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Aeternum • Wenclair

Summary:

Na pequena e isolada cidade de Jericho, Enid se muda para um apartamento modesto após ingressar na faculdade de Nevermore para estudar Jornalismo. Lá, ela conhece Wednesday - estudante de Letras, sombria e fria -, e as duas não se dão bem, apesar da atração mútua. Quando um circo chega à cidade de Jericho, coisas estranhas passam a acontecer: pessoas começam a desaparecer, medos se materializam e segredos antigos ressurgem, fazendo com que Wednesday e Enid sejam arrastadas para um conflito ancestral. Enquanto o medo se espalha, Wednesday e Enid descobrem que, às vezes, a linha entre o bem e o mal é mais tênue do que parece.

Notes:

Chapter 1: • Prólogo •

Chapter Text

Querida Gaia,

Dentre tantos acontecimentos que têm assolado estes últimos anos, tua partida ainda se ergue como a mais pungente das dores. A noite passada, entreguei-me à luz pálida da lua em nosso local predileto, onde outrora compartilhávamos segredos e risos. As flores, outrora vibrantes, jazem agora mortas, vítimas da estação gélida que nos envolve. Contudo, para meus olhos, tal desolação apenas acrescenta uma beleza à campina. Em meio ao silêncio, ainda consigo ouvir o eco de teu riso, leve e solto, como uma melodia distante que jamais se apaga. Como anseio por nós, por aquilo que fomos.

Aurora mencionou que te encontraste a servir no palácio de Ambara. Espero, do fundo desta alma inquieta, que sejas tratada com a dignidade que mereces. Bem sei que Sua Majestade há de apreciar tuas criações, pois foste sempre a mais criativa e perfeccionista das almas que já tive o privilégio de conhecer. Ainda visto o vestido que teceste para mim no último baile de inverno, embora não seja inteiramente negro, como eu preferirias. Ele carrega teu toque, teu cuidado, e isso basta para que eu o guarde como uma relíquia.

Aqui, porém, as coisas não se apresentam favoráveis, meu amor. Tentei, em vão, marcar um encontro com meu irmão, na esperança de restabelecer algum lampejo de paz. Ele, no entanto, recusou-se a receber-me. Sinto que o perco a cada dia que passa, como areia que escorre entre os dedos. Seus homens continuam a atacar nossas terras, e recentemente incendiaram mais um de nossos armazéns. Não me resta alternativa senão responder à altura, embora meu coração se entristeça com tal necessidade. Receio que tudo apenas se agrave daqui em diante.

Diara perdeu seu primogênito. O jovem Demétrius regressou de uma caçada, fraco e enfermo. Contou que se perdera e, sem perceber, adentrara as terras de meu irmão. Não recorda-se dos acontecimentos, mas acordou à entrada de minhas terras, consumido por uma fraqueza insuportável. Oh, Gaia, se pudesses ter visto seu estado! Parecia ter tido a vida sugada de seu corpo, como uma vela que se consome até o fim. Teve pesadelos por noites seguidas, e era evidente que sucumbia a algo além da compreensão mortal. Sei que foi obra de meu irmão. Ele está fora de controle, e eu... eu não pude salvar Demétrius.

Diara não sabe que eu o levei. Não sei se compreenderia, não como tu sempre me compreendeste. Mas eu tive de fazê-lo, meu amor. Mantê-lo vivo seria apenas prolongar seu sofrimento. Demétrius não merecia tal agonia, mas assegurei-me de que sua partida fosse tranquila, como um suspiro suave na escuridão.

Após tudo o que se passou, tenho ainda mais certeza de que não posso abandonar este povo. Como anseio por estar contigo, por sentir teu calor e ouvir tua voz novamente. Mas não posso partir daqui. Eles precisam de mim, e eu... eu preciso deles.

Temos orado com fervor, e creio ter aperfeiçoado o ritual. No entanto, algo ainda falta. A vida dos animais caçados já não é suficiente, e confesso que me sinto atormentada ao tirar a vida de criaturas inocentes, que nada têm a ver com esta guerra insana. Enquanto isso, lá fora, há tantos indivíduos cujas almas estão manchadas pela maldade, que mereceriam estar no lugar desses pobres seres. Sinto que estou à beira de uma decisão que poderá mudar tudo, Gaia. Uma decisão que, muito provavelmente, virará o jogo a nosso favor.

Agora, aqui me encontro, enclausurada em meu quarto, sob a luz vacilante de uma vela, enquanto escrevo estas palavras. Pensando em ti, como sempre penso. Sempre soube que minha vida seria marcada pela melancolia e pelo sofrimento, mas nenhuma dor se compara à tua ausência. Nenhum tormento é maior do que não poder tocar tua pele, sentir teu aroma ou ouvir tua voz.

Não sei como conseguiste tal feito, Gaia, mas, por mais que minha vida seja repleta de angústia, por tua causa, estou demasiado apegada a ela para deixá-la escapar tão facilmente. Lutarei, meu amor. Lutarei até o fim, não apenas para sobreviver, mas para um dia ter-te novamente ao meu lado. Se for preciso, atravessarei vidas e mortes, apenas para poder estar perto de ti.

Eternamente tua,

Nyxana.