Chapter Text
You're obsessin'
Just confess it 'cause it's obvious
I'm your number one
I'm your number one
Rio de Janeiro, Março de 2024
Eduarda sentiu uma gota de suor escorrer pela sua nuca.
As juntas dos dedos estavam ainda mais pálidas pela pressão exercida no cabo da raquete, feita exclusivamente para si. O peso era adequado, as cordas eram novas e soavam de maneira melodiosa quando colidiam contra a bola. Tudo era familiar, até a tensão.
Na sua vez de sacar, o silêncio poderia evidenciar a queda de um alfinete no chão.
Estava a um ponto de perder o jogo.
Com um set para cada lado, a partida agora se desenrolava para um último ainda mais acirrado, com games equilibrados e constantes empates que alongavam aquela disputa de forma extenuante. Os olhos atentos nas arquibancadas brilhavam em expectativa, ansiando por aquele embate como se vissem uma epopéia. E viam.
O som do coração de Eduarda parecia pulsar em seus ouvidos, bombeando o sangue das artérias até as veias sobressaltadas nas laterais da testa, tamanho seu furor. A sensação era aguda, espinhosa.
A garganta estava seca.
Contra ela era diferente, sempre era, mas especialmente naquela ocasião, parecia ter sido tomada pela sua cólera como nunca antes. Ela escorria pelos poros, espalhava-se por sua pele, pinicava sob o sol.
A regata cinza, com um felino estampado, empapava-se de suor. Suas coxas latejavam e os cabelos ruivos eram um emaranhado de frizz, suor e tentativas falhas de ajustes. Havia se acostumado a deixar sua expressão neutra nos momentos de tensão - como constantemente enfatizado pelo seu treinador - mas para um bom observador, Eduarda era a imagem evidente de um caos mal contido.
No outro lado da quadra, olhos verdes esperavam.
Famintos.
Aguardando apenas um deslize.
A expressão impassível antagonizava a de Eduarda ao não entregar nenhum ínfimo pensamento. Seus olhos eram tão vazios que pareciam denotar a ausência da alma. Para Eduarda, essa não era uma afirmação tão imprópria.
Sua regata branca, com um símbolo em três linhas, empapava-se igualmente pelo suor, mas os cabelos estavam perfeitamente alinhados atrás da faixa de mesma cor. A respiração era profunda, controlada e ela balançava levemente de um lado ao outro. Esperando.
Eduarda esticou o braço esquerdo e inclinou o corpo levemente para trás ao mesmo tempo que o braço direito subia com a raquete. A bola flutuou no ar por uma fração de segundo antes do baque seco, apoteótico, soar pela quadra.
A bola atingiu à esquerda da zona três, obrigando Lorena a mover-se com fulgor para alcança-la e devolver para a mesma região no outro lado da quadra. Eduarda defendeu-se com facilidade, mas não poderia prever a subida abrupta dela para a zona 2, onde executou a devolutiva de maneira igualmente agressiva.
Uma tentativa clara de encurralamento.
O backhand foi executado brilhantemente, sua especialidade e Lorena recuou, deixando a zona dois por apenas um passo. Correu para o lado esquerdo e deslizou até alcançar a bola, executando o slice com maestria. Quando Eduarda chegou, não teve outra opção se não devolver a bola alta, já prevendo o próximo passo dela e soltando um “porra” baixo, apenas para si.
Lorena, com a vantagem da altura, plantou um impiedoso smash, fazendo a bola quicar uma vez na zona 1 e voar alto, longe, para o fundo da quadra. Eduarda correu, alcançando por pouco e rebatendo a bola de costas, entre as pernas. O público ofegou em conjunto.
Precisava ir mais rápido.
Lorena foi obrigada a descer até o fundo da quadra, dando tempo para Eduarda recuperar o fôlego antes de receber a bola e rebater com ainda mais fulgor. Lorena grunhiu, executando o forehand para a adversária, retornando à zona 3. Eduarda devolveu, grunindo também, o som seco das batidas ganhando um ritmo frenético, histérico.
Eduarda deslizou até o lado direito, sentindo as costas queimarem pela exposição solar, o suor acumulando entre as sobrancelhas e a adrenalina tomando seu corpo. Lorena rebateu a bola rapidamente para o lado esquerdo com esforço vocal, próximo a rede, obrigando Eduarda a correr como poucas vezes na vida.
Estava sem ar. Ambas estavam.
A bola chegou até Lorena rápida o suficiente pra um rebote imediato. Eduarda estava muito longe, ela sabia que a adversária não conseguiria outro pique como o anterior. Era o que faltava para o winner. Cruel, intencionalmente sádico.
8x6. Game. Set. Fim de jogo.
As duas se encararam por alguns breves segundos. Peitos subindo e descendo, respirações descompassadas, pernas queimando, suor caindo em gotas no chão. O público delirava, aplaudia extasiado o jogo que, posteriormente, seria eleito o melhor da temporada.
Lorena Ferette e Eduarda Fragoso se conheciam desde os 7 anos de idade.
Passavam pelos mesmos centros de treinamento, mesmos campeonatos, mesmas seletivas e atualmente, estavam há 3 anos guerreando pelo top 5 feminino do Brasil. Ora Lorena, ora Eduarda revezavam a posição como se fosse o 1.
Secretamente, o objetivo principal era apenas um: superar a outra.
Eduarda era uma old money do tênis: o avô havia fundado um dos primeiros clubes de Florianópolis e a família inteira era referência na prática esportiva. Havia aprendido a usar a raquete antes de andar e não foi surpresa quando se destacou nos campeonatos estudantis, empilhando troféus desde os 6 anos de idade.
Nos jantares organizados pelos Fragoso, figuras como Gustavo Kuerten eram carinhosamente apelidados de tio por Eduarda, que nunca teve nenhuma discordância ao enfatizar o quanto suas habilidades sobrepunham as das colegas de classe.
Era o rosto de um legado e o empunhava com orgulho, a personificação da excepcionalidade como apenas um prodígio poderia ser. Era um fenômeno e sabia disso.
Até demais.
Até ela.
Nunca se considerou insegura, longe disso. Tinha a base, incentivo, dinheiro, talento, tudo. Mas Lorena Ferette ainda era a pequena farpa que não conseguia tirar debaixo da unha.
Herdeira de um império farmacêutico, revezava o tênis com o piano, inglês e hipismo. Cumpria todos com esmero, entretanto, apenas o tênis lhe oferecia algo tórrido, como nenhuma outra atividade: a adrenalina. Naquele curto espaço da quadra, exercia uma natureza implacável, libertando sua face mais atroz, uma segunda identidade.
Forçava, encurralava, atacava, incitava, ao mesmo tempo que calculava, ajustava, devorava. Era quase animalesco, ainda assim, a execução socialmente aceita de toda sua barbárie.
O pai, Santiago Ferette, enxergava na filha a representação perfeita da própria persona. Ela era exatamente como si: determinada, resiliente e cruel. Seus adversários eram aniquilados, como ruge a lei da natureza. O sobrenome Ferette era destaque não apenas nas camisas, mas também nos telões, outdoors, produtos patrocinados. Um império regido à mãos de ferro e suavizado na figura deslumbrante de Lorena. Win-win.
Ela sorriu, virando-se para a platéia e jogando um beijo para o homem de camisa de linho azul e óculos escuros, seu namorado. Jaffar Bambirra, herdeiro de uma rede hoteleira atuante em toda a América Latina, pegou o beijo e levou-lhe até o coração. Santiago sorriu, ao lado de Zenilda e Leonardo enquanto aplaudiam.
Lorena caminhou vagarosamente até a rede, saboreando aquela vitória antes de estender a mão para Eduarda. As palmas suadas se tocaram, transferindo o calor da pele e a eletricidade que ainda orbitava os corpos.
- Bom jogo, Fragoso.
Eduarda sorriu.
- Vai pro inferno.
Lorena respondeu o sorriso, soltando o aperto primeiro e deslizando as pontas dos dedos pela palma dela.
Os olhos verdes seguiram Eduarda quando ela virou, o rabo de cavalo balançando enquanto recolhia seus itens pessoais e seguia para o vestiário.
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Eduarda tinha algumas boas qualidades.
Saber perder não era uma delas.
Media training algum foi suficiente para lhe impedir de rachaçar a raquete no chão do vestiário, balbuciando palavras de baixíssimo calão sobre a adversária.
Odiava a calma, a forma como movia, o olhar gelado. Odiava o sobrenome, a voz e aquele anel de castidade ridículo que ela usava desde que tinham quinze anos. Achava a mera existência dela patética, pedante e a exemplificação perfeita da hipocrisia tradicional que precisou conviver durante toda a vida.
Laura, Marina e Giovana nunca haviam sido uma questão para si. As três revezavam as primeiras posições do ranking nacional, mas havia algo sobre Lorena que fazia sua pele faiscar. Os duelos com ela eram sempre os mais aguardados, os primeiros ingressos a esgotarem e Eduarda sabia que a imprevisibilidade era o fator mais decisivo para tanta atenção. Nunca entendeu como ela parecia antecipar todos os seus movimentos.
Havia ganhado o último duelo, mas nenhuma vitória era satisfatória suficiente para suprir a expectativa da próxima. Superá-la lhe movia, secretamente sendo uma das razões que lhe mantinham no esporte. Não era apenas sobre ganhar de Lorena, era sobre tirá-la completamente do caminho. Aniquilá-la.
Observou o amontoado de grafite, titânio e outros materiais retorcidos no canto dos armários. A respiração havia lentamente voltado ao normal e Eduarda secou o suor do buço com a munhequeira antes de retirá-la e atirá-la no montante.
Finalmente em silêncio, retirou as roupas e seguiu até uma das cabines, ligando o chuveiro e sentindo a água gelada correr pela pele, aliviando o calor e relaxando seus músculos.
Ouviu o som da porta abrindo.
- Você tá bem?
Maggye questionou.
- Por que não estaria?
Respondeu, tentando manter a voz impassível.
- Porque você é a pior perdedora que eu conheço.
Maggye sorriu levemente com o silêncio dela.
- Eu não conheço alguém que goste de perder.
- Eu conheço várias que conseguem de forma civilizada.
Eduarda bufou, abrindo a porta enquanto ajustava a toalha ao redor do tronco. O cabelo pingava, molhando todo o chão ao redor.
- Olha, se você veio aqui me dar lição de moral, acho melhor dar meia volta. Tô total sem paciência.
Maggye rolou os olhos.
- Milagre seria se tivesse alguma. Inclusive, sorte a sua a Lorena não se envolver em polêmicas porquê mandar ela pro inferno correndo o risco de alguma câmera registrar foi longe de ser um dos seus melhores lapsos.
Eduarda fechou os olhos e suspirou, como se tentasse recobrar a razão.
- Desculpa. Foi no calor do momento.
- Muito bem. Agora só falta falar isso pra ela.
A ruiva abriu os olhos, sem entender.
- Por que? Ela provavelmente deve falar muito pior de mim pelas costas!
- Exatamente, Eduarda. Pelas costas, como fazem os profissionais mais sensatos. Só porquê uma câmera do evento não registrou, não significa que todo mundo deixou de ver e como sua publicista, você me deve pelo menos essa paz de espírito. Se desculpa com ela e deixa tudo em pratos limpos.
- As vezes eu sinto que você é minha dívida kármica.
- Se a gente for considerar isso, eu fui o soldado romano que chicoteou Jesus. Eduarda. Por favor.
Eduarda bufou enquanto vestia a saia.
- Tá, Maggye. Eu peço.
- Hoje.
- Inferno.
- Eduarda.
- Hoje! Peço hoje, depois da coletiva! Que saco!
Maggye sorriu.
- Seu cabelo faz jus ao seu temperamento, Dudinha. Boa coletiva e lembra do que alinhamos. Beijo!
Eduarda rolou os olhos antes de começar a secar o cabelo.
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Os jornalistas espalhavam-se entre as cadeiras do pequeno auditório. A expectativa estava nas alturas, raros eram os momentos em que Lorena e Eduarda davam entrevistas juntas. A ultima vez havia ocorrido há pouco mais de dois anos, em Madrid.
Lorena, obviamente, chegou primeiro.
Os cabelos escuros estavam soltos, emoldurando o rosto como uma cascata. Usava apenas um óculos de grau e um pouco de hidratante labial, essencial para os 36º que castigavam o Rio de Janeiro naquele momento. Vestia uma regata branca e um kit de calça e corta-vento verdes, da cor dos seus olhos, exigências da sua principal patrocinadora.
Desejou boa tarde aos presentes e sentou-se, jogando as madeixas castanhas sob o ombro direito enquanto aguardavam a chegada de Eduarda. Quando chegou, dez minutos atrasada, desculpou-se sem muita intenção, sentando-se ao lado de Lorena. Ela lhe observou silenciosamente enquanto abria uma garrafa de água. A jóia solitária em seu dedo anelar parecia reluzir.
- Boa tarde, pedimos desculpas pelo atraso e agradecemos a presença de todos. Dada a agenda das atletas, cada uma responderá 3 perguntas, nenhuma de caráter pessoal. Entendido?
O mediador informou e um coro de afirmação ecoou pela sala.
- Bom. Lorena será a primeira.
Vários jornalistas levantaram a mão e Lorena apontou para o homem baixo, de barba rala.
- Boa tarde, Lorena. Lucas da ESPN. Normalmente o confronto entre vocês é um dos mais aguardados da temporada, muito em prol da rivalidade construída desde os campeonatos juvenis. Existe algum tipo de preparação especial pra essa disputa?
Lorena testou o microfone com a ponta dos dedos antes de ajustá-lo próximo a boca.
- Sim, sempre existe. Parte do processo é estudar minhas adversárias com muita atenção, entender quais os pontos de fraqueza e de que forma posso contorná-los. Enfrentar a Eduarda sempre exige muito não só fisicamente, mas também em âmbito tático. É, talvez, uma das minhas adversárias mais imprevisíveis. - Sorriu levemente. - Mas nada impossível.
Eduarda sentiu o sangue ferver.
- Eduarda responderá agora.
Escolheu uma jornalista franzina, sem dar muita atenção.
- Boa tarde, Eduarda. Mariana da GE TV. Como o Lucas compartilhou, os confrontos entre vocês estão sempre entre os destaques da temporada e hoje não foi diferente na média de público, que foi o maior até então. A pressão exercida por essa atenção fez diferença na sua performance hoje?
Lorena teve vontade de rir, mas se manteve impassível. Eduarda sorriu, cínica.
- Não, convivo com esse tipo de atenção desde muito jovem. A presença do público certamente torna o espetáculo maior, mas dentro da quadra, quando você é um profissional, a única pressão advém do adversário. Entender as movimentações, antecipar os movimentos, todas essas coisas que tornam o jogo o ele é.
Foi a vez de Lorena escolher outro jornalista.
- Boa tarde, meninas. Celso, do SBT Sports. Lorena, na última coletiva você falou sobre os desafios no processo de recuperação da lesão no menisco e um ano depois, enfrenta Eduarda novamente, plenamente recuperada. A intensidade vista no jogo de hoje não mudou desde o último mas certamente difere de outros confrontos, como o com a Laura Dutra, por exemplo. Diria hoje que Eduarda é sua maior oponente no tênis nacional?
Foi a vez de Eduarda bebericar um pouco de água.
- Certamente é uma das minhas oponentes mais significativas. Acredito que parte da rivalidade é mais alimentada por veículos externos do que dentro da quadra, onde possuímos respeito mútuo e muita admiração. Crescemos juntas nesse ambiente e entendemos o quão complexo é sermos postas em um sentido antagônico, então parte do trabalho é simplesmente não dar ainda mais vazão pra construção de narrativas que não fazem sentido.
Respeito é o caralho.
Eduarda pensou, enquanto apontava para um jornalista que parecia estar dando a vida para ser visto.
- Boa tarde, Eduarda. Gabriel, do SportTV. No seu último jogo, contra a Marina Moschen, você obteve folga significativa, ganhando a partida em um set onde não perdeu nenhum game. Mesmo que Marina esteja em posição superior no ranking, contra Lorena parece ser sempre mais desafiador. Ao que você atribui essa competitividade tão intensa?
Lorena ajeitou os óculos sob o nariz, atenta.
- Marina é uma adversária excepcional e é sempre um prazer disputar com ela. Acredito que o fato de eu e Lorena nos enfrentarmos desde muito jovens é um fator decisivo para termos certa previsibilidade de jogo uma pra outra, o que não nos impede de nos aperfeiçoarmos cada vez mais pra fugir disso a cada partida. Hoje eu deslizei, mas Lorena tem plena consciência que vou vir ainda mais preparada numa próxima e vice-versa.
- Últimas perguntas, pessoal.
Lorena apontou para uma mulher, sentada ao fundo.
- Boa tarde e ótima partida, meninas. Juliana, da BandSports. Lorena, você é reconhecida por ter uma das rotinas de preparação mais rígidas entre as atletas de tênis nacional, o que é evidente no seu parco histórico de lesões e estabilidade, tornando você hoje a única atleta invicta do campeonato. Como essa rotina pode ser mantida há tanto tempo sem nenhum deslize?
Lorena jogou os cabelos para trás dos ombros.
- Meu pai e eu nos assemelhamos muito nos nossos métodos de trabalho, herdei isso dele. Disciplina e comprometimento são dois fatores determinantes pra alcançar os altos rendimentos que ambicionamos e hoje, não vejo outra prioridade na minha vida se não minha carreira. Os deslizes até ocorrem, mas tem se tornado cada vez mais raros com o tempo. Vejo como essencial a responsabilidade sobre as minhas escolhas e como elas afetam o que é mais importante pra mim.
Eduarda suspirou, sabendo que aquela fala havia sido mais do que direcionada. Não era o maior exemplo de disciplina, sua incapacidade de se dobrar à autoridade era uma das suas características mais marcantes. Havia feito mais treinadores se demitirem do que se orgulhava em admitir.
Sua percepção sobre o quão ardilosa Lorena era não parecia ecoar, tamanha a capacidade de obliterar o pior de si que ela possuía. Reconhecia as micro expressões, a crueldade que escorria entre as palavras bem colocadas porquê era exatamente o que fazia. Ferette era sua adversária mais significativa até quando se considerava a ligeira falta de caráter.
Apontou para um jornalista com camisa preta.
- Boa tarde, meninas. Afonso da CazéTV. Eduarda, na última entrevista antes da saída do posto como seu treinador, Marco Pacheco falou sobre, abre aspas, a impossibilidade de lidar com o temperamento asqueroso que você construiu ao longo dos anos. Você tem algo a dizer sobre isso?
O homem robusto tomou o microfone.
- Sem perguntas de caráter pessoal.
Eduarda interrompeu.
- Sem problemas. Eu quero responder essa. - Sorriu. - Marco e eu trabalhamos juntos por pouco mais de um ano e uma coisa que gosto de deixar claro pra toda a equipe que me acompanha é que não cumpro nada que não vejo sentido prático, isso foi um alinhamento que tivemos lá no começo de comum acordo. Acredito que exista um padrão de cinismo completamente masculino que é assentar um combinado e posteriormente agir como se isso fosse uma dificuldade imposta, exatamente como você agiu agora ao fazer uma pergunta que fugia do alinhamento inicial. Fiz questão de responder, mas também aproveito a chance pra frisar sua inabilidade de agir de acordo com o decoro, característica que considero uma extrema incompetência. Boa tarde a todos.
Eduarda finalizou, antes de pegar a garrafa de água pela metade e deixar a sala.
Lorena observou o desenrolar da situação com curiosidade. Conhecia o temperamento de Eduarda, mas mais ainda, conhecia o comportamento de homens frente à mulheres no ambiente esportivo. Jamais admitiria em voz alta, mas o rosto contorcido pela vergonha do jornalista e as expressões risonhas dos outros foram um deleite para si enquanto mulher e atleta.
Levantou-se e despediu-se com calma dos presentes antes de seguir pela mesma saída. Encaminhou-se até a sala privativa reservada a si, visando aguardar o retorno de Lucélia, sua publicista - ironicamente, prima da publicista de Eduarda.
Retirou o corta vento e o jogou em uma das poltronas presentes ali, o ar condicionado mal suprindo o calor escaldante. Checou o celular rapidamente, lendo sobre o atraso de Lucélia e as felicitações do pai pela barra de notificações, sem responder ninguém.
Ouviu batidas na porta e estranhou. Quando abriu, não pôde conter a surpresa ao ver Eduarda.
- Posso entrar?
Lorena abriu caminho, ainda desconfiada.
- Aconteceu alguma coisa?
Eduarda suspirou, parecendo algo entre impaciência e constrangimento.
- Queria pedir desculpas.
Lorena franziu o cenho.
- Pelo quê?
- Mandar você pro inferno.
Houve um segundo de silêncio antes da risada de Lorena ecoar.
- Sério?
- Sim. Tava de cabeça quente, cansada. Você sabe como os nervos ficam nesses momentos.
- Sei.
Elas se olharam por um segundo. Lorena parecia se divertir como nunca.
- E aí?
- E aí o quê?
Eduarda bufou, impaciente.
- Vai me desculpar ou não?
Lorena cruzou os braços.
- O quanto Maggye precisou insistir pra você vir aqui?
- Isso importa?
- Óbvio. Mas pela sua resposta, já percebi que foi muito.
Eduarda queria socá-la. No meio do nariz. Quebrá-lo em pedaços microscópicos ao ponto do telescópio Hubble ser o único capaz de identificar os fragmentos dos ossos.
- Lorena.
- Sim?
- Por favor, não torna isso mais ridículo do que já tá sendo. Me arrependi, me passei. Pronto.
Lorena seguiu rindo. Ela com certeza estava se divertindo com aquela situação.
- Se levarmos em consideração o histórico, se passar é o seu segundo esporte profissional. E convenhamos, você não tá nem aí se eu te desculpo, só quer uma garantia de que vamos continuar civilizadas. - Ela se aproximou. - Mas fica tranquila, eu não tenho intenção alguma de fazer qualquer caso sobre isso.
Eduarda rolou os olhos, se afastando e caminhando até a porta.
- Impossível conversar com você.
- Você me manda pro inferno, pede desculpas sem intenção e fica com raiva porque achei graça?
- Não, tô puta porquê você obviamente tá aproveitando a situação pra tirar uma com a minha cara.
Foi a vez de Lorena rolar os olhos.
- Eduarda, ao contrário do que todo mundo fez você acreditar, você não é o centro do universo. Eu só achei o contexto engraçado. Você é uma das pessoas mais afetadas que eu conheço, juro por Deus.
Eduarda riu sem humor algum enquanto se aproximava de Lorena.
- Sabe o que eu acho engraçado? Você adora subir aí, nesse seu palanque de superioridade emocional, moral e sabe-se lá mais o quê, mas eu te conheço bem o suficiente pra saber o quão cínica você é.
Lorena sorriu.
- De fato engraçado, porquê eu poderia dizer o mesmo de você e essa pose de rebelde sem causa. Era lindo quando tínhamos dezesseis, aos vinte e quatro tá meio patético. Cresce.
Eduarda sentiu a familiar sensação crescer em seu peito. Aquela que normalmente resultava no pedido de desculpas que lhe fez chegar até ali.
- Igual você? Que é tão madura, tão disciplinada, tão controlada com seu namorado embalado à vácuo e anelzinho de castidade… No fim, toda essa pose até esconde, mas nós sabemos muito bem o que você é.
O olhar de Lorena ganhou o mesmo tom que assumia nas quadras. Os óculos até davam um ar de seriedade, civilidade, mas não eram eficazes o suficiente pra suprimir a natureza felina dos olhos verdes, embalsamados naquela velha avidez predatória que ela possuía.
- É? Então fala, Eduarda. O que eu sou?
Perguntou, com a voz baixa. Gutural.
- Uma vagabunda frígida.
As palavras pairaram no silêncio como se jogadas com intenção, intuídas ao erro de forma calculada. Naqueles breves segundos em que planavam na sala, uma reação em cadeia se sucedeu.
A mão direita de Lorena agarrou o pescoço de Eduarda, empurrando-a de forma descuidada até a parede mais próxima. Ela sentiu o baque seco na parte de trás do crânio, não tendo muito tempo de reação antes dos lábios da adversária cobrirem os seus.
Levou as mãos até os punhos de Lorena, sem saber se tentava afrouxar ou acirrar o aperto. A mão esquerda dela puxou seu corpo para perto e Eduarda não conseguia formar um mísero pensamento coerente. A língua dela, quente, molhada, invadiu sua boca ao mesmo tempo em que o suspiro deixou seus lábios.
O beijo não era rápido. Era intencional, assertivo, dominante.
Eduarda respondia à altura, sugando os lábios, língua, empurrando a sua, lutando por espaço e, percebendo de forma mortificante, que instruía involuntariamente o aperto em seu pescoço.
Estava sem ar.
Lorena deu um passo impossível para frente, colando os corpos ainda mais e Eduarda quis morrer quando sentiu a coxa dela entre suas pernas. A mão esquerda dela escorria pelo seu corpo, apertando a cintura, coxas, seios, trazendo pra perto, pressionando. Eduarda gemeu, agoniada e Lorena descolou suas bocas, inchadas, úmidas.
- Vira.
Mandou e Eduarda pareceu não entender por um segundo antes do ar retornar com força aos seus pulmões quando ela tirou a mão de seu pescoço. Lorena não esperou muito antes de virá-la de costas bruscamente, curvando-a sobre a mesa de equipamentos.
Eduarda se sentiu latejar.
Suas pernas foram separadas sem muito cuidado pela dela e os braços foram presos nas costas antes da saia ser completamente elevada até a cintura. O ar voltou a faltar, uma gota de suor escorreu e a sensação de cataclisma se construía de forma quase cabalística.
Algo desconhecido, completamente indômito tomou conta de si quando sentiu as pontas quentes dos dedos dela se esgueirarem pela lateral da sua peça íntima, afundando em si com facilidade e sem nenhuma cerimônia.
Seu corpo tensionou completamente e o grunhido que escapou de sua boca ecoou pela sala, baixo, vindo do fundo do peito. A mão esquerda dela largou os braços nas suas costas e Eduarda os manteve ali. Sua boca foi tampada quase ao mesmo tempo em que os movimentos dentro de si iniciaram, fundos, rápidos, experientes.
Eduarda não conseguia focar em absolutamente nada.
Não era a primeira vez que transava com uma mulher, era bem esclarecida sobre suas preferências. Mas havia algo ali que beirava a familiaridade, como se ela soubesse algo sobre si que ninguém mais tinha acesso além dos desejos do seu eu mais íntimo. A forma como segurava seus braços, pescoço, como a ponta dos cabelos dela roçavam em suas costas, acompanhando os movimentos… Era natural, como se lapidado por anos de prática.
O sentimento era algo entre torpor, ânsia, ódio. Seus quadris ondularam no ritmo contrário ao imposto por ela, tentando amplificar ainda mais os movimentos e pôde ouvi-la arfar, sem controle, murmurando algo quase ininteligível sobre o quão molhada estava. Porra.
Duas poderiam jogar aquele jogo.
Lorena abriu a boca em completo assombro quando sentiu os lábios de Eduarda se fecharem ao redor dos dedos, a língua quente os dividindo e vibrando contra eles enquanto ela gemia. Eduarda poderia sentir o gosto metálico do anel e riria pela ironia da situação se ela não estivesse tão profundamente enterrada em si.
A esse ponto, seu corpo praticamente subia e descia contra Lorena, que poderia senti-la cada vez mais estreita. Eduarda estava perto. Muito perto.
Lorena retirou os dedos da boca dela e agarrou os cabelos da nuca, levantando-a em um ângulo que pôde novamente agarrar-lhe o pescoço. Eduarda levou as mãos ao punho de dela outra vez, pontuando o aperto.
Por um segundo, a boca de Lorena colou em seu ouvido e elas arfaram juntas, numa inerência encaixada, específica. Eram como uma extensão da outra, trabalhando em conjunto por um fim desconhecido, expectado. Uma das pernas de Eduarda foi posta sobre a mesa e o ângulo novo permitiu ir ainda mais fundo.
Era o que faltava.
Quando o ar ficou ficou quase nulo, Eduarda chegou ao ápice com um som sôfrego, longo, que perdurou o suficiente para se tornar uma memória que atormentaria Lorena pelo resto da vida.
As duas pairaram ali, ofegantes, atônitas, enquanto os movimentos diminuíam gradativamente, como se tentassem estender a sensação.
Lorena saiu de dentro dela vagarosamente, soltando o aperto no pescoço e andando de costas até encostar na bancada atrás de si, onde apoiou o corpo como se precisasse de algum alicerce. E de fato precisava.
Eduarda não sabia muito onde enfiar a cara.
Que porra tinha acontecido ali?
Batidas na porta ecoaram e Lorena pareceu recobrar a consciência. Limpou as mãos rapidamente em uma das toalhas de rosto presentes ali e seguiu até a porta, abrindo apenas uma fresta.
- Seu vôo vai partir daqui uma hora e meia. Se não estiver com tudo arrumado, melhor correr.
- Tá tudo em ordem. Eu… só preciso arrumar uma última coisa e já…
- Não precisa, tá… tudo em ordem também.
Eduarda disse, em um tom quase robótico antes de puxar a porta de maneira meio afoita. Deu um sorriso amarelo a Lucélia, que arregalou os olhos, meio atônita.
Naquele momento, não era a única.
Andou quase correndo até a própria sala, pegando apenas o celular e chave do carro. Maggye cuidaria do restante.
Deixou a arena com pernas trêmulas, sem saber muito se foi pelo sexo em si ou pelo fato estarrecedor que Lorena Ferette havia sido a responsável pelo orgasmo mais espetacular de toda sua vida.
