Chapter Text
Quando parou o giro, ainda em posição de defesa, Himawari observou de onde veio o ataque. Sarada Uchiha estava no alto de uma árvore, de cabeça para baixo, com as mãos no bolso dentro do casaco, e os pés firmes emitindo chakra para se sustentar no galho. Desceu em um pulo e caminhou em direção ao grupo, ainda com as mãos escondidas e os ombros à mostra.
— Uau, que entrada triunfal! — Elogiou Shikadai.
— Só faltou a guitarra country como tema de fundo* — brincou Inojin.
Chōchō havia convidado a amiga, conforme o combinado com Himawari, e a abraçou com saudades. Sarada havia ficado um pouco mais reclusa depois do evento causado pelo shinjutsu da Eida, uma vez que não tinha sido afetada, e sentia-se cansada de ser a diferente, rebelde ou incompreendida.
A kunoichi, então, aceitou ser a dupla de treino de Himawari. Entretanto, ao invés de taijustu, a Uzumaki começou a treinar defesa para ataques a longa distância. Sarada, como uma boa Uchiha, dominava o manejo de shurikens, e fez uso das técnicas do seu clã, além de eventuais jutsus bolas de fogo.
Estava sendo uma oportunidade também para Sarada praticar. O time 7 costumava ser unido, mas atualmente o restante dos seus membros encontrava-se o mínimo possível, apenas para as missões designadas.
Sarada preocupava-se demasiadamente com Boruto, e também com seu pai Sasuke; ambos haviam fugido da vila há três anos, e nunca mais deram notícias. Sentia-se esmagada com a injustiça sofrida pelo amigo, acusado de assassinar seus pais. Tentava convencer as autoridades de Konoha a pelo menos ouvir o que Boruto tinha a dizer. Por defendê-lo, o clima entre o time azedou, uma vez que Kawaki estava determinado a eliminar seu amigo, assim como Mitsuki, que com a troca de memórias havia assumido o mesmo desejo.
Adicionalmente, Boruto perdeu o olho direito em um ataque de Kawaki direcionado a ela, justamente quando a kunoichi pretendia defender o Uzumaki. À época, ela subestimou o poder do karma e a determinação do estrangeiro. Agora, tinha ciência da sua desvantagem, uma vez que não há ninjutsu que se equipare ao karma. Depois desse confronto, evitava-o, pois também não queria que ele tomasse conhecimento das suas memórias intactas.
A Uchiha sentiu-se bem em treinar novamente com amigos. Estar com Himawari, em especial, lhe despertava muitos sentimentos, como ansiedade, preocupação e, principalmente, saudades, pois sempre recordava-se de Boruto. Eram muito parecidos, com expressivos olhos de um azul intenso e risquinhos nas bochechas.
Himawari foi bem na luta. Era muito determinada, mas depois de quase uma hora de treino, teve seus dois clones desfeitos com um único chidori. Foi interpelada, então, por Chōchō e Inojin, para que encerrasse o treinamento. Andou em direção ao grupo de amigos e deitou-se na grama, percebendo finalmente o quanto estava cansada.
Enquanto relaxava das atividades, sentindo o coração acelerado, passou a respirar profundamente até os batimentos normalizarem. Fechou os olhos e quase cochilou, quando sentiu uma pressão na cabeça. Apertou os olhos com força e levou as mãos às têmporas, massageando-as, tentando aliviar aquele estranho fenômeno, sentindo-se confusa. Até que o incômodo passou. Sentiu que faltava fazer algo naquele dia.
— Shikadai, antes de voltarmos para minha casa, queria visitar o memorial do meu pai, pode ser? — Levantou-se e bateu com as mãos nas roupas para tirar um pouco da terra. — Eu… sinto muito a falta dele.
O time 10 se entreolhou novamente.
— Claro, Hima-chan, como você preferir — respondeu o Nara.
Caminharam, então, em direção à vila para comprar flores e, em seguida, irem ao memorial, que ficava no Cemitério de Konoha. Chōchō e Sarada estavam um pouco afastadas do grupo, quando a Akimichi contou que a jovem alternava os momentos nos quais acreditava que o pai estava vivo ou morto.
— Deve ser difícil passar por tudo que ela viveu com tão pouca idade… Não me surpreende a confusão mental — sussurrou.
Sarada ficou em silêncio processando a informação. Será que a irmã mais nova de Boruto estava resistindo à influência da Onipotência? Ficou atenta à garota.
Ao chegarem a loja dos Yamanaka, foram recepcionados por Ino, que puxou Himawari para um abraço apertado.
— Sinto muito, minha pequena — disse ainda com a garota nos braços. Quando a soltou, acariciou seus cabelos. — Você está muito misturinha dos seus pais, tão bonita… — Observava-a, achando uma linda adolescente. Ficou triste por seus amigos não poderem acompanhar seu crescimento. Como os olhos marejaram com esse pensamento, disse ao grupo que iria montar um arranjo bem pomposo com crisântemos amarelos.
A Uzumaki também se emocionou, ficando com os olhos úmidos. Secou-os com as palmas das mãos, de forma desajeitada, tentando esconder dos amigos, fungando de leve. As meninas deram atenção a ela, enquanto Inojin correu para a bancada de flores, ansioso, buscando por uma em especial. Sua mãe não ficaria braba se pegasse mais uma sem pagar. Aproximou-se do grupo e entregou-a para Himawari.
— Olha essa flor! — Girou-a entre os dedos. — Hima-chan, seu nome significa “girassol”, então tome este para você!
Chōchō e Shikadai começaram a rir, aos poucos, até que explodiram em gargalhadas, e passaram a tirar sarro do loiro, que ficou muito sério.
— Deixa o Kawaki saber disso, acho que ele te parte ao meio — Shikadai continuou a rir, e até Sarada ameaçou abrir um meio-sorriso com a situação.
— Vocês dois são ridículos, viu — corou com as provocações.
— Ahhhh, fica assim não, foi fofo, viu — Chōchō o puxou para um abraço lateral mas ele a empurrou de leve.
Himawari passou a rir das brincadeiras com o grupo. Tinha gostado do presente.
— Inojin, obrigada! Vou guardar essa flor comigo, mesmo depois que secar.
— Não tem de quê, é um presente de todos nós — coçou a nuca enquanto falava.
— Pára Inojin, é um presente só seu — Shikadai ainda ria e Chōchō concordava. Inojin olhou para a amiga, um bocado desesperado, mas recebeu um sorriso cúmplice de volta.
Ficou aliviado quando notou o retorno de sua mãe com um enorme buquê.
— Aqui, meus jovens, um presente meu para a família Uzumaki. — Entregou o buquê para a orfã, mas Sarada o segurou antes, com o intuito de ajudar.
— Viu Inojin, como o presente era só dos Yamanaka? — provocou novamente Chōchō.
O loiro revirou os olhos e saiu da loja, sendo seguido por Sarada, enquanto os demais se despediam. Ficaram em silêncio, com Inojin emburrado olhando para a direção oposta, e a garota segurando o grande buquê.
— Inojin, achei muito legal seu gesto de dar aquela flor, foi uma boa forma de demonstrar carinho, a Hima-chan está precisando, especialmente hoje.
Os olhos verdes a fitaram, sem saber o que dizer.
— Você tem um dom tão bonito, poderia fazer um desenho para ela em outro momento, que tal?
— De-desenho?
— Sim. Poderia desenhar a família dela. Acho que ela ia gostar muito.
Inojin ficou pensativo, e o grupo começou a sair da loja. Sarada apoiou a mão em seu ombro.
— Você é um bom amigo! — Deu uma piscada e o adolescente ficou na dúvida se ela estava sendo irônica ou não. Logo ele, o debochado do trio. Mas perto de Himawari, ficava completamente desarmado.
— Eu carrego o buquê! — Puxou o pesado arranjo das mãos de Sarada e foram em direção ao cemitério.
Os corpos de Naruto e Hinata nunca foram encontrados, uma vez que eles estavam selados em outra dimensão. Assim, não possuíam um túmulo, mas uma pedra encravada no muro do local, próximo ao monumento da Vontade de Fogo, com as principais informações sobre eles. Ali os visitantes deixavam fotos do Nanadaime e flores, e nesse dia em especial, a maior parte do extenso muro estava tomada pelas homenagens.
O quinteto sentou-se no chão, de pernas cruzadas, em um silêncio respeitoso, após depositar as flores. Sarada fez questão de sentar-se ao lado de Himawari, que estava pensativa. Ficaram assim por um bom tempo.
Shikadai e Inojin resolveram visitar o túmulo dos seus avós, e Chōchō os acompanhou, para deixar as meninas à vontade. Himawari, então, iniciou o assunto que gostaria de abordar com a Uchiha.
— Sarada, eu sempre achei que você e meu irmão Kawaki ficariam juntos… Mas percebo que vocês se afastaram… E Shikadai me disse que você acredita que Boruto é inocente. É por isso que a relação de vocês está estremecida?
— É… — Sarada relutou um pouco em responder. — Pode-se dizer que sim.
— Me disseram que Boruto feriu o Kawaki para te defender, fazendo um corte profundo em seu rosto.
— Er… Foi mais ou menos isso!
— Sabe, Sarada… Eu sempre achei estranho Kawaki não ter ficado com nenhuma cicatriz disso. — Ao terminar a frase, sentiu a pressão na cabeça, e precisou levar as mãos às têmporas novamente.
— Tá tudo bem, Hima-chan? — Sarada aproximou-se preocupada.
— Sim — respondeu ao sentir-se aliviada. — Desconfio que fico assim quando uso muito o byakugan, mas já fui ao médico algumas vezes, e não identificaram nada.
— Talvez não seja o byakugan… — Sarada sabia que era a ação da Onipotência forçando-a para que não questionasse as divergências, mas não adiantaria explicá-la.
Os olhos azuis, tão intensos quanto os de Naruto e Boruto, viraram em sua direção.
— Fico feliz de saber que você é amiga de Boruto e que intercede por ele. De verdade, não acredito que ele tenha assassinado meus pais. — A caçula dos Uzumakis olhava para as fotos no mural, e isso ajudava a sua grande força interior a se manifestar ativamente contra o shinjutsu.
— Boruto é inocente, eu tenho certeza disso! Pode confiar!
— Concordo! Olha essas fotos. — Levantou-se e passou a apontar para o mural. — Se ele foi assassinado, por que ele não tem um túmulo como os demais? — Apontou para as demais lápides do cemitério, e algumas lágrimas desceram.. — Por que o Oitavo Hokage Shikamaru não procura pelo meu pai? Ele está vivo! Minha mãe está viva!
— Himawari… — Sarada levantou-se e a abraçou. Afastou-se, apoiando as duas mãos em seus ombros. — Nós vamos achar Boruto, esclarecer isso tudo, e buscar pelo Nanadaime e sua esposa! Isso é uma promessa!
Himawari sentia a intensidade dos olhos negros sobre si, contendo muita verdade, ao contrário do que ela percebia ao seu redor.
— E eu não volto atrás nas minhas promessas! — Sarada continuou. — O meu modelo é o Sétimo Hokage, e o jeito ninja dele também é o meu.
Himawari sorriu.
— Eu vou achar o Boruto! E vamos pensar em algum modo de reverter essa situação.
— Sarada… Boruto sabia abrir portais para outras dimensões. Será que meu pai não está em uma dimensão diferente? Não seria a primeira… — Sua cabeça doeu forte novamente e ela não conseguiu terminar a frase. Sarada aguardou o fenômeno passar e tentou animar a garota.
— Vai ficar tudo bem, Hima-chan! Estou com você!
A Uzumaki levantou a cabeça.
— Meus pais estão vivos, não tem porque continuarmos aqui no cemitério. Vamos para minha casa comer o bolo!
O grupo, então, voltou para a casa dos Uzumaki, e cantaram parabéns para Naruto. Himawari estava animada novamente, com algumas lágrimas no canto dos olhos, de pura saudade, mas tendo certeza que estava celebrando a vida do seu pai.
Já era final da tarde, quando Kawaki retornou. Com a sua chegada, o grupo decidiu ir embora. Despediu-se deles na porta.
— Obrigada pelo dia, pessoal! Fico feliz de ter construído esse laço de amizade mais forte com vocês! Agradeço pelo treinamento! — Curvou o corpo em reverência. — Agora sei fazer clones como meu pai! Isso é tão incrível! — O sorriso alargou. — Sarada, apareça mais vezes! E Inojin, obrigada pelo girassol! — Corou ao falar com o rapaz, que também ficou vermelho como um pimentão.
Ao retornar para a cozinha, encontrou Kawaki sentado à mesa, comendo uma larga fatia do bolo.
— Você que fez essa torta? Está muito boa. — Comia com voracidade, precisava repor as energias do treinamento.
— Sim. — Cortou uma fina fatia de bolo e sentou-se à mesa também, para acompanhá-lo. — Kawaki-kun, você lembra do meu aniversário no qual o pai enviou um clone, ao invés de vir pessoalmente? Você ficou muito brabo, lembra?
Kawaki, obviamente, não se lembrava. Aquela situação havia ocorrido com Boruto, e ele até imaginava o quão nervoso ele deveria ter ficado. Decidiu ficar em silêncio, então Himawari continuou a história.
— E aí o pai não sustentou o clone, que se desfez deixando o bolo cair no chão. Foi um completo desastre!
— Bem típico do Nanadaime, se desdobrar para dar conta de tudo — suspirou Kawaki.
— Eu daria tudo para que ele tivesse aqui agora. Mesmo que fosse apenas um clone… — Abaixou o olhar.
Kawaki ficava sensibilizado por ter afetado tanto a vida de Himawari, e a amava como uma irmã. Amava toda àquela família que o tinha salvado. Costumava ter certeza que a sua decisão deixava sua família adotiva mais segura, embora titubeasse nesses momentos.
— Hima-chan, você sente muita saudade do Sétimo, né? Eu também sinto… Uma pena Boruto ter feito o que fez.
— Boruto é inocente, tenho certeza no meu coração disso, e ainda vou provar! Essa história toda não faz sentido, Kawaki-kun. A Vontade de Fogo do meu avô, o Yondaime Hokage Minato, e do meu pai, o Nanadaime Hokage Naruto, corre nas minhas veias, e estou certa que vou conseguir esclarecer isso tudo. Queria que você acreditasse em mim, onii-chan. Nosso pai está vivo, eu sei disso!
Kawaki estava sem forças para brigar, discutir, ou contrariar. Apenas assentiu, não reclamou nem da forma que foi chamado.
— Se você está tão certa disso, então estou torcendo para que você volte a encontrar seus pais! — “Já Boruto, nunca mais, eu o mato antes!”, pensou.
Himawari ficou feliz por seu irmão ter finalmente concordado que seus pais estavam vivos. Pediu para cantar parabéns novamente. Kawaki reclamou que não fazia sentido, que metade do bolo já havia sido comido, mas foi convencido pela insistência da garota.
— Mas vai ter até vela? — Kawaki protestou enquanto Himawari acendia a que havia sido utilizada mais cedo.
— E por que não teria? E eu que vou apagar!
“Feliz aniversário, Otou-san”, pensou Himawari, antes de dar o último sopro.
