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“Ciri,” Papai diz da porta, “caminha comigo?”
Ciri se apressa para levantar, abandonando seu livro na mesinha ao lado da cadeira. É um livro bem interessante, um que Jas sugeriu, sobre batalhas e tramas políticas e as consequências de decisões aparentemente minúsculas — é honestamente um pouco assustador, mas fascinante ao mesmo tempo. Enfim, tempo com Papai é sempre melhor que ler. Papai sorri para ela quando ela se aproxima, e dá um puxãozinho em sua trança, e eles descem da torre até o topo das muralhas, onde a brisa é fresca e forte e eles conseguem ver Kaedwen quase até Ard Carraigh. Está um dia lindo, frio e claro, e Ciri vai saltitando ao lado do pai, sorrindo para o mundo.
Papai fica em silêncio até chegarem num canto onde não tem ninguém de guarda, e então ele se apoia numa ameia e olha para ela com uma ruga entre as sobrancelhas.
Ciri se inclina contra o flanco dele, enroscando os dedos na bainha de sua túnica. O que quer que ele precise contar para ela, é sério. “Papai?”
Ele passa um braço em volta dos ombros dela. “Tem…algo que eu devia ter te contado,” ele diz, lentamente. “Anos atrás. Não sabia como. Fiquei enrolando. Te devo desculpas por isso.”
Ciri franze o cenho para ele, começando a sentir uma estranha preocupação enjoada no fundo do estômago. “Tudo bem. O que é?”
Papai respira fundo, vira para ela, e põe as mãos em seus ombros, olhando bem nos olhos dela. “Você é minha filha. Sempre. Amada.” Ciri faz que sim com a cabeça; ela sabe disso. “Mas…não de sangue.”
Ciri fica boquiaberta, e por um momento ela não consegue pensar direito, sua mente confusa como uma nevasca. “Não sou?” Mas — mas ela parece com Papai, todo mundo diz o mesmo, ela tem o cabelo dele e vai ser alta como ele quando crescer — como ela pode não ser filha de sangue dele?
Papai balança a cabeça. “Bruxos são estéreis,” ele a lembra, e ela sabia disso, de verdade, mas de alguma maneira ela pensou — todo mundo pensou, até Tio Eskel e Vovô Vesemir — que Papai era diferente. Que algo sobre ter passado pelas Gramíneas duas vezes anulou a esterilidade, ou algo assim.
“Eu sou sangue de quem?” ela pergunta, com a voz miúda.
Papai aperta os seus ombros, mãos pesadas e reconfortantes. “Sua mãe era Pavetta de Cintra. Ela era…muito corajosa. Você tem a coragem dela.”
Ciri sempre se perguntou quem Mamãe poderia ser. Tia Yen é a melhor mãe adotiva que ela poderia querer, e Ciri ama tanto ela, mas é bom saber quem sua mãe de sangue era, e saber que ela era corajosa.
Mas Pavetta de Cintra está morta. Ciri lembra disso das aulas de Jas. Pavetta era a única filha de Calanthe de Cintra pelo primeiro marido, Roegnor de Ebbing; ela casou cedo, e não teve filhos, e depois de alguns anos ela e o marido morreram quando uma tempestade horrível pegou eles desprevenidos enquanto estavam velejando e afundou o navio, sem sobreviventes. Calanthe de Cintra não nomeou outro herdeiro, e Jas diz que há muita incerteza por causa disso, e competição entre os nobres de Cintra pelo favor dela.
“Eu achei que Pavetta tinha morrido sem ter filhos,” Ciri diz, devagar. “E — se ela é minha mãe, quem era meu pai de sangue?”
“Hm,” Papai diz, virando para olhar para o vale outra vez, o braço apertado em volta dos ombros dela, e Ciri se aconchega ao lado dele e espera ele colocar os pensamentos em ordem, sem muita paciência. “Pavetta pariu uma criança, quatro meses depois do casamento. Disse a todos que foi um natimorto. Te deu para mim antes mesmo de você chorar. Eu te levei embora, te trouxe para cá. Te mantive a salvo, como ela pediu. Filha do meu coração.” Ele olha para ela, olhos brilhando à luz do sol. “Minha filha sempre.”
Ciri engole seco. Tem muita história aí, entre as palavras esparsas de Papai. Fazer ele contar a história, no entanto, vai ser um parto. Ela sabe que palavras são sempre difíceis para Papai; ele disse uma vez que elas ficam presas na garganta dele, como comida seca demais. Mas isso é importante, e ela precisa saber de tudo. “Ela pediu pra você me levar?”
Papai faz que sim com a cabeça. “Ela pediu. Queria você a salvo. Te amava mais que tudo. Eu senti o cheiro. Mel como uma colmeia inteira. Te amava tanto quanto eu te amo.”
Ciri deixa isso se assentar em seu coração. Mamãe amava ela mais que tudo, e deu ela para Papai para protegê-la — de quê, Ciri está meio desesperada para saber — e Papai ama ela também, tanto quanto. Mas ela sabia disso. Ela nunca duvidou que Papai amasse ela. Mas o fato de Mamãe ter amado também é algo reconfortante e cálido a que ela pode se agarrar quando tentar fazer essa bagunça fazer sentido mais tarde.
“Por que você?” Ela pergunta. “Você e Mamãe eram amantes?”
Papai balança a cabeça. “Não. Nunca. Ela era bem jovem. Quinze. E apaixonada pelo marido. Eu…gostava dela. Respeitava ela. Ela era corajosa, e forte, e tentando ser ela mesma, apesar de…tudo.”
Ciri engole. Isso não parece bom. “Que tipo de tudo?”
Papai grunhe. Ciri tenta não ter um treco pela impaciência. As estórias de Papai sempre valem a pena a espera, não importa quanto tempo ele demore para encontrar as palavras certas. Ela respira devagar como Tio Eskel ensinou, e cultiva paciência como se estivesse esperando um coelho sair da toca. “Calanthe de Cintra é…teimosa,” ele diz enfim. “Enfrentou todos os idiotas que queriam contralá-la. Escolheu o próprio marido. Manteve o trono quando ele morreu. Ela tentou moldar Pavetta…do jeito que queria. E…” ele suspira. “Seu pai de sangue.”
Que Papai estava evitando mencionar. Ciri com certeza notou isso. “Quem era ele, Papai?”
Ele flexiona a mandíbula, e ele olha para Kaedwen aqui do alto, puxando Ciri mais para perto. “Ele se chamou de Duny. Estava amaldiçoado. Pareceria um porco-espinho, cheio de espetos, da aurora à meia noite todos os dias. Conseguiu conquistar Pavetta. Talvez amasse ela. Eu acho que sim. Tinha cheiro de amor, mas…diferente. Algo de errado. Enfim, ele te fez.”
Ciri faz uma rápida aritmética mental, e não gosta da solução que aparece. “Você disse que Mamãe tinha quinze anos quando ela me deu para você.”
Papai acena que sim com a cabeça.
“Ah,” Ciri diz, pensando nisso por um momento. “Eca.” Isso significa que ela tinha quatorze quando Duny a seduziu. Jas avisou que alguns homens podem tentar conquistar ela, mesmo ela tendo só onze anos, porque ela é uma princesa e o Papai é Senhor de Guerra do Norte e eles acham que se casarem com ela vão se tornar herdeiros de Papai. Uma princesa de Cintra provavelmente teria o mesmo tipo de pretendente, mesmo que Cintra seja muito menor do que todas as terras do Lobo. Faz sentido politicamente, mas ao mesmo tempo — eca.
“Eca,” Papai concorda, com um sorrisinho afetuoso. “Mas. Calanthe estava planejando escolher alguém para Pavetta casar. Aos quinze. Acho que é coisa da realeza. Talvez só uma coisa de Cintra. Calanthe casou nova.”
Ciri arregala os olhos. “Papai, é por isso que você rigoroso sobre eu não ter nenhum pretendente até os dezoito? Por causa da Mamãe?”
Papai suspira e assente. “Sim.” Ele batuca os dedos da mão livre na muralha. “Não deixo os meninos saírem pelo Caminho tão novos. Não vou te colocar nesse caminho tão nova também.”
Ciri chega mais perto, se sentindo muito pequena e jovem e segura. “Obrigada, Papai.”
Ele aperta o ombro dela e se curva para dar um beijo na sua cabeça. “Filhote.” Ele respira fundo quando se endireita. “Então. No dia do banquete de noivado. Duny aparece, diz que Pavetta é dele. Lei da Surpresa. Disse que salvou o pai dela, anos atrás.”
A Lei da Surpresa é para ‘aquilo que você não sabe que tem’, então geralmente serve para bebês. Ciri faz um pouco mais de aritmética mental, e fica ainda mais enjoada. “Espera, se ele salvou — era Roegnor, né? O primeiro marido de Calanthe?” Papai faz que sim, parecendo orgulhoso por ela ter lembrado. “Se Duny já tinha idade para salvar Roegnor quando Roegnor ainda nem sabia que ia ter uma filha, Duny devia ser pelo menos uma década mais velho que Mamãe!” Com idade para salvar um adulto e saber sobre a Lei da Surpresa.
Papai assente, sério. “Quinze anos, mais ou menos.”
“Eca,” Ciri diz fervorosamente. “Eca, eca, eca. É uma coisa pros Bruxos, Papai, Jas diz que se fizermos as contas os anos pra vocês são como estações pros humanos, mas com dois humanos isso é só esquisito.” Ela tenta se imaginar casando com Tytus, o cavalariço, que tem vinte-e-poucos e é muito bom com Roach e sempre tem cenouras extras para Ciri dar aos cavalos, e mesmo que ela goste dele isso só é nojento.
“Sim,” Papai suspira. “Mas Pavetta amava ele.”
“Ah.” Ciri torce o nariz. “Amava mesmo? De verdade?”
Papai dá de ombros. “Talvez fosse só uma quedinha infantil. Pavetta não conseguia ter…amoricos, não com Calanthe sempre de vigia.”
“Ah,” Ciri exala, o coração se quebrando pela mãe, mantida tão isolada e restrita que nunca nem teve amoricos. “E o que aconteceu depois?”
Papai faz uma careta. “Calanthe ordenou que matassem Duny.”
Ciri se sobressalta. É por isso que Papai teve que levar ela embora, porque Calanthe teria mandado matar ela também, como seu pai de sangue?
“Provavelmente devia ter deixado,” Papai continua, e Ciri suspira de alívio. Essa provavelmente não é a razão para Mamãe ter mandado ela embora, então. “É o que é. Eu defendi ele, por tempo suficiente para Pavetta…protestar. Categoricamente.” Ele balança a cabeça, parecendo estranhamente impressionado.
Ciri franze o cenho para ele. “Categoricamente o bastante para fazer a mãe dela mudar de ideia?” Isso parece improvável. Jas diz que Calanthe é uma mulher bem teimosa, a Leoa de Cintra, forte o bastante para manter o trono sozinha mesmo quando tantos homens nobres são estúpidos sobre mulheres que têm poder. Forte o bastante para seu marido ser só Consorte, e não Rei.
“Ela tinha Caos,” Papai diz. “Sem treinamento. Ela…berrou. Quase derrubou o salão inteiro. Calanthe cedeu.”
“Uau,” Ciri suspira. “Você acha que eu vou conseguir fazer isso um dia?”
Papai dá de ombros. “Nem ideia. Talvez sim. Pergunte para Yen.”
Ciri assente. Conseguir gritar alto o suficiente para derrubar paredes parece incrível, na verdade. Mas ela nunca quer ficar tão assustada quanto Mamãe deve ter ficado. Vendo os homens de Calanthe tentando matar seu amado…ah, pobrezinha. Coitada, só alguns anos mais velha que Ciri é agora, apaixonada pela primeira vez e sem poder confiar em ninguém, nem na própria mãe.
Papai respira fundo. “Duny me prometeu a Lei da Surpresa,” ele diz. “E Pavetta disse que estava grávida.”
“Ah, eu sou sua Criança Surpresa!” Ciri diz, completamente encantada, e se vira para apertar os braços em volta dele, borbulhando de alegria. “Tudo bem, então. Vovô Vesemir diz que a Lei da Surpresa é mais forte que sangue.” Então isso significa que ela é do Papai, completamente, não importa quem seu pai de sangue tenha sido. Que o que tem entre ela e Papai é mais forte do que sangue ou status ou aço.
Papai beija o topo da cabeça dela de novo. “Sim. Minha querida Surpresa.” Papai suspira. “Então. Calanthe tentou me jogar pra fora. Pavetta disse que não. Me pediu para ficar até o parto. Ganhou a discussão.”
“Mamãe era incrível,” Ciri suspira.
“Ela era,” Papai concorda baixinho. “Valente e carinhosa.” Ele respira fundo. “Eu fiquei. E aí antes dela parir você, ela…descobriu quem Duny era de verdade. Ela ficou…furiosa. Assustada. Determinada. Escolheu…não deixar ele ficar com você. Te deu pra mim. Te amava tanto. O bastante pra te mandar embora, pra te proteger.”
Ciri se apoia na ameia, reunindo coragem. É disso que Papai estava fugindo enquanto contava a história. Vai ser muito, muito importante. “Papai. Quem era Duny de verdade?”
Papai suspira, fechando os olhos por um momento, mão apertando o ombro dela. “Emhyr var Emreis,” ele diz num tom baixo.
Ciri o encara, chocada. “O Emperador de Nilfgaard?”
“O herdeiro, naquela época. O herdeiro banido. Sem nenhuma esperança real para o trono. Mas acho que, mesmo então, ele estava…planejando. Como conseguir ele de volta. Como expandir para o Norte. Acho que Pavetta era…a esperança dele para Cintra.”
“Eu teria sido a reivindicação dele para o trono de Cintra,” Ciri diz baixinho, as aulas de Jas sobre política subitamente vívidas em sua memória. “Uma herdeira para ambas Nilfgaard e Cintra.”
Papai assente, solene.
“Então Mamãe me deu pra você.” Ciri franze o cenho, subtraindo anos na cabeça. “Ela sabia quem você era? E como é que você chegou em Cintra? Você já não era Senhor de Guerra?”
Papai bufa uma risadinha e balança a cabeça. “Queria…uma pausa. Tempo no Caminho. Tingi meu cabelo de castanho. Me chamei de Eric.” Ele chacoalha a cabeça. “Não foi…sábio. Eskel odiou a ideia, mas…ele entendeu. Yen teria me dado um tapa em cada orelha, se estivesse aqui. Foi arriscado. Não conseguiria hoje em dia.”
Ciri tenta imaginar Papai com cabelo que não seja branco como leite, e não consegue. Mas o esforço dá uma boa distração temporária do fato de seu mundo inteiro ter sido virado de ponta-cabeça e chacoalhado vigorosamente.
Bem. Não seu mundo inteiro. Ela ainda sabe que Papai a ama. Isso é sólido como o alicerce de Kaer Morhen.
“Então,” ela resume, “Eu sou sua Criança Surpresa. Minha mãe era Pavetta de Cintra, que me deu pra você pra me proteger porque ela me amava e não queria que eu fosse usada contra Cintra. E meu pai de sangue é Emhyr var Emreis de Nilfgaard, que é um escroto.”
Papai bufa de riso de novo. “Exato.”
Bom, isso deixa só mais uma pergunta urgente. “Papai, por que você não me disse isso antes?”
Papai suspira e esfrega uma mão no rosto. “Não sabia como,” ele admite, amargurado. “Você é…minha. Minha filha. Meu filhote. Te amo mais que tudo. Não sabia se te contar ia…machucar. Se contar pra qualquer um te colocaria em perigo. Não sabia o que fazer, então eu…esperei.” Ele olha para ela, expressão suave e solene. “Me desculpe. Devia ter te contado anos atrás.”
“É, devia mesmo,” Ciri concorda, “mas eu…eu entendo por que não contou.” Ela não sabe bem como ela teria reagido quando era mais nova. Se ela teria entendido que mesmo que ele não seja pai de sangue, ele é o Papai. “Por que me contar agora?”
“Jaskier me mandou,” Papai admite, arrependido. Ciri cai na risada.
“Jaskier é bem esperto.” Papai assente. “Mas por que ele sabia?”
Papai faz uma careta. “Ele — antes dele concordar. Em ser meu Consorte. Ele tinha perguntas. Queria saber se…se sua mãe ia voltar. Se ele seria…substituído.”
“Ahhh,” Ciri suspira. “E você contou pra ele quem Mamãe era.” Papai faz que sim. “Faz sentido. Mesmo se você nunca fosse substituir ele.”
“Não era nada disso com Pavetta,” Papai resmunga.
“Sim, mas como que Jas saberia disso?” Ciri aponta. Papai grunhe e abraça ela um pouco mais forte, e ela se apoia nele, vendo as árvores balançarem com o vento por um tempo. “Você vai contar pra mais alguém?”
“O Conselho,” Papai diz. “Eles…precisam saber. Mas ninguém mais. Não quero rumores. Não quero mesmo que Emhyr começe a ter ideias.”
Ciri assente. “Mais ninguém precisa saber, mesmo. E —” ela vira para abraçá-lo e enterrar a cabeça no peito dele, e ele se curva sobre ela, quente e sólido e seguro assim como sempre foi. “Você é o meu Papai. Sempre.”
“Sempre, filhote,” Papai sussurra para o cabelo dela. “Sempre minha amada filha.”
Ciri fica ali por um longo momento, e talvez chore um pouquinho, mas a túnica de Papai absorve as lágrimas e ele não diz nada a respeito. Ela se endireita depois de um tempo e dá uma fungada.
“É por isso que você me chama de filhote?” ela pergunta. “Porque Calanthe é chamada de Leoa?”
Papai grunhe e assente.
“Huh.” Ciri considera isso. Um filhote de leão, não de lobo — mas lobos bebês são chamados de filhotes também. Certamente que ninguém chegou a dizer que era estranho Papai chamar ela assim; todo mundo chama ela assim hoje em dia. E ela gosta. Só que agora tem mais uma camada, como Jas está sempre dizendo que os poemas têm. Um significado secreto, só para ela e Papai; algo que a conecta à sua mãe, que era valente como uma leoa também. Mas — se ela é uma leoa como sua mãe e sua avó —
“Isso quer dizer que tenho que ser rainha de Cintra quando crescer?” Ela pergunta, cautelosamente.
Papai balança a cabeça. “Não. Não — não precisa ser nada. Guerreira, estudiosa, feiticeira, barda — você escolhe.”
“Mas eu sou sua herdeira,” Ciri diz, franzindo o cenho.
“Mm.” A testa de Papai se enruga. “Eu…” Ele suspira. “Eu escolhi isso. Não sabia que estava escolhendo, mas — podia ter recusado. Podia ter ficado em cima da montanha. Não fiquei. Não vou colocar tudo nas suas costas só porque eu te criei. Pesado demais pra carregar a não ser que seja por escolha.”
“Ah,” Ciri diz, e pensa nisso por um tempo. Ela pode — ela pode não ser herdeira do Lobo. Pode ser só Ciri a guerreira ou Ciri a feiticeira ou Ciri a escrivã ambulante.
Mas —
Papai melhora as vidas das pessoas. Não só dela, e ela sabe que está melhor aqui com ele do que estaria em Nilfgaard ou em Cintra ou morta no navio com os pais. Mas de todos os Bruxos, e todos os criados em Kaer Morhen, e o povo de Kaedwen e Caingorn e todas as terras do Lobo que não tem que se preocupar em ser caçado por monstros nem homens monstruosos. De Jas e Tio Eskel e Tia Yen e Tia Triss e Milena e Julita e Jan e Tio Lambert e —
Todo mundo.
Ciri quer melhorar as vidas das pessoas também. Quer ser como Papai, quer proteger todo mundo, mesmo se for difícil e pesado e fizer ele querer fugir montanha acima às vezes.
“Eu quero aprender,” ela diz, devagar, sabendo que as palavras são importantes, vão determinar a direção de talvez todo o resto da vida dela. “Talvez eu não seja boa nisso, mas eu quero tentar, Papai. Eu quero — quero ser o tipo de pessoa que melhora as coisas. Como você.”
Papai dá um suspiro estranhamente trêmulo. “Filhote,” ele murmura, e se curva para beijar sua cabelo outra vez. “Valente como a sua mãe. Você não precisa começar já. Espere um pouco. Tenha certeza.”
Ciri sorri para ele. “Vou ser valente que nem a Mamãe e poderosa que nem a Tia Yen e boa que nem você, Papai. E — eu vou ter idade para ser aprendiz daqui a pouco. Eu podia ser — ser sua aprendiz, e do Tio Eskel, não podia?”
“Sim,” Papai diz, sorrindo para ela, olhos cheios de carinho. “Sim, filhote. Acho que pode. E — você vai ser valente como qualquer leoa, feroz como um lobo, brilhante como o sol. Vai sim. Já é.”
