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A coisa sobre aqueles que fogem do próprio passado é que sempre haverá algo ou alguém que fará com que tenham que encarar as próprias origens. Dante não tinha o menor interesse em reconhecer tudo o que envolvia as memórias das quais ele próprio fugia e na maior parte do tempo tinha muito sucesso, mas uma vez a cada poucos anos, sua fantasia era brutalmente destruída pela visita de Gal.
Às vezes ele se perguntava se o homem em questão não seria algum tipo de castigo, retribuição divina enviado para puni-lo por suas indiscrições.
— Gaspar, ainda agindo como se não estivesse enfiado em um antro de falsa retidão? Ou finalmente está pronto para encarar a hipocrisia da sua “casa de Deus”?
O terço em suas mãos estalou com a força com que cerrou os punhos, um suspiro profundo deixando seus lábios em busca de calma. Não precisava ouvir o discurso do homem, já havia o ouvido vezes de mais antes. Conhecia como as palmas das mãos seu ponto de vista sobre como a igreja lidava com a realidade em que viviam, com o quão inúteis eram protegendo o povo dos “demônios sugadores de sangue”… O quão inúteis haviam sido em protegê-los…
Dante não discordava, não completamente, deveriam fazer mais. Mais do que simplesmente abrir os portões para refugiados depois que suas casas e vidas já haviam sido destruídas. Mais do que simplesmente propagar a mentira sobre todas as criaturas serem seres assassinos e irracionais — alimentando uma cruzada sem fim de ódio, violência e vingança… A lembrança de Arthur lhe sorrindo com carinho, olhos brilhantes de expectativa enquanto o observava abrir o presente que havia lhe dado.
Um pensamento talvez um tanto injusto, não era porque ele havia se contentado em viver no pecado que devia esperar que os outros fizessem o mesmo — mesmo que às vezes ele se perguntasse… “O demônio não é tão negro quanto se pinta.”
Por outro lado, as ideias de Gal, seus ideais e planos eram extremistas demais. Polarizados demais para serem racionais. Tão perdido em sua sede por mudança ele estava que se tornou cego para as falhas em sua própria ideologia. No final era, ao mesmo tempo, uma cruel ironia e uma doce justiça poética que o mais desesperado dos homens por genuína equidade, fosse aquele a se denominar injustiça quando parou de enxergá-la.
— “Falando coisas quando o silêncio seria ideal…” — Recitou categoricamente, talvez um pouco áspero, sem lhe dispensar mais que um olhar de esguelha — Vejo que você não mudou nada desde a última visita indesejada.
Ele riu ironicamente em resposta e bateu com os dedos sobre o tampo da mesa lateral.
— Citando Alighieri… Que previsível da sua parte — Dante não precisava olhar para ele para saber que estava revirando os olhos — Pelo visto você também não mudou muito… O padre Ronaldo estaria orgulhoso…
O veneno escorreu pelas palavras e Dante mordeu uma resposta afiada, seu corpo se arrepiando em desgosto com a comparação. Houve uma época em que ele teria se alegrado, encantado com a comparação, quando ele ainda respeitava a santidade do homem, quando ainda não havia sido confrontado com a imoralidade do mundo e a podridão do falso piedoso.
— Oque você quer, Gal?
O homem cantarolou em contemplação caminhando até sua frente e analisando a maçã vermelha brilhante que só agora Dante percebia que ele segurava.
— “No inferno os lugares mais quentes são reservados aqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise”… — O homem encarou com deboche sua carranca irritada e arremessou a maçã para cima a pegando no ar, brincando despreocupado — O quê? Achei que gostasse do livro, Dante. — Zombou e ele suspirou frustrado — Você não é burro Gaspar, as coisas estão mudando, uma tempestade está chegando no horizonte, eu quero saber de que lado você estará “Considere tua origem. Não foste feito para viver com os brutos, mas para seguir a virtude e o conhecimento”.
Dante sabia o que ele estava perguntando e não conseguia responder, não porque não soubesse a resposta, mas porque sabia. Sabia exatamente de quelado ficaria se tudo fosse para os ares e não queria encarar quão pecadora sua alma realmente era porque sabia que independente de qualquer crença, independente de qual punição Deus lhe reservaria, ele ainda escolheria o lado de Arthur…
— “Quem és tu que queres julgar, com vista que só alcança um palmo, coisas que estão a mil milhas?” Não tenho ilusões sobre a graça do destino final da minha alma, Gal e ao contrário de você estou confortável em aceitar o que for reservado.
Um bufo foi sua resposta e os olhos negros do homem o encararam.
— Não me diga que o santo Gaspar espera acabar no purgatório?
Era uma zombaria, uma ridicularização de algo que ele não acreditava ser possível. Dante apenas o encarou com firmeza.
— “Abre a mente ao que eu te revelo e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta”. Antes de Alighieri, não era o usado o termo “portões do inferno” ao invés disso, era a boca, “boca do inferno” há muito tempo tenho caminhado em direção aos dentes afiados e de bom grado me ofereci como refeição. Receio estar perto demais de sua garganta para voltar, não me resta outro destino a não ser aceitar ser digerido em seu estômago quando chegar a hora.
Gal não entendeu o que ele quis dizer, Dante não esperava que ele entendesse, não quando lhe faltava tanto contexto. Por fim, estendeu a mão, roubando a maçã suculenta e tentadora das mãos do outro e se virou para ir embora, afinal, o sol já havia se posto e Arthur o esperava.
— Boa noite, Gal.
Quando chegou em seu quarto, abriu a porta e sorriu para o homem, o monstro, o amante em sua cama.
Dante mordeu a maçã.
