Work Text:
Eu tô tão fudido.
É o único pensamento que passa pela cabeça de Dunk enquanto ele fica parado no meio da kitnet onde ele mora, olhando para tela rachada do celular e vendo o saldo negativo na conta do banco. Ele nunca teve dinheiro… Sempre que entra um pouquinho, logo acontece alguma merda e ele fica liso de novo. Dessa vez, a merda que aconteceu foi a morte do Sr. Arlan. Não teve doença, nem um acidente dramático, ou aquela enrolação toda de hospital e médico. Não deu nem tempo de se preparar ou se despedir. Foi do nada, a duas semanas, ele recebeu uma mensagem da vizinha do barraco onde o Sr. Arlan morava dizendo: "Ei, seu pai não sai de casa faz uns dias", e pronto, Dunk já soube na hora que ele estava morto.
O enterro foi o mais barato que ele conseguiu arranjar, mas as parcelas ainda pesavam no seu bolso. E não é que ele se arrependia de ter pagado o funeral, não tinha ninguém mais que poderia pagar, mas ainda sim, foi isso que o deixou na situação que ele está agora: desesperado, com fome e se escondendo do proprietário da kitnet onde ele morava.
O Sr. Plummer até que é um cara decente, pros padrões de donos de kitnet, mas ele não faz exceção para ninguém. Ele sabe que Dunk está passando por dificuldades, claro, mas todo mundo no prédio está na mesma e, de alguma forma, eles conseguem pagar. Se ele botar Dunk para fora hoje, amanhã já vai ter outra pessoa no apartamento, alguém tão merecedor quanto ele e que consegue pagar o aluguel sem atrasar.
Se isso acontecer, Dunk sabe que vai dormir no carro por umas duas semanas até juntar grana o suficiente para pagar o caução de um lugar novo. Iria ser uma merda e iria ser desconfortável, mas ele iria dar um jeito.
A questão é… ele gosta de morar ali. O lugar é bem precário, sim. Tem mofo nas paredes, vive faltando água e ele precisa lidar com o que pode ser considerada uma infestação moderada de baratas.
Mas tem umas coisas que fazem ele querer ficar. Tipo a Tanselle, que mora duas portas adiante no seu andar. A kitnet dela não parece nem um pouco com a dele. É do mesmo tamanho, da mesma planta, mas a dela é toda decorada. Tem pôsteres coloridos nas paredes, cobrindo a tinta descascada, plantinhas no parapeito da janela e enfeites espalhados por tudo que é canto.
Ele só sabe como é o apartamento dela porque, na semana passada, ela bateu na porta dele dizendo que tinha um rato na cozinha e pediu ajuda para matar. Ele foi, claro. Teria ido mesmo se ela pedisse para ele enfrentar um dragão. No final, nenhum dos dois teve coragem de matar o ratinho. Trabalharam juntos para pegar ele vivo, levaram para fora e soltaram. Tanselle comprou um refrigerante para ele no mercadinho como agradecimento, mesmo depois dele dizer que não precisava.
E tem também Raymun, que trabalha como caixa na vendinha da esquina. Eles sempre dão um jeito de passar algum tempo juntos. Depois do expediente, se sentam atrás da loja, onde bebem cerveja barata e comem as coisas que estão para vencer, enquanto Dunk ouve Raymun falar mal do primo, reclamar dos políticos corruptos ou ficar babando pela ruiva que trabalha no salão ao lado. Dunk não se importa em ficar ouvindo o Raymun monologar, já que ele quase nunca tem nada de bom para falar, mesmo.
Enfim, para conseguir continuar morando ali, ele precisa de dinheiro. O carro dele ficou na oficina a semana toda, então nada de fazer bicos de entregador. E o trabalho mais fixo dele, como segurança de um bar, mal dá para cobrir as contas num mês bom… E esse mês foi longe de ser bom.
Ele se joga no colchão, e se arrepende na hora, quando sente as molas quebradas se enfiarem na carne da bunda dele. O celular ainda está na sua mão. Ele fecha o app do banco e abre o app de mensagem.
Ele sabe de um cara… o Roland. Tinham se conhecido na época em que Dunk trabalhava no bar de festas de universitários, os mesmos universitários para quem Roland vendia drogas. Ele era daqueles bem arrumadinhos, de camisa polo, sapatênis, cara de galã de novela, um tipo carismático que não combinava com o que Dunk esperava de um traficante. Ele tinha oferecido para Dunk mais de uma vez: "Se você precisar de dinheiro algum dia, me liga. Sempre tenho serviço para alguém do seu tamanho". Na época, Dunk não levou a sério, apenas tinha dado risada da oferta.
Mas agora ele não estava mais dando risada.
Ele vira o celular na mão algumas vezes, e diz para si mesmo que vai ser só dessa vez. Só precisa do suficiente para passar o mês, controlar a situação e voltar pro caminho certo. O Sr. Arlan tinha tirado ele desse buraco uma vez, quando Dunk era só um moleque que não sabia onde tava se metendo. Nunca imaginou que ia se ver de novo na beira dele. Ele sabe que não pertence àquele lugar. Nunca pertenceu.
Mesmo assim, ele abre o contato de Roland, e fica hesitando por tanto tempo na tela da conversa vazia que ela apagou. Ele desbloqueia o celular de novo, precisando riscar o padrão de segurança duas vezes por causa da tela rachada, e finalmente começa a digitar.
Ele tenta não pensar no quanto o Sr. Arlan estaria decepcionado com ele.
-o-
O lugar onde eles combinaram de se encontrar é ainda mais assustador de perto, mesmo debaixo do sol forte da tarde. Dunk já esperava que fosse ruim quando viu o endereço, mas isso aqui era coisa de vilão de filme, tipo aqueles galpões abandonados na parte industrial da cidade onde os caras maus levam os mocinhos para uma cena de tortura bem dramática.
Quando ele finalmente acha Roland, o cara não parece nem um pouco com o que Dunk lembrava. Antes, ele parecia tranquilo, confiante, bem de boa. Agora fica olhando para trás de Dunk o tempo todo, nervoso, como se estivesse esperando que mais alguém aparecesse a qualquer momento.
— E aí, cara — diz Roland, dando um passo pro lado para Dunk entrar. Dunk abaixa a cabeça para passar pela porta, por costume.
O lugar era um galpão grande de metal, com vigas de aço de suporte. Tinha lixo espalhado por todo canto: copos de plástico amassados, garrafas de cerveja vazias e bitucas de cigarro. Dunk já tinha ouvido falar que às vezes rolavam festas underground nesses lugares. Considera se foi assim que Roland achou esse lugar.
Eles fazem o negócio bem rápido. Roland entrega a bolsa para ele, dá uma parte do pagamento adiantado e explica tudo em frases curtas. Vai ter uma festa hoje à noite, Dunk tem que entregar a bolsa para outra pessoa e voltar com o dinheiro no final da festa. Roland faz tudo parecer tão simples. Dunk fica balançando a cabeça, concordando, mesmo que não esteja se sentindo nem um pouco confiante.
— Tá bom — diz Dunk, segurando a bolsa longe do corpo, como se tivesse medo que ela fosse explodir. — Então eu só… pego isso, vou lá e…
— É. Isso aí. — Roland passa a mão no cabelo, já querendo encerrar o assunto. — Escuta… Na real. Você pode ficar mais um pouco?
— Ficar? Por quê?
— É. Só precisa ficar uma meia hora. — Roland força um sorriso. — Te dou duzentão. Você só precisa ficar parado aí. E… — Ele faz um gesto vago na direção de Dunk. — Fazer cara de bravo.
Dunk pisca, genuinamente confuso.
— Fazer o quê?
— Parecer intimidador. Sabe do que eu tô falando.
Dunk não sabe direito como ser intimidador, mas ele sabe o que as pessoas pensam quando olham para ele. Ele hesita porque não quer ficar ali nem mais um minuto do que o necessário, mas aí lembra do dinheiro que lhe foi prometido.
— Tá. Beleza.
Roland relaxa um pouco.
— Bom garoto. Só fica aí.
Então Dunk fica. Ele se encosta perto da parede, tentando parecer assustador e não como uma criança perdida. O tempo todo ele fica olhando pro Roland, que está vidrado no celular, checando a tela a cada poucos segundos, ele parecia nervoso. Quase amedrontado.
De repente vem uma batida na porta. Roland dá um pulo, depois alisa a camisa rápido, passa a mão no cabelo e vai abrir. Dunk se endireita, coração batendo forte, esperando para ver que tipo de pessoa conseguia deixar um traficante tão apavorado.
Nesse momento ele percebe que estava arriscando a vida dele por duzentos reais. Na lista enorme de coisas ruins que podem acontecer por ter aceitado a proposta de Roland, ser pego pela polícia nem era a pior delas. Ele pode muito bem virar vítima de alguma disputa de traficantes que ele nem sabia que existia.
Quando o Roland finalmente abre a porta, a pessoa do outro lado não era nem um pouco o que ele estava esperando.
A primeira coisa que Dunk repara são as pernas: quase nuas, só com uma meia-calça preta rasgada que subia por baixo de uma saia curta e destruída, com as bordas cortadas de forma grosseira, como se alguém tivesse pegado uma tesoura e cortado de qualquer jeito. Depois vieram as botas pretas e pesadas. E então o resto da figura. Uma camisa preta grudada no corpo. Tatuagens escuras que cobriam quase toda a pele visível, com desenhos complicados, em um padrão que pareciam escamas pretas descendo pelos braços e pelas costas das mãos, tipo luvas, terminando em unhas pretas brilhantes. Mais tatuagens enroladas no pescoço e descendo pelas costas, que se escondiam pra debaixo da camisa. O rosto aristocrático era cheio de piercings, os do lábio refletindo a luz com pontinhas afiadas. O cabelo era de um loiro bem claro, quase branco, que com certeza não era natural.
Dunk é um caipira, sim, mas já mora na cidade a tempo suficiente para saber que esse cara é… diferente. Mesmo pros padrões da cidade grande.
O cara entra, dá uma olhada nele. Dunk, que está o encarando, faz o que sempre faz quando não sabe o que fazer: dá um sorrisinho sem graça. A expressão do cara não muda nada, os olhos, que eram de um roxo pálido, continuam impassíveis, e ele vira para Roland, ignorando Dunk completamente.
— Sério? Agora você arrumou um capanga? — diz ele, com a voz desdenhosa. — Ele deveria me assustar?
Roland solta uma risada nervosa.
— Ele é só… uma garantia.
— Garantia. — O cara olha para Dunk de novo, ainda sem demonstrar muita coisa.
Dunk tentou muito não reagir, não dizer que ele não devia estar ali, que não fazia parte do serviço que ele tinha aceitado. No final, ele pigarreia e já dando um passinho para porta.
— Ei, eu acho que eu vou… esperar lá fora?
— Não, você fica. — diz Roland, rápido demais, e pronto.
Então Dunk fica.
Os dois dão uns passos para longe e começam a conversar como se Dunk não estivesse ali. Não estão exatamente sussurrando, só não incluíam ele na conversa. Dunk tenta não escutar, mas o galpão ecoa e as vozes deles o alcançam mesmo sem ele querer. Roland fala rápido demais, agitado, mexendo as mãos o tempo todo.
— Aerion, não é que eu queira que isso vaze — diz ele, com uma voz que tentava ser calma mas soava desesperada, tipo alguém tentando acalmar um tigre ao mesmo tempo que tentava convencê-lo com argumentos lógicos de que não vale a pena atacar. — Eu também tô metido nisso. Só tô dizendo… a gente pode resolver de um jeito… Discreto.
O tal de Aerion não responde. Dunk arrisca uma olhada. O loiro está com um ombro virado para a porta, como se já tivesse decidido ir embora. O rosto dele está neutro, só a língua cutucando a bochecha por dentro. Parecia novo demais perto do Roland, pequeno demais mesmo com as botas que aumentavam a altura.
Se Dunk tivesse visto um casal parado daquele jeito no bar onde ele trabalhava, ele teria ficado em alerta. Ele conhecia aquela postura, significava que a conversa poderia azedar num segundo.
Roland ri de novo, fraco.
— Vamos, cara, não faz isso, fala comigo.
— Seu plano é realmente tão patético assim? — diz Aerion, a voz baixa mas bem clara. — Que decepção. Você sinceramente acha mesmo que pode me render com essa tentativa fraca de chantagem.
O sorriso do Roland desmorona de vez.
— Aerion, por favor, vamos só—
— Eu vim aqui por um único motivo — continua Aerion, tranquilo, com um tom cheio de satisfação. — Para ver a sua cara quando eu te dissesse isso: você está acabado.
A calma do Roland acaba de vez. As mãos dele caem pro lado do corpo e depois sobem de novo, sem saber o que fazer.
Aerion só sorri e vira para a porta sem hesitar. Dunk se endireita por instinto quando Aerion passa por ele. Atrás deles, Roland entra em pânico.
— Espera, ei, espera — Roland se move rápido, entrando na frente de Aerion. — A gente pode esquecer tudo, tudo mesmo, eu te dou o que você quiser, juro, a gente pode destruir as evidências todas… só—
Aerion para. Por um segundo Dunk acha que ele vai realmente escutar, mas aí ele sorri. Não é um sorriso gentil. Parece mais que ele estava arreganhando os dentes, se preparando para atacar, com os piercings no lábio de baixo parecendo presas.
— Você não ainda não entende, seu imbecil? — diz ele baixinho, numa voz quase doce. — Você está acabado desde o momento em que você ousou me ameaçar.
Alguma coisa no rosto de Roland quebra. Ele vira de repente, desesperado, os olhos cravados em Dunk.
— Não deixa ele sair.
Aerion olhou para Dunk, então. Por uma fração de segundo, medo de verdade passa pelo rosto dele, não pânico total, só o reconhecimento de que a situação não está em seu favor.
A garganta de Dunk dá um nó. Aerion era menor que os dois, seu corpo parecia bem atlético até, mas ainda sim, ele era baixo e esguio. Se Dunk e Roland decidirem que ele não ia sair dali, ele não iria ter nenhuma chance. Perceber aquilo o deixou enjoado. Aquela situação toda parecia errada. O jeito que Aerion estava vestido, a sua aparência quase juvenil, a tensão entre os dois, a conversa que Dunk não deveria ter ouvido. Tudo parecia íntimo demais. Dunk tinha aceitado mover um pouco de droga para pagar o aluguel. Conseguia engolir o nervoso e fazer o papel de entregador por uma noite. Mas isso aí? Parecia muito mais errado.
— Ei, eu não quero— começa Dunk, levantando as mãos e dando um passo para trás por instinto.
Roland xinga e parte para cima, agarrando Aerion pelo braço, os dedos apertando forte o suficiente pra Dunk ver a pele esticando. Aerion se contorce mais rápido do que Dunk esperava, tentando se soltar.
— Tire as mãos—
— Não até você me escutar!
Tudo acontece ao mesmo tempo e Dunk se move sem pensar. Ele não gosta do jeito que o Roland está segurando o cara, não gosta do tom de voz dele mudando de nervoso para violento, não gosta da expressão no rosto de Aerion. Ele estende a mão, segura o ombro de Roland e o puxa para trás, não com força, só o suficiente para separar os dois.
Roland perde o equilíbrio, Aerion se vira pro outro lado ao mesmo tempo, e alguém o empurra. Dunk não sabe quem, não sabe de onde veio o impulso, só vê o corpo de Roland caindo e a cabeça dele batendo na quina da viga de aço na queda, fazendo um barulho abafado de batida que ecoa pelo galpão, e então ele cai no chão, as pernas dobradas embaixo dele, o rosto virado pro piso de cimento, sem se mexer, sem fazer nenhum som. O galpão fica tão silencioso que Dunk consegue ouvir o próprio coração batendo.
Antes de se dar conta, Dunk já está ajoelhado, a mão indo pro ombro de Roland de novo.
— Ei, ei, cara— diz Dunk, sacudindo ele de leve, mas Roland não responde, não se mexe, não respira, e quando os dedos de Dunk encontram o pescoço dele, não tem nada, nenhuma pulsação, só… nada.
Aerion já está ali também, ajoelhado do lado do Roland, as mãos se movendo com rapidez. Ele não está checando pulsação, não está ajudando. Está procurando alguma coisa. Ele enfia a mão no bolso de Roland e tira um negócio pequeno e preto, um flash de metal na luz fraca: um pen drive.
Dunk fica olhando para aquilo, os pensamentos atrapalhados.
— Eu— começa ele, a voz tremendo. — Eu acho que—
Aerion levanta os olhos para Dunk, olha de volta para Roland, que continua imóvel, e a respiração dele trava. Os ombros dele se endireitam devagar. Ele parece uma estátua de mármore. A única coisa que mostra que ele ainda é de carne e osso são os olhos. Eles passeiam rápido pela cena, olhando para Roland e depois para Dunk.
Dunk levanta primeiro, a mão já no bolso, os dedos desajeitados puxando o celular do bolso.
— A gente precisa ligar— diz ele, a voz falha e ele engole seco — ligar para emergência.
A cabeça de Aerion vira rapidamente.
— Para quê? — ele solta uma risada meio histérica. — Ele tá morto.
Dunk se encolhe com a palavra, balançando a cabeça porque não, não pode estar certo, ele só…
— Não, ele não tá… ele só caiu, ele— O polegar dele treme na tela, errando o desbloqueio várias vezes, o celular escorregadio na mão suada. — As pessoas não só… assim do nada… ainda dá tempo, a gente pode—
Aerion vai pra cima dele antes dele terminar a frase, rápido, não grande nem forte com Dunk, mas ágil e cruel. A mão dele se fecha no pulso de Dunk, as unhas cravando forte o suficiente para doer.
— Não! — é só o que ele diz, e isso faz Dunk travar, antes dele puxar o braço por instinto.
— Cara, por favor—
Eles se engalfinham, e não é uma luta limpa porque Dunk não tá tentando machucar ele, só soltar o braço e que segura o celular, mas Aerion luta como se Dunk estivesse tentando matar ele, atacando direto os pontos fracos, ele conseguiu acertar joelhada nas bolas de Dunk e uma cotovelada no estômago, e os dedos tentando arrancar o celular de sua mão. Dunk se manteve firme, apesar da dor.
— Dá. Isso. Aqui. — diz Aerion entre os dentes.
— A gente precisa chamar— diz Dunk, virando o corpo para longe do loiro.
Aerion joga ele contra a parede, não forte o suficiente para tirar o fôlego, mas o suficiente para desequilibrar, para quebrar o ritmo, e aperta mais as unhas em seu pulso.
— Chamar quem? Contar o quê? Que você matou ele?
— Eu não— A voz de Dunk falha. — Eu só tava tentando—
— Você empurrou ele.
— Eu tava tentando te ajudar!
— E você ajudou. — rosnou Aerion, seu rosto estava próximo agora, o mais próximo possível considerando a diferença de altura entre eles, seus olhos estavam brilhantes demais e as pupilas dilatadas, o preto engolindo o roxo. O corpo dele está quente contra Dunk, quase febril. — E agora ele está morto. E você não. Você realmente quer jogar sua vida fora por causa desse filho da puta?
A mão de Dunk fraqueja.
É só o que Aerion precisa, ele arranca o celular com um movimento rápido e dá um passo para trás, respirando mais rápido agora. Dunk só fica olhando para mão vazia, pras marquinhas vermelhas onde as unhas de Aerion cravaram, e então tudo que aconteceu nos últimos minutos caem sobre a sua mente como um balde de água.
Ele tá certo. O pensamento surge na cabeça dele como se outra pessoa tivesse colocado ali.
— Roland… ele não tá— A voz de Dunk treme enquanto ele olha pro corpo. Não é mais uma pessoa. É um corpo. — Porra.
Dunk cobre a boca com a mão, mas mesmo assim um som escapa, seus olhos estão ardendo e a visão embaçando porque isso não tá acontecendo, não pode estar acontecendo, ele não queria machucar ninguém, só queria separar a briga.
— Eu não… eu não queria— engasga ele.
O Aerion faz um som irritado, como se o pânico de Dunk fosse um incômodo.
— Agora já não importa mais.
Dunk balança a cabeça com força.
— A gente tem que… a gente só precisa contar para polícia—
— Contar o quê?
Dunk levanta o olhar e Aerion está olhando para ele agora. Tem alguma coisa errada nos olhos dele, alguma coisa que não parece totalmente humana.
— A verdade — diz Dunk, mas soa fraco, mais como uma pergunta.
Aerion chega mais perto, sem tocar dessa vez, só invadindo o espaço de Dunk, obrigando ele a manter o olhar.
— A verdade? Que você é um viciado? Que veio aqui para comprar drogas. Vocês brigaram. E agora ele está morto.
— Não foi assim que aconteceu—
— Suas digitais estão nele, na porta, naquela bolsa cheia de droga. — A voz de Aerion fica mais baixa, mais maldosa. Ele inclina a cabeça de leve, quase curioso. — Você acha que isso vai acabar bem para você?
Dunk abre a boca e fecha de novo, porque ele sabe o que as pessoas veem quando olham para ele. Grandão, assustador e burro. Se Dunk ligar para polícia, o que acontece? Se eles aparecerem, não vão pedir a versão dele com educação. Não vão acreditar que ele só estava tentando ajudar. Ele aprendeu essa lição quando tinha doze anos e tentou enfrentar os moleques que batiam nele, e mesmo assim levou a culpa. Sempre foi assim.
E mesmo que acreditassem nele, mesmo que por milagre acreditassem na verdade, ainda tem as mensagens no celular do Roland e as drogas que o Roland deu para ele.
— Não vai — diz Aerion, mais baixo agora, quase triste. — Eles vão ver um corpo morto e um cara como você.
Ele olha Dunk de cima a baixo.
— Você vai morrer na cadeia.
Dunk só faz que sim com a cabeça de leve. Não concordando de verdade, só querendo que o cara pare de falar o quanto ele tá fodido.
Parece que é suficiente pro loiro, que vira de costas, dando um pouco de espaço para ele respirar. O Aerion passa a mão no cabelo e anda de um lado pro outro, pânico de verdade começando a transparecer pela primeira vez.
— Porra! Porra — murmura ele baixinho, depois para e olha de volta pro Dunk. — Certo, ok.
Agora ele não parece mais em pânico. Chega mais perto de novo.
— Cadê o seu carro?
— O quê?
— Seu carro. —Aerion fala como se fosse óbvio, como se Dunk estivesse irritando ele de propósito. — Está aqui?
— …Tá.
— Alguém te viu entrar?
— Eu… não, eu não— Dunk engole seco, sua garganta está doendo. — Acho que não.
— Você contou para alguém que vinha para cá?
— Não.
O Aerion balança a cabeça uma vez. Passa a língua nos lábios. Dunk vê o brilho de um piercing na língua. Então:
— Você tem uma pá?
Dunk fica olhando para ele, a pergunta não faz sentido no começo. Quando faz, o estômago dele revira. Porque ele tem. Ele tem uma pá. E ele sabe por que Aerion está perguntando. A boca dele diz “tenho” enquanto a cabeça balança que não, porque o que Aerion está sugerindo não pode estar certo, não pode ser o que está acontecendo, não pode ser como eles vão resolver isso.
-o-
Mover o corpo é uma das coisas mais difíceis que Dunk já fez na vida, porque Roland é mais pesado do que deveria pelo tamanho que ele tem, todo mole, os braços e pernas caindo para todo lado, por mais cuidadoso que Dunk tente ser. Peso morto, ele pensa, e depois faz uma careta porque “morto” não é mais só um adjetivo. Ele ajeita a pegada embaixo das axilas de Roland e tenta não deixar a cabeça dele cair para trás. A cabeça é a pior parte. Ela pende para trás como se estivesse tentando olhar alguma coisa, a boca aberta, e Dunk tem que parar várias vezes para reposicionar ela para que Roland não fique olhando para ele.
— Anda logo, pare de enrolar. — diz Aerion atrás dele, a voz cheia de impaciência. Dunk olha para trás e vê ele parado a uns metros de distância, com os braços cruzados bem apertados contra o corpo.
— Você podia— o Dunk se ajeita de novo, o peso de Roland fazendo os seus braços arderem. A sua lombar já está doendo do esforço de carregar o corpo enquanto tenta mantê-lo longe de si próprio. — Você podia pegar as pernas ou sei lá.
— Não. — É a única coisa que Aerion diz, seco e direto ao ponto.
Dunk fica olhando para ele por um momento.
— Por que não?
Aerion não responde de início, só olha para ele como se a pergunta fosse irritante e sem sentido.
— Ora, você parece bem capaz — diz ele, ao invés de responder diretamente, seu tom é debochado e falso. — Seja um bom capanga e acabe logo com isso.
Dunk não consegue pensar em nenhuma resposta convincente o bastante, então só vira de volta para a saída.
Fazer Roland passar pela porta é um pesadelo a parte, seus ombros prendem no batente. Dunk tem que virar ele para um lado, depois pro outro, depois pro primeiro lado de novo, e no meio disso um dos sapatos do Roland cai, um sapatênis marrom, que fica ali no meio do chão do galpão.
Dunk ajeita o peso de Roland, se abaixa e pega o sapato. Ele enfia debaixo do próprio braço. O corpo de Roland balança perigosamente e Dunk quase deixa ele cair.
Quando ele leva o corpo para fora, os ouvidos do Dunk estão atentos para qualquer barulho de carro ou passos se aproximando, mas ele não escuta nada. O lugar continua completamente vazio. O carro dele está onde ele deixou, com a pintura desbotada refletindo a luz do sol.
Ele pega as chaves com uma mão só, atrapalhado, e abre o porta-malas. A tampa sobe com um gemido… E é então que Dunk percebe: é pequeno demais. Uma onda fria de pânico sobe pelo peito.
— Merda — ele exala.
— Qual o problema? — pergunta Aerion, já chegando mais perto.
— É que— o Dunk muda Roland de posição de novo, tentando inclinar ele. A cabeça do cara pende pro lado mais uma vez. Dunk está sustentando ele com o corpo inteiro e, por um segundo, parece que Roland está o abraçando. — Não vai… ele não vai caber…
— Faça caber.
Dunk fica olhando para o porta-malas, depois para Roland, depois para o porta-malas de novo. O sapato ainda está enfiado debaixo do braço dele.
— Não vai— ele respira fundo e fala — Tá bom, tá bom, só… Desculpa, cara.
Então ele começa a tentar dobrar um homem adulto num espaço que foi feito pra caber algumas sacolas de compras.
Ele tenta colocar ele lá do jeito mais delicado possível, mas não dá certo porque não tem espaço para deixar ele esticado, e ele tem que dobrar o corpo do Roland de um jeito todo errado, os braços dobrando de formas que não deviam. Ele faz uma careta a cada ajuste, o maxilar travado.
— Desculpa, desculpa, só… merda— ele murmura para um homem que não consegue ouvir, que nunca mais vai ouvir nada.
— Pelos Deuses — diz Aerion de novo, olhando em volta do pátio com impaciência. — Nós não temos tempo para isso.
— Eu tô tentando — responde Dunk, irritado, e logo depois olha para baixo de novo, com culpa apertando a barriga. — Eu tô tentando.
Ele muda a posição de Roland mais uma vez, tentando enfiar um braço mais perto do corpo, e então um dos botões de punho de Roland prende no colarinho da camisa de Dunk. O tecido aperta em volta do pescoço dele. Por um segundo horrível, a mão morta de Roland puxa Dunk para baixo pelo pescoço, como se o cara estivesse tentando puxar ele para dentro do porta-malas.
— Merda — Dunk puxa para trás, mas o botão não se solta. Ele está curvado, o rosto a poucos centímetros da boca frouxa de Roland, e agora consegue sentir o cheiro dele: de perfume chique misturado com alguma coisa azeda. O coração de Dunk está batendo rápido demais e ele não consegue respirar, e não consegue se soltar. E por um momento, ele ter certeza que vai morrer ali, e vai ser encontrado assim dias depois.
Dunk puxa com mais força e a sua camisa rasga. Ele cambaleia para trás, ofegante, e o alívio é tão repentino que o estômago dele revira.
Então, ele se dobra ao meio, e o estômago se revolta sem aviso. Num segundo ele está respirando, no outro está vomitando direto no peito do Roland, na camisa branca que ele tinha acabado de se embolar. O atinge com um jato molhado que cheira a cerveja barata que ele bebeu para tomar coragem antes de sair de casa algumas horas atrás.
Dunk se endireita devagar, limpando a boca com as costas da mão. O rosto dele queima. Os olhos estão lacrimejando. Tem bile na camisa do Roland, bem em cima do coração.
— …Desculpa — sussurra Dunk para o cadáver, e ele nunca foi mais honesto em toda a sua vida.
Ele dá um pulo quando escuta vindo de trás dele:
— Isso foi nojento.
Ele olha para trás e vê Aerion, que está olhando para ele a uma certa distância. Dunk tinha esquecido que ele estava ali. Humilhação se junta ao coquetel de sentimentos horríveis dentro dele.
— É.
— Você vomitou em cima dele.
— Eu sei.
Aerion só fica olhando, os lábios pressionados, o nariz franzido e as sobrancelhas juntas, com uma cara que pode significar nojo, preocupação ou até mesmo diversão. Dunk não entende o que se passa na cabeça dele.
Depois disso, ele consegue enfiar Roland lá dentro. O corpo fica todo torto, um ombro forçando para cima, as pernas dobradas bem apertadas, o vômito secando na camisa dele no escuro do porta-malas.
Dunk fica parado ali por um tempo, ofegante, olhando para baixo, antes de pegar a tampa e tentar fechar, bem devagar. Não fecha na primeira vez, e quando ele empurra um pouco mais forte ela volta para cima com um baque teimoso.
Aerion estala a língua e dá um passo à frente.
— Sai da frente, seu bebê gigante — diz Aerion.
E Dunk sai, ainda meio no caminho, e Aerion agarra a borda e empurra para baixo, com mais força e menos delicadeza que Dunk, mesmo assim, a tampa do porta-malas bate, para e volta para cima de novo.
Os dois ficam olhando.
— Pelo amor dos Deuses — bufa Aerion, e então planta uma perna dobrada no capô e pula.
A cena toda parece vulgar de um jeito que o Dunk não consegue explicar, obscena que nem pôster de filme vagabundo, uma coisa suja e perversa que deveria o fazer querer desviar o olhar. É o jeito que o corpo dele se move, o jeito que ele fica empoleirado ali, músculo tenso por baixo da pele, a saia embolada, a meia-calça rasgada e a violência casual que faz alguma coisa na barriga de Dunk revirar. Mas ele não consegue desviar olhar, não consegue fazer nada além de olhar de boca aberta enquanto o peso inteiro de Aerion bate na tampa até ouvir um estalo vindo de dentro, não alto, mas Dunk escuta. E então Dunk vê o jeito que a perna de Aerion dobra na borda do porta-malas, a meia rasgada esticando na bunda e a saia subindo só o suficiente para ele ver onde a meia-calça acaba e começa alguma coisa rendada, e os joelhos dele ficam moles.
E o Dunk percebe que Aerion está pegando impulso para fazer e—
— Espera… — ele diz, mas é tarde demais, porque Aerion já está pegando impulso e empurrando mais força, forçando o fecho, e o porta-malas fecha com um clique definitivo e um estalo mais alto e orgânico vindo de dentro.
O Dunk fica olhando para o porta-malas por um tempo depois que Aerion sai de cima, ainda está pensando no jeito que o corpo de Aerion se moveu quando ele pulou, no agilidade impiedosa que ele mostrou como se não estivessem lidando com um homem morto ali dentro que era o seu… ex? ex-namorado? ex-cafetão? Que porra que tem de errado comigo, no que eu tô pensando nisso agora.
Aquele estalo de dentro do porta-malas ainda ecoa na cabeça dele, o gosto de vômito ainda azedo na língua, as mãos dele estão dormentes depois de carregar o peso de um morto, ele consegue sentir onde o botão de punho do Roland o arranhou quando puxou o colarinho da camisa, consegue sentir o cheiro do seu perfume… E por algum motivo o cérebro dele decidiu focar na bunda desse cara.
— Você ouviu aquele barulho, né? — a voz dele sai rouca.
— Fechou, não fechou? — diz Aerion, limpando as mãos de leve como cara de nojo, como se tivesse acabado de fazer uma tarefa levemente inconveniente.
-o-
As três primeiras coisas que Aerion fala quando entra no carro são:
Uma: “Esse carro é minúsculo, e você fica ridículo dirigindo”, dito com o mesmo tom seco e cheio de desprezo que usou a tarde inteira.
Duas: “Está cheirando a meia suja aqui dentro”, e Dunk olha pelo retrovisor e vê as meias de academia emboladas no banco de trás, onde estão sentadas há mais de três dias. Ele sente seu rosto queimar na hora.
Três: “Eu sei de um lugar”, sem hesitar, como se já tivesse tudo planejado desde antes de sair da cama naquela manhã.
Dunk dirige com as mãos firmes no volante e os ombros rígidos, os olhos pulando o tempo todo entre a estrada e o retrovisor, esperando a qualquer momento que uma viatura da polícia apareça atrás deles. Uma parte dele quer explicar as meias, dizer que não é o tipo de pessoa que deixa roupa suja jogada no carro. Mas ele já não tem mais certeza de qual tipo de pessoa ele é.
Não sabe que tipo de pessoa sai de um galpão abandonado com um corpo no porta-malas e segue as ordens de um estranho todo tatuado que o guia tranquilamente até o lugar onde vão fazer a desova.
— Esquerda — diz Aerion.
Dunk pisca sem entender, o cérebro ainda preso nas meias.
— Quê?
— Esquerda — Aerion aponta preguiçosamente para um cruzamento que está chegando, e Dunk hesita até o último momento antes de virar.
Dunk olha de canto de olho pro rapaz, que está com cara de tédio, a língua brincando com um dos piercings no lábio.
— Você, uh… você se chama Aerion, né?
— Ah, então você sabe quem eu sou.
— Foi o nome pelo qual o Rol… Foi o nome que eu ouvi lá atrás.
Aerion só faz um barulho desdenhoso e não diz mais nada. Dunk não tem certeza se Aerion é nome de verdade ou se ele escolheu para si mesmo, tipo um nome de rua, como as prostitutas dos filmes. Não soa como um nome falso. Combina com ele… Chique, estranho e um pouco antiquado, como se tivesse vindo de algum livro que Dunk deveria ter lido na escola. Aerion… É um nome bem legal.
Aerion não perguntou o nome dele de volta.
A mente de Dunk começa a trabalhar em alguma outra coisa para perguntar para Aerion, porque precisa preencher o silêncio. Se ele não falar nada, vai começar a pensar no rosto de Roland, no barulho que veio de dentro do porta-malas ou em qualquer outro detalhe nojento desse dia horrível.
Dunk está ainda decidindo se deve ou não perguntar quantos anos Aerion tem quando ouve um barulhinho de plástico e olha de lado a tempo de ver Aerion puxando um saquinho de castanhas do recesso da porta do passageiro. Ele sabe exatamente onde Aerion encontrou aquilo.
Sabe porque foi ele que colocou ali. Ontem, Tanselle esqueceu as castanhas no carro depois que ele deu carona para ela. Foi uma daquelas manhãs que chovia demais para andar. Ela bateu na porta dele com a bolsa de decorações de palco e fantasias, o cabelo já molhado, e falou: “Ei, você vai pro centro hoje?” e ele disse que sim, ele ia pro centro. Ele sempre estaria indo para onde ela quisesse ir, não importa o quão baixo estivesse o ponteiro da gasolina.
Ela sentou no mesmo banco onde Aerion está sentado agora, com o casaco molhado e o cachecol colorido, e contou para ele sobre a peça que estava montando com as crianças do centro comunitário onde ensinava teatro. Quando ela desceu, juntando as coisas, o saquinho de castanhas escorregou da bolsa e caiu no assento. Ela nem percebeu.
Dunk percebeu. Mas não falou nada, porque ficou feliz que ela esqueceu. Feliz porque isso dava motivo para ele bater na porta dela mais tarde. Um motivo para ver ela de novo.
— Ei, uh… Essas castanhas… são da Tanselle — a voz de Dunk sai brava no início, mas vai ficando mais fraca do que ele queria no final, e ele fica olhando os dedos de Aerion mergulharem no saquinho de novo, aqueles dedos longos com os desenhos escuros. Ele já se arrepende de ter falado o nome de Tanselle, de ter entregado para Aerion. Parece desrespeitoso, como se estivesse envolvendo ela nessa merda toda.
— E? — diz Aerion, fazendo pouco caso.
— E… — Dunk gagueja, porque o que ele pode dizer? — Não são suas.
Aerion joga mais uma na boca, mastiga devagar, e Dunk fica olhando e sente o maxilar travar. Tem alguma coisa no jeito que Aerion come as castanhas que parece errada, como se aquele saquinho plástico tivesse todas as lembranças boas de ontem e agora tudo estivesse na boca de Aerion, sendo triturado entre aqueles dentes afiados. Dunk sente que está perdendo uma coisa que não vai conseguir recuperar. Ele odeia Aerion naquele momento como nunca odiou ninguém na vida.
Depois de um tempo, tem um clique suave do porta-luvas e os olhos de Dunk vão pro lado na hora. Aerion já está mexendo lá dentro, os dedos rápidos fuçando no meio de papéis e recibos velhos.
— Ei… — diz Dunk rápido. — Por favor, não mexe…
Tarde demais. Aerion já puxou o documento do carro e o seguro, folheando sem muito interesse, os lábios se mexendo um pouco enquanto lê. Então ele para, a cabeça inclinando só um pouquinho.
— Duncan Pennytree — lê Aerion em voz alta.
Dunk faz uma careta antes de conseguir se controlar, porque ele sabe que é um nome idiota.
— Que nome idiota — diz Aerion, factual.
Dunk dá um suspiro fundo.
— Meus amigos me chamam de Dunk.
Aerion olha para ele, expressão neutra.
— E você acha que é menos idiota?
Dunk não responde, porque não, ele não acha, mas é o que ele tem. Aerion faz um hum baixinho ainda olhando pro papel, como se estivesse guardando a informação para depois, e Dunk se mexe no banco, incomodado.
— Pode, uh… só guardar isso de volta? — pede ele, porque não gosta do jeito que os olhos de Aerion passam pela página. Parece íntimo demais.
Aerion guarda, eventualmente, mas demora de um jeito que parece proposital.
Depois o silêncio volta pro carro, mas a cabeça de Dunk não para quieta. A palavra “assassino” fica repetindo na sua mente. Ele imagina a cela, as grades. Imagina a professora da terceira série vendo a notícia no jornal, balançando a cabeça devagar e falando pra si mesma: “Eu sabia que esse aí ia dar ruim”. Dunk engole seco, um gosto amargo sobe junto com o medo. Se ele não tivesse vomitado mais cedo, com certeza iria vomitar agora.
— Uma merda… isso tudo é uma merda — diz ele, porque precisa falar alguma coisa, senão vai surtar.
Aerion faz um hum, mas parece que está concordando. Dunk olha de lado para ele. Aerion é bonito, principalmente agora que não está reclamando nem o xingando. Dunk repara agora que a sobrancelha e os cílios dele são tão claros quanto o cabelo.
Dunk fica olhando pra ele até que o carro desvie um pouco na faixa antes dele corrigir.
— …então, você… uh. Você falou antes — diz ele, hesitante, seus olhos fixos na estrada à frente — que eu era viciado. Eu não sou. Eu não estava lá para comprar droga.
A cabeça de Aerion vira um pouco, só o suficiente para Dunk ver o perfil claro dele na luz baixa do pôr do sol.
— Traficante, então? — diz Aerion, quase como se estivesse fazendo graça de Dunk, como se a diferença não importasse.
— Não — diz Dunk, o maxilar travado. — Eu só ia entregar para outra pessoa. Só isso. Só pegar e levar, uma vez só, para me ajudar a passar o mês.
— Um traficante em treinamento, então. Que esforçado você é — diz Aerion, e Dunk consegue ouvir o sorriso na voz dele mesmo sem ver, aquele tom maldoso que você não percebe se não estiver prestando atenção. Era o mesmo tom que as garotas bonitas usavam para zoar ele no colégio.
As mãos de Dunk apertam mais o volante. Ele abre a boca para dizer alguma coisa, para se defender, para se proteger do jeito que Aerion faz tudo sobre ele parecer sujo e insignificante.
— Não é como se— e ele para, as palavras travando na garganta, porque estava quase dizendo “você fosse muito melhor”, quase jogando na cara de Aerion que um cara que faz aquele tipo de serviço para alguém como Roland não tem moral para se achar superior, não tem moral para julgar Dunk por fazer uma entrega uma vez só. Mas ele não consegue terminar a frase, não consegue dizer o que está pensando, porque parece cruel demais usar aquilo contra alguém.
Então ele não diz nada. Só continua dirigindo, olhando para a estrada.
A trégua não dura muito, porque ele não consegue se segurar, porque o cérebro não pára de tentar entender a pessoa sentada do lado dele.
— …então. Você, tipo… trabalha muito com caras como Roland? — a pergunta sai desajeitada, meio confusa, e com um tom de julgamento que Dunk não queria.
Isso chama a atenção de Aerion. A cabeça dele vira devagar, os olhos se estreitando um pouquinho.
— O quê?
Dunk faz um gesto vago com uma mão.
— Sabe… essa sua… parada.
Aerion apenas o encara. Dunk não precisa nem olhar para ele para sentir o peso do seu olhar.
Dunk fica vermelho, de repente muito consciente de como aquilo soa.
— uh… esse seu jeito… — Ele faz outro gesto inútil na direção das pernas de Aerion, a meia-calça rasgada e a saia curta demais, e sabe que está julgando, sabe que está fazendo exatamente o que ficou puto com Aerion por ter feito com ele um minuto atrás, mas não consegue parar.
A expressão de Aerion muda para algo entre descrença e ofensa, como se Dunk tivesse acusado ele de uma coisa tão abaixo dele que nem sabe por onde começar a ficar ofendido.
— …você acha que eu sou um garoto de programa — ele diz, e não é pergunta, é afirmação, direta e fria. Dunk faz uma careta, as orelhas queimando porque foi pego, porque era exatamente isso que ele pensou no galpão e não conseguiu mais tirar da cabeça, não conseguiu olhar pras roupas de Aerion, pro jeito dele e pro modo que falou com Roland e ver outra coisa.
— Quer dizer… você vem encontrar alguém como Roland, vestido desse jeito… — Dunk fala rápido, tentando se explicar do buraco que cavou, sua voz saindo mais aguda que o normal. Ele gesticula de novo, mais desajeitado ainda, a mão mexendo na direção geral do corpo de Aerion. — O que você quer que eu pense?
Ele não está olhando para Aerion agora e sente o rosto vermelho de vergonha. Tem um segundo de silêncio e ele acha que talvez Aerion vai deixar passar.
— Eu não quero que você pense sobre mim de jeito nenhum — diz Aerion, a voz ainda mais dura agora, sem um pingo daquela diversão maldosa. — Quando nós terminarmos o que viemos fazer aqui, você vai esquecer meu rosto, meu nome. Eu com certeza pretendo esquecer o seu.
As bochechas de Dunk queimam tanto que ele sente até nas orelhas. O maxilar dele mexe sem som por um segundo e a boca acaba fechando com um clique porque não tem nada que ele possa dizer. Não queria ofendê-lo, de verdade, nem machucar os seus sentimentos.
Ele arrisca um olhar para Aerion e vê que ele já está olhando para frente de novo, com a mesma expressão rígida de antes, como se a conversa tivesse terminado antes de Dunk conseguir acompanhar. Dunk engole seco a desculpa que estava na ponta da língua e volta a atenção para a estrada.
-o-
Eles deixam a cidade para trás. Os postes de luz sumindo até virar estrada aberta e depois estradas mais estreitas. Faz uns quinze minutos, talvez mais, que eles não cruzam com outro carro, e a noite já caiu de vez em volta deles.
Agora os faróis do carro de Dunk são as únicas luzes que ele consegue ver. Eles passam por uma placa pequena, presa num poste de metal na beira da estrada, e Dunk consegue ler as palavras ESTRADA PARTICULAR em letras brancas grossas antes da escuridão engolir tudo de novo.
Ele pisca, o pé pairando em cima do freio.
— Ei, aquela placa dizia—
— Eu sei o que dizia — corta Aerion, sem tirar os olhos da janela, a voz tranquila, sem preocupação nenhuma.
Dunk engole seco e olha de canto para Aerion. O rosto dele está meio iluminado pela luz refletida dos faróis. Ele não parece preocupado, não parece assustado, não parece que nada disso é fora do normal pra ele. E Dunk pensa, pela primeira vez, de onde vem esse “eu conheço um lugar”. Quem é esse Aerion, que sabe de um lugar para se livrar de corpo.
Eles passam por um carro preto e elegante, meio escondido entre as árvores. Tem uma pessoa perto dele. Dunk só vê a silhueta de um terno escuro.
A mão de Dunk aperta mais o volante, os nós dos dedos ficam brancos, e ele tenta manter a voz casual quando fala:
— Você viu aquele carro?
No retrovisor, ele vê o carro começando a seguir eles.
Aerion não responde de imediato. Ele olha pro retrovisor, e fica imóvel de um jeito que faz a barriga de Dunk revirar, porque até agora Aerion não aparenta ser uma pessoa que reage a qualquer coisa, então para ele ficar parado assim, é porque alguma coisa ruim está acontecendo.
— Porra — diz Aerion, não alto, mas ainda sim em pânico, e continua: — Porra. Merda.
A barriga de Dunk afunda ainda mais.
— Que—
— É o Donnel — responde Aerion. — Encosta.
— Quê?
— Pára o carro.
Dunk não discute. O pé dele pisa no freio talvez mais abruptamente do que devia. O carro para de repente no acostamento, o cascalho rangendo debaixo dos pneus. No espelho, ele vê o carro de trás diminuindo a velocidade também, parando uns cinquenta metros atrás com o motor ligado. Preto, vidros escuros, caro de um jeito que até mesmo Dunk consegue reconhecer na hora.
A porta do motorista abre e um homem desce. Ombros largos num terno escuro. Postura reta. Dunk sabe que é um segurança quase instintivamente. Os passos dele são calmos e sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo e soubesse exatamente o que ia encontrar quando chegasse até eles.
— Fique calado, — diz Aerion baixinho. — Eu cuido disso.
Dunk balança a cabeça que sim antes mesmo de Aerion terminar a frase, o coração batendo tão forte que ele sente na garganta.
O homem chega do lado do passageiro e bate uma vez na janela. Uma batida só que faz Dunk se encolher, mesmo não sendo direcionada a ele.
Aerion fica olhando para a porta por um segundo, confuso. Passa os dedos no painel procurando um botão que não existe. Depois acha a manivela. Hesita, como se nunca tivesse visto uma antes, como se não soubesse que carro podia vir sem vidro elétrico. Gira pro lado errado primeiro, depois corrige, e finalmente baixa o vidro com uma naturalidade que parece impossível, considerando o que tem no porta-malas.
— Senhor — diz o homem, a voz calma. — O que está fazendo aqui?
Aerion não hesita, apenas recosta no banco e deixa um sorriso preguiçoso aparecer no rosto.
— Oi para você também, Donny. A gente só estava procurando um lugar um pouquinho mais privado.
O olhar do homem passa rápido por Dunk, uma avaliação rápida. Dunk tenta fazer uma cara neutra, uma cara que não pareça de quem não cometeu nenhum crime hoje, mas não sabe se consegue, porque os olhos do homem param um segundo a mais do que ele gostaria. Ele sente os olhos arderem e não sabe se é por causa de lágrimas ou de suor.
— É mesmo? — diz o homem, desconfiado, voltando o olhar para Aerion. — E você acha que aqui é um bom lugar?
Aerion inclina a cabeça, divertido.
— Por que não? — diz ele, com deboche.
— Aerion, por favor… — fala o cara, o tom claramente pedindo “me ajuda um pouco aqui”.
A mente de Dunk tropeça no fato do homem saber o nome do loiro.
— Prefere que a gente volte e procure um lugar mais movimentado? Com umas pessoas filmando? — Aerion fala, ainda debochado, — Tenho certeza que meu pai ia adorar a sua ideia.
O maxilar do homem trava, um músculo pulando na bochecha. Por um momento Dunk acha que ele vai dizer mais alguma coisa, mas aí ele solta o ar.
— …tá bom — diz ele. Olha para Dunk então, com uma expressão compadecida, como se Aerion fosse um problema que estavam resolvendo juntos. — Traz ele de volta em uma hora.
Dunk pisca. Está balançando a cabeça que sim, mas o cérebro ainda está tentando acompanhar.
— Se demorarem mais que isso — continua o homem, o olhar fixo em Aerion agora —, eu ligo pro seu pai.
Os olhos dele passam pelo carro, vendo o para-brisa rachado, o capô amassado, toda aquela lata velha enferrujada. Tem algo na sua expressão que Dunk não sabe se é julgamento ou pena.
— Pode ir agora, Donnel. A não ser que queira nos seguir para assistir escondido — provoca Aerion, aquele tom cruel de volta na voz.
O homem nem reage. Não responde nada. Só dá um passo para trás, vira e volta pro carro dele. Dunk fica olhando pelo retrovisor enquanto o carro preto elegante se afasta, as luzes sumindo na estrada até sobrar escuridão atrás deles.
— Velho pervertido — murmura Aerion baixinho.
O cérebro de Dunk volta a funcionar de uma vez. Todos os pensamentos que estavam flutuando longe voltam correndo pro espaço onde antes só tinha medo.
— A gente tá fudido, né? — diz ele, para e começa de novo mais rápido, a voz subindo. — A gente tá muito fudido.
Aerion não responde, o que só deixa o pânico de Dunk pior. O silêncio parece confirmar que as coisas estão piores do que Dunk já acha.
— Ele viu… ele viu o carro — diz Dunk, as palavras tropeçando umas nas outras. — Ele viu a gente. Se ele contar para alguém… se ele contar para polícia…
— A polícia não vai procurar aqui — corta Aerion, seco.
— Você não sabe disso—
— E Donnel não vai falar com a polícia.
Dunk para, depois fica olhando para ele.
— Como você pode saber disso?
Aerion não responde. Só vira o rosto pro para-brisa.
— Mesmo que ele não fale… alguém mais pode ter visto a gente — insiste Dunk, a voz subindo. — O carro no galpão. Eles podem rastrear, e aí—
— Aí a gente diz que se encontrou lá e depois veio para cá — diz Aerion.
— para fazer o quê?
Aerion olha para ele então.
— …sério? — diz ele como se Dunk estivesse sendo difícil, como se a resposta fosse óbvia.
Dunk franze a testa.
— Quê?
— A gente veio aqui para transar — diz Aerion, assim, direto, e o cérebro de Dunk para completamente por um segundo.
As palavras não encaixam de jeito que faça sentido com o corpo no porta-malas, com o segurança chamando Aerion de “senhor” e com toda essa situação impossível em que eles se meteram.
— …quê?
Aerion solta um suspiro, um som longo e cansado, como se Dunk estivesse testando o limite da paciência dele de propósito.
— A gente é álibi um do outro — explica ele, devagarinho, como se estivesse explicando para uma criança. — Donnel viu a gente, juntos. Se alguém perguntar, a gente diz que veio para cá para ter privacidade.
O rosto de Dunk fica quente. O calor começa no colarinho e sobe pelo pescoço de um jeito que ele não consegue controlar.
— …pra transar.
— Sim.
— No carro.
— Sim.
— Então quando a polícia vier interrogar a gente, é isso que a gente fala? — a voz de Dunk sai mais aguda do que ele queria.
Aerion fica olhando para ele um segundo, depois solta uma risada curta e incrédula.
— A polícia não vai interrogar ninguém.
— Mas se vier—
— Não vai — diz Aerion como se fosse um fato básico da vida. Como se a própria ideia fosse tão absurda que até pensar nela seria vergonhoso pros dois. Ele faz um gesto preguiçoso com a mão. — Mas sim. É o que você iria dizer. Satisfeito?
Dunk passa a mão no rosto, a palma raspando na barba que está começando a aparecer, e tenta pensar no meio do pânico, vergonha e da estranha consciência que o corpo de Aerion está sentado no banco do passageiro do lado dele.
— Isso… não, isso não… não faz sentido — diz Dunk, as palavras saindo sem filtro. — Por que a gente ia—
— Porque as pessoas fazem esse tipo de coisa, — diz Aerion, e parece que ele está gostando da situação. Como se o jeito atrapalhado de Dunk fosse divertido para ele. — O tempo todo, na verdade. É convincente.
Dunk balança a cabeça, porque não, não é esse o ponto. O ponto é que as pessoas vão olhar para ele e para Aerion e ver duas peças que não se encaixam, o que levantaria perguntas, e perguntas são as últimas coisas que eles precisam agora.
— Não, mas… por que eu? — as palavras saem sem sentido — Por que você? Por que a gente ia—
Aerion fica olhando para ele, com as sobrancelhas franzidas. Até que alguma coisa muda na expressão dele. Dunk consegue ver a ficha caindo atrás daqueles olhos pálidos.
— Ah — diz Aerion, simplesmente.
Dunk engole seco.
— Quê?
— É nesse detalhe que você está fixado.
— Eu não estou fix— Dunk se corta, porque está fixado sim, desde que a palavra “transar” saiu da boca de Aerion. — Eu só tô dizendo que não parece certo.
A sobrancelha de Aerion sobe.
— Por que não?
Dunk faz um gesto sem graça entre os dois.
— Porque… olha para você, e depois olha para mim!
O olhar de Aerion passa por ele devagar, e tem alguma coisa nesse olhar que faz Dunk se sentir medido.
— O que eu deveria estar vendo?
Dunk fica ainda mais vermelho.
— Bom… eu. — Dunk diz, e completa, caso o ponto não tenha ficado claro — Só tô dizendo que as pessoas vão desconfiar.
— Não vão — diz Aerion. — Porque a resposta é óbvia.
— Não é óbvia!
— É sim.
— Como?
Dunk vê Aerion se inclinando para ficar de frente para ele, pelo canto do olho.
— É só sexo no banco de trás de um carro, Dunk. — O jeito que ele fala o nome dele faz a pele de Dunk arrepiar, como se Aerion estivesse lançando um feitiço com ele, como uma criatura das histórias que ele ouvia quando criança. — Não me diga que você nunca fez antes.
— Eu nunca— Dunk não sabe como admitir o que está prestes a admitir, e tenta de novo, as palavras mal saindo. — Quer dizer, eu nunca—
— …nunca o quê? — diz Aerion, e a voz dele muda agora, mais focada, o tom era quase doce.
Dunk fica olhando fixo para estrada vazia, pras árvores, para escuridão, para qualquer coisa que não seja o rosto de Aerion.
— Eu só… nunca — murmura ele, as palavras saindo arranhadas, como se sua garganta estivesse lutando para mantê-las pra dentro.
— Nunca fez sexo com um homem? — pergunta Aerion.
— Quer dizer, isso também, mas—
— …você é um virgem — diz Aerion, e tem um tom de surpresa e admiração na voz dele, como se Dunk tivesse acabado de entregar alguma coisa preciosa.
— Isso não— Dunk balança a cabeça, se sentindo humilhado. — Isso não é importante!
Aerion solta uma risada curta e incrédula, o som alto e claro.
— Parece importante para você — diz ele, parecendo deliciado com a situação.
Dunk geme e encosta a testa no volante, o plástico frio contra a pele queimando.
— A gente pode não… por favor, a gente pode não falar disso agora? — diz ele pro espaço escuro entre as mãos, parecendo patético até pros próprios ouvidos.
Aerion fica olhando para ele e depois ri de novo, um pouco sem fôlego.
— Incrível — diz ele, sua voz leve, balançando a cabeça um pouco.
Dunk se joga de volta no banco, o rosto ainda queimando e o coração ainda batendo forte.
— Esse plano é bem ruim — diz ele.
— É o único plano que nós temos — responde Aerion, e o humor some da voz dele tão rápido quanto apareceu, o tom duro novamente — A não ser que você tenha uma ideia melhor.
Dunk fica quieto um momento, tentando pensar em alguma coisa.
— …não — diz ele depois de um tempo, a palavra mal saindo da garganta.
Dunk nem precisa olhar para saber que Aerion está sorrindo. Aquele sorriso satisfeito, arrogante, com as presas à mostra, já estava gravado na mente dele.
-o-
O lugar para onde Aerion leva eles não é grande coisa, só um pedaço de chão seco perto de um rio estreito, meio escondido por uns arbustos e árvores baixas. O tipo de lugar que ninguém vai a não ser que queira ir de verdade.
Dunk para o carro, mas não sai de dentro, não se mexe por algum tempo. Ele pergunta a Aerion a primeira coisa que vem na cabeça porque precisa de um segundo antes de pensar no resto.
— Como você conhece esse lugar?
Aerion para, a silhueta dele marcada contra a escuridão.
— Eu vinha pescar por aqui quando era criança — diz ele depois de um momento, e Dunk não tem certeza se ele está zoando ou não.
Dunk fica olhando para ele, tentando imaginar ele criança com uma vara de pescar, sentado perto dessa água como qualquer outro moleque. No final, não consegue. A imagem não se forma por mais que ele tente. Aerion é o tipo de pessoa que a gente só consegue imaginar brotando do inferno já crescido, com os dentes afiados e os olhos cruéis.
— …tá bom — diz Dunk por fim, porque não sabe mais o que falar, e sai do carro. O ar frio bate no rosto dele.
Aerion só anda em direção à água, as botas fazendo barulho no chão seco, e Dunk segue porque o que mais ele vai fazer.
— É melhor já ir tirando a roupa — diz Aerion, e Dunk pisca para ele porque tem que ter escutado errado, as palavras não fazem sentido.
— Quê?
— Se quiser mantê-las limpas, é melhor tirar.
Dunk fica olhando para ele, o cérebro lutando para ligar as palavras de Aerion com a situação em que eles estão: a pá no banco de trás, o corpo no porta-malas e o buraco que eles vão cavar.
— Eu não vou cavar — acrescenta Aerion, como se as duas coisas tivessem relação e Dunk devesse entender sem explicação.
— …você podia ajudar — murmura Dunk, mas sai fraco, cansado, o tipo de reclamação uma pessoa faz quando já sabe a resposta.
— Você tem duas pás? — pergunta Aerion, e Dunk solta o ar pelo nariz e passa as mãos no rosto. — Não? Que pena.
Está quieto demais aqui, e ele consegue ouvir tudo: a própria respiração respiração, o barulho da terra embaixo dos sapatos, a porta do carro abrindo. Ele enfia a mão no banco de trás e pega a pá. É do tipo dobrável, daquelas que cabem no kit de emergência do carro. O Sr. Arlan deu para ele quando ele comprou o carro, e agora Dunk fica pensando se o velho algum dia imaginou que a coisa que Dunk ia precisar cavar era uma cova, e não um monte de neve na beira da estrada.
Ele começa a tirar a roupa. Primeiro a camisa rasgada, depois os sapatos e depois a calça jeans, até ficar só de cueca, as mãos segurando o cabo da pá. Aerion não desvia o olhar nem comenta nada. Só se encosta no carro com os braços cruzados e fica olhando. Dunk sente o peso daquele olhar na pele, nas partes dele que normalmente ficam cobertas.
Dunk lança um olhar para ele e começa a cavar. É mais difícil do que parece. O chão está seco e duro, a pá entra só um pouco e tira pedaços irregulares que não querem sair. Os ombros dele doem, o maxilar segue travado enquanto tenta cavar do jeito certo. Fundo o suficiente, decente, seja lá o que “certo” seja nessa situação que tá toda errada.
Atrás dele, Aerion se mexe de vez em quando. O único sinal de que ele ainda está ali é o rangido leve do carro.
Tirar Roland do porta-malas é pior que cavar, pior que carregar ele pelo galpão, pior que tudo. Ele está frio agora. É a primeira coisa que Dunk nota quando pega no braço dele. O frio atravessa pelos seus dedos e dá vontade de soltar e nunca mais tocar em nada. E o cheiro de vômito ainda está lá, azedo e forte. Sobe do peito de Roland em ondas toda vez que Dunk mexe nele.
Ele tenta puxar o Roland pelos ombros, mas o corpo está bem preso. Um braço está preso embaixo dele num ângulo ruim. Dunk puxa e nada se mexe. Puxa com mais força e o braço continua travado, como se o Roland estivesse segurando em alguma coisa lá dentro, como se mesmo morto ele quisesse dificultar a vida de Dunk.
Aerion fica parado um pouco afastado, braços cruzados, só olhando.
— Qual o problema agora?
Dunk grunhe e puxa de novo. O corpo se mexe uns centímetros e depois trava em outra coisa.
— Continua sendo um babaca mesmo depois de morto — diz Aerion, seco e debochado.
— Pode parar com— Dunk vira, com toda a intenção de dar uma bronca nele pelo desrespeito com um homem morto, mas vê então: a raiva nos olhos de Aerion, a mágoa por baixo. Ele lembra o quanto aquela briga foi feia antes do Roland cair. Como soou pessoal, como soou íntimo.
— Não acredito como um dia eu— Aerion se corta de repente, o maxilar fechando com força, e então dá um passo à frente e cospe, bem na camisa do Roland, em cima da mancha de vômito que já estava lá. Aerion recua na mesma velocidade, como se nada tivesse acontecido.
Dunk volta pro porta-malas e finalmente solta o braço com um estalo, o barulho de uma junta que não devia se mexer daquele jeito. Ele engole seco, a garganta apertada, e puxa o corpo inteiro para fora do porta-malas.
-o-
O corpo do Roland já está no buraco agora. Antes de Dunk começar a jogar a terra de volta, ele hesita. A carteira do Roland ainda está no bolso de trás. Dunk sentiu ela quando estava dobrando ele no porta-malas. Ele se agacha, tira a carteira com os dedos que parecem grossos e atrapalhados. Dunk abre ela e olha o dinheiro dentro. É mais do que ele esperava.
Ele pega o dinheiro, desliza as notas para dentro da cintura da cueca e coloca a carteira vazia de volta onde achou. Não olha para Aerion, mas sabe que Aerion ia aprovar. E esse pensamento faz alguma coisa revirar na barriga de Dunk.
Ele pega a bolsa de droga que Roland deu para ele. Por um momento, pensa em ficar com ela. Vender. Tirar alguma coisa boa desse pesadelo. No final, Dunk decide jogar a bolsa na cova. Ela cai no peito do Roland com um baque suave. Parece certo, como fechar uma porta. Como deixar tudo ali embaixo com ele.
Depois, ele preenche o buraco. A terra fica mais pesada a cada pá, os seus braços começam a doer. Quando termina, a terra está bem socada, e ele espalha folhas e gravetos por cima até parecer que nada aconteceu.
Ele fica parado ali um momento, respirando pesado, olhando pro pedaço de chão que não parece grande coisa. Só terra. Só um pedaço um pouco mais escuro, que vai se camuflar com o resto do cenário se chover amanhã.
Aerion se afasta do carro e chega mais perto.
— Terminou? — pergunta.
Dunk balança a cabeça, limpando a testa com as costas do braço e só espalhando mais sujeira em vez de tirar.
— Sim. — diz ele, a voz ríspida de tanto ofegar.
Aerion fica olhando pro lugar por um segundo, os olhos passando pela terra mexida como se estivesse checando alguma coisa, procurando qualquer detalhe que pudesse entregar eles, e depois balança a cabeça uma vez.
— Bom — diz ele só isso, sem cerimônia, sem hesitação, sem nada do que Dunk esperava. Em vez disso, Aerion vira para a direção do rio e fala: — Vai se lavar.
— Quê?
— Você está coberto de terra — diz Aerion, e fala como se fosse óbvio, como se Dunk já devesse ter pensado nisso. Dunk olha para si mesmo e vê que está mesmo.
— …tá bom — diz ele, e dá um passo na direção do rio, mas depois para e olha para trás porque Aerion já está voltando pro carro, já se encostando nele com os braços cruzados e o olhar fixo em Dunk, sempre olhando, sempre ali.
— Você é bem obediente — diz Aerion, quase que casualmente, e Dunk franze a testa para ele.
— Eu… quê?
— É uma qualidade útil — diz Aerion, e tem alguma coisa na voz dele que pode soar como aprovação. Dunk não sabe o que responder, não sabe o que dizer para nenhuma das coisas que Aerion fala.
A água está fria quando ele entra, e ele esfrega as mãos mais forte do que precisa, mais forte do que provavelmente faz bem para pele cheia de bolhas e machucados.
-o-
Quando ele volta pro carro, Aerion está sentado no banco de trás com a porta aberta e o corpo virado para fora, os joelhos puxados até o peito de um jeito que faz a saia subir. Dunk sabe que, se quisesse olhar, ia ver exatamente o que Aerion está usando por baixo do tecido jeans.
Ele está todo molhado, a cueca grudada nas coxas e as pernas ainda pingando. Algo em ficar parado ali na frente de Aerion, com a pele ainda molhada pela água fria do rio, que faz ele se sentir exposto de um jeito que vai além da nudez.
— Tá bom assim? — diz ele, e a voz sai mais irritada do que queria. O cansaço das últimas horas aparece nas palavras enquanto ele dá uma voltinha, mostrando o corpo inteiro para Aerion como se estivesse apresentando prova de que está limpo o suficiente para entrar no próprio carro de novo. — Posso pegar minhas roupas agora? Por favor.
Quando ele olha pro rosto de Aerion de novo, tem um olhar pensativo na expressão dele, a língua aparecendo um pouco entre os lábios como se estivesse resolvendo algum problema.
— Você estava certo — diz Aerion, e para Dunk parece uma armadilha.
— Estava? — pergunta Dunk, mas na verdade não liga. Ele está olhando pras próprias roupas. Aerion está sentado em cima delas onde Dunk deixou no banco de trás. Devem estar quentes do corpo dele.
— É, a gente precisa combinar bem a nossa história — continua Aerion. — A gente precisa saber exatamente o que falar para eles. Não vai ser bom o suficiente sem detalhes.
Ele se recosta um pouco, os braços enrolando em volta dos joelhos de um jeito que faz as coxas apertarem uma contra a outra e a saia subir mais um pouco. Dunk desvia o olhar e depois olha de novo, porque não consegue evitar, não consegue parar de reparar no jeito que a saia sobe e no jeito que as pernas de Aerion refletem a luz fraca.
Dunk engole seco, a garganta seca.
— É?
— Sim. E já que você não tem experiência, — diz Aerion, a voz sem julgamento nem deboche dessa vez. — Eu posso te mostrar como seria.
— Tá bom — Dunk se escuta dizer. Não reconhece a própria voz.
— Vem aqui — diz Aerion, e parece uma ordem.
Os pés de Dunk levam ele para frente, obedecendo sem ele decidir de verdade, porque se Aerion mandasse ele deitar na cova que acabou de cavar, se encolher do lado do Roland e deixar a terra cobrir ele também, Dunk acha que iria. Se Aerion mandasse ele entrar no rio e continuar andando até a água cobrir a cabeça, ele iria.
Quando chega perto o suficiente, Aerion vira, fica de joelhos no banco de trás com as costas para Dunk e as mãos apoiadas na porta do outro lado. A posição faz a saia subir de verdade agora, mostrando a curva da bunda por baixo da renda preta da calcinha que ele está usando por baixo, a meia-calça rasgada cortando a carne das coxas num desenho que prende o olhar de Dunk.
— Entra atrás de mim.
Dunk gosta disso. É fácil assim. As instruções simples que Aerion dá fazem ele esquecer de todo o resto.
Ele coloca um joelho no banco e o outro no chão do carro. Um braço se apoia no banco da frente, segurando o peso. As pernas dele pressionam a parte de fora das coxas de Aerion. O ângulo é estranho, impossível. O espaço é pequeno demais para duas pessoas ficarem assim. O carro força eles a ficarem juntos, o corpo dele já encostado no de Aerion sem Dunk precisar decidir fazê-lo. E Aerion parece tão pequeno assim, embaixo dele.
Dunk sente o próprio corpo de um jeito que nunca sentiu antes. Sente o calor da pele de Aerion através da cueca molhada e o jeito que as próprias coxas tremem por causa do esforço e do frio. Não tem certeza do que deve fazer, não tem certeza do que Aerion quer que ele faça, não tem certeza de nada, só que não quer parar.
— Você já estaria me tocando agora — diz Aerion, soa como um incentivo, e a mão de Dunk sobe para a cintura dele. Os dedos encontram a pele nua entre a barra da camisa e o topo da saia. Aerion solta um som como um suspiro.
— Eu não— começa Dunk, e para porque não sabe o que dizer pro homem que está ajoelhado embaixo dele com as costas arqueadas, a cabeça baixa e as mãos ainda apoiadas na porta, esperando alguma coisa que Dunk não tem certeza se sabe dar.
— Você não o quê? — diz Aerion, rouco e frustrado.
Os dedos de Dunk apertam a cintura dele, sentindo o osso do quadril através do tecido da saia, sentindo o jeito que o corpo dele encaixa no de Dunk de um jeito que parece perfeito, como se tivessem sido feitos para se encaixar assim.
— …sei o que fazer — admite Dunk, e a voz sai fraca.
Aerion ri, um som leve e sem fôlego.
— Você pode colocar as mãos em mim — ele diz.
A outra mão de Dunk encontra os quadris de Aerion, os dedos se acomodando na carne macia. Aerion é tão pequeno. Dunk sabia disso, conseguia ver, mas sentir é diferente. Sentir a cintura estreita e o jeito que as mãos dele quase se encontram, tudo faz ele sentir uma mistura de excitação e medo ao mesmo tempo. Dunk balança a cabeça contra a nuca de Aerion, a respiração curta, as mãos empurrando a camisa de Aerion para cima até embolar embaixo das axilas. Ele é macio e quente onde a pele nua encosta.
— A boca também — diz Aerion. A voz dele é firme, controlada, como se estivesse dando instruções para uma coisa que está acontecendo com outra pessoa.
Dunk se inclina para frente, os lábios roçando o lado do pescoço de Aerion. Aerion solta um som baixinho, só uma expiração, mas parece aprovação.
Aerion estica a mão para baixo e puxa a saia, subindo ela mais alto, e depois as mãos vão para a bainha da calcinha que está usando por baixo, a renda preta que Dunk viu de relance o dia todo, e empurra para baixo junto com a meia-calça.
Enquanto faz isso, a mão de Aerion roça no pau de Dunk. Dunk solta um gemido e percebe que está duro agora. Não acredita. Não sabe quando aconteceu, mas o pau duro está pressionado contra a bunda nua de Aerion, sentindo a maciez por cima dos músculos. A cueca está atrapalhando. Ele mexe nela com uma mão só, empurra para baixo o suficiente para o pau pular para fora e encostar no calor da bunda de Aerion.
— Aqui — diz Aerion, e estica a mão para trás, guia os quadris de Dunk para frente, ajusta o ângulo. A voz dele está menos firme agora. — A gente teria feito assim… entre as minhas pernas. Não dentro.
Dunk roça os lábios contra o pescoço de Aerion, os quadris se mexendo sem ele mandar, deslizando o pau pela parte de dentro das coxas fechadas de Aerion. A pele ali é tão macia, tão quente, e as coxas de Aerion apertam em volta dele.
— Assim mesmo — diz Aerion, um um exalar satisfeito, e Dunk sente que fica ainda mais duro só de ouvir aquele tom.
As mãos de Dunk saem dos quadris e vão para a cintura de Aerion, os dedos se abrindo na extensão estreita. Ele consegue sentir os músculos por baixo da pele de Aerion, o jeito que eles tensionam e se mexem com cada movimento. Ele quer ver, quer ver tudo, mas a luz está fraca demais e ele só consegue distinguir formas e sombras do corpo de Aerion contra o dele. Dunk quer pedir alguma coisa, mas não consegue abrir a boca, sem saber o que quer além de mais, mais disso, mais de Aerion.
— Você é tão grande — diz Aerion.
O rosto de Dunk queima porque ele sabe que é, sabe que é alto demais, largo demais, grande demais.
— Desculpa — diz Dunk, por reflexo.
Aerion ri e dessa vez é uma risada de verdade, sem fôlego e surpresa.
— Pelo o quê? — diz Aerion, e Dunk não tem a resposta. Por que agora dunk não está se arrependendo de nada, não nesse exato segundo, mas pode estar quando isso acabar. O pensamento enche ele de medo e ele empurra os quadris para frente de novo para afastar aquilo da cabeça.
A pressão está perfeita, e Aerion solta um som que quase parece um gemido. A cabeça dele cai para frente até a testa encostar na porta, as mãos agarrando as bordas do banco.
Dunk faz de novo, e de novo, encontrando um ritmo que faz a respiração de Aerion falhar e as coxas apertarem em volta do pau dele. Não é suficiente, mas Dunk não sabe o que mais fazer. Não sabe como pedir mais.
Ele se afasta para trás só o suficiente para colocar um espaço entre eles, o peito se desgrudando da coluna de Aerion. Uma mão procura a luz interna do carro, os dedos acham o interruptor e acende. A luz enche o carro de repente e agora ele consegue ver.
Desse ângulo, olhando para baixo pela curva das costas arqueadas de Aerion, Dunk consegue ver tudo. As linhas escuras das tatuagens descem pela coluna. A pele clara das coxas apertadas em volta do pau dele. As marcas vermelhas onde o corpo dele esfregou na pele de Aerion.
E então as bolas de Aerion, inchadas e redondas, a pele ali rosada e completamente lisa, eram quase bonitinhas de um jeito que Dunk não esperava. E um pouco pra cima, onde ele é rosado e pequeno, tão delicado. Dunk não conseguia parar de olhar. Nunca viu nada assim antes. Nunca viu nada tão perfeito, tão vulnerável. Não consegue parar de olhar. Não consegue parar de encarar o jeito que ele pisca toda vez que o pau de Dunk desliza para entre as coxas.
— O que você— começa Aerion, e então vira para ver o que Dunk está olhando. Alguma coisa na voz dele muda, para um meio-termo entre indignação e vergonha. — Para de olhar.
Dunk olha pro rosto de Aerion em vez disso, pro rubor subindo nas bochechas, pros lábios entreabertos e pros olhos mais escuros do que antes, e acha que Aerion fica fofo assim, indignado, desfeito e tentando fingir que ainda está no controle.
— Eu disse para parar de olhar — diz Aerion, e a voz sai mais aguda agora, maldosa de um jeito que Dunk está começando a gostar. Faz Dunk querer rir ou beijar ele, e com certeza, faz ele querer continuar olhando para aquele cuzinho rosado, quer falar pra ele o quão fofo ele é ali embaixo, será que alguém já disse pra ele? Roland. Ou talvez aquele tal de Donnel? Será que eles já enfiaram o pau ou a língua dentro dele?
Ele pressiona o polegar na borda, esticando um pouco a pele. E Aerion solta um gemido. Dunk quer sentir como é por dentro, mas não faz, porque Aerion disse que não dentro. Então ele só continua mexendo os quadris, continua deslizando entre as coxas de Aerion, continua vendo o jeito que o rosto de Aerion reage a cada movimento.
— Você… você pode ir mais rápido — diz Aerion, e a voz está rouca agora.
Dunk obedece. Os quadris dele se movem mais rápido, as duas mãos voltam a apertar a cintura de Aerion. O carro é pequeno demais, os joelhos dele estão doendo, as mãos doem e nada disso importa, nada disso importa porque Aerion está soltando sons agora, sons fracos que não são palavras, as coxas tremendo em volta do pau de Dunk, as bolas aveludadas encostando nele, e Dunk consegue ver o jeito que o corpo dele tensiona, o jeito que os dedos agarram a maçaneta da porta, o jeito que a cabeça cai para frente e o cabelo gruda na nuca.
As coxas de Aerion estão escorregadias de suor e pré-gozo. O pau de Dunk está tão duro agora, mais duro do que já esteve na vida, pressionando contra a pele de Aerion e deslizando entre as coxas a cada estocada. As mãos de Aerion agarram a porta, o corpo inteiro tensiona e relaxa com cada movimento, e Dunk quer ficar mais perto, quer sentir tudo dele.
Ele empurra para frente, o peito contra as costas de Aerion de novo, o peso dele pressionando Aerion contra o banco. Aerion vai fácil, as mãos escorregando na porta, o rosto pressionando contra o estofado. Dunk está em cima dele, o peso inteiro pressionando para baixo. Aerion é tão pequeno embaixo dele, tão maleável. Dunk consegue sentir a carne da sua bunda, a curva da coluna e o jeito que ele treme, o corpo inteiro tremendo a cada estocada.
Uma mão segura a nuca de Aerion, sem forçar para baixo, só segurando, impedindo o rosto de bater na porta. A outra mão agarra a cintura de Aerion, os dedos bem abertos na extensão estreita, segurando ele como se tivesse medo que Aerion escapasse se não segurasse firme.
Dunk está perdendo o controle. Perdendo o ritmo que tentava manter. Os quadris se movem mais rápido, com mais força. O rosto dele se enterra no cabelo de Aerion. Ele consegue se ouvir, grunhindo como um animal, baixo e desesperado. O corpo de Aerion aperta, tensiona, as coxas fechando forte em volta do pau de Dunk, as costas arqueando, as mãos procurando algo para segurar e encontrando o antebraço de Dunk, as unhas afiadas cravando ali.
Aerion goza assim. Dunk sente acontecer, sente o jeito que o corpo inteiro fica tenso e depois relaxa, o jeito que as coxas apertam em volta do pau dele e depois ficam moles. Aerion ainda está tremendo, ainda gemendo, e Dunk deveria parar, mas os quadris continuam mexendo, continuam deslizando entre as coxas de Aerion.
— ‘tá machucando — geme Aerion, mas não se afasta, não manda Dunk parar, só crava as unhas mais fundo no antebraço dele e deixa Dunk continuar, continua aguentando. Os quadris de Dunk movem mais rápido agora, fora de controle, as mãos dele vão para todo lado, na cintura de Aerion, nas costas, nos ombros, puxando ele mais para perto, pressionando ele para baixo, o peito contra as costas de Aerion e os quadris ainda mexendo, os braços enrolados em volta dele. Aerion faz um som que quase parece protesto e depois nada, só respiração, só os dois enfiados no banco de trás com a luz ainda acesa, os vidros embaçados e o mundo inteiro reduzido pro espaço entre as coxas de Aerion e o som da respiração dele.
Aerion ainda está tremendo, a respiração saindo em suspiros curtos. Dunk sabe que deveria parar, deveria se afastar, deveria dar um tempo para ele se recuperar. Mas não consegue. Não consegue parar. O pau desliza contra a pele de Aerion, os quadris batem na parte de trás das coxas de Aerion, as mãos apertam tão forte que ele sabe que vai deixar marcas amanhã. E Aerion deixa ele fazer tudo isso.
Dunk goza com um soluço, os quadris empurrando para frente, o pau deslizando entre as coxas de Aerion uma última vez. Ele puxa para fora no último segundo, o gozo derramando na lombar de Aerion, nas tatuagens escuras. Dunk fica olhando o jeito que o líquido escorre pela curva da pele de Aerion.
Ele se inclina para frente sem pensar, a boca pressionando contra a coluna de Aerion, a língua traçando a linha das tatuagens, sentindo o gosto de sal, pele e o amargo do próprio gozo. Aerion treme embaixo dele, um som escapando dos lábios que pode ser uma risada.
— V-você— começa Aerion, e vira um gemido. Dunk continua lambendo, continua traçando os desenhos sinuosos nas costas dele, continua sentindo o gosto da pele. Não sabe o que Aerion ia dizer. Não sabe se seria um elogio ou ofensa, mas não importa. Nada importa além do jeito que o corpo de Aerion ainda treme debaixo dele, do jeito que a respiração ainda sai em suspiros curtos, do jeito que ele ainda está aqui. Ainda com Dunk. Ainda deixando ele fazer o que quizer.
Por quê?
A pergunta surge do nada. Dunk não merece isso. Não merece ter Aerion quente embaixo das mãos dele, as mesmas mãos que enterram um homem a menos de meia hora. E agora está aqui, pressionado contra alguém que está quente e disposto. Não é justo. Roland nunca mais vai poder tocar Aerion, nunca mais vai poder tocar ninguém. E Dunk não entende. Não entende como alguém pode olhar para ele depois de ver tudo que ele fez hoje e ainda deixar ele tocar. Tanselle teria chamado a polícia e olhado para ele com medo se soubesse o que ele fez hoje, e ela estaria certa.
Ele não merece a pele quente de ninguém embaixo de sua língua, mas continua lambendo mesmo assim. Porque ele está vivo, porque Aerion ainda está deixando ele fazer o que quiser com o seu corpo e Dunk é fraco demais para recusar.
Dunk se afasta eventualmente, a boca molhada e respiração ainda ofegante. Aerion vira a cabeça, os olhos semicerrados, os lábios entreabertos, o rosto suave e gentil de um jeito que Dunk não viu até agora.
Aerion se senta e estica a mão para cima para apagar a luz interna. A escuridão engole os dois.
Dunk não consegue mais ver o rosto dele, não consegue ver nada além do contorno fraco do corpo, da curva da coluna, do jeito que as mãos ainda tremem onde estão apoiadas no banco.
Então os ombros de Aerion se endireitam. É um pouco perturbador, ver como a leveza some da postura, substituída por controle. Quando ele fala, a voz está de volta ao normal, quase entediada.
— Foi isso que a gente veio fazer aqui — diz Aerion. — Se alguém perguntar.
Dunk balança a cabeça, mesmo que Aerion não consiga ver no escuro.
— Tá. — diz ele, mas a voz ainda está rouca, a respiração ainda falhando.
Aerion não olha para para ele, finge que nada aconteceu. Só estica a mão para arrumar as roupas, e Dunk não consegue evitar sentir um pouco de tristeza.
Dunk sai do carro e veste as roupas devagar. Os movimentos estão pesados agora de um jeito que não estavam antes. A adrenalina finalmente acabou e deixou um vazio para trás. Os braços e as costas doem. Tem bolhas nas palmas das mãos que ardem contra o tecido da calça jeans enquanto ele puxa ela pelas pernas. Atrás dele, Aerion não se mexeu muito, ainda no carro e ainda olhando.
-o-
O carro ronca pela estrada escura, os faróis cortando a noite. Nenhum dos dois falou nada desde que saíram do rio.
— …então — diz Dunk —, tá feito, né?
Aerion olha para ele, uma sobrancelha levantada.
— Tipo… — Dunk faz um gesto vago para trás, na direção do rio, da cova e de toda a escuridão longa que eles atravessaram para chegar ali. — Já fizemos o que tinha que ser feito. Ele tá… É isso. Eu te largo em algum lugar?
Aerion faz um hum como se estivesse pensando, e Dunk espera com alguma coisa no peito afrouxando um pouco, porque essa é a parte em que eles seguem caminhos separados, a parte em que essa coisa toda termina e ele pode voltar para vida dele e fingir que nada aconteceu, pode tentar viver com o que fez sem Aerion ali para guiá-lo.
— …e o que a gente conta pros policiais que a gente fez depois de fazermos, ahm, no banco de trás? — pergunta Dunk, e nem sabe direito por que falou aquilo. Talvez para ter certeza, talvez para fechar o ciclo, talvez porque precisa ouvir Aerion dizer que não sobrou mais nada para explicar, que eles realmente terminaram o que vieram fazer.
Aerion olha para ele e depois sorri, os dentes brilhando na luz fraca.
— A gente diz que você me levou de volta para cidade, e depois me levou para sair — diz Aerion, e Dunk franze a testa para ele, sem entender.
— Quê?
— para jantar — continua Aerion, como se estivesse explicando uma coisa óbvia. — Num lugar barato. Você parece o tipo.
Dunk pisca, as palavras caindo entre insulto e confusão.
— Ei…
— A gente comeu alguma porcaria — continua Aerion, ignorando ele completamente, a voz voltando pro tom seco e factual que tinha no galpão quando estava listando os motivos de Dunk não poder chamar a polícia. — Provavelmente batata frita gordurosa.
Dunk fica olhando para ele, tentando acompanhar.
— …e depois? — pergunta ele, mais devagar agora, porque não está gostando do rumo que a conversa está tomando.
Aerion inclina a cabeça de leve.
— Depois você me levou pra sua casa — diz ele —, e eu deixei você me foder direito. Numa cama.
As palavras fazem Dunk perceber que não é só uma história para disfarçar. Aerion está avisando para ele o que vai acontecer hoje à noite. Primeiro vem a confusão, seguido de medo, depois algo que parece um pouco como alívio. Aerion não vai deixar ele ir.
Dunk fica apavorado com a ideia.
— não… isso não faz parte do plano. Não vai dar certo — engasga Dunk, procurando desesperado as palavras que vão fazer Aerion entender que isso é diferente. Que eles tinham um plano. Um que não incluía o apartamento de Dunk, a cama dele ou qualquer coisa da vida real dele fora desse dia horrível. — Você nem sabe como é onde eu moro.
— Vou ter que ver com meus próprios olhos, então. — diz Aerion, direto e sem enrolação.
Enterrar ele não foi o fim. Nunca vai ter fim. O porta-malas, a pá, a cova, o banco de trás… nada disso tinha sido o fim. Aerion não vai embora. Vai ficar. Vai voltar pra casa com Dunk.
Uma parte de Dunk quer gritar, quer empurrar Aerion pra fora do carro, fugir da cidade e fingir que essa noite nunca aconteceu. Mas outra parte, está feliz que Aerion vai ficar. Porque se Aerion ficar, Dunk não vai ter que encarar sozinho o que fez. Não vai ter que entrar em casa sozinho, trancar a porta e sentar no escuro só com o rosto do Roland atrás das pálpebras.
Aerion viu tudo acontecer, Aerion o guiou, Aerion viu o pior lado de Dunk. E ele ainda está aqui.
E Dunk está com medo. Pelos Deuses, está com tanto medo. De Aerion, de si mesmo, do que vai acontecer quando o sol raiar. Ele não quer ficar sozinho hoje à noite. E Aerion está oferecendo pra ficar com ele.
— …tá bom — diz Dunk, porque no fundo ele sabe a história que Aerion montou era a única que vai sobreviver à noite, e ele está tão cansado, e sabe que resistir é inútil.
Aerion sorri, e é o sorriso mais verdadeiro que mostrou até agora. Mesmo assim, ainda sim parece que ele está arreganhando os dentes afiados, pronto para morder.
Dunk sente o formato da própria vida mudando em volta dele, abrindo espaço para esse sorriso.
