Work Text:
Letho genuinamente não espera encontrar a menina de novo depois de entregá-la de volta ao pai. Ah, se o pai vai ficar em Kaer Morhen, ele presume que vai ver a criança por aí, mas humanos — especialmente crianças pequenas — não tendem a vir correndo para Bruxos, via de regra, e ela não tem motivo nenhum para procurá-lo. A por que deveria? Ele não é nada mais que um lembrete do que devem ter sido as piores semanas da vida curta dela.
Então ele fica honestamente surpreso quando, mais ou menos uma semana depois deles voltarem de toda aquela confusão em Leyda, enquanto ele atravessa o pátio indo para o ferreiro, um catatauzinho vem correndo pelas pedras e se agarra à sua perna, fixando-se a ela com uma força surpreendente em relação ao tamanho.
Julita pisca para ele e sorri, banguela e tão honestamente feliz que é perturbador. Letho congela. Ele não sabe o que fazer com uma criança! Tudo bem, ele carregou ela de Leyda até aqui, mas ela ficou quieta e estava traumatizada e dormiu pela maior parte da viagem.
“Oi,” ele diz enfim. “Cadê o seu…o seu pai?”
“Ali,” ela diz, abanando um braço vaga e brevemente na direção de onde veio e agarrando sua perna outra vez. Letho segue o gesto e vê Jan na porta do forte. O homem está sorrindo, e completamente relaxado, como se ver sua filha agarrada a um Bruxo não fosse nem um pouco preocupante.
“Ãhn,” ele diz, franzindo o cenho para ela. “Tá. O — o que você quer?”
“Queria te ver, Tio Letho,” Julita diz, e Letho se sente meio como se tivesse levado um Aard caprichado do Eskel.
“Quê,” ele coaxa. Jan aparentemente percebe seu desconforto; ele desce as escadas com pressa, e se apoia num joelho para gentilmente puxar Julita da perna de Letho.
“Vamos, querida, já disse oi, agora devíamos deixar seu Tio Letho continuar o que estava fazendo,” ele diz, e isso não ajuda, porque o que ele está fazendo, ensinando a filha a chamar Letho de tio, como se — como se ele fosse o tipo de homem que valha a pena acolher, que valha a pena incluir numa família, e não um assassino sangrento como toda a sua Escola?
Letho não foge, porque Bruxos não fogem de nada, mas ele com certeza vai embora um pouco mais rápido do que quer admitir.
Certamente, ele pensa, seguro nas termas, acomodado numa das piscinas mais quentes e cercados pelos colegas, certamente esse é o fim da histórias. Ela não vai fazer isso de novo.
Ela faz de novo.
Parece que a cada três ou quatro dias, ele está cuidando da própria vida quando um pequeno vulto loiro sai voando por uma porta ou vira uma esquina e gruda na sua perna, e ele fica preso lá tentando conversar com uma pirralha de cinco anos até o pai dela finalmente aparecer e desgrudar ela da perna dele e levar ela embora. E ela continua chamando ele de tio.
depois da quarta vez que acontece, Letho vai atrás de Jan, encurralando ele no escritório que costumava ser de Eskel. (Eskel parece bem menos estressado hoje em dia, com um administrador de verdade assumindo os deveres que acabavam nas costas dele. Não que Letho se importe com o Lobo, mas menos estresse entre o conselho do Senhor de Guerra só pode ser uma coisa boa.) “O que caralhos,” ele demanda, direto.
Jan olha para ele de trás da escrivaninha e nem se esconde da postura ameaçadora de Letho. “Senhor?”
“Senhor nada, eu não sou a porra de um Grifo,” Letho diz, distraído brevemente de seu problema original, e então, voltando a si, “Por que caralhos você deixa sua filha ficar me abraçando?”
“Julita gosta muito de você,” Jan diz, calmo. “Ela me disse que foi você quem matou a última das senhoras da floresta, e você carregou ela para fora do perigo, e depois carregou ela o caminho inteiro até Kaer Morhen; você é grandão e quentinho e forte e gentil, é o que ela falou.”
Gentil? Letho pensa, perplexo. “Eu não sou gentil. Sou a porra de uma Víbora.”
“Você salvou a vida da minha filha, e a trouxe de volta para mim,” Jan diz.
“Isso — foi só — eu estava fazendo o que o Lobo mandou,” Letho gagueja.
“Se realmente quiser, vou falar pra ela parar de te incomodar,” Jan suspira, mas o cheiro dele está triste. Ninguém nunca ficou triste por seus filhos não passarem o tempo com Letho antes. Porra, ninguém nunca deixou Letho chegar perto de uma criança, na verdade. E. Bom. Não é horrível ter uma criança abraçando a perna dele e — e chamando ele de Tio. E seria uma pena deixar a menina triste também — ela sempre fica tão feliz quando o vê, sempre tão puramente alegre. É só…
“Não sei como ser um tio,” Letho diz enfim, depois de um silêncio longo demais.
Jan sorri um sorriso irônico. “Bem, eu não tinha ideia de como ser um pai quando Roza e eu fomos abençoados com Julita. É uma habilidade que podemos aprender, eu garanto. Só…seja gentil com ela. E não dê nenhuma faca para ela até ela ter pelo menos dez anos.”
Letho solta uma risada, sacudido de seu turbilhão de pensamentos confusos. “Sem facas,” ele concorda. “Não até os dez.”
“Obrigado,” Jan diz, sorrindo, e fica com o cheiro tão feliz de um maldito Bruxo concordar ser tio da sua filha, e Letho tem que ir embora e encontrar um par de Ursos para brigar com ele, até ele se sentir como se o mundo faz um pouco mais de sentido.
Na próxima vez que Julita vem correndo virando uma esquina e gruda na perna dele, ele se abaixa e diz, “Oi, garota.”
“Oi, Tio Letho!” Julita diz, pulando de alegria. Ela está de pé na bota dele, mas não pesa quase nada, então tudo bem.
“Eu estou indo pros estábulos,” Letho diz, devagar. “Quer vir?”
“Quero!” Julita grita.
Com muito cuidado, Letho coloca as mãos em volta da cintura minúscula dela e a levanta, apoiando ela no quadril do jeito que viu algumas mulheres carregando seus filhos em vários vilarejos. Julita se mexe até ficar confortável — supõe-se que a armadura não é o assento mais agradável do mundo, mas ela não reclama — e se apoia com confiança no braço dele em volta dela, e se diverte cutucando todos os rebites do seu peitoral um de cada vez, contando-os para si mesma. Letho ergue o olhar para ver Jan observando com um sorriso surpreendentemente indulgente.
“Estábulos,” Letho diz, e Jan assente.
“Traga ela de volta quando terminarem,” ele diz, e desaparece pelo corredor, e Letho encara por um momento antes de sair do lugar, onde Auckes e Serrit estão tentando re-calçar os cavalos das Víboras. Porra, se Jan conseguir contratar um ferrador, todas as Víboras na fortaleza estarão eternamente gratas. Alguma coisa nos mutagênicos das Víboras tende a fazer os cavalos não gostarem muito deles, e enquanto eles conseguem segurar os cavalos com pura força bruta, ninguém se diverte com a experiência.
“Você tem quatro vintes,” Julita lhe informa quando ele abre a porta dos estábulos.
“Quatro…vintes?” Letho pergunta, confuso.
E cutuca um rebite da armadura com um de seus dedinhos. “Um,” ela diz, e segue para o próximo da fileira. “Dois, três, quatro…”
“Oitenta,” Letho diz, apressado, presumindo que ela vai contar todos os quatro vintes outra vez se ele não impedir. “Eu tenho oitenta rebites na minha armadura, garota.”
“Oitenta!” Julita diz, triunfante. “Oitenta é quatro vintes?”
“É,” Letho diz. Ele não faz ideia se crianças dessa idade normalmente conseguem contar até oitenta. Porra, elas conseguem contar até vinte? Ele nunca passa tempo nenhum com os treineiros — ninguém quer ele rosnando para as crianças, eles precisam ser treinados para não ter medo de nada, afinal.
“Por quê?” Julita pergunta.
“Por que…oitenta são quatro vintes?” Letho genuinamente não sabe como responder essa pergunta.
“Por que isso,” Julita bufa, como se devesse ter sido óbvio, cutucando o metal outra vez.
“Ah. Isso é pra quando um monstro bater em mim, ele quicar de volta.”
“Ah!” Julita diz. Auckes e Serrit largaram o cavalo e estão encarando Letho com pura incredulidade.
“Letho,” Serrit diz depois de um minuto, “o que caralhos.”
“Essa palavra é ruim,” Julita o informa, solene.
Serrit encara como um peixe estupefato, o que é realmente hilário. Auckes ergue a sobrancelha para Letho. “Letho, onde você achou uma criança?”
“É do Jan. Julita.”
“Tudo bem,” Auckes diz, com o ar de alguém que está tentando encontrar uma migalha de sanidade num mar de loucura. “Por que você está com a filha do Jan?”
“Ãhn,” diz Letho. Ele não tinha pensado em como explicar essa loucura.
“Ele é meu tio,” Julita diz, com o puro tom de desdém. “Quem é você?”
Serrit silenciosamente articula tio como se nunca tivesse ouvido a palavra antes. As sobrancelhas de Auckes quase chegam no topo de sua careca, mas ele se aproxima e oferece uma mão. “Eu sou Auckes; aquele é Serrit. Nós somos…irmãos do seu Tio Letho.”
“Ah!” Julita diz, e se estica para apertar a mão de Auckes. Letho a segura firme. Pelos deuses, mas ela é inquieta. “Muito prazer em conhecê-lo,” ela continua, com tanto cuidado que Letho sabe que é algo que o pai dela ensinou a dizer.
“Idem, cobrinha,” Auckes diz. “Então, Letho, veio só pra vaiar e mostrar sua sobrinha, ou você vai ajudar?”
Letho coloca Julita com cuidado em cima de um fardo de feno. “Fica aí, tá bom, garota?”
“Tá bom, Tio Letho!” Ela diz, e bota os braços em volta dos joelhos, e assiste atentamente com os olhinhos azuis-cinzentos enquanto eles terminam de re-calçar os malditos cavalos. Ela provavelmente aprende um monte de novas palavras ruins também, mas Jan devia ter pensado nisso antes de deixar uma Víbora levar ela embora.
Com o serviço concluído, Letho limpa as mãos e levanta Julita outra vez e começa a voltar para a fortaleza. “Tio Letho,” Julita chilreia assim que fica claro que ele não está ocupado demais para conversar, “por que você tinha que ajudar? O Seu Antoni não precisava de ajuda.”
“Seu Antoni era o ferreiro?” Letho adivinha. Ela assente. Letho dá de ombros, e Julita dá uma risadinha quando isso faz ela balançar. “Cavalos não gostam de Víboras. Eu sou uma Víbora.” Ele indica o próprio medalhão, e Julita estica a mão para examiná-lo.
“Que bobagem,” ela diz. “Eu gosto de você. Os cavalos deviam também.”
“Ãhn,” Letho diz, perplexo outra vez. Eu gosto de você. Como se fosse tão simples. “Bom, não gostam.”
Julita pondera isso o caminho inteiro até o escritório de Jan, e Letho a coloca no chão e escapa enquanto ela tagarela sobre os acontecimentos da tarde.
Ele não tem ideia de como se sente sobre toda a experiência, exceto que não foi…não foi ruim, na verdade. Só esquisito para caralho.
Julita o encontra de novo alguns dias depois, e ele a leva para uma caminhada em cima das muralhas, apontando os pastos cheios de cavalos e um wyvern voando alto perto do topo de uma montanha distante e os Bruxos subindo a Trilha depois de uma temporada viajando, tão longe que são só pontinhos pretos contra o verde e cinza da estrada. Julita se inclina longe demais sobre as ameias, confiando nas mãos de Letho para mantê-la a salvo, e faz uma dúzia de perguntas, e ri quando Letho começa a xingar e se interrompe.
Ainda não é ruim. Ainda é tão esquisito.
Mas se torna um tipo de hábito. A cada três ou quatro dias, Julita aparece, e Letho a leva com ele para o que quer que ele fosse fazer durante a tarde. Ela não pode ficar no pátio de treino — porra, ela seria esmagada — ou nos laboratórios alquímicos, e ele se lembra do pedido de Jan e não deixa ela segurar nenhuma das facas quando leva ela para o arsenal para se certificar de que o equipamento das Víboras está todo em ordem, mas fora isso ele não liga de ter ela por perto. É até meio que…bem, é até legal, passar o tempo com uma criança que não fede a medo.
Ela gosta de aprender a cuidar dos cavalos e das armaduras, observando ele engraxar e afiar facas e espadas, caminhando com ele nas ameias, apostando corridas com ele no pátio ou nos pastos — Letho deixa ela alcançá-lo, ou alcança ela e gira ela como se fosse leve como uma pena, porque para ele, ela é, e ela berra de alegria e abre os braços bem largo e demanda que ele faça de novo.
Julita cheira a felicidade quando passa o tempo com ele, e é viciante para caralho.
Ela até ceia com ele às vezes, empoleirada no assento entre ele e Serrit, na frente de Auckes e Zofia. Zofia é boa com crianças, meio que para a surpresa de todos (exceto Auckes), e na primeira vez que Julita senta com eles, é Zofia que gesticula para ele cortar a comida dela em pedaços pequenos, e serví-la das bandejas grandes, enquanto Julita está distraída perguntando a Serrit sobre a cicatriz no nariz dele. Letho é grato pela ajuda, honestamente. O que ele sabe sobre alimentar uma criança? Bulhufas.
Então ele se acostuma a ter Julita por perto, a manter uma pequena parcela de atenção dedicada a ouvir os passinhos dela e ficar alerta para a onda de felicidade e pão fresco que compõe seu cheiro.
Ele percebe, de uma jeito vago, que ela está ficando maior — crianças crescem, ele sabe — e bem mais eloquente, mas ainda é um pouco surpreendente quando um dia ela abraça sua cintura em vez de seus joelhos. Ele para o que estava fazendo, na verdade, encarando ela e tentando contar os anos. Já faz — três? Não, três anos foi quando o Lobo sumiu no mundo e voltou com um filhote — quatro? Cinco anos desde que ele trouxe ela nas costas Trilha acima, um pacotinho que não pesava quase nada. Ela ainda não pesa tanto, não para a força de um Bruxo, mas definitivamente está maior.
“Merda,” ele diz, “você já tem dez anos?”
Julita ri. “Semana que vem é meu aniversário,” ela diz. “E aí vou poder ser aprendiz formal da Dona Emilia!”
“Huh,” Letho diz. Ele comprou cacarecos para os aniversários dela, nesses últimos porra-já-são-mesmo-cinco anos. Mas este ano — “Quer uma faca?”
Julita arregala os olhos. “De aniversário?”
“É,” Letho diz.
“Sério?” Julita suspira.
“Seu pai disse sem facas até os dez,” Letho dá de ombros.
“Eu te adoro, Tio Letho,” Julita diz, bem séria. “Vai me ensinar a usar também?”
Letho pensa nisso por um minuto, conduzindo ela para o arsenal com uma mão em suas costas. “Eu poderia,” ele concede. “Mas não como Bruxos lutam.”
“Claro que não,” Julita diz. “Eu nunca vou ser um Bruxo.”
Graças a todos os deuses por isso, Letho pensa e não diz. A ideia de Julita gritando nos Testes — Julita morrendo nos Testes, como seria mais provável — ugh, não, Letho não consegue nem pensar nisso. “Devia pedir pra Zofia,” ele diz, em vez disso. “Ela é boa.”
“Eu vou,” Julita diz. “Mas eu quero aprender de você também.”
“Tudo bem,” Letho diz, e a sensação cálida em seu peito que sempre aparece junto com Julita cresce ainda mais.
Ele encomenda uma faca do ferreiro para ela naquela tarde, especificando algo pequeno e leve o bastante para as mãos de uma criança, e uma semana depois Jan encontra seus olhos e suspira, fingindo irritação enquanto Julita grita de alegria com a lâmina delicada. “Eu que disse dez anos,” Jan diz amargurado.
“Disse mesmo,” Letho concorda, e então, “Tios têm que mimar suas sobrinhas, certo?”
Jan ri e bate no ombro de Letho, e Letho ainda fica genuinamente surpreso toda vez que um dos humanos de Kaer Morhen trata ele como se fosse — não inofensivo, nunca, mas não perigoso também. Qualquer um além de Julita, pelo menos; ele está quase acostumado a ela tratando ele como uma parede de escalada. “Têm mesmo,” Jan diz. “Você vai ensiná-la como usar isso com segurança?”
“Segurança para ela,” Letho diz, meneando a cabeça. “Não para quem quer que ela esfaqueie.”
Jan ri e coloca a mão na testa. “Eu sinceramente espero que ela nunca precise esfaquear ninguém,” ele diz.
“É, bem, ela ainda devia saber como.”
Jan assente, e não se opõe às aulas, e Letho recruta Zofia e passa duas tardes por semana ensinando Julita como segurar a faca e onde esfaquear qualquer que ousar agarrá-la de qualquer jeito que ela não queira. Zofia é bem franca sobre o jeito que o mundo lá fora trata as mulheres: nenhum Bruxo trataria mal uma mulher, especialmente em Kaer Morhen, sob a supervisão do Lobo — e mesmo um estúpido o suficiente para irritar o Lobo pensaria duas vezes antes de encostar um dedo na sobrinha de Letho. O Lobo só mataria ele, afinal. Letho não é tão gentil. E os criados que Jan contratou são tanto razoáveis quanto — até onde Letho consegue discernir — pessoas razoavelmente decentes. Mas pelo mundo afora, isso não é verdade, e se Julita um dia quiser deixar a fortaleza, ela deveria saber lidar com isso.
Depois de algumas semanas, Julita começa a aparecer para as aulas com a faca trazendo pães. No começo, são meio tortos e não são assados direito, com pedaços crus na massa ou queimaduras na crosta, mas Julita parece bem orgulhosa mesmo assim. “Eu fiz sozinha,” ela diz para ele quando entrega o primeiro. “O que você acha?”
“Nada mal,” Letho diz, porque ele não sabe fazer pão, afinal, então já é melhor do que ele conseguiria fazer. Mas ele tem que admitir que até ele percebe quando ela começa a melhorar, porque os pães ficam mais uniformes, mais consistentes, e as crostas ficam mais douradas em vez de queimadas, e o gosto melhora também.
Quando Julita cresce, ela começa a pedir críticas de verdade em vez de só “Nada mal” ou “Melhorando.” Letho improvisa por duas ou três fornadas de tentativas confusas, tentando arrumar algo para dizer que não seja “Pra mim tá ótimo,” e se conforma com a própria ignorância, e suborna Zofia e Auckes para distrair Julita por uma tarde com a promessa de que ele vai vigiar a porta na próxima vez que eles quiserem usar as termas às duas da madrugada sem ser interrompidos, e desce para as cozinhas e pergunta à Dona Emilia, com toda a educação que consegue — que não é muita — para ensiná-lo que tipo de crítica se dá a um pão.
Dona Emilia é uma senhora de meia-idade com braços que impressionam até os Bruxos e uma atitude extremamente prática, e ela examina ele de cima a baixo e bufa. “Então você é o tio da Julita,” ela diz, e imediatamente dá uma lição rápida e assustadoramente detalhada sobre crosta e consistência e cor e acabamento e mais meia dúzia de coisas que ele nem sonhava, mais uma palestra sobre tipos diferentes de farinha. Letho nem sabia que existiam tantos tipos de farinha.
Ele escapa, com as roupas cobertas de farinha e a cabeça girando com novos aprendizados, bem na hora da ceia, e no dia seguinte ele consegue dizer para Julita que o pão do dia tem uma boa consistência, mas a crosta precisa ser mais brilhante, e ela acende e o abraça forte pelas costelas — porra, quando foi que ela cresceu o suficiente para alcançar sua costelas? — e diz que ele é o melhor tio do mundo.
Zofia faz a gentileza de não rir muito dele quando ele passa algumas horas depois disso vagando distraído por aí. Melhor tio? Ele? Ele ainda é a porra de uma Víbora, com as mãos ensopadas em mares de sangue, um monstro tanto quanto qualquer outro Bruxo.
Fica mais difícil lembrar disso, aqui em Kaer Morhen, com criados humanos que não se esquivam dele, com Jan que bate no seu ombro e sorri para ele, com Julita que chama ele de tio e confia nele completamente.
Letho vai até Eskel e pede para ser colocado no topo da lista para contratos para monstros, e passa os próximos dois meses por aí matando coisas que merecem ser mortas. Isso ajuda a lembrá-lo para quê ele serve, de verdade. Ele é um assassino, puro e simples. Nada mais.
E Então ele volta e Julita está esperando quando ele entra pelos portões, pulando de um pé para o outro, e vem correndo assim que o vê, abraçando ele com toda a sua força — bastante força, para sua surpresa, ser aprendiz de padeiro te faz usar muito os braços — e diz, abafada contra sua armadura, “Tio Letho, que saudade.”
Ah.
Tem uma pontada em algum lugar no peito de Letho que ele não consegue explicar com algum ferimento antigo. “Estou bem,” ele diz, e bate de leve nas costas dela. Ele já teve alguém que sentiria falta dele antes? Que se importaria se ele voltasse para casa ou não? Talvez seus irmãos, mas até aí, Víboras não são particularmente próximas; tirando Auckes e Serrit, algum deles faria mais que erguer o caneco em sua memória antes de esquecê-lo?
Mas ele tem uma sobrinha agora, e ela sentiria falta dele.
Melhor ele se esforçar um pouco mais para voltar para casa, então. Monstro ou não, ele não pode decepcionar Julita assim.
“Estou bem,” ele diz outra vez, um pouco mais forte. “Vamos, não tem um pão fresco pro seu tio favorito?”
Julita ri e se aconchega debaixo do braço dele enquanto entram no forte. “Eu fiz os pãezinhos da ceia pro forte inteiro,” ela o informa. “Posso comer na mesa das Víboras, pra você me dizer como eu fui?”
“Claro, cobrinha,” Letho diz, bagunçando o cabelo dela e sorrindo quando ela protesta.
“Mas precisa de um banho antes,” ela declara, torcendo o nariz para a armadura encardida dele. “Você está com cheiro de sangue e poeira, Tio Letho.”
“Nem imagino por quê,” Letho ri, e Julita ri também.
Os pãezinhos são muito bons, e ele diz isso para ela.
Algo sobre esse incidente acomoda alguma coisa dentro dele, algo que ele não consegue nomear ou descrever. Ele para de se esquivar tanto quando Jan bate no seu ombro ou Zofia se apoia nele ou Emilia lhe entrega uma tijela e manda ele ser útil se vai insistir em ficar na padaria dela fazendo perguntas a tarde toda. Ele não se sobressalta toda vez que Jan ou Julita o chamam de tio da Julita. E quando ele acaba sendo escolhido para fazer parte da guarda do filhote do Lobo, ele não passa muito tempo se perguntando por quê, não quando todos no forte sabem que ele está tão acostumado a lidar com meninas pequeninas quanto qualquer outro Bruxo na fortaleza, e até mais do que a maioria.
A pequena Ciri é bem boazinha, honestamente. Muito mais travessa do que Julita jamais tenha sido, mas boazinha mesmo assim. Enquanto Julita cresce, e de aprendiz se torna assistente, ela tem menos tempo para o tio, então Letho sente que está negligenciando ela quando passa tempo com sua nove protegida. Mas ele ainda se certifica de ter algumas tardes livres toda semana para passar com Julita, seja treinando ela com a faca ou amassando qualquer que seja a massa que precisam que ele amasse.
É…pacífico, o que é estranho para caralho. Mas é bom do mesmo jeito.
Emilia faz a gentileza de avisar Letho mais ou menos um mês antes avisar Julita que ela já tem habilidade para ser mestra de sua profissão, o que significa que Letho tem tempo de encomendar um rolo de massa muito bem-feito do carpinteiro, e uma espátula igualmente bem-feita do ferreiro, e conspirar um pouco com Jan, que encomendou um avental, para que as novas ferramentas caibam direitinho nos bolsos na frente do avental. Eles fazem uma festinha depois da ceia na noite em que Julita é formalmente promovida, e Julita chora e abraça Letho e seu pai e Emilia e qualquer um que fique parado por muito tempo, e é…é uma noite muito boa, é o que é.
Com certeza não é nada como receber uma nova Víbora, porque apesar de todo o esforço que Julita dedicou a se tornar padeira, o processo não envolveu o mesmo tipo agonizante de dor que se tornar Bruxo envolve. Letho é grato por isso. Ele não acha que suportaria, se Julita sofresse assim. Ele não sabe como os treinadores conseguem mandar os meninos para os Testes, se são remotamente tão apegados a eles quanto Letho se apegou à sua sobrinha adotiva. Talvez não sejam; talvez todos tenham os corações de pedra que Bruxos deveriam ter, que Letho sempre achou que tinha até Julita entrar na vida dele como um pequeno redemoinho loiro.
Ele gosta tanto dela, e tem muito orgulho dela também, mesmo se não foi ele que fez ela se tornar uma jovem tão corajosa e esperta e segura de si quanto qualquer tio poderia querer.
Ele fica acordado até tarde naquela noite, bebendo com Jan e Emilia, enquanto Julita sai com amigos entre os outros criados mais jovens para se divertir fora da vista de seus pais — eles não conseguem se meter numa encrenca muito grande em Kaer Morhen, afinal — e de algum jeito a bebedeira se torna reminiscência sobre como Julita era quando criança, pequenina e destemida e energética, sempre cheia de perguntas. “Sempre enfiando os dedos na minha massa,” Emilia ri. “Monstrinho grudento, aquela criança.”
“Todas as crianças tendem a ser grudentas,” Jan aponta, e Letho bufa. Ele certamente encontrou muitas marcas de dedinhos curiosos em sua armadura, naqueles primeiros anos. Jan completa seus copos de hidromel e completa, “Obrigado. A vocês dois.”
Emilia sorri e ergue seu copo. “Foi um prazer ter uma aprendiz tão entusiasmada,” ela diz. “E espero que não leve a mal, meu amigo, mas penso nela como sendo tão próxima quanto um parente de sangue; um sobrinha, talvez, se não um filha.”
Jan sorri, e segura a mão dela. “Minha Roza ficaria feliz de sua filha ter uma segunda mãe tão maravilhosa,” ele diz, e os dois humanos ficam com os olhos marejados.
Letho termina seu hidromel. Ele não sabe por que Jan está agradecendo ele. Ele não fez muita coisa — nada perto de Emilia. Mas então os dois humanos viram para ele, e Jan diz, “Minha família toda morreu, mas meus próprios irmãos não poderiam ter sido tão bons com Julita quanto você.”
“Não fiz muita coisa,” Letho protesta, se sentindo estranhamente como se quisesse fugir. Ele não sabe o que fazer com a afeição cálida no cheiro de Jan, com o jeito que Emilia sorri para ele.
“Ah, não, nada demais,” Jan ri. “Só ensinou Julita a usar uma faca, e cuidar de um cavalo, e escalar como um esquilo, e temer absolutamente nada. Só ensinou e protegeu e amou ela.”
Letho engasga. Essa é uma palavra que ele nunca usou — nunca sequer ousou pensar — o que quer que seja esse sentimento no seu peito, não pode ser amor. Bruxos não amam.
Bem.
Exceto por quão obviamente Bruxos amam sim, se o jeito que o Lobo mima seu filhote e seu Consorte for qualquer tipo de evidência — o Lobo, e Eskel, e Lambert, e Auckes, e uma dúzia de outros que encontraram amantes ou que tratam o filhote ou os outros filhos dos criados com todo o carinho de parentes de sangue. Víboras não amam, exceto — Auckes certamente ama Zofia, é óbvio no seu cheiro, a talvez não seja a mesma coisa, mas a afeição que conecta Auckes e Serrit e o próprio Letho é bem mais forte do que a mera tolerância que os conecta à maioria de seus outros irmãos —
Caralho. Huh.
Letho enche seu copo outra vez, meio querendo que fosse Gaivota Branca em vez de hidromel, e o traga inteiro, e franze o cenho para suas mãos em cima da mesa por minuto. Mãos grandes, cheias de cicatrizes, feias, que mataram mais homens e monstros do que ele se daria ao trabalho de contar, que foram encharcadas de novo e de novo em sangue — que abrigaram uma criança assustada, e amassaram pão, e jogaram uma garota risonha para o alto para pegá-la outra vez tão gentilmente quanto uma brisa. “Bem,” ele diz enfim, “tinha que cuidar da minha sobrinha, não é?”
Jan dá uma risadinha, e chega a se esticar para cobrir a mão de Letho, destemido e afetuoso. “Tinha mesmo,” ele diz, “e minha filha não poderia ter encontrado um tio melhor se procurássemos pelo mundo inteiro.”
“Huh,” Letho diz, e aquele sentimento cálido no seu peito voltou, mais forte do que nunca, e ele se pega sorrindo um sorriso torto para Jan. “Bom, as Víboras são a melhor Escola, afinal.”
Jan e Emilia ambos caem na risada, e Emilia bate no braço de Letho — surpreendentemente forte para um humano, na verdade — e Jan levanta para buscar o whiskey bom, e eles brindam a Julita, sua garota brilhante — a garota que ensinou uma Víbora a amar.
