encosta seu rosto no ombro do loiro e fecha os olhos.

― Todos que eu amava… Minha família, eles se sacrificaram pelos outros, eu só estou vivo pelos sacrifícios deles, eu tenho que honrar o que eles fizeram ― funga e entrelaça seus dedos nos do ocultista. ― Eu sou um gaudério…

― Eu não conheci todos os outros, mas eu conheci o Kaiser e o Joui, eu sei que eles não iam querer que você carregasse esse fardo sozinho ― Dante beija a cabeça de Arthur e usa sua mão livre para acariciar o rosto do homem. ― Só porque eles se sacrificaram, não quer dizer que você deve seguir o mesmo caminho, na verdade significa que você deve honrar todos eles sobrevivendo. Eles morreram por você, então viva por eles, Arthur.

Uma lágrima escorre pela bochecha do mais velho e ele assente em silêncio.

Dante suspira.

― Compartilha esse peso comigo, me deixa andar ao seu lado.

― Promete que não vai me deixar? ― Arthur abre os olhos e olha para o loiro.

― Eu estou aqui por você, para o que você precisar.

― Então fica comigo essa noite ― pede baixinho. ― Não me deixa sozinho.

O ocultista assente e beija a testa do outro homem.

― Como desejar.

Se levanta para desligar a luz do corredor e retorna para o quarto, os dois se aconchegam sob os cobertores e Dante abre os braços para acomodar Arthur em seu aperto. Dormem assim, compartilhando o calor um do outro, sob o efeito do conforto da presença alheia. Todo o resto ainda é difícil, o trabalho, as responsabilidades, a loucura de se tornarem os novos líderes da Ordem. Mas durante a noite uma nova rotina se torna fácil de se acostumar e com o tempo ela se traduz para algo maior e mais forte.

Onde juntos, lado a lado, os dois homens são capazes de honrar os caídos.